INICIAR SESIÓNAMALIA
Três semanas se passaram desde aquela noite, e eu me obrigo, todos os dias, a seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
Não é fácil.
As lembranças voltam nos momentos mais idiotas, enquanto arrumo uma prateleira, enquanto espero o ônibus, enquanto tento dormir. O cheiro dele, o toque dele, aquela frase seca ecoando na minha cabeça como um disco riscado: foi só uma noite.
— Para com isso — sussurro pra mim mesma, batendo a mão na testa enquanto organizo o estoque na loja. — Ele nem existe mais, Amália. Esquece.
Minha loba discorda, claro. Ela sempre discorda. Fica ali, quieta mas presente, uma saudade idiota de algo que nem devia ter sentido em primeiro lugar.
— Não — falo baixo, séria, quase como se pudesse repreender aquela parte de mim como se repreende uma criança birrenta. — Você não vai ficar pensando nele. Aquele homem rico, nojento, desprezível. Foi um erro. Ponto.
Respiro fundo, sacudo a cabeça, e volto a atenção pro trabalho. É a única coisa que realmente ajuda, focar nos clientes, nas vendas, em qualquer coisa que não seja aquele quarto de hotel e aquele olhar frio que ele me deu na manhã seguinte.
— Amália, você pode me ajudar aqui? — Vanessa chama, do outro lado da loja, ajudando uma cliente a escolher entre dois vestidos.
— Já vou! — respondo, forçando um sorriso enquanto ando até lá.
Passo o resto do dia entre atendimentos, sorrisos ensaiados, conversas sobre tecido e caimento e cor que combina com qual tom de pele. É bom, de um jeito estranho, me perder no trabalho, não deixar espaço pra pensar em mais nada.
Quando chego em casa, Carla já está na cozinha, preparando o jantar, e Pedro assiste TV na sala baixinho.
— Como foi hoje, filha? — Carla pergunta, sem tirar os olhos da panela.
— Foi bom. Corrido, mas bom.
Ela me olha de rabo de olho, um segundo a mais do que o normal, como se percebesse algo que eu não estou dizendo. Mas não insiste.
— Você tá bem? — ela pergunta, gentil.
— Tô sim, mãe. Só cansada da correria da loja.
Ela assente, aceitando a resposta, mesmo que eu sinta que ela desconfia de mais alguma coisa. Meus pais sempre souberam ler além do que eu digo, mas também sempre respeitaram meu espaço, nunca forçando conversa que eu não quero ter. É um dos motivos que mais amo neles.
Depois do jantar, subo pro quarto, mas não consigo ficar parada. Sinto aquela inquietação familiar crescendo por dentro, minha loba pedindo espaço, pedindo liberdade, pedindo a floresta.
Não resisto.
Saio de casa em silêncio, ando até a linha de árvores que separa nosso quintal da mata densa, e assim que piso na terra macia, sinto o corpo mudar, ossos se reorganizando, pele virando pelo, a transformação que sempre foi natural pra mim desde criança. Em segundos, estou em quatro patas, o mundo inteiro ficando mais nítido, mais vivo.
Corro.
Corro entre as árvores, sentindo o vento cortar meu pelo, o cheiro da terra molhada, das folhas caídas, do riacho que corre não muito longe dali. Escuto uma coruja piando em algum galho alto, sinto o rastro de algum animal noturno cruzando meu caminho momentos atrás. Tudo isso me acalma de um jeito que nada mais consegue.
Paro numa clareira, ofegante, e olho pra cima. A lua está cheia, imensa, iluminando tudo ao redor com aquele brilho prateado que sempre me acalma a alma.
Eu não preciso de companheiro nenhum, penso, sentando na grama fria, ainda em forma de loba. Vou ficar bem sozinha. Sempre fiquei.
A imagem dele insiste em aparecer mesmo assim, e eu rosno baixinho pra mim mesma, irritada com minha própria mente.
Só quero esquecer aquela noite. Para sempre.
Fico ali um bom tempo, só observando a lua, deixando o silêncio da floresta preencher os espaços que aquele homem insiste em ocupar dentro de mim. Quando finalmente sinto o cansaço bater, volto pra casa, transformo de volta, visto minhas roupas escondidas atrás da árvore de sempre, e entro em casa em silêncio, direto pra cama.
Durmo pesado, exausta pela corrida, pelo dia inteiro de trabalho, por tudo.
Na manhã seguinte, me levanto devagar da cama, olho para o sol, está bem claro, deve ser bem cedo agora... quando aperto os olhos, começo a sentir uma dor de cabeça absurda, latejando forte nas têmporas. Levo a mão até a testa, aperto os olhos com mais força, tentando entender de onde veio aquilo.
Por que estou sentindo tanta dor? Ontem me sentia tão bem, resmungo baixo.
Não bebi nada ontem. Nenhuma gota de álcool, nada que justificasse esse tipo de ressaca.
Então o que diabos é isso? Franzi a sobrancelha.
Fico sentada na cama por um momento, tentando respirar fundo, esperando a dor passar. Só quero saber porque me sinto assim, bom, nada que um remédio não ajude. Me levanto, caminhando até minha gaveta de remédios, preciso ficar bem, me sentir bem para o dia de hoje.
Não posso me dar ao luxo de ficar doente, logo agora!
MATEO.Aprofundo o beijo, sentindo o gosto de vinho ainda na boca dela, e sem quebrar o contato, murmuro contra os lábios dela:— Vem, te levo pra casa. Não precisa chamar seu motorista. Eu mesmo faço isso. — me afasto um pouco, para olhar em seus olhos.Ela sorri pra mim, parece estar gostando da ideia. Ela assente, e então, se aproxima mais de mim, não querendo parar de me beijar enquanto andamos os últimos passos até o carro. Abro a porta pra ela, mas antes de entrar, Ana para, um sorriso malicioso no rosto, e passa a mão devagar pelo meu rosto, descendo até os ombros.— Antes disso — ela sussurra, puxando minha gravata de leve — eu quero fazer uma coisa. Algo que não dá mais para evitar, Mateo. — sussurra, roçando sua boca em minha barba rala. Ela se aproxima mais, porém, ao invés de sentar no banco, se acomoda no meu colo, as pernas de cada lado do meu corpo, e me beija de novo, mais intensa dessa vez, mais decidida.Seguro a cintura dela, aprofundando o beijo, sentindo cada cu
MATEO.Passo a manhã inteira revisando o perímetro da propriedade com meus lobos, cada detalhe, cada ponto cego que precisa de reforço.— Quero câmeras extras naquele trecho do bosque — ordeno, apontando pro mapa estendido sobre a mesa. — Qualquer um que se aproximar sem autorização, paga com a própria vida. Sem exceção, sem segunda chance.— Sim, Alfa — Rocco confirma, anotando tudo.Sou rígido com meus lobos porque preciso ser. Frouxidão custa vidas, custa território, custa respeito. Aprendi isso cedo, e não vou mudar agora.Mas nas últimas semanas, mesmo com tudo sob controle na alcateia, meu próprio lobo continua uma bagunça só. Insuportável, teimoso, recusando esquecer aquela mulher sem nome.— Descubram quem estava naquele evento dos Moretti — ordeno pra Tiago, mais cedo naquele dia. — Quero lista completa de convidadas, fotos do evento, qualquer registro que exista. Preciso saber quem é uma loba específica que estava lá.— Vou correr atrás, Alfa — ele responde, sem questionar.
AMALIA.Se passaram semanas, desde aquela noite, e minha menstruação ainda não veio. Fico contando os dias no calendário do celular, tentando entender se estou só estressada ou se é outra coisa qualquer. Nunca atrasei assim antes, nem nos períodos mais corridos da loja.Na segunda-feira, arrumando as araras de roupa, sinto uma tontura repentina, forte o suficiente pra eu precisar me apoiar no balcão por um segundo.— Amália? — Vanessa se aproxima rápido, preocupação estampada no rosto. — Você tá bem? Ficou branca do nada.— Tô, tô sim — respondo, respirando fundo até a tontura passar. — Só levantei rápido demais.Ela me olha desconfiada, os olhos correndo pelo meu rosto, pelo meu corpo.— Você emagreceu, sabia? E tá com uma cara péssima essa semana toda.— É estresse do trabalho, Van. E a TPM que insiste em não chegar direito, sabe como é.— Ah, TPM do inferno — ela faz uma careta de compreensão. — Nada que um chocolate bem gordo e um pote de sorvete não resolvam. Olha, você quer ir l
MATEO.Desço pra cozinha e encontro meu pai já sentado à mesa, café na mão, um sorriso satisfeito demais estampado no rosto. Sirvo meu próprio café em silêncio, sentando na cadeira de sempre, sem me alongar em cumprimentos.— Dormiu bem? — ele pergunta, e eu sei exatamente por que está tão bem-humorado hoje.— Dormi. — dou uma rápida olhada nele e dou um gole no café, que está amargo, como gosto. — As ligações renderam bom resultado — ele continua, ignorando meu tom seco. — Já tenho três encontros marcados pra você hoje. Famílias de peso, Mateo. Vai gostar do que vai ver. Todas são lindas, por favor, preste atenção nelas, em cada detalhe. — Vou ver — respondo, tomando mais um gole do café.— Não se atrase no primeiro encontro, por favor. É importante fazer boa impressão. — ele me olha por alguns segundos e limpa sua boca após terminar de comer. Só assinto, sem discutir. Estou fazendo exatamente o que ele sempre cobrou de mim, então não faz sentido nenhum bancar o difícil agora. Ter
AMALIATrês semanas se passaram desde aquela noite, e eu me obrigo, todos os dias, a seguir em frente como se nada tivesse acontecido.Não é fácil.As lembranças voltam nos momentos mais idiotas, enquanto arrumo uma prateleira, enquanto espero o ônibus, enquanto tento dormir. O cheiro dele, o toque dele, aquela frase seca ecoando na minha cabeça como um disco riscado: foi só uma noite.— Para com isso — sussurro pra mim mesma, batendo a mão na testa enquanto organizo o estoque na loja. — Ele nem existe mais, Amália. Esquece.Minha loba discorda, claro. Ela sempre discorda. Fica ali, quieta mas presente, uma saudade idiota de algo que nem devia ter sentido em primeiro lugar.— Não — falo baixo, séria, quase como se pudesse repreender aquela parte de mim como se repreende uma criança birrenta. — Você não vai ficar pensando nele. Aquele homem rico, nojento, desprezível. Foi um erro. Ponto.Respiro fundo, sacudo a cabeça, e volto a atenção pro trabalho. É a única coisa que realmente ajuda
MATEOFico olhando pra porta por onde ela saiu, o eco da batida ainda ecoando na cabeça. O quarto parece maior agora, vazio de um jeito que não devia incomodar tanto quanto incomoda.Passo a mão pelos cabelos, respiro fundo, e sento na beirada da cama. É aí que vejo, jogada no chão, a blusa que ela usou pra dormir, a minha blusa na verdade, ainda com o cheiro dela impregnado no tecido.— É melhor assim — sussurro, quase no automático, pegando a peça.Levo até o nariz sem pensar direito, e o cheiro me atinge em cheio. Doce e selvagem ao mesmo tempo, uma mistura que não existe em nenhuma outra mulher que já conheci. Fecho os olhos, e a lembrança da noite volta inteira, sem pedir licença, as mãos dela deslizando pelo meu corpo, minha boca na pele dela, os gemidos, o jeito que ela se movia comigo como se nossos corpos já se conhecessem há anos.Porra, como foi gostoso, sentir ela, tocar aquele corpo... Meu corpo esquenta só de lembrar, meu pau pulsa, está faminto por ela, que inferno. Qu







