FAZER LOGINMATEO
Fico olhando pra porta por onde ela saiu, o eco da batida ainda ecoando na cabeça. O quarto parece maior agora, vazio de um jeito que não devia incomodar tanto quanto incomoda.
Passo a mão pelos cabelos, respiro fundo, e sento na beirada da cama. É aí que vejo, jogada no chão, a blusa que ela usou pra dormir, a minha blusa na verdade, ainda com o cheiro dela impregnado no tecido.
— É melhor assim — sussurro, quase no automático, pegando a peça.
Levo até o nariz sem pensar direito, e o cheiro me atinge em cheio. Doce e selvagem ao mesmo tempo, uma mistura que não existe em nenhuma outra mulher que já conheci. Fecho os olhos, e a lembrança da noite volta inteira, sem pedir licença, as mãos dela deslizando pelo meu corpo, minha boca na pele dela, os gemidos, o jeito que ela se movia comigo como se nossos corpos já se conhecessem há anos.
Porra, como foi gostoso, sentir ela, tocar aquele corpo...
Meu corpo esquenta só de lembrar, meu pau pulsa, está faminto por ela, que inferno. Quero ela de novo. Quero agora, quero amanhã, eu preciso me controlar, mas ela, seu gosto, seu cheiro, o seu olhar, não sai da minha cabeça.
— Não — falo, mais alto dessa vez, sacudindo a cabeça.
Levanto rápido, jogo a blusa de volta no chão como se ela queimasse, e me visto apressado, evitando olhar de novo pra cama, pro quarto, pra qualquer coisa que lembre o que aconteceu ali.
Saio do hotel sem olhar pra trás, entrego a chave pro manobrista, entro no carro e ligo o motor com mais força do que precisava.
Fiz a coisa certa. Repito isso pra mim mesmo enquanto dirijo pelas ruas ainda vazias da manhã. Não vou procurá-la. Não vou vê-la de novo. Foi só uma noite, exatamente como eu disse a ela.
Meu lobo discorda. Violentamente.
Ele se deb**e lá dentro, rosnando, se recusando a aceitar a decisão, insistindo no cheiro dela, na presença dela, numa certeza absurda que não b**e com nada que eu já vivi. Ela é nossa, ele insiste, teimoso, irracional. Você a rejeitou. Que porra você fez?
— Cala a boca — rosno baixo, batendo a mão no volante. — Não vou atrás dela. Ponto final.
Você sentiu, ele continua, implacável. Você sabe o que sentiu.
— Eu disse pra calar a boca!
Grito sozinho dentro do carro, como um maluco, e isso só me deixa mais irritado comigo mesmo. Nunca briguei tanto com meu próprio instinto assim. Nunca precisei. Meu lobo sempre foi obediente, controlado, uma extensão da minha própria vontade, até agora, até essa mulher sem nome bagunçar tudo numa única noite.
Aperto o volante com mais força, tentando afastar o cheiro dela que ainda parece grudado em mim, mesmo tendo trocado de roupa. Ela nem me disse o nome direito. Não sei se é rica, se é filha de alguém importante, se sequer tem família de verdade, ou se simplesmente entrou naquela festa por acaso, convidada por uma amiga qualquer. Não sei nada sobre ela além do cheiro e do gosto da pele dela.
E isso não pode continuar.
Foco no que realmente importa. No que meu pai sempre cobrou, desde que fiquei velho o suficiente pra entender meu papel: encontrar minha luna entre as famílias aliadas, alguém de linhagem forte, de poder reconhecido, alguém que traga vantagem pra empresa, pra alcateia, pro nosso nome. Isso é o que importa. Não uma desconhecida atrevida que mexeu com algo dentro de mim que eu nem sabia que existia.
Chego na mansão quando o sol já está alto, hora do almoço. Os funcionários me cumprimentam ao entrar, e eu apenas aceno, seguindo direto pro escritório do meu pai, sem me anunciar, sem bater.
Abro a porta com mais força do que pretendia, e Túlio levanta os olhos da mesa, surpreso por um segundo antes de recompor a expressão de sempre.
— Mateo. Não esperava... - ele começa, mas sou mais rápido.
— Preciso da lista dos lobos aliados — corto, direto ao ponto. — Os que têm filhas em idade de união.
Ele fica em silêncio por um instante, me estudando, provavelmente tentando entender a mudança repentina.
— Pensei que não tinha interesse em festas nem em... — ele começa, mas eu não deixo terminar.
— Mudei de ideia. Quero resolver isso logo. Quero conhecer cada uma delas, estudar suas famílias, marcar encontros. Quero saber quem é minha luna o mais rápido possível.
Meu pai não esconde a satisfação, um leve sorriso se formando no canto da boca dele, coisa rara.
— Vou fazer algumas ligações ainda hoje. Assim que tiver a lista organizada, te chamo.
— Ótimo.
Assinto, já me virando pra sair, sem mais palavras trocadas entre nós, nunca precisamos de mais do que isso. Ele volta a atenção pros papéis na mesa, e eu saio do escritório, subindo direto pro meu quarto.
Fecho a porta atrás de mim e fico parado ali por um momento, olhando pro nada.
Vou encontrar minha luna certa. Alguém de família estruturada, com poder de verdade, alguém que meu pai aprove, que a alcateia respeite, que traga benefício real pra tudo que construímos. Vou casar, vou ter meu herdeiro, e essa história toda vai se resolver do jeito certo, do jeito que sempre devia ter sido resolvido.
E essa mulher, essa noite, esse cheiro que ainda insiste em rondar minha cabeça, tudo isso vai virar só uma lembrança qualquer, apagada com o tempo, como qualquer outra coisa sem importância na minha vida.
Eu me caso. Eu esqueço dela.
É só nisso que preciso focar agora.
AMALIA. Faz alguns dias que essa sensação não me larga. Um arrepio constante na nuca, um instinto antigo que nunca tinha experimentado antes, nem quando era mais nova e mais descuidada com minha própria segurança. Sinto olhos em mim o tempo todo, na rua, no caminho até a loja, até dentro de casa às vezes, quando olho pela janela do quarto antes de dormir.— Você anda estranha — Carla comenta, um dia desses, enquanto lavamos a louça juntas. — Tá tudo bem, filha?— Tô só cansada, mãe — minto, forçando um sorriso. — Correria da gravidez, sabe como é. Me sinto estranha as vezes, cansada, mas sei que isso vai passar. - dou uma piscadela pra ela. Ela não parece convencida, mas não insiste. Só passa a fechar a porta de casa com mais cuidado à noite, e percebo Pedro dando uma volta extra pelo quintal antes de dormir, como se também sentisse que algo está diferente, mesmo sem saber exatamente o quê.Evito a floresta em horários incomuns agora. Só vou de dia, com o sol ainda alto, evitando aq
DAVID. Sigo as pistas antigas por três dias inteiros antes de finalmente chegar nessa cidade, um lugar pequeno, tranquilo demais pra esconder algo tão perigoso quanto o que eu procuro. Ao meu lado, dois soldados da nossa alcateia se movem em silêncio, disfarçados de simples viajantes, roupas comuns, nada que chame atenção.— É aqui — murmuro, parado na esquina de uma rua movimentada, os olhos varrendo cada estabelecimento com atenção calculada. — As pistas antigas apontam pra essa região. Se a linhagem sobreviveu mesmo, é aqui que vamos encontrar o rastro dela.— Como vamos identificar ela entre tanta gente? — Bruno, o soldado mais jovem, pergunta, a voz baixa.— Pelo cheiro — respondo, seco. — Sangue alfa puro não se disfarça. Vamos sentir antes de ver.Passamos o dia inteiro circulando pela cidade, atentos, disfarçados entre turistas e moradores locais, até que, no fim da tarde, paramos diante de uma pequena loja de roupas, a vitrine bem cuidada, movimento constante de clientes ent
LUCIO.A floresta que cerca meu território é diferente de qualquer outra região por aqui, mais densa, mais escura, como se a própria natureza tivesse aprendido a temer quem manda ali. Nenhuma luz artificial alcança esse trecho de mata, só a claridade fraca da lua cortando entre os galhos altos, iluminando o salão de pedra que meus ancestrais construíram séculos atrás.Sento no meu trono, um bloco de rocha esculpido, frio, impessoal, exatamente do jeito que gosto. Bato os dedos devagar no braço de pedra, um ritmo impaciente, enquanto espero o relatório que mandei buscar há dias.— Alfa. — A voz vem da entrada, e David se aproxima, cabeça baixa, respeito absoluto na postura. — Trago notícias do sul.— Finalmente — resmungo, sentindo o interesse acender por dentro. — Fala.Ele se aproxima mais, parando a poucos metros do trono, e Miguel, meu beta, se posiciona ao meu lado, braços cruzados, aquela expressão calculista que ele sempre carrega.— Os rumores são verdadeiros — David começa, a
ANA. Sinto meu corpo inteiro vibrar de satisfação assim que sento no colo dele, minha boca colada na dele, meus dedos presos no cabelo escuro que sempre imaginei tocar assim, de perto, sem pressa nenhuma.Não acredito nisso, eu realmente estou aqui, com ele, com Mateo, o meu alfa. Minha loba ruge por dentro, satisfeita, extasiada. Finalmente. Depois de tanto tempo observando ele de longe, ouvindo histórias sobre o alfa mais temido da região, sonhando silenciosamente com esse exato momento, estar perto dele, ser escolhida por ele, sentir as mãos dele no meu corpo do jeito que sempre imaginei.Sou eu. Fui eu que ele escolheu, entre tantas outras filhas de sócios do pai dele, tantas lobas de família rica e poderosa. Fui eu.O beijo aprofunda, suas mãos deslizando pelo meu corpo com uma urgência que me deixa sem fôlego, e eu me entrego completamente, decidida a mostrar a ele, ali mesmo, naquele carro, o tipo de mulher que sou. O tipo de esposa que vou ser.— Vou fazer você nunca se arre
MATEO.Horas se passam e finalmente, o jantar termina. Todos já comeram e já brindamos... mas vejo como o sorriso deles são forçados demais. Eu permaneci sério, a todo momento. Não tem necessidade de sorrir assim. Após limpar a boca, me levanto pra me despedir dos sogros com a formalidade que a ocasião exige. Pego a mão da senhora Francis, dando um beijo curto, e aperto a mão do senhor Donald com firmeza.— Estou bastante contente — ele diz, o aperto de mão se prolongando um pouco mais do que o necessário. — Sei que vai ser um casamento de sucesso. Já vejo um grande futuro pra vocês, pra nós, lá na frente. Obrigado por escolher minha filha, alfa.A última frase sai mais baixa, quase um sussurro, os olhos dele buscando os meus com um peso que entendo bem, não é só sobre Ana, é sobre alianças, sobre poder, sobre o que essa união representa pras duas famílias. Entendo bem disso. — Seremos uma família agora — respondo, o tom mais formal do que sinto por dentro.Todos assentem, satisfei
MATEO.Passo dois dias inteiros remoendo a mesma decisão na cabeça, até finalmente chegar numa conclusão que me parece a única racional.Ana. Vou ficar noivo de Ana." É a escolha certa." repito pra mim mesmo enquanto pego o celular pra fazer as ligações necessárias. Amália não tem posse nenhuma, nenhuma fortuna, nenhuma família de peso que traga vantagem pra minha alcateia ou pra empresa do meu pai. É uma mulher pobre, dona de uma lojinha qualquer, por mais que meu lobo insista em discordar veementemente disso. Separar as coisas é o que um alfa de verdade faz, sentimento de um lado, estratégia do outro. Mesmo que, no fundo, uma parte teimosa de mim sussurre que talvez ela fosse mesmo minha parceira destinada.Ignoro essa parte. Preciso ignorar.Ela não é, não é... digo várias vezes. Faço as ligações necessárias, marco um encontro com meu pai ainda naquela tarde, e assim que chego no escritório dele, vou direto ao ponto, sem rodeios.— Decidi — falo, parando na frente da mesa dele. —







