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Capítulo 4

Author: Morcego
Eu desabei antes mesmo da Caçada de Inverno começar.

Naquela manhã, bem cedo, o vínculo temporário entre Kyle e Freya se acendeu de repente, e as vozes dos dois invadiram minha cabeça sem permissão.

— Kyle, estou com tanto frio.

— Vem mais perto.

— Seu lobo vai me odiar?

— Não.

No segundo seguinte, o cheiro de companheiros explodiu através do vínculo, e a reação me atingiu com a força de um trem de carga.

Caí da cama, com a sensação de que mãos invisíveis torciam e despedaçavam cada osso do meu corpo. O sangue subiu pela minha garganta, e eu o expeli numa tosse sobre o tapete branco. Aquele vermelho era ofuscante.

Eve entrou em pânico e correu para buscar o curandeiro, mas, quando voltou com ele, os guardas a barraram na porta.

Freya estava no fim do corredor, envolta no roupão de Kyle. A marca no pescoço dela brilhava num vermelho intenso.

— O que está acontecendo?

Eve chorava, desesperada.

— A Luna está tossindo sangue! Deixem o curandeiro passar!

Freya entrou no meu quarto e olhou para o sangue no chão, sem demonstrar nenhuma surpresa.

— Que coincidência.

Eu estava caída ao lado da cama, fraca demais até para erguer a cabeça. Ela se agachou e falou tão baixo que só eu pude ouvir:

— Ontem à noite, você usou aquelas cartas velhas para fazer Kyle prometer que ia me expulsar da casa principal. E agora está cuspindo sangue? Sylvie, bela encenação.

— Saia daqui...

— Vou sair.

Ela se levantou, sorrindo.

— Mas a verdadeira questão é em quem Kyle vai acreditar.

Assim que saiu, ela desabou nos braços de alguém. Kyle a amparou, e sua expressão mudou.

— O que aconteceu?

Freya agarrou a camisa dele e balançou a cabeça freneticamente.

— Não pergunte. Sylvie está chateada. Eu não devia tê-la incomodado.

Kyle ergueu os olhos para mim. Eu estava deitada numa poça de sangue, e as marcas negras do meu pulso agora avançavam até o ombro. Um lampejo de dúvida passou pelo olhar dele.

— Sylvie?

Estendi a mão com o pouco de força que me restava.

— Traga o curandeiro...

Freya começou a soluçar.

— Ela estava bem agora mesmo. Só desabou quando viu você. Kyle, talvez eu a tenha deixado com raiva.

Kyle ficou imóvel. Aos poucos, franziu a testa e falou com cansaço na voz:

— Sylvie, não venha com isso para cima de mim.

Minha mão ficou imóvel no ar.

— Eu não estou...

— Já te prometi ontem à noite. Depois da Caçada de Inverno, tudo volta a ser como antes.

Ele puxou Freya para mais perto, e seu tom ficou ainda mais frio.

— Freya não aguenta mais nenhum estresse. Até quando você vai continuar com isso?

Eu queria dizer a ele que não estava fingindo, que estava morrendo, mas o sangue entupia minha garganta, e só consegui soltar arfadas entrecortadas.

Freya escondeu o rosto no peito dele.

— A culpa é toda minha. Não a culpe.

Kyle fechou os olhos e, quando voltou a abri-los, o dourado do Alfa cintilou em suas pupilas.

— Sylvie, levante-se.

A ordem do Alfa se abateu sobre mim, e cada osso do meu corpo travou ao mesmo tempo. Meu corpo me traiu e me obrigou a levantar da poça de sangue. Os joelhos tremiam, e minhas pernas não me sustentavam.

Caí, e a ordem me forçou a levantar outra vez. Aquilo se repetiu, de novo e de novo.

Eve se lançou para a frente, chorando, mas os guardas a imobilizaram.

— Alfa! Ela está mesmo ferida!

Kyle estava com a testa franzida. Olhou para mim, coberta de sangue, e um lampejo de hesitação surgiu em seus olhos.

Então, Freya soltou um grito de dor, e a atenção dele se voltou para ela imediatamente.

Naquele instante, enfrentei a dor e me ergui centímetro por centímetro, por vontade própria. Olhei para Kyle, com o chão manchado de sangue entre nós. Já não havia súplica no meu olhar.

Kyle me encarou de volta, como sempre, esperando que eu cedesse primeiro. Mas eu apenas permaneci em pé, em silêncio, com o sangue pingando das pontas dos meus dedos.

A hesitação sumiu do olhar dele, substituída pela raiva de ser desafiado.

— Levem-na para a sala de isolamento. Ela não sai de lá sem a minha permissão.

Os guardas me agarraram, e eu não resisti.

A sala de isolamento ficava na torre norte, na parte mais fria da fortaleza de pedra. As janelas não eram vedadas, e o vento assobiava pelas frestas e me roía os ossos.

Não havia curandeiro nem remédios para aliviar a minha dor. Eve se arriscou a aparecer com uma tigela de água morna e, chorando, limpou o sangue do meu corpo.

— Luna, aguente firme. Vou implorar ao Alfa.

— Não.

— Mas a senhora vai morrer!

— Não vou, não.

"Pelo menos, não aqui."

Depois que escureceu, a trompa da Caçada de Inverno soou lá embaixo, e os guardas começaram a sair, exatamente como eu esperava.

Então, a voz de Freya voltou a ecoar pelo vínculo temporário.

— Kyle, você me assustou hoje.

— Desculpa.

— Sylvie vai te odiar?

Houve uma longa pausa antes da resposta de Kyle.

— Não vai.

— Tem tanta certeza assim?

— Ela me ama desde que era criança. Assim que se acalmar, vou acertar tudo.

Freya riu.

— Então fique comigo hoje à noite, está bem?

O vínculo pulsou, e a dor voltou a apertar meu coração. Me encolhi no chão frio, mordendo o dorso da mão para não gritar.

Então ele achava que eu esperaria por ele para sempre. Que ridículo.

Fiquei imóvel até o vínculo se aquietar. Depois, pedi a Eve que me ajudasse a quebrar a trava da janela.

— Luna, é alto demais...

— Me dê os lençóis.

Amarramos os lençóis uns aos outros. Saí pela janela, e minhas feridas se abriram de novo. As palmas das minhas mãos ficaram em carne viva e sangravam, mas eu não parei.

Desci pela torre norte, me esgueirei pelos estábulos vazios e me arrastei para fora da fortaleza pela vala de drenagem congelada.

Um uivo rasgou a noite atrás de mim. Os guardas descobriram que eu não estava mais lá.

Joguei a capa encharcada de sangue no rio e corri sozinha pela neve. O vento do norte cortava meu rosto, e, a cada passo, mais sangue caía.

Minha loba estava fraca demais para se transformar, e eu precisava seguir para o norte a pé.

Uma vez, meu irmão me disse que, enquanto eu conseguisse enxergar a Estrela Polar, encontraria o caminho de volta para casa. Mas a neve não parava de cair, e tudo o que eu via era branco.

Os uivos atrás de mim se aproximavam cada vez mais.

Cruzei uma elevação do terreno aos tropeços e finalmente avistei uma carruagem negra ao longe. Uma lua crescente prateada estava entalhada no eixo, era o brasão da alcateia Geada.

Com o restante das minhas forças, me joguei no meio da estrada. A carruagem parou no mesmo instante, e a porta foi escancarada.

Um homem alto desceu da carruagem, pisando na neve. A expressão de seus olhos cinza-prateados mudou por completo assim que me viu.

Estendi a mão ensanguentada e agarrei a ponta do casaco dele.

— Irmão... Me leve para casa...
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