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Capítulo 05 - A Menina Que Ficou

Author: Annanda
last update publish date: 2026-10-16 22:41:40

“Enquanto eu tentava suportar a ausência de quem perdi, não percebi quem ainda esperava por mim.”

Adrian soltou o encosto da cadeira.

— O que aconteceu, Maria?

A mulher pousou o pano sobre a bancada, mas continuou com os olhos baixos.

— Sente-se, meu filho.

A maneira como o chamou fez seu estômago se contrair. Maria usava aquelas palavras quando esquecia a distância que ele próprio insistia em manter entre o adulto que se tornou e o menino que ela conhecia.

— Prefiro que me diga.

Ela ergueu o rosto, e Adrian viu que estava prestes a chorar.

— Foi depois da formatura.

Ele se lembrou imediatamente da ligação que não pode atender, da mensagem enviada mais tarde e das respostas cada vez mais curtas da sobrinha.

— Eu sei que ela ficou magoada porque não fui.

Maria negou com um movimento pequeno de cabeça.

— Não foi só aquela noite. Minha menina vinha sofrendo há muito tempo.

Adrian permaneceu imóvel.

— Sofrendo como?

— Sentia falta do pai. A mãe quase nunca estava aqui, e, quando estava… — Maria apertou os lábios antes de continuar. — Eu tentava conversar, fazer companhia, mas havia coisas que ela não queria me dizer. Eu achava que, se continuasse por perto, ela acabaria falando.

Ele puxou a cadeira e se sentou.

— O que aconteceu depois da formatura?

Maria precisou respirar fundo.

— Elena voltou para casa antes do fim da festa. Eu não sabia que ela tinha chegado. Quando a Lívia apareceu procurando por ela, percebemos que alguma coisa estava errada.

Adrian apoiou as mãos sobre a mesa.

— Maria…

— Elena tentou tirar a própria vida.

Por alguns segundos, ele continuou olhando para a mulher sem compreender como aquelas palavras podiam se referir à sua sobrinha.

Elena.

A menina que se agarrava ao seu pescoço quando ele chegava de viagem. Que telefonava para contar sobre uma prova, uma discussão com a mãe ou qualquer coisa que, segundo ela, só o tio entenderia.

Na madrugada anterior, tinha perguntado se ela estava bem.

E aceitou o  seu aceno.

— Não.

A palavra escapou baixa.

Maria levou uma das mãos à boca.

— Lívia a encontrou. Gabriel ajudou a socorrê-la, chamaram atendimento e ela foi levada para o hospital.

Adrian afastou a cadeira, mas não chegou a se levantar. Precisou apoiar os pés com firmeza no chão.

— Quando?

— Há cerca de duas semanas.

Ele ergueu os olhos.

— Duas semanas?

Maria assentiu, chorando em silêncio.

Duas semanas em que ele trabalhava, participava de reuniões e continuava vivendo sem saber que Elena estava num hospital.

— Por que ninguém me ligou?

A voz saiu mais alta do que pretendia, e Maria encolheu os ombros.

Adrian percebeu e fechou os olhos por um instante.

— Desculpe. Eu só… precisava saber.

— Eu queria contar. Gabriel também queria falar com você, mas Elena pediu que esperássemos. Ficava muito aflita só de imaginar que você soubesse.

— Por quê?

— Tinha vergonha.

Ele baixou o rosto.

Lembrou-se da sobrinha olhando para sua camisa, incapaz de responder por que não atendia às ligações.

“Eu não sabia o que dizer.”

Ela havia tentado lhe explicar. Ele estava ocupado demais fazendo perguntas para entender.

— Ela recebeu atendimento depois? Está sendo acompanhada?

— Está. Não ficou sem cuidado, Adrian. Depois da alta, quis passar um tempo com Lívia. Nós nos organizamos para ajudá-la.

Ele passou as mãos pelo rosto.

— Eu devia estar entre essas pessoas.

Maria se aproximou e tocou seu ombro.

Adrian continuou olhando para a mesa.

Não conseguia afastar a lembrança de Elena descendo as escadas para abraçá-lo, nem a maneira como seus dedos tinham se fechado ao redor de sua mão quando ele disse que iria embora.

Esteve tão perto de perdê-la sem sequer saber que ela precisava dele.

— A Lívia ficou com ela esse tempo todo?

— Desde que pôde voltar para casa. Gabriel ajuda, eu vou até lá… mas Lívia tem estado ao lado dela todos os dias.

A discussão na porta voltou com uma clareza dolorosa.

“Sei que ela sente sua falta.”

Adrian tinha enxergado insolência onde havia medo. A garota não o conhecia, não lhe devia delicadeza e, ainda assim, garantiu que cuidaria de sua sobrinha.

Enquanto isso, ele havia mandado que não se metesse.

— Como Elena estava ontem, antes de eu chegar?

— Melhor do que nos primeiros dias. Mas precisa de tempo, meu filho.

Ele assentiu lentamente.

O som de um carro o fez olhar para a janela.

Maria retirou a mão de seu ombro.

— Devem ser elas.

Adrian se levantou. Tinha imaginado tantas vezes o café daquela manhã, mas nenhuma das perguntas preparadas lhe servia agora.

Quando alcançou a sala, ouviu a chave na fechadura.

Elena entrou primeiro, com a bolsa sobre o ombro. Lívia vinha logo atrás, carregando uma pequena sacola.

— Tio?

Ele tentou responder, mas precisou engolir antes.

A sobrinha parou a poucos passos da porta e olhou de seu rosto para Maria, que acabava de sair da cozinha.

Sua expressão mudou.

— Ela contou.

Adrian se aproximou.

Elena apertou a alça da bolsa.

— Eu ia falar com você.

— Eu sei.

Ela baixou os olhos, e ele conteve a vontade de abraçá-la imediatamente.

— Posso?

Elena assentiu antes mesmo que ele terminasse de abrir os braços.

Adrian a puxou para junto de si e apoiou o rosto em seus cabelos.

Estava ali. Podia sentir sua respiração, o peso de seu corpo contra o dele, as mãos se firmando em suas costas.

Precisou se concentrar naquilo para não começar a falar do próprio medo.

— Desculpa, tio — ela sussurrou.

Ele se afastou apenas o suficiente para olhar para ela.

— Você não precisa me pedir desculpas por estar sofrendo.

As lágrimas chegaram aos olhos de Elena.

— Eu não queria que você…

Ela não terminou.

Adrian levou a mão ao seu rosto.

— Não precisamos conversar sobre tudo agora. Mas eu devia ter percebido que você precisava de mim.

— Você também estava triste.

A compreensão dela o atingiu com mais força que qualquer acusação.

— Estava. E fui embora sem entender como isso seria para você.

Elena limpou uma lágrima com as costas da mão.

— Vai ficar quanto tempo?

— Vou continuar aqui. Hoje, amanhã… e não vou embora antes de conversar com você sobre como vamos fazer as coisas.

Ela o observou, procurando alguma hesitação.

— Não quero que você fique só porque está com pena de mim.

— Eu quero ficar porque amo você. E porque sinto falta da nossa vida juntos.

Elena voltou a abraçá-lo.

Adrian fechou os olhos e a segurou até que ela mesma se afastasse.

Maria se aproximou com um lenço.

— Preparei o café, minha menina.

Elena aceitou, enxugando o rosto.

— Vou lavar as mãos.

Ela olhou para Lívia, que continuava junto à entrada.

— Você vai ficar?

— Preciso passar em casa, mas falo com você mais tarde.

A amiga assentiu e seguiu com Maria em direção à cozinha.

Só então Adrian conseguiu olhar de verdade para Lívia.

Ela usava jeans, uma blusa simples e os cabelos presos. A sacola continuava em sua mão, enquanto a outra já procurava a maçaneta.

Nenhuma provocação lhe ocorreu.

Tudo o que se lembrava era da voz dela dizendo que amava Elena e cuidaria dela.

— Lívia.

Ela parou.

Adrian se aproximou, mantendo a voz baixa.

— Não vá embora antes de falar comigo. Por favor.

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