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Maria Clara
Tinha acabado de pedir demissão no meu antigo trabalho de secretária executiva.
Não estava recompensando trabalhar mais de 12 horas na frente do computador para ganhar um salário que nem dava para pagar um aluguel, uma luz, o gás e muito menos colocado ainda dentro de casa, sendo que eu amo beber café e se o café está mais de R$ 40 e mesmo assim quando estava em casa era para descansar, quer dizer, tentar por que o meu chefe me ligava na minha folga que precisa de mim e depois ia me recompensar.
Otária acreditava nas mentiras. Teve um dia que decidir que não aguento mais e o idiota do meu chefe pelo o que ele paga gente da minha raça não ia encontrar. O filho da puta disse “raça”. Subiu um ódio, mandei o dedo do meio e mandei ele pro inferno, depois fui pro RH pedir as contas.
Tive que voltar para casa da minha mãe cheia de vergonha porque por telefone falava que estava no melhor trabalho e eu estava muito bem, só que na verdade estava mentindo para ela. Estava no emprego que não é da minha área assistente de diretoria sênior.
Que o desgraçado do meu chefe ainda tinha dito que a vaga já estava preenchida só que descobri pelas fofocas entre os meus colegas que na verdade ele não ia contratar uma negra para esse cargo que não pegaria bem para empresa então contratou um homem branco para fazer isso, por esse motivo que não estava mais aguentando trabalhar lá ficava mais trabalhando na empresa do que cuidando da minha saúde e descansando em casa eu nem tinha tempo como para visitar a minha mãe que ralou muito para eu fazer uma faculdade e ainda de nível superior para eu fazer isso com ela não era justo.
Faz três meses que estou aqui com a minha mãe ela trabalhando como diarista para colocar comida dentro de casa e eu aqui desempregada, com profissão que escolhi e não consigo trabalho não pela experiência mas pela minha cor e ainda por cima meu chefe queimou o meu currículo em outras empresas de grande porte aqui em São Paulo achei que não tinha mais solução mais nada até que vi essa proposta de um trabalho em Dubai que um shake estava oferecendo uma amiga da minha mãe que trabalha como faxineira numa dessas empresas desse jeito que tem aqui em São Paulo falou dessa vaga.
Logo que soube do trabalho imediatamente preparei meu currículo e mandei para o e-mail não nem demorou , em menos de uma semana que eu recebi a resposta da vaga, a entrevista foi por vídeo. Claro que no começo achei estranho, mas fiz assim mesmo. Falei com uma mulher que se chamava Samira que fez as perguntas lá sobre o meu currículo e que gostou, mas notei que quase não olhou para mim, não sei porque, mas falou que depois ia retornar com a resposta.
Em dois dias, isso mesmo, mandou a resposta o Sheik Ahmed não sei o que, é difícil falar isso. Que ele gostou do meu currículo e falou para vir para Dubai para trabalhar, que era para preparar a mala, o passaporte e que o visto ele ia resolver. Contei para minha mãe que ficou feliz por essa conquista, mas também ficou triste por está indo longe. Expliquei que é uma grande oportunidade, assim mostro para o babaca e racista do meu chefe. Vai ser ótimo.
No meu quarto, um arrepio percorreu minha espinha antes mesmo de fechar a mala. Dobrava minhas camisas de seda, tão modestas comparadas aos ternos que vira nas vitrines da Al-Rashid Holdings, e uma mistura de euforia e pavor tomava conta de mim. Pela primeira vez, viajaria para fora do Brasil por conta própria, sem a segurança da minha família em São Paulo. Apenas meu passaporte recém-adquirido e a promessa de um salário que poderia mudar meu destino para sempre.
Um bilhete só de ida para um mundo que eu mal ousava sonhar. A vertigem de aceitar isso percorreu meu corpo como um tremor. Mas era de felicidade. É um sonho esse lugar e trabalhar lá, vai ser um máximo
— Você vai mesmo? — perguntou Valéria, minha amiga de faculdade, quando liguei para compartilhar a notícia.
— Eu… não sei — respondi, segurando a voz para não traí-la em tremores. — Tudo aconteceu muito rápido. Mas é agora ou nunca.
Ela suspirou do outro lado da linha.
— Você merece, Clara. Só quero ver você feliz.
Aquela benção simples me estremeceu. Fechei o notebook e passei a noite inteira pensando em como seria atravessar o deserto, adentrar num palácio de vidro e aço, servir ao homem mais poderoso do Oriente Médio. No dia seguinte, acordei cedo, tomei café preto e compareci ao escritório para fechar os últimos detalhes.
No saguão iluminado pela luz branca dos refletores, a recepcionista sorriu de forma ensaiada.
— Senhora Santos, a diretora de RH vai acompanhá-la até a sala de conferências.
— Obrigada — respondi, ainda segurando a pasta com o contrato.O luxo sutil preenchia a sala: poltronas de couro marrom-escuro, uma mesa de madeira clara e, ao fundo, a janela revelava o céu azul-claro de Dubai. Ao tocar a caneta fina que minha supervisora me entregava, o frio do metal me transportou para as areias do deserto, que sabia estarem além do prédio.
— Bem-vinda à Al-Rashid Holdings, Maria Clara — disse ela, com voz neutra. — Por favor, assine aqui.
Minhas palavras falharam por um momento. Coloquei a assinatura com um traço hesitante, como se cada letra zarpasse para um mundo novo. Após o “clique” do carimbo eletrônico, recebi o bilhete de embarque e o endereço do meu novo apartamento numa das ilhas artificiais. Senti o coração martelar e uma pontada de saudade apertar minha garganta.
O corredor seguinte foi um túnel de portas fechadas e corredores silenciosos. Foi só quando toquei o botão do elevador que percebi: a contagem regressiva começara. Cada segundo ali me levava mais longe de tudo o que conhecia.
No aeroporto, à espera do voo da meia-noite, entreguei minha mochila pesada a um funcionário. Observava a fila de passageiros através do vidro, enquanto os fones de ouvido tentavam abafar o silêncio que me engolia. A voz embargada do meu irmão, Walter, na última ligação, dizendo que a mãe sentiria minha falta, ainda ressoava em mim como um soco no estômago.
Subi na aeronave sob as luzes frias do embarque. O corredor estreito exibia poltronas de couro bege, prometendo um breve refúgio antes do choque cultural. Quando me sentei, a comissária passou com o carrinho de boas-vindas e ofereceu suco de romã e tâmaras. Um gesto exótico e elegante, que me fez antecipar o que me aguardava.
— Senhorita Santos, bem-vinda a bordo — disse ela, inclinando levemente a cabeça.
A aeronave decolou suavemente, mas, para mim, foi como um salto no escuro. Enquanto o avião subia, olhei para o alto-falante, de onde a lista de procedimentos de segurança ressoava em inglês e árabe. Fechei os olhos e respirei fundo, como se cada inspiração pudesse me preparar para o que estava por vir.
Do outro lado do mundo, não era mais apenas Maria Clara, a jovem secretária executiva de uma empresa de advocacia do centro de São Paulo. Eu me tornava assistente de diretoria sênior de um Império de Vidro e Areia. A máscara de mulher confiante estava pronta, mas meu coração ainda latejava em cadência acelerada, sem saber se aquele convite às areias seria minha salvação…
Maria ClaraA dor veio antes da luz.Uma fisgada quente no ombro me arrancou do torpor. Os olhos pesavam, mas as lembranças eram mais pesadas ainda. O disparo. O sangue. O corpo de Ahmed atrás de mim. E eu… me jogando.Por quê?Tentei me mexer, mas o movimento arrancou um gemido. Estava deitada em uma cama macia, lençóis que cheiravam a jasmim e desespero contido. O teto era alto, esculpido com arabescos dourados. Um silêncio absoluto envolvia o quarto, como se o mundo estivesse em espera.Até que ouvi. A respiração dele.Virei devagar a cabeça. Ahmed estava ali, sentado ao lado, ainda vestido, as mangas da camisa arregaçadas, os olhos fixos em mim como se estivesse vendo um fantasma.— Clara… — a voz dele saiu rouca, falhada. — Você acordou.Tentei sorrir, mas a dor não deixou.— É... parece que não sou tão fácil de matar assim.Ele segurou minha mão. Aquilo, vindo de Ahmed, foi mais chocante que o tiro.— Você se jogou na frente — ele sussurrou.— E você ainda parece surpreso.Ele o
AhmedA noite caiu sobre Dubai com um silêncio inquietante. O tipo de silêncio que precede a tempestade, que sussurra advertências entre as colunas de mármore e os arcos dourados do palácio.Estávamos no salão de recepções. Meu pai havia convocado aliados para uma noite formal, nada além de política. Maria Clara estava ao meu lado — como sempre, elegante, discreta, observadora. Os olhos dela varriam o ambiente com uma vigilância instintiva que sempre admirei, mesmo quando fingia não notar.— Não confie nos sorrisos de Khalid — ela murmurou, sem tirar os olhos dele.Antes que eu pudesse responder, as luzes piscaram.Depois, o som seco de metal cortando o ar. E então, caos.Um dos vitrais explodiu. Homens encapuzados entraram com armas automáticas, gritando ordens em árabe. Os convidados se dispersaram em gritos abafados, alguns caíram, outros correram. O cheiro de pólvora misturado com perfume e medo dominou tudo.Alvo. Eles vieram por mim.Meu instinto foi me mover, buscar proteção, c
AhmedHá guerras que acontecem fora de nós — entre homens, interesses, contratos e alianças. Mas há uma que ninguém vê, e essa… é a mais cruel: a guerra dentro da própria alma.Desde a chegada de Maria Clara, tenho enfrentado uma batalha constante. Nos últimos tempos, essa batalha tem sido vencida por ela.Era madrugada. A cidade adormecia sob as estrelas do deserto, mas eu não conseguia. As paredes do meu quarto pareciam estreitas demais para tudo que me corroía por dentro. Caminhei até a varanda. O vento quente batia no rosto como um tapa lento, e mesmo ali, cercado de ouro, silêncio e poder… me sentia vazio.Olhei para minhas mãos. Tantas vezes elas impuseram controle. Assinaram ordens, dirigiram impérios, traçaram destinos. Mas nenhuma ordem que eu desse a mim mesmo funcionava quando se tratava dela.Maria Clara.O nome queimava nos meus pensamentos como brasas sob a pele. E o que era para ser um jogo de dominação e obediência — seguro, calculado — tinha virado um abismo emocional
Maria ClaraAs correntes não estavam em meus pulsos. Estavam na alma. Invisíveis, pesadas, apertando devagar até eu quase esquecer como era respirar sem medo. Cada elo forjado no desespero de um futuro incerto, uma promessa desfeita, uma vida que não me pertencia mais. A cada inspiração, sentia o peso daquela opressão, um nó que se apertava, roubando-me o ar e a esperança. Eu era prisioneira não de grades visíveis, mas de um destino que me foi imposto, um véu de incerteza que cobria meu olhar, e um silêncio que me sufocava, impedindo-me de gritar contra a injustiça que me aprisionava.Fazia dois dias que Ahmed não falava comigo. Desde que, durante uma de nossas intimidades, eu disse não. Não à ordem. Não ao comando seco. Não à posição que ele determinou como “meu lugar”.— Você é minha — ele havia rosnado. — E aqui, isso tem um significado.Mas eu me recusei a me curvar. Não sou submissa, e nunca seria. Nem no prazer, nem fora dele, minha vontade se dobra. Minha voz é minha, ecoand
AhmedNo mundo dos grandes impérios, confiança não é um presente — é uma moeda cara. E Maria Clara, por mais que eu tentasse negar, havia se tornado a única pessoa que eu já desejei confiar... e talvez a única que poderia me destruir.O complô de Khalid ainda fervia sob minha pele. As palavras do meu pai, os olhares venenosos, os cochichos no Conselho. Todos queriam que eu caísse. Todos sorriam com os dentes afiados, esperando a hora certa para morder.E é por isso que precisei incluí-la.— Você quer jogar comigo? — perguntei a ela, naquela noite em meu escritório. As luzes estavam baixas, e o vento do deserto assobiava contra as janelas de vidro blindado. — Então entre no jogo por completo.Maria Clara me olhou, desconfiada, mas firme.— Do que está falando?— Khalid tem contatos no Consórcio do Norte. Aqueles que deveriam assinar os acordos com nossa holding. — Peguei um tablet e o entreguei a ela. — Alguém está vazando informações confidenciais do meu setor interno para essas empre
Maria ClaraA verdade, às vezes, se revela nos momentos mais silenciosos. E naquele final de tarde abafado, entre cortinas semiabertas e sussurros em árabe apressado, eu ouvi tudo.Estava atravessando o corredor que levava à biblioteca, os passos leves para não atrapalhar a reunião que Ahmed havia dito ser “apenas política”. Mas a porta entreaberta me chamou a atenção. E a voz que ecoava lá dentro… não era dele.— Ele se perdeu — disse alguém, a voz seca, carregada de desdém. — Desde que trouxe essa mulher, esqueceu de quem é. Está cego por um capricho passageiro.Parei.— O império deve ter um líder que honre o sangue árabe, e não alguém que se curva a uma estrangeira negra, ocidental, de língua solta e pele suja.Senti o estômago revirar. Era Khalid. O primo de Ahmed. Um homem que se fazia cortês na frente dele, mas sempre me lançava olhares de desprezo velado. Agora, ele deixava o veneno escorrer livremente.— Se o Conselho souber que Ahmed perdeu o foco, que deixou a lógica dos ne







