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Capítulo 2

Author: Morcego
Ao amanhecer, Kane me trouxe uma tigela de tônico para repor o sangue.

Primeiro, provou um gole para se certificar de que não estava quente demais. Em seguida, levou a tigela aos meus lábios.

— Beba um pouco. Você passou a noite inteira acordada.

Ergui os olhos para ele.

— Você sentiu?

A mão de Kane parou no ar.

A conexão mental entre companheiros predestinados transmitia todas as emoções mais intensas. Na noite anterior, meu coração ficou em pedaços. Era impossível que ele não sentisse.

— Senti.

Kane baixou o olhar, evitando encarar meus olhos.

— Pensei que você estivesse com medo da cirurgia.

Não o confrontei. Apenas falei em voz baixa:

— Kane, eu não tenho medo da cirurgia. Tenho medo de perder outro filhote, de que este também não sobreviva... assim como os dois primeiros.

Assim que minhas palavras o atingiram, senti seu lobo interior se debater de agonia por meio do nosso vínculo. Foi a primeira vez que senti o lobo dele lutar contra a decisão que Kane tomou.

Mesmo assim, após um instante, Kane segurou minha mão.

— Não tenha medo, Elena. Mesmo que este também não sobreviva, vou continuar aqui, ao seu lado. Podemos tentar ter um quarto filhote. Confie em mim. Nós ainda teremos nossos próprios filhotes.

Ele ajeitou o cobertor em volta de mim e saiu do quarto.

Dez minutos depois, uma enfermeira me ajudou a caminhar até a sala dos exames pré-operatórios.

Quando passamos pela sala de espera envidraçada no fim do corredor, captei o aroma de Kane, uma mistura de geada e cedro.

Ele nem sequer saiu do hospital.

Dentro da sala, Vivian estava sentada no sofá, com duas crianças ao seu lado.

Kane permanecia agachado diante do menino, amarrando pacientemente o cadarço que se soltou.

— Noah, não corra tão rápido da próxima vez.

O menino passou os braços pelo pescoço de Kane e abriu um sorriso radiante.

— Papai!

A severidade nos olhos de Kane desapareceu na mesma hora. Ele ergueu a mão e bagunçou os cabelos de Noah.

A garotinha também não quis ficar de fora e estendeu os braços na direção dele.

— Papai, me pega no colo.

Sem pensar duas vezes, Kane a ergueu e acomodou em um dos braços. Depois, tirou uma bala do bolso e colocou na mão dela.

— Só uma, Lia, ou seus dentes vão doer de novo esta noite.

Vivian riu e tirou do ombro dele um papel de bala que estava preso ali.

— Você diz isso todas as vezes, mas ela sempre consegue tudo o que quer.

Kane não discutiu. Apenas abaixou a cabeça e limpou um resquício de açúcar do canto da boca de Lia.

Noah se encostou no joelho de Kane. Vivian estava sentada ao lado dele, com Lia aninhada contra o peito.

Os quatro pareciam envolvidos pela luz da manhã, formando o retrato perfeito de uma família feliz.

Fiquei observando e, quando me dei conta, as lágrimas já transbordavam dos meus olhos.

A enfermeira perguntou se eu estava me sentindo mal.

Neguei com a cabeça e me virei para ir embora, mas, através do vidro, meu olhar cruzou com o de Vivian.

Ela não disse uma única palavra. Apenas pousou a mão sobre o ombro de Kane e abriu um sorriso triunfante para mim.

Um instante depois, o celular de Kane vibrou. Ele beijou as duas crianças na testa, pediu a Vivian que esperasse por ele e saiu às pressas.

Terminei os exames e voltei para o quarto. Pouco depois, um suave aroma floral se espalhou pelo ambiente.

Vivian estava parada à porta, apoiada em uma bengala, com Noah e Lia um de cada lado.

— Já olhou o bastante lá fora ou ainda quer ver mais?
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