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Capítulo 3

Author: Morcego
Encarei aqueles dois rostos, estranhos e familiares ao mesmo tempo, e enterrei as unhas nas palmas das mãos.

O vínculo de sangue não mentia. Eles eram os filhotes que, durante todo aquele tempo, julguei mortos.

— De quem são essas crianças?

Vivian puxou os dois para mais perto de si.

— Minhas, é claro.

— Você está mentindo!

Minha voz tremia, e eu não conseguia controlar.

— O veneno da prata destruiu seu útero. Você não pode gerar um filhote. Nunca pôde.

— O curandeiro disse que era impossível, mas a Deusa da Lua não poderia me conceder um milagre?

O olhar dela se tornou gélido ao se fixar em mim.

— Elena, eu me compadeço por você ter perdido um filhote após o outro. Mas isso não lhe dá o direito de afirmar que meus filhos são seus.

Vivian disse aquilo com toda a confiança e retidão do mundo.

Se eu não tivesse ouvido a verdade com meus próprios ouvidos na noite anterior, começaria a me perguntar se estava perdendo a sanidade.

— Eles têm o meu sangue!

Vivian soltou uma risada e beijou a testa de cada criança.

— Quando Noah teve febre, fui eu quem passou a noite inteira ao lado dele. Quando Lia sofreu com pesadelos, eu estava lá. Os primeiros dentes, as primeiras palavras, a primeira vez que correram com a alcateia sob a lua cheia... Fui eu quem esteve presente em todos esses momentos. E você? O que já fez por eles? Acha que basta olhar para os dois e dizer que são seus?

As lágrimas começaram a cair sem controle.

Não foi por falta de vontade. Kane me disse que eles estavam mortos. Eu nunca tive sequer a chance de segurá-los nos braços.

Minha mão tremeu quando tentei tocar o rosto de Noah.

— Meu amor, eu sou sua...

— Mulher malvada!

Noah deu um tapa na minha mão e se colocou na frente de Vivian.

— Ela é minha mamãe! Não machuque minha mamãe!

Lia se agarrou à perna de Vivian, chorando enquanto tentava me empurrar.

— Pare de machucar minha mamãe!

Cada palavra atravessou meu peito como uma agulha.

Eles carregavam meu sangue, mas protegiam a mulher que os roubou de mim.

Os olhos de Vivian brilharam de triunfo.

— Ouviu? Para eles, a única mãe sou eu.

De repente, Noah pegou o pequeno lobo cinza de pelúcia que estava sobre a mesa de cabeceira.

Eu mesma o costurei durante minha primeira gravidez e o mantive comigo desde o dia da suposta morte do filhote.

— Não toque nisso!

Noah jogou o brinquedo no chão e pisou nele duas vezes.

— Não faça lobinhos como a minha mamãe faz!

Avancei para recuperar o brinquedo, mas Noah golpeou minha mão. Suas pequenas garras rasgaram minha pele, deixando três cortes sangrentos.

— Fique longe da minha mamãe!

O sangue escorreu pelos meus dedos.

Em seguida, ele pegou o lobo de pelúcia e o jogou dentro do copo de água. O vidro se estilhaçou, e o brinquedo encharcado caiu entre os cacos, com a cabeça esmagada e deformada.

Aquele era o único presente que ainda me restava para meus filhotes.

Agora, meu próprio filho foi quem o destruiu.

Vivian não tentou impedi-lo. Apenas acariciou a cabeça de Noah.

— Isso mesmo. Um homem de verdade protege a mãe que lhe deu à luz.

Noah estufou o peito.

— Quem machucar minha mamãe, eu vou morder até matar!

Lia estava com o rosto vermelho de tanto chorar, mas ainda se agarrava a Vivian.

Olhei para os dois. Sabia que não entendiam o que estava acontecendo, mas, mesmo assim, perguntei:

— Se um dia todos disserem que fui eu quem deu à luz vocês, pelo menos vão me ouvir?

— Não!

Noah respondeu sem hesitar.

— Você machucou minha mamãe! Eu nunca vou querer você!

Meu coração se despedaçou de uma forma que jamais poderia ser reparada.

Vivian pegou o lobo de pelúcia destruído e o deixou cair deliberadamente aos meus pés.

— Mesmo que o sangue deles seja o seu, o que isso importa? No coração dos dois, eu sou a mãe.

Ela pousou a mão sobre minha barriga e baixou a voz.

— Você não conseguiu ficar nem com dois filhotes. O que a faz pensar que pode competir comigo?

Aquilo foi o limite. O último fio do meu autocontrole se rompeu.

— Não toque no meu filhote!

Eu a empurrei com força.

Vivian bateu contra a estrutura aos pés da cama. A bengala escapou de sua mão e voou para longe antes que ela caísse no chão.

— Mamãe!

Noah se atirou sobre ela. Lia gritava e soluçava. As duas crianças se agarraram a Vivian, e seus choros encheram o quarto.

Passos apressados ecoaram pelo corredor. Kane abriu a porta de uma vez.

Ele viu Vivian caída no chão e os dois filhotes chorando. Ajudou-a a se levantar e examinou Lia à procura de ferimentos.

Nem uma única vez olhou para minha mão ensanguentada.

Com os olhos vermelhos, Vivian se aninhou contra o peito dele.

— Elena não parava de dizer que os filhotes eram dela. Ela tentou tirá-los de mim. Eu tentei ir embora, mas ela me empurrou...

— Ela está mentindo!

Fixei os olhos em Kane.

— Eles são meus filhotes. Você sabe disso melhor do que ninguém.

O corpo de Kane ficou rígido.

Noah soluçava enquanto batia na perna dele.

— Papai! A mulher malvada empurrou a mamãe! Mande ela embora!

Kane olhou para as crianças e depois para o rosto pálido de Vivian. Quando se virou para mim, só encontrei uma impaciência fria em seu olhar.

— Já chega, Elena! Noah e Lia são filhos de Vivian. Eu sei que você perdeu seus filhotes e sei o quanto isso dói, mas não pode descontar sua dor neles.

A voz dele se elevou, cada vez mais cortante de raiva.

— Peça desculpas a Vivian.

Olhei para o homem que um dia compartilhou minha alma e, de repente, não senti mais nada.

— Não vou pedir.

— Pare com isso. Conversaremos quando você se acalmar.

Ele pegou Lia no colo e ajudou Vivian a sair do quarto. Noah continuou de guarda diante dela, observando-me como se eu fosse a inimiga.

No instante em que a porta se fechou com um clique, o pouco que ainda restava do meu amor por Kane morreu.

Naquela noite, ele voltou como se nada tivesse acontecido, trazendo um anel novo.

O aro exibia a gravação de uma lua cheia e, na parte interna, estavam nossos nomes.

Kane se ajoelhou ao lado da cama e colocou o anel em meu dedo.

— Depois da cirurgia, vamos realizar novamente nossa cerimônia de vínculo. Desta vez, seremos apenas nós dois.

Toquei o metal frio do anel.

— Kane, algum dia você vai se arrepender de tudo isso?

Ele pensou que eu estivesse perguntando se se arrependia de estar comigo. Então, levou minha mão aos lábios e a beijou.

— A única coisa de que jamais vou me arrepender é de ter escolhido você.

Quase chorei.

À meia-noite, uma enfermeira de plantão abriu a porta. O gorro estava puxado para baixo, escondendo parte de seu rosto.

Não havia qualquer cheiro de lobo no ar, apenas um leve aroma de artemísia.

Era uma bruxa.

Ela trocou minha bolsa de soro e bateu três vezes no tubo com a ponta do dedo.

— Amanhã de manhã vai doer. Está com medo?

Olhei para Kane, que dormia ao lado da minha cama sem soltar minha mão.

— Não. Só quero meu filhote.

A bruxa empurrou o carrinho para fora do quarto.

Kane se mexeu, como se tivesse percebido alguma coisa, e abriu os olhos de repente.

— Elena?

Inclinei-me e o abracei.

Foi a primeira vez que fiz aquilo desde que fui internada.

Também foi a última vez que pronunciei o nome dele em meu coração.
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