Início / Romance / A Mulher que Compraram para Salvar o Império / Capítulo 2 — A Verdade Mais Cruel

Compartilhar

Capítulo 2 — A Verdade Mais Cruel

Autor: Anis Valche
last update Data de publicação: 2026-06-12 20:55:29

Você era apenas a aposta.

As palavras de Serena atravessaram Alina como uma lâmina. Por alguns segundos, ela teve a impressão de que o salão inteiro havia desaparecido. Os aplausos, as conversas e até a música ao fundo se transformaram em um ruído distante.

Ela olhou para Gael.

Não para Serena. Não para a senhora que havia anunciado aquele noivado diante de toda a alta sociedade. Ela só conseguia olhar para o homem que passou sete anos dizendo que a amava.

— Diz que ela está mentindo.

A voz saiu baixa, quase quebrada.

Gael respirou fundo, mas não respondeu.

— Gael... olha para mim.

Ele finalmente ergueu os olhos. Havia culpa em seu rosto. Culpa e algo que Alina não conseguiu identificar.

— Alina, eu posso explicar.

Ela deu um passo para trás.

— Explicar o quê? Que essa mulher acabou de anunciar o noivado de vocês? Que a sua família inteira está comemorando? Ou que eu estou aqui, feito uma idiota, sem entender o que está acontecendo?

Os convidados começaram a cochichar. Alguns pegavam discretamente os celulares. Outros apenas observavam, interessados no espetáculo.

Serena cruzou os braços e sorriu.

— Eu avisei que seria melhor contar tudo antes da festa, Gael.

Alina virou-se para ela.

— Quem é você para decidir alguma coisa sobre a minha vida?

— Eu? — Serena respondeu com tranquilidade. — Eu sou a mulher com quem ele vai se casar no próximo mês.

Gael passou a mão pelo rosto.

— Serena, chega.

— Chega? Ela merece saber. Ou você pretende continuar enganando essa coitada?

A palavra coitada fez o sangue de Alina ferver.

Ela sempre suportou o desprezo da família Armani. As indiretas sobre suas roupas simples, o trabalho modesto, o apartamento pequeno onde vivia com a avó. Tudo isso porque acreditava que, no fim, o amor dela e de Gael seria suficiente.

Agora, olhando ao redor, ela percebeu uma verdade dolorosa.

Ninguém naquele salão parecia surpreso.

Era como se todos soubessem de algo que ela desconhecia.

Ela procurou algum rosto amigável. Algum dos amigos de Gael que haviam jantado em sua casa, que elogiaram a comida feita por dona Ester, que brindaram ao futuro casamento do casal.

Todos desviaram o olhar.

Seu coração afundou.

— Eles sabiam?

Gael tentou se aproximar.

— Alina...

— Eles sabiam? — ela repetiu, agora mais alto.

O silêncio foi a única resposta.

Ela começou a balançar a cabeça negativamente.

— Não... não... isso não pode ser verdade.

Então ouviu uma risada baixa.

Dois jovens, próximos ao bar, comentavam entre si.

— Achei que ela descobriria antes.

— Eu também. Sete anos é muito tempo para sustentar uma aposta.

A palavra voltou a ecoar em sua mente.

Aposta.

Ela caminhou até eles.

— O que vocês disseram?

Os dois se entreolharam, constrangidos.

— Não foi nada.

— Eu ouvi muito bem. O que vocês quiseram dizer com "sustentar uma aposta"?

Antes que respondessem, uma voz firme interrompeu:

— Já chega.

A senhora Donatella Armani desceu o último degrau da escadaria e se aproximou. Apesar da idade avançada, carregava uma postura imponente. O vestido preto e as joias discretas a faziam parecer ainda mais poderosa.

Ela encarou Alina com frieza.

— Esta não é a hora nem o lugar para escândalos.

Alina riu, mas havia desespero naquele riso.

— Escândalo? A senhora anuncia o noivado do meu namorado com outra mulher na minha frente e eu é que estou fazendo escândalo?

Donatella não se abalou.

— Você sabia que existiam diferenças entre o seu mundo e o nosso.

— Não. Eu sabia que existiam pessoas arrogantes. Nunca imaginei que fossem tão cruéis.

Serena aproximou-se de Gael e segurou seu braço.

— Acho melhor ela ir embora.

Alina observou aquele gesto e sentiu um aperto no peito.

Quantas vezes aquela mulher havia tocado nele daquele jeito?

Quantas mentiras ela ouviu durante aqueles sete anos?

Ela voltou a encarar Gael.

— Você me amava?

Ele demorou para responder.

E aquele pequeno atraso destruiu qualquer esperança que ainda existia.

— Eu me importo com você.

— Não foi isso que eu perguntei.

— Alina...

— Você me amava?

Gael fechou os olhos por um instante.

— Sim... mas as coisas mudaram.

Ela sentiu vontade de rir.

Sete anos.

Sete anos dividindo sonhos, planejando uma casa, escolhendo móveis pela internet, guardando dinheiro para a lua de mel.

Sete anos ajudando Gael quando ele decidiu abrir uma nova divisão na empresa da família. Ela passou madrugadas revisando apresentações, traduzindo documentos, acompanhando reuniões online quando ele estava cansado demais para continuar.

E, enquanto fazia tudo isso, era apenas uma peça em um jogo.

— Então me conta — ela disse, com a voz surpreendentemente calma. — Quando exatamente você decidiu me trocar?

Serena respondeu antes dele.

— Ele nunca trocou você. Porque você nunca ocupou o meu lugar.

Gael apertou a mão dela, tentando fazê-la parar.

Mas Serena parecia se divertir.

— O casamento entre nossas famílias foi decidido há muitos anos. Eu estava estudando fora e precisávamos evitar a pressão da imprensa. Então os Armani tiveram uma ideia brilhante.

Alina sentiu o corpo inteiro gelar.

— Que ideia?

Serena sorriu.

— Encontrar uma garota comum. Alguém sem influência, sem sobrenome importante... alguém que aceitasse qualquer demonstração de carinho e nunca desconfiasse de nada.

As lágrimas finalmente escorreram pelo rosto de Alina.

Ela não tentou escondê-las.

Olhou para Gael mais uma vez.

— Isso é verdade?

Ele permaneceu em silêncio.

E aquele silêncio valeu mais do que qualquer confissão.

— Responde! — ela gritou. — Eu fui escolhida por causa disso?

Gael passou a mão pelos cabelos.

— No começo... foi uma decisão da família.

— E você aceitou?

— Eu era jovem. Não queria me casar com alguém que nunca tinha visto. Disseram que seria temporário.

— Então você me encontrou... e decidiu brincar com a minha vida?

— Não foi assim!

Pela primeira vez desde que chegou à mansão, a máscara de homem perfeito caiu.

— Eu não planejei me apaixonar por você!

Alina o encarou, incrédula.

— Você chama isso de amor?

Gael tentou segurá-la pelo braço, mas ela se afastou.

— Não toca em mim.

Ele parou imediatamente.

— Alina, me escuta. Eu tentei acabar com esse acordo. Eu enfrentei minha família.

Donatella deu um passo à frente.

— E perdeu.

O salão inteiro ficou em silêncio.

A matriarca olhou para o neto e falou sem qualquer emoção.

— Você sabia quais eram suas responsabilidades. Um Armani não vive para si mesmo. Vive pela família.

Alina enxugou as lágrimas.

— Então era isso? Eu era só uma distração conveniente?

Donatella não respondeu diretamente.

— Você foi bem recompensada ao longo desses anos. Meu neto nunca deixou que lhe faltasse nada.

Aquilo foi a pior ofensa de todas.

Alina tirou lentamente do dedo o pequeno anel de compromisso que usava havia três anos.

Um anel simples. Ela mesma havia insistido para que fosse assim, porque queria construir o futuro ao lado de Gael sem depender do dinheiro dos Armani.

Ela estendeu a mão e colocou o anel sobre a bandeja de prata que um garçom carregava.

— Fique tranquila, senhora Armani. Eu nunca quis nada da sua família.

Gael sentiu o coração apertar.

— Alina, não faz isso.

Ela sorriu, mas não havia alegria naquele gesto.

— Você sabe do que eu mais me arrependo?

Ele deu um passo em sua direção.

— Me deixa explicar.

— Eu me arrependo de ter defendido você. De ter brigado com a minha avó porque ela dizia que ninguém daquela família me aceitaria. Eu me arrependo de cada aniversário que você perdeu dizendo que estava trabalhando. De cada lágrima que derramei achando que um dia eles mudariam.

Ela olhou para Serena.

— E me arrependo de ter sentido pena de você quando ouvi dizer que existia uma mulher esperando o homem que amava voltar.

Serena perdeu o sorriso por um instante.

Alina respirou fundo.

— No fim, a única pessoa que merecia pena era eu.

Sem esperar resposta, virou-se e caminhou em direção à saída.

— Alina! — Gael gritou.

Ela não parou.

Atrás dela, a voz firme de Donatella ecoou pelo salão:

— Se você sair por aquela porta, nunca mais voltará a fazer parte desta família.

Alina parou por um segundo.

Então respondeu, sem sequer olhar para trás:

— Eu nunca fiz parte dela.

Ela atravessou a entrada principal sob o brilho dos flashes dos fotógrafos, que, atraídos pela movimentação, já se acumulavam do lado de fora da mansão.

Um deles gritou:

— Senhorita! É verdade que o senhor Gael Armani vai se casar com a herdeira dos Bastos?

Outro completou:

— A senhorita era amante dele?

Alina sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

Antes que pudesse reagir, ouviu passos apressados atrás de si.

Gael havia saído da mansão.

— Alina! Espera!

Ela virou lentamente.

As lágrimas ainda molhavam seu rosto, mas seus olhos já não carregavam a mesma mulher que entrou naquela festa.

— Acabou, Gael.

— Não acaba assim. Eu ainda posso resolver tudo.

Ela balançou a cabeça.

— Você não entendeu, não é?

— O quê?

Alina olhou para a enorme mansão iluminada atrás dele, para os jornalistas, para Serena observando da porta principal e para a família Armani inteira assistindo à cena.

Então encarou o homem que destruiu sete anos da sua vida.

— O problema não é que você escolheu outra mulher.

A voz dela saiu baixa, firme e dolorosamente tranquila.

— O problema é que você nunca me escolheu.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A Mulher que Compraram para Salvar o Império   Capítulo 175 — A Pessoa Que Estava Entre Nós

    O investigador recebeu a informação pelo rádio e fechou a porta da sala administrativa.— Ninguém sai daqui até confirmarmos quem ainda está na propriedade.Caetano se aproximou.— Daniel está bem?— Está consciente. A equipe médica está examinando um ferimento na cabeça e escoriações no braço. Ele afirma que foi agredido perto da passagem de serviço.Alina apertou a mão do marido.— Ele disse quem o atacou?— Ainda não temos um depoimento formal. Mas mencionou um nome.O investigador consultou o telefone.— Sérgio Bastos.Caetano franziu a testa.— Não conheço ninguém com esse nome.Júlia, que permanecia ao lado da mesa, empalideceu.— Eu conheço.Todos olharam para ela.— Sérgio é o coordenador operacional contratado para supervisionar os fornecedores do casamento.Alina sentiu o estômago contrair.— Ele estava aqui durante toda a cerimônia?Júlia assentiu.— Desde ontem. Foi responsável pela montagem, pela distribuição das credenciais e pela conferência das equipes.Caetano olhou p

  • A Mulher que Compraram para Salvar o Império   Capítulo 174 — Antes Que a Noite Termine

    Alina ainda estava nos braços de Caetano quando alguém bateu à porta da suíte.Três batidas rápidas.Depois, silêncio.Caetano afastou-se ligeiramente.— Deve ser algum funcionário.Alina olhou para o relógio.Passava da meia-noite e meia.— A essa hora?Antes que ele respondesse, ouviram outra sequência de batidas.— Senhor Armani? É Júlia, a organizadora. Preciso falar com vocês. É urgente.Caetano pegou o paletó e abriu a porta.Júlia estava pálida.— Desculpem interromper, mas tivemos um problema sério.Alina se aproximou.— O que aconteceu?A organizadora segurava um tablet.— O sistema de armazenamento da equipe de fotografia recebeu uma solicitação de acesso externo. Alguém tentou baixar os arquivos da cerimônia usando uma credencial temporária.Caetano franziu a testa.— A equipe de Gustavo Leal não foi impedida de entrar?— Foi. Mas a credencial utilizada pertence a um fornecedor que estava autorizado a trabalhar no evento.Alina sentiu o estômago contrair.— Conseguiram aces

  • A Mulher que Compraram para Salvar o Império   Capítulo 173 — O Convidado Que Não Deveria Estar Ali

    Faltavam vinte minutos para Alina entrar na cerimônia quando Helena apareceu à porta do quarto.O vestido já estava ajustado. A maquiagem estava pronta, e Teresa acabara de prender o pequeno broche de pérola na parte interna do buquê, onde apenas Alina poderia vê-lo.Helena, porém, não sorria.— Filha, precisamos conversar.Alina percebeu imediatamente.— O que aconteceu?A mãe fechou a porta.— Há um homem na entrada da propriedade dizendo que foi convidado por Alberto Armani.Alina franziu a testa.— Quem?Helena hesitou.— Gustavo Leal.O nome fez Alina apertar o buquê.Era o consultor de comunicação que havia recebido de Bianca Ferraz a fotografia do pedido de casamento e a repassado ao perfil de notícias.— O que ele está fazendo aqui?— Disse que foi contratado para registrar a cerimônia e preparar um comunicado para a imprensa.Alina ficou alguns segundos sem responder.— Nós não contratamos ninguém para isso.— Eu sei.Ela colocou o buquê sobre a penteadeira.— Caetano sabe?H

  • A Mulher que Compraram para Salvar o Império   Capítulo 172 — O Presente Que Ela Deixou

    Caetano permaneceu diante da porta do apartamento de Alberto por alguns segundos antes de tocar a campainha.Alina percebeu sua hesitação.— Está nervoso?Ele olhou para ela.— Um pouco.— Por causa do objeto?Caetano assentiu.— Meu pai disse que encontrou algo da minha mãe que gostaria que eu usasse no casamento. Não consigo imaginar o que seja.Alina segurou sua mão.— Não precisamos decidir nada hoje.Ele sorriu.— Eu sei.A porta se abriu.Alberto apareceu com uma expressão acolhedora.— Entrem. Estava esperando vocês.A sala estava iluminada pela luz da manhã. Sobre a mesa de centro havia uma caixa comprida, de madeira escura, que Caetano reconheceu imediatamente.Era uma das caixas utilizadas pela mãe para guardar objetos pessoais.Ele parou.— Onde encontrou isso?Alberto acompanhou seu olhar.— No armário do antigo quarto dela. Estava dentro de uma mala que mandei trazer da casa de campo.Caetano se aproximou lentamente.— Achei que aquela mala tivesse sido esvaziada há muito

  • A Mulher que Compraram para Salvar o Império   Capítulo 171 — A Data Que Escolhemos

    Alina acordou com o som de chuva contra as janelas.Ainda estava deitada quando percebeu que Caetano não se encontrava ao seu lado. O travesseiro dele estava vazio, e a porta do quarto permanecia entreaberta.Olhou para o anel em seu dedo e sorriu.Estava noiva.A palavra ainda provocava uma sensação agradável, quase difícil de explicar. Não se tratava apenas da promessa de casamento, mas da certeza de que aquela decisão havia nascido de uma escolha livre.Levantou-se, vestiu um robe e desceu.Encontrou Caetano na biblioteca, diante de um calendário aberto sobre a mesa.— Está planejando uma aquisição? — perguntou.Ele ergueu o rosto.— Algo consideravelmente mais importante.Alina se aproximou e observou as anotações.— Nosso casamento?— Nosso casamento.Ela passou os braços ao redor de seu pescoço.— Você acordou cedo para escolher uma data?— Acordei cedo porque fiquei pensando no que você disse ontem.— Sobre decidirmos juntos?Caetano assentiu.— E percebi que, se deixarmos noss

  • A Mulher que Compraram para Salvar o Império   Capítulo 170 — O Preço de Um Sobrenome

    Alina ainda estava admirando o anel de noivado quando o telefone começou a tocar.Era Helena.— Minha filha, você tem alguma coisa para me contar?Alina olhou para Caetano, que estava preparando café na cozinha.— Talvez.Helena soltou uma exclamação.— Teresa disse que viu uma fotografia sua usando um anel!Alina ficou imóvel.— Que fotografia?— Uma imagem publicada há poucos minutos em um perfil de notícias da cidade. Você e Caetano aparecem no jardim da casa. Ele está ajoelhado diante de você.O sorriso desapareceu do rosto de Alina.— Mãe, nós não publicamos nenhuma fotografia.Caetano percebeu imediatamente a mudança em sua expressão.Aproximou-se.— O que aconteceu?Alina colocou a ligação no viva-voz.Helena repetiu a informação.Caetano pegou o telefone e abriu o perfil indicado.A fotografia estava ali.Mostrava exatamente o momento em que ele havia colocado o anel no dedo de Alina.A imagem fora registrada de longe, aparentemente da rua, através de uma abertura entre as árv

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status