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Capítulo 3

Author: Morcego
Kyle não voltou durante o dia inteiro. Ao entardecer, quem apareceu à minha porta foi Freya, que entrou direto, sem bater.

Ela se acomodou à minha frente, com uma das mãos sobre a barriga levemente arredondada e um sorriso doce no rosto.

— Ouvi dizer que você mandou Kyle me fazer companhia.

Não levantei os olhos e continuei organizando as cartas antigas sobre a minha escrivaninha. O sorriso de Freya perdeu força diante da minha indiferença. Ela ergueu a mão e afastou os cabelos, exibindo a marca de mordida, de um tom vermelho escuro, na nuca.

— Está vendo isso?

— Estou vendo.

— Foi Kyle quem me deu.

— Eu sei.

— Isso não te incomoda?

Ela se inclinou para a frente, já um pouco desesperada, e o cheiro de sua marca temporária me envolveu. As marcas de sangue no meu pulso começaram a arder, e uma dor repentina atravessou meu peito, fazendo as cartas escaparem das minhas mãos e se espalharem.

O sorriso de Freya voltou aos poucos.

— Então dói mesmo.

Ela intensificou de propósito aquele cheiro do vínculo temporário. Minha loba choramingou dentro de mim. Era como se garras abrissem minhas costelas à força, e cada respiração vinha com gosto de sangue.

Agarrei a borda da mesa, e uma das minhas unhas se partiu e se soltou por completo.

— Pare de liberar esse cheiro.

— Por quê? — Freya inclinou a cabeça, com um ar de completa inocência.

— Kyle disse que sua loba é forte. Não aguenta nem um pouquinho de estímulo?

Arfei e, de repente, tudo fez sentido. Ela não estava doente. Uma pessoa tão debilitada jamais conseguiria controlar os próprios feromônios com tanta precisão.

Levantei o olhar para ela.

— Você mentiu para o Kyle.

A expressão dela vacilou por um instante, antes que Freya voltasse a sorrir.

— E daí se menti?

— E o filhote?

— É do Kyle, claro.

— Não, não é.

Pressionei as marcas que ardiam no meu pulso.

— Você realmente acha que eu não sabia de nada enquanto estava sob aquele feitiço? A magia da bruxa me impediu de abrir os olhos e paralisou meu corpo, mas acabou aguçando minha audição. Ouvi o curandeiro vir avaliar sua gravidez e ouvi você vomitando no meio da noite. Tudo isso muito antes de você e Kyle sequer se acasalarem.

Vi um lampejo de pânico nos olhos de Freya e soube que acertei em cheio.

— De quem é o filhote que você está carregando?

— Cale a boca!

Freya se lançou na direção da sineta de cobre sobre minha escrivaninha. Bastava tocá-la uma vez para os guardas virem correndo.

Desviei e agarrei seu pulso, mas ela se jogou no chão, batendo a testa com força na quina da mesa. O sangue escorreu em abundância pelo rosto dela.

A porta se abriu bruscamente, revelando Kyle parado na entrada. Freya se curvou sobre a própria barriga, tremendo e soluçando.

— Não culpe Sylvie. A culpa é minha. Eu não devia ter vindo contar a ela que você ficou abraçado comigo a noite toda.

O olhar de Kyle se fixou na minha mão, que segurava o pulso dela, e sua expressão ficou fria.

— Solte-a.

Eu a soltei.

— Kyle, ela está mentindo para você. O filhote dela—

— Já chega.

A expressão dele endureceu por completo.

— Eu me acasalei com Freya para realizar seu último desejo. Só isso. Sylvie, achei que você finalmente estivesse mais madura, mas olhe o que fez. Mesmo que esteja chateada, não tem o direito de inventar mentiras para difamar Freya!

Tentei falar outra vez, mas Freya começou a gritar.

— Kyle! Minha barriga! Está doendo demais!

Kyle a pegou no colo imediatamente. Ao passar por mim, parou por um instante, com a decepção estampada nos olhos.

— Achei que um ano de sono fosse acalmar você.

Outra pontada atravessou meu peito, mas eu ri.

— Então você me fez dormir por um ano para me ensinar a me comportar?

O corpo de Kyle ficou rígido.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Então o que quis dizer?

Ele abriu a boca, mas Freya gemeu em seus braços, e Kyle foi embora sem responder.

O curandeiro veio e disse que Freya estava apenas abalada e que o filhote estava bem. Mesmo assim, Kyle continuou ao lado da cama dela e só veio me procurar tarde da noite.

Antes de sua chegada, queimei a maior parte das cartas antigas sobre a minha escrivaninha. As páginas amassadas e enegrecidas se retorciam nas chamas. Aquelas eram as cartas que Kyle me escreveu ao longo dos anos.

Ele ficou parado à porta, observando o fogo por um longo tempo.

— Por que está queimando as cartas?

— Não servem mais para nada.

— Está dizendo isso da boca para fora.

Kyle se aproximou e tirou a última carta da minha mão. Era a que me escreveu aos dezesseis anos, quando saiu para sua primeira caçada com a alcateia. As bordas estavam gastas e macias de tanto eu dobrar e desdobrar a carta.

— Depois da Caçada de Inverno, vou mandar Freya sair da casa principal. O quarto principal, o distintivo de Luna, tudo o que você tinha antes... vou devolver tudo.

Devolver. Como se eu tivesse jogado tudo fora num acesso de raiva, quando foi ele quem entregou tudo a outra mulher.

Como eu não respondi, ele se abaixou e pegou um pedaço de papel chamuscado perto do pé, apertando a brasa entre os dedos para apagá-la.

— Aguente só mais alguns dias. Seja sensata e não arrume mais confusão. Depois da Caçada de Inverno, tudo vai voltar ao normal.

Seus olhos estavam turvos de cansaço enquanto falava. Eu não sabia se aquelas palavras eram para mim ou para ele mesmo, mas isso já não importava.

Na noite seguinte, quando a lua surgisse, a trompa da Caçada de Inverno soaria, e todos os guardas seguiriam para o Vale da Lua. Seria naquele momento que eu partiria.

"Kyle, só nos restam vinte e quatro horas."
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