LOGIN“Enquanto eu tentava suportar a ausência de quem perdi, não percebi quem ainda esperava por mim.”
Adrian soltou o encosto da cadeira.
— O que aconteceu, Maria?
A mulher pousou o pano sobre a bancada, mas continuou com os olhos baixos.
— Sente-se, meu filho.
A maneira como o chamou fez seu estômago se contrair. Maria usava aquelas palavras quando esquecia a distância que ele próprio insistia em manter entre o adulto que se tornou e o menino que ela conhecia.
— Prefiro que me diga.
Ela ergueu o rosto, e Adrian viu que estava prestes a chorar.
— Foi depois da formatura.
Ele se lembrou imediatamente da ligação que não pode atender, da mensagem enviada mais tarde e das respostas cada vez mais curtas da sobrinha.
— Eu sei que ela ficou magoada porque não fui.
Maria negou com um movimento pequeno de cabeça.
— Não foi só aquela noite. Minha menina vinha sofrendo há muito tempo.
Adrian permaneceu imóvel.
— Sofrendo como?
— Sentia falta do pai. A mãe quase nunca estava aqui, e, quando estava… — Maria apertou os lábios antes de continuar. — Eu tentava conversar, fazer companhia, mas havia coisas que ela não queria me dizer. Eu achava que, se continuasse por perto, ela acabaria falando.
Ele puxou a cadeira e se sentou.
— O que aconteceu depois da formatura?
Maria precisou respirar fundo.
— Elena voltou para casa antes do fim da festa. Eu não sabia que ela tinha chegado. Quando a Lívia apareceu procurando por ela, percebemos que alguma coisa estava errada.
Adrian apoiou as mãos sobre a mesa.
— Maria…
— Elena tentou tirar a própria vida.
Por alguns segundos, ele continuou olhando para a mulher sem compreender como aquelas palavras podiam se referir à sua sobrinha.
Elena.
A menina que se agarrava ao seu pescoço quando ele chegava de viagem. Que telefonava para contar sobre uma prova, uma discussão com a mãe ou qualquer coisa que, segundo ela, só o tio entenderia.
Na madrugada anterior, tinha perguntado se ela estava bem.
E aceitou o seu aceno.
— Não.
A palavra escapou baixa.
Maria levou uma das mãos à boca.
— Lívia a encontrou. Gabriel ajudou a socorrê-la, chamaram atendimento e ela foi levada para o hospital.
Adrian afastou a cadeira, mas não chegou a se levantar. Precisou apoiar os pés com firmeza no chão.
— Quando?
— Há cerca de duas semanas.
Ele ergueu os olhos.
— Duas semanas?
Maria assentiu, chorando em silêncio.
Duas semanas em que ele trabalhava, participava de reuniões e continuava vivendo sem saber que Elena estava num hospital.
— Por que ninguém me ligou?
A voz saiu mais alta do que pretendia, e Maria encolheu os ombros.
Adrian percebeu e fechou os olhos por um instante.
— Desculpe. Eu só… precisava saber.
— Eu queria contar. Gabriel também queria falar com você, mas Elena pediu que esperássemos. Ficava muito aflita só de imaginar que você soubesse.
— Por quê?
— Tinha vergonha.
Ele baixou o rosto.
Lembrou-se da sobrinha olhando para sua camisa, incapaz de responder por que não atendia às ligações.
“Eu não sabia o que dizer.”
Ela havia tentado lhe explicar. Ele estava ocupado demais fazendo perguntas para entender.
— Ela recebeu atendimento depois? Está sendo acompanhada?
— Está. Não ficou sem cuidado, Adrian. Depois da alta, quis passar um tempo com Lívia. Nós nos organizamos para ajudá-la.
Ele passou as mãos pelo rosto.
— Eu devia estar entre essas pessoas.
Maria se aproximou e tocou seu ombro.
Adrian continuou olhando para a mesa.
Não conseguia afastar a lembrança de Elena descendo as escadas para abraçá-lo, nem a maneira como seus dedos tinham se fechado ao redor de sua mão quando ele disse que iria embora.
Esteve tão perto de perdê-la sem sequer saber que ela precisava dele.
— A Lívia ficou com ela esse tempo todo?
— Desde que pôde voltar para casa. Gabriel ajuda, eu vou até lá… mas Lívia tem estado ao lado dela todos os dias.
A discussão na porta voltou com uma clareza dolorosa.
“Sei que ela sente sua falta.”
Adrian tinha enxergado insolência onde havia medo. A garota não o conhecia, não lhe devia delicadeza e, ainda assim, garantiu que cuidaria de sua sobrinha.
Enquanto isso, ele havia mandado que não se metesse.
— Como Elena estava ontem, antes de eu chegar?
— Melhor do que nos primeiros dias. Mas precisa de tempo, meu filho.
Ele assentiu lentamente.
O som de um carro o fez olhar para a janela.
Maria retirou a mão de seu ombro.
— Devem ser elas.
Adrian se levantou. Tinha imaginado tantas vezes o café daquela manhã, mas nenhuma das perguntas preparadas lhe servia agora.
Quando alcançou a sala, ouviu a chave na fechadura.
Elena entrou primeiro, com a bolsa sobre o ombro. Lívia vinha logo atrás, carregando uma pequena sacola.
— Tio?
Ele tentou responder, mas precisou engolir antes.
A sobrinha parou a poucos passos da porta e olhou de seu rosto para Maria, que acabava de sair da cozinha.
Sua expressão mudou.
— Ela contou.
Adrian se aproximou.
Elena apertou a alça da bolsa.
— Eu ia falar com você.
— Eu sei.
Ela baixou os olhos, e ele conteve a vontade de abraçá-la imediatamente.
— Posso?
Elena assentiu antes mesmo que ele terminasse de abrir os braços.
Adrian a puxou para junto de si e apoiou o rosto em seus cabelos.
Estava ali. Podia sentir sua respiração, o peso de seu corpo contra o dele, as mãos se firmando em suas costas.
Precisou se concentrar naquilo para não começar a falar do próprio medo.
— Desculpa, tio — ela sussurrou.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar para ela.
— Você não precisa me pedir desculpas por estar sofrendo.
As lágrimas chegaram aos olhos de Elena.
— Eu não queria que você…
Ela não terminou.
Adrian levou a mão ao seu rosto.
— Não precisamos conversar sobre tudo agora. Mas eu devia ter percebido que você precisava de mim.
— Você também estava triste.
A compreensão dela o atingiu com mais força que qualquer acusação.
— Estava. E fui embora sem entender como isso seria para você.
Elena limpou uma lágrima com as costas da mão.
— Vai ficar quanto tempo?
— Vou continuar aqui. Hoje, amanhã… e não vou embora antes de conversar com você sobre como vamos fazer as coisas.
Ela o observou, procurando alguma hesitação.
— Não quero que você fique só porque está com pena de mim.
— Eu quero ficar porque amo você. E porque sinto falta da nossa vida juntos.
Elena voltou a abraçá-lo.
Adrian fechou os olhos e a segurou até que ela mesma se afastasse.
Maria se aproximou com um lenço.
— Preparei o café, minha menina.
Elena aceitou, enxugando o rosto.
— Vou lavar as mãos.
Ela olhou para Lívia, que continuava junto à entrada.
— Você vai ficar?
— Preciso passar em casa, mas falo com você mais tarde.
A amiga assentiu e seguiu com Maria em direção à cozinha.
Só então Adrian conseguiu olhar de verdade para Lívia.
Ela usava jeans, uma blusa simples e os cabelos presos. A sacola continuava em sua mão, enquanto a outra já procurava a maçaneta.
Nenhuma provocação lhe ocorreu.
Tudo o que se lembrava era da voz dela dizendo que amava Elena e cuidaria dela.
— Lívia.
Ela parou.
Adrian se aproximou, mantendo a voz baixa.
— Não vá embora antes de falar comigo. Por favor.
“Depois de conhecer a boca dele, sentar ao seu lado exigia uma coragem diferente.”Lívia MoreauA porta se fechou depois da saída de Elena e Gabriel, e fiquei alguns segundos olhando para os lírios que tinha colocado num vaso.Adrian ainda estava perto da entrada quando me virei.— Você esqueceu de perguntar o tipo sanguíneo.Ele guardou o telefone no bolso e me encarou.— De quem?— Do Gabriel. Já conferiu a reserva, o endereço e o horário. Podia aproveitar e completar o cadastro.O canto de sua boca se moveu.
“Eu conhecia o cuidado dele. Naquela noite, descobri o desejo de ficar.”Elena CastelliGabriel demorou alguns instantes para responder. Seu sorriso deu lugar a uma expressão pensativa, e esperei, com os dedos ainda junto ao guardanapo.— Não sei dizer um dia exato.— Mas lembra de alguma coisa?Ele assentiu.— Lembro de uma tarde em que você foi à empresa, quando seu pai ainda estava vivo. Você tinha dezessete anos. Ficou na minha sala esperando por ele, e conversamos por quase uma hora.Sorri com a lembrança.
“Eu tinha passado o dia escolhendo o vestido. Quando ele chegou, esqueci até o que pretendia dizer.”Elena Castelli— Se você trocar de vestido outra vez, vou sair com Gabriel no seu lugar.Encontrei o olhar de Lívia pelo espelho.— Você disse que gostou mais do preto.— E gostei. Também gostei dele quando você vestiu pela primeira vez, há vinte minutos.Passei as mãos pela saia, tentando decidir se estava curta demais. O vestido terminava um pouco acima dos joelhos, tinha alças delicadas e um decote discreto. Eu gostava dele. Sempre gostei.
“Bastava ele me olhar para eu esquecer o cuidado que tinha prometido ter.”Livia MoreauEntramos na piscina pouco depois.Elena nadou até a outra borda, e acompanhei mais devagar, gostando da água fresca depois do calor. Ficamos apoiadas lado a lado, conversando sobre o restaurante que Gabriel escolheu e sobre o vestido que ela ainda não tinha decidido usar.Eu tentava convencê-la de que não precisava esvaziar o guarda-roupa quando ouvi a porta da varanda.Adrian saiu segurando uma xícara.A camisa estava aberta no colarinho, as mangas dobradas e o cabelo ainda levemente úmido. Ele parou perto da mesa, olhou para n&oacu
“Ela queria me contar sobre o primeiro beijo. Eu precisava tomar cuidado para não deixar escapar o meu.”Lívia MoureuElena esperou que eu me acomodasse na espreguiçadeira para anunciar:— Gabriel me beijou.Parei com a garrafa de água a meio caminho da boca e virei o rosto.Ela estava sentada na cadeira ao lado, com as pernas dobradas e um sorriso que tentava esconder desde que descemos para a piscina.— E você esperou até agora para me contar?— Ontem eu procurei você, mas tinha sumido.Baixei a garrafa.Eu tinha uma lembrança bastante precisa de onde estava.— Nos desencontramos. Depois, com todo mundo indo embora…— Eu sei. E você foi dormir cedo.Tinha me recolhido cedo, já dormir era outra história.Adormeci ainda excitada, lembrando a boca de Adrian, as mãos na minha cintura e tudo o que fiquei querendo depois que saí do escritório. Naquela manhã, as lembranças continuavam tão vivas que precisei me esforçar para sentar à mesa diante dele e responder a Maria sem perder o fio da
“Eu conhecia todos os motivos para parar. Mesmo assim, queria combinar quando aconteceria outra vez.”Adrian CastelliLívia olhou para os botões da minha camisa antes de erguer o rosto com um sorriso.— Você está me dando ideias, titio.Segurei sua mão antes que os dedos avançassem até o próximo botão.— Você já tem idéias demais.— E você parece gostar de algumas.Sorri, ainda segurando sua mão. Negar àquela altura seria ridículo, principalmente com a outra mão firme em sua cintura. Eu tinha acabado de beijá-la contra a estante do meu escritório, ainda sentia suas unhas na minha nuca e continuava segurando sua cintura, excitado demais para soltá-la. Minha vontade mesmo, era arrancar aquele biquíni e fazer ela gemer o meu nome por horas. Ela acompanhou meu olhar até sua boca.— Vai me mandar sair mesmo?— Estou tentando.Lívia soltou uma risada baixa, satisfeita demais com a dificuldade.Afastei-me o suficiente para deixá-la passar, mas ela permaneceu diante de mim, ajeitando a faix







