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Finalmente. Grande dia do meu casamento. Não pensei que ficaria contente, mas como o meu pai sempre fala, os negócios em primeiro lugar. É isso que esse casamento é. Um negócio. Observei Maria Clara caminhar até mim no corredor da cerimônia, o vestido branco colado ao corpo como uma segunda pele de renda delicada. Atrás dela, meus pais erguiam sobrancelhas carregadas de reprovação: meu pai, o Sheik Rashid, com a túnica perfeitamente passada, e minha mãe, Amina, segurando discretamente o leque de madrepérola, o olhar pétreo fixo nos traços negros da noiva.
Assim que o imã al‐Aziz recitou as fórmulas sagradas, segurei a mão dela e declarei nosso pacto: “Eu, Ahmed al‐Rashid, aceito Maria Clara Santos como minha legítima esposa, por um ano, para honrar o nome da família e consolidar nossa aliança.” A multidão de embaixadores e nobres aplaudiu, mas meus pais permaneceram em silêncio.
– Ela não é de nossa linhagem – murmurou meu pai, a voz grave ecoando entre as colunas douradas.
– Não faz parte dos nossos costumes – repetiu minha mãe, a ponta do leque, tapando os lábios.Vi o rubor subir ao rosto de Maria Clara, mas mantive meus ombros eretos, como um muro de pedra. Caminhei até ela, afastei o véu de seda e, em voz baixa, declarei:
– A partir de hoje, você é minha esposa. Pode não ser dos nossos costumes, mas é meu desejo – fiz uma pausa, meu olhar cravado no dela. – E aqui, desejo é lei.Após as bênçãos finais, acompanhei-a ao pátio interno. Ali, tapetes persas sobre o mármore espelhavam a luz dos candelabros, enquanto o vento do deserto trazia perfumes de jasmim e incenso. Ao tocar sua cintura, senti um tremor contido sob o tecido.
— Minha esposa — repeti, em tom baixo e autoritário. — Esta noite, você aprenderá seus deveres.
Os criados levaram‐nos a uma suíte nupcial rodeada por cortinas de veludo bordado em fios de ouro. A cama, macia como nuvem de algodão, estava coberta por lençóis de seda cor de marfim. Toquei o tecido com a ponta dos dedos e sorri.
– Toque de seda – sussurrei. – Desejo que cada toque me pertença.
Maria Clara ergueu os olhos, a mente ainda presa no choque da cerimônia.
– Ahmed, eu… – ela tentou argumentar.Mas a interrompi: incline‐i‐me até sentir o calor da respiração dela contra os meus lábios.
– Não há “mas”. Aqui, minhas ordens são claras: você obedece.Um arrepio percorreu sua pele escura. Seu semblante pareceu em choque. Eu senti o ritmo acelerado de seu coração. Puxei‐a suavemente, sentando‐a à beira da cama, e comecei a lhe impor as regras.
— Ao entrar neste quarto, você foi admitida no meu círculo privado. Suas roupas serão descartadas. – Passei as mãos pelos botões do vestido, um a um, expondo a pele delicada de seus ombros. – Você atenderá aos meus chamados sem questionar.
Ela fechou os olhos, os lábios entreabertos, dividida entre o receio e a curiosidade. Ela tentou não querer, mas seus olhos mostraram interesse. Segurei o queixo dela com delicadeza cruel.
– Quando eu disser “jure”, você se ajoelhará e repetirá minhas palavras. Compreendeu?– Sim, Sheik – murmurou, a voz trêmula. Finalmente assentiu.
Levantei‐a e conduzi‐a até o centro do quarto. As velas lançavam sombras dançantes nas paredes revestidas de mosaicos.
– Jure sua obediência e lealdade – ordenei.Ela fechou as mãos em punho, sacudiu a cabeça como se negasse, mas a luz da lua invadindo a janela refletiu em seus olhos molhados. Então ela falou, com remorso e determinação:
— Eu juro obedecer.Um sorriso frio se formou em meus lábios. Afastei‐a com a ponta do chicote de seda que carregava no bolso interno do robe. O objeto deslizou pela pele dela, provocando um estalo suave e um arrepio de prazer no pescoço.
– Você sentiu? – perguntei, com voz grave. – Essa é a primeira lição: dor e prazer se misturam no toque do dom.Maria Clara arfou, a respiração acelerada, a pele tingida de rubor.
– Sim… Ahmed.Encostei o chicote naquele ponto pulsante da nuca dela e fechei o círculo:
— Então aprenda a amar as minhas ordens. Hoje você é minha esposa E na primeira noite de nossa lua de mel, será minha submissa.Observei a batalha entre medo e desejo em seus olhos, sentindo meu poder inflamar como uma chama viva. A noite apenas começava, e eu já dominava completamente.
Ahmed Eu sempre acreditei que a traição mais dolorosa vinha de alguém em quem depositamos confiança demais.Naquela manhã, descobri que estava enganado.A pior traição era aquela que nos obrigava a questionar tudo o que acreditávamos saber sobre nossa própria família.Estava no escritório, analisando os documentos que Maria Clara havia encontrado sobre a empresa ligada a Tarik, quando Khaled, meu diretor financeiro, entrou acompanhado de Roberto, o chefe da segurança.A expressão dos dois não me agradou.— O que aconteceu? — perguntei, fechando a pasta.Roberto colocou um tablet sobre minha mesa.— Identificamos quem forneceu parte das informações estratégicas utilizadas no vazamento. É um funcionário antigo, com acesso aos relatórios financeiros e aos contratos confidenciais.Olhei para a tela.O nome fez meu estômago se contrair.Nabil Farouk.Ele trabalhava com nossa família havia anos. Meu pai confiava nele, e eu me lembrava de tê-lo visto em inúmeras reuniões ao lado de Hassan.
Maria Clara Havia dias em que eu desejava fechar os olhos e fingir que minha vida ainda era simples.Sentar no chão do quarto com Yasmin, ouvir suas histórias intermináveis e sentir Amir agarrar meu dedo com aquelas mãozinhas pequenas. Ser apenas mãe, esposa e mulher. Sem investidores desconfiados, ameaças escondidas em envelopes ou a sensação de que alguém estava esperando o momento certo para destruir tudo o que construímos.Mas a vida não me oferecia essa escolha.Enquanto Ahmed tentava descobrir quem estava por trás das irregularidades financeiras do Grupo Al-Rashid, os negócios continuavam sangrando. Um importante projeto de energia solar corria o risco de perder seus investidores, e a equipe responsável pela negociação já não conseguia responder às dúvidas do consórcio.Foi então que decidi assumir a reunião.— Você não precisa provar nada a ninguém, Clara — Ahmed me disse naquela manhã, enquanto eu terminava de me arrumar.Ele estava exausto. As noites mal dormidas haviam marc
Tarik O medo era uma ferramenta extraordinária.Eu aprendera que homens poderosos podiam enfrentar ameaças, resistir a chantagens e até sobreviver a escândalos públicos. Mas bastava colocar uma dúvida no lugar certo para transformar aliados em inimigos e conselheiros em juízes.Ahmed Al-Rashid acreditava que seu sobrenome o protegeria de qualquer ataque. Acreditava que sua posição como presidente do grupo empresarial lhe garantiria respeito e que os anos de trabalho ao lado do pai seriam suficientes para manter todos os diretores ao seu lado.Que pena.Naquela manhã, eu pretendia ensinar ao meu primo uma lição que ele jamais esqueceria.— Os documentos estão prontos? — perguntei, ajeitando os punhos da camisa diante do espelho do meu escritório.Faris, parado perto da porta, segurava uma pasta de couro.— Estão. Conseguimos reunir registros de movimentações financeiras, autorizações internas e correspondências que sugerem irregularidades em algumas operações aprovadas pela presidênci
Ahmed Eu estava acostumado a carregar o peso de um império sobre os ombros.Desde a morte de meu pai, cada decisão parecia ter consequências maiores do que eu poderia prever. Os negócios exigiam minha atenção, os conselheiros questionavam meus movimentos e Tarik continuava se infiltrando nas brechas que encontrava dentro da nossa família.Mas nada disso se comparava ao medo que sentia quando olhava para Maria Clara e percebia que, pouco a pouco, aquela guerra começava a atingir a mulher que eu amava.Ela estava sentada na varanda do nosso quarto, com o celular nas mãos e a expressão distante. Yasmin brincava no tapete da sala, enquanto Amir dormia no colo da babá. Minha esposa fingia estar concentrada nas mensagens, mas eu conhecia cada detalhe de seu rosto.Conhecia a maneira como apertava os lábios quando estava magoada. O jeito como seus olhos ficavam brilhantes quando segurava o choro. E, principalmente, aquele silêncio perigoso que surgia quando ela decidia enfrentar o mundo soz
Maria Clara A primeira coisa que vi naquela manhã foi o meu próprio rosto estampado na tela do celular.A segunda foi a manchete.“De secretária executiva a esposa de bilionário: quem é a brasileira que conquistou um dos herdeiros mais poderosos de Dubai?”Fiquei imóvel na cama, sentindo o sangue abandonar meu rosto.Abaixo da manchete, havia uma fotografia minha ao lado de Ahmed, tirada durante um jantar beneficente. Eu sorria para as câmeras, enquanto meu marido mantinha uma das mãos na minha cintura. A imagem era bonita. Elegante. Perfeitamente adequada para uma revista de negócios.Até que meus olhos percorreram o subtítulo.Histórico profissional controverso, ambição e um casamento milionário levantam questionamentos sobre as verdadeiras intenções de Maria Clara.Meu coração bateu tão forte que senti uma pontada no peito.Continuei lendo.A reportagem descrevia minha antiga carreira no Brasil como se eu tivesse passado anos tentando desesperadamente subir na vida às custas de ho
Tarik Eu nunca gostei de surpresas.Surpresas eram para homens ingênuos, daqueles que acreditavam que o mundo funcionava com base na honestidade, na lealdade e em promessas feitas durante jantares caros. Eu aprendera cedo que o dinheiro não comprava apenas propriedades, empresas e influência. Comprava silêncio, abria portas e, quando necessário, permitia destruir alguém sem sequer sujar as próprias mãos.Naquela manhã, sentado atrás da enorme mesa de madeira escura do meu escritório em Dubai, descobri que Hassan Al-Rashid havia deixado muito mais do que uma fortuna para a família.Ele havia deixado uma armadilha.— Repita — ordenei, sem tirar os olhos dos documentos espalhados diante de mim.Faris, o homem que eu contratara para investigar os últimos movimentos financeiros do patriarca, ajeitou os óculos antes de responder.— Hassan organizou uma estrutura patrimonial destinada a proteger parte dos bens da família. Há mecanismos específicos para preservar o futuro dos netos, além de







