LOGIN“Eu estava preparada para enfrentar a arrogância dele, mas não sabia o que fazer com sua gratidão.”
Lívia deixou a mão se afastar da maçaneta.
O pedido de Adrian ainda a surpreendia, principalmente pela última palavra.
“Por favor.’
Na madrugada anterior, ele parecia pouco interessado em pedir qualquer coisa.
— Sobre o quê?
Adrian olhou na direção da cozinha antes de responder.
— Prefiro que conversemos sem que Elena precise ouvir.
Lívia apertou a alça da sacola.
— Se vai reclamar da maneira como falei com você…
— Não vou.
A resposta veio baixa, sem a firmeza impaciente que ela já aprendera a reconhecer.
Só então reparou melhor em seu rosto. Havia sombras sob os olhos, e a barba parecia mais escura à luz da manhã. Ele usava uma camiseta e uma calça confortável, mas não tinha a aparência de alguém que tinha acabado de descansar.
Lívia olhou para a passagem por onde Elena tinha saído.
— Não quero que ela pense que estamos discutindo por causa dela.
— Eu também não.
Adrian indicou uma porta próxima.
— Podemos conversar ali? A porta fica aberta.
Ela hesitou antes de assentir.
Entrou numa sala pequena, com estantes ocupando uma das paredes e duas poltronas junto à janela. Deixou a sacola ao lado de uma delas, mas permaneceu em pé.
Adrian parou perto da outra.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Lívia conhecia homens como ele e sabia como enfrentar suas ordens, mas aquela disposição de conversar sem tentar se impor a deixou sem saber o que esperar.
— Maria me contou — ele começou.
Ela cruzou os braços.
— Percebi.
Adrian baixou os olhos por um instante.
— Contou que você a encontrou. Que você e Gabriel conseguiram socorrê-la.
Lívia sentiu os dedos apertarem seus próprios braços.
Não gostava de voltar naquela noite. Bastava ouvir uma referência para lembrar a pressa, o medo e a voz de Gabriel tentando orientá-la enquanto ela só queria que Elena respondesse.
— Fizemos o que precisava ser feito.
Adrian ergueu o rosto.
— Não precisa diminuir o que fez, Lívia. Quero agradecer por ter ido atrás dela e por continuar ao seu lado.
Lívia abriu a boca para responder, mas acabou desviando os olhos para a janela. Sabia enfrentar homens acostumados a dar ordens, porém a sinceridade daquele agradecimento a deixou sem saber o que dizer.
— Elena é minha melhor amiga.
— Eu sei.
— Então não fiz isso por você.
Adrian assentiu.
— Sei disso também.
Lívia voltou a encará-lo, quase contrariada por ele não lhe dar motivo para discutir.
Ele passou a mão pela nuca antes de continuar:
— Fui grosseiro com você. Disse que não se metesse num assunto que não conhecia, quando era eu quem não sabia o que estava acontecendo.
Ela descruzou os braços.
— Você não me deixou terminar quase nenhuma frase.
Uma expressão breve, cansada, passou pelo rosto dele.
— Você também não facilitou.
Lívia ergueu uma sobrancelha.
Adrian a encarou.
— Mas não estou usando isso como desculpa. Devia ter ouvido.
A resposta desfez a réplica que ela já tinha pronta.
Ele se desculpava sem sorrir como se aquilo fosse uma concessão e sem esperar que ela admitisse uma culpa equivalente.
Lívia apoiou a mão no encosto da poltrona.
— Ela ficou com medo de você descobrir.
Adrian respirou fundo.
— Eu sei que estava com vergonha.
— E com medo de decepcionar você.
Ele olhou para a porta, embora Elena não estivesse ali.
— Ela nunca precisou fazer nada para merecer meu amor.
— Então vai ter que dizer isso mais de uma vez.
Adrian voltou a atenção para ela.
Lívia manteve a voz baixa.
— Não basta ela ouvir hoje e passar as próximas semanas sem saber quando vai falar com você outra vez.
— Não pretendo fazer isso.
— Espero que não.
Ele aceitou a resposta sem se defender, e aquela disposição a fez prosseguir.
— Ela falava de você o tempo todo. Mesmo quando estava zangada, encontrava algum motivo para explicar por que não tinha vindo ou por que estava ocupado.
Adrian permaneceu imóvel.
Lívia baixou os olhos para os próprios dedos sobre o estofado.
— Eu tinha vontade de dizer que ela não precisava justificar tudo. Mas, se falasse mal de você, era capaz de acabar discutindo comigo.
Um sorriso triste surgiu no rosto dele.
— Elena sempre foi leal demais às pessoas que ama.
— Ela aprendeu com o pai.
A expressão de Adrian mudou, e Lívia se arrependeu da brusquidão com que pronunciou aquelas palavras.
Não por serem falsas, apenas porque viu o efeito delas.
— Desculpe — disse, mais baixo. — Eu não queria…
— Não precisa.
Ele se sentou na poltrona, apoiando os antebraços nas pernas.
Lívia continuou em pé por mais um instante, depois ocupou a outra.
A mudança diminuiu a sensação de confronto.
— Não acho que você não a ame — ela disse.
Adrian ergueu os olhos.
— Só não entendo como conseguiu ficar tanto tempo longe.
Ele levou alguns segundos para responder.
— No começo, eu dizia a mim mesmo que seria mais fácil trabalhar fora daqui. Depois, voltar passou a exigir uma coragem que eu sempre deixava para outra ocasião.
Lívia observou seu rosto.
— Por causa do seu irmão?
Ele assentiu.
— Cada vez que falava com Elena, eu ouvia alguma coisa dele. Uma expressão, uma maneira de rir… — Adrian esfregou as mãos. — Sentia falta dela e, ao mesmo tempo, terminava a ligação querendo me ocupar com qualquer coisa.
Lívia sentiu a irritação ceder um pouco.
Continuava pensando em tudo o que Elena atravessou, mas agora conseguia enxergar o que ele havia feito com a própria dor.
— Ela não sabia disso.
— Eu devia ter contado.
— Devia.
Adrian sustentou seu olhar.
— Você não costuma aliviar para ninguém, não é?
— Quando se trata dela, não.
Ele olhou brevemente para a mão que Lívia mantinha fechada no colo.
— Percebi.
Ela afrouxou os dedos, incomodada por ter sido notada.
Da cozinha, veio o som discreto de uma xícara pousando sobre a mesa, seguido pela voz de Maria. Lívia escutou Elena responder e sentiu os ombros relaxarem.
Adrian acompanhou o movimento.
— Você faz isso o tempo todo?
— Isso o quê?
— Para de prestar atenção no que está acontecendo para conferir se ela está bem.
Lívia olhou para a porta.
— Ultimamente, sim.
Ele não respondeu de imediato.
Quando voltou a falar, sua voz estava mais suave:
— Deve ter sido assustador.
Lívia apertou os lábios.
Até então, todas as conversas tinham girado em torno de Elena: como estava, do que precisava, se conseguiu descansar.
Aquela pergunta a alcançou antes que pudesse preparar uma resposta.
— Foi.
Adrian esperou.
Lívia tentou sorrir, mas não conseguiu.
— Às vezes, ela demora um pouco mais para responder no quarto, e eu já… — Interrompeu a frase, passando a mão sobre o joelho. — Estou tentando parar com isso. Não quero que se sinta vigiada.
— Você também ficou com medo de perdê-la.
Ela assentiu, olhando para baixo.
Adrian se inclinou um pouco, procurando seu rosto sem obrigá-la a erguer os olhos.
— Quem esteve ao seu lado, Lívia, enquanto você cuidava tanto dela?
“Depois de conhecer a boca dele, sentar ao seu lado exigia uma coragem diferente.”Lívia MoreauA porta se fechou depois da saída de Elena e Gabriel, e fiquei alguns segundos olhando para os lírios que tinha colocado num vaso.Adrian ainda estava perto da entrada quando me virei.— Você esqueceu de perguntar o tipo sanguíneo.Ele guardou o telefone no bolso e me encarou.— De quem?— Do Gabriel. Já conferiu a reserva, o endereço e o horário. Podia aproveitar e completar o cadastro.O canto de sua boca se moveu.
“Eu conhecia o cuidado dele. Naquela noite, descobri o desejo de ficar.”Elena CastelliGabriel demorou alguns instantes para responder. Seu sorriso deu lugar a uma expressão pensativa, e esperei, com os dedos ainda junto ao guardanapo.— Não sei dizer um dia exato.— Mas lembra de alguma coisa?Ele assentiu.— Lembro de uma tarde em que você foi à empresa, quando seu pai ainda estava vivo. Você tinha dezessete anos. Ficou na minha sala esperando por ele, e conversamos por quase uma hora.Sorri com a lembrança.
“Eu tinha passado o dia escolhendo o vestido. Quando ele chegou, esqueci até o que pretendia dizer.”Elena Castelli— Se você trocar de vestido outra vez, vou sair com Gabriel no seu lugar.Encontrei o olhar de Lívia pelo espelho.— Você disse que gostou mais do preto.— E gostei. Também gostei dele quando você vestiu pela primeira vez, há vinte minutos.Passei as mãos pela saia, tentando decidir se estava curta demais. O vestido terminava um pouco acima dos joelhos, tinha alças delicadas e um decote discreto. Eu gostava dele. Sempre gostei.
“Bastava ele me olhar para eu esquecer o cuidado que tinha prometido ter.”Livia MoreauEntramos na piscina pouco depois.Elena nadou até a outra borda, e acompanhei mais devagar, gostando da água fresca depois do calor. Ficamos apoiadas lado a lado, conversando sobre o restaurante que Gabriel escolheu e sobre o vestido que ela ainda não tinha decidido usar.Eu tentava convencê-la de que não precisava esvaziar o guarda-roupa quando ouvi a porta da varanda.Adrian saiu segurando uma xícara.A camisa estava aberta no colarinho, as mangas dobradas e o cabelo ainda levemente úmido. Ele parou perto da mesa, olhou para n&oacu
“Ela queria me contar sobre o primeiro beijo. Eu precisava tomar cuidado para não deixar escapar o meu.”Lívia MoureuElena esperou que eu me acomodasse na espreguiçadeira para anunciar:— Gabriel me beijou.Parei com a garrafa de água a meio caminho da boca e virei o rosto.Ela estava sentada na cadeira ao lado, com as pernas dobradas e um sorriso que tentava esconder desde que descemos para a piscina.— E você esperou até agora para me contar?— Ontem eu procurei você, mas tinha sumido.Baixei a garrafa.Eu tinha uma lembrança bastante precisa de onde estava.— Nos desencontramos. Depois, com todo mundo indo embora…— Eu sei. E você foi dormir cedo.Tinha me recolhido cedo, já dormir era outra história.Adormeci ainda excitada, lembrando a boca de Adrian, as mãos na minha cintura e tudo o que fiquei querendo depois que saí do escritório. Naquela manhã, as lembranças continuavam tão vivas que precisei me esforçar para sentar à mesa diante dele e responder a Maria sem perder o fio da
“Eu conhecia todos os motivos para parar. Mesmo assim, queria combinar quando aconteceria outra vez.”Adrian CastelliLívia olhou para os botões da minha camisa antes de erguer o rosto com um sorriso.— Você está me dando ideias, titio.Segurei sua mão antes que os dedos avançassem até o próximo botão.— Você já tem idéias demais.— E você parece gostar de algumas.Sorri, ainda segurando sua mão. Negar àquela altura seria ridículo, principalmente com a outra mão firme em sua cintura. Eu tinha acabado de beijá-la contra a estante do meu escritório, ainda sentia suas unhas na minha nuca e continuava segurando sua cintura, excitado demais para soltá-la. Minha vontade mesmo, era arrancar aquele biquíni e fazer ela gemer o meu nome por horas. Ela acompanhou meu olhar até sua boca.— Vai me mandar sair mesmo?— Estou tentando.Lívia soltou uma risada baixa, satisfeita demais com a dificuldade.Afastei-me o suficiente para deixá-la passar, mas ela permaneceu diante de mim, ajeitando a faix







