MasukMaria Clara
O Jeep deslizou por entre dois pilares de mármore branco, cada superfície polida refletindo o sol inclemente de Dubai. À minha frente, os portões de ouro se erguiam como guardiões silenciosos, cravejados de arabescos que reluziam sob a luz. Senti o coração acelerar: aquele era o limiar entre minha antiga vida e o reinado de Ahmed.
— Bem-vinda ao Palácio Al-Rashid — anunciou o motorista, abrindo a porta do jeep. — Distraia-se, senhorita Santos, e aproveite a estadia.
Desci com cuidado, o vestido leve batendo no dorso dos sapatos de salto. Olhei ao redor: jardins suspensos com fontes de mármore, orquídeas púrpura pendendo em cascata, o perfume doce misturado ao aroma do incenso que vagava no ar. Tudo era opulência, um espetáculo de poder tecido em cada detalhe.
Pelos corredores, quadros de reis ancestrais olhavam de poças de ouro e barro. Tapetes persas — vermelhos, azuis, bege — amorteciam o som dos meus passos, convidando-me a deslizar pelo salão principal. As paredes eram revestidas por painéis de vidro espelhado, tão transparentes que me sentia ao mesmo tempo observadora e presa em gaiolas invisíveis.
Abdel apareceu ao meu lado, impecável no fraque escuro. De onde surgiu esse homem? Parece um fantasma.
— Aqui temos a Sala dos Espelhos. Nos sossegados sussurros das paredes de vidro, podem circular notícias de toda a cidade. Seja cautelosa.Procurando um ponto fixo, toquei a superfície fria. O reflexo devolveu minha imagem — a mulher em que me tornei: traços tensos, ombros erguidos, olhos atentos. Senti a angústia de quem se sabe vigiada.
— Quem vigia os vigias? — perguntei, baixinho.
Ele sorriu sem alegria.
— Somente o Sheik tem acesso total. Para ele, cada área do palácio é um tabuleiro de xadrez.Os ambientes se sucediam em um espetáculo: a Biblioteca de Peles, com suas estantes do chão ao teto repletas de volumes encadernados em couro; o Salão de Negócios, onde mesas de mogno reluziam sob lustres de cristal; e o Jardim de Inverno, uma cúpula de vidro transbordando palmeiras raras e lírios aquáticos. Cada novo espaço me cativava, embora eu não pudesse ignorar as discretas grades de vidro e metal embutidas nas estruturas, as portas protegidas por senhas biométricas e os espelhos que pareciam me observar a cada passo. Nem um pouco esquisito.
Paramos numa ponte interna que atravessava um lago de carpas. A água rubi, graças a pigmentos naturais, ondulava em círculos. Abdel me ofereceu tâmaras cristalizadas e chá de rosas. Enquanto mordia a doçura, senti uma pontada de culpa: eu era convidada a desfrutar, mas também a cumprir ordens.
— Aqui, no fim do dia, os convidados se reúnem para jantares de gala — explicou. — Mas diga-me, senhorita Santos, como se sente até agora?
Olhei para o lago, depois para o silêncio absoluto à nossa volta.
— Encantada… e aprisionada — confessei, num fio de voz. — É tudo tão belo que chega a doer.Ele ergueu as sobrancelhas.
— O prazer e a prisão caminham lado a lado neste lugar. O ouro serve de algema quando não se conhece as regras.Antes que pudesse responder, uma voz firme ecoou pelo corredor:
— Abdel, você me trouxe a convidada? — era Ahmed, surgindo como uma sombra elegante. Nesse caso bota elegante. Que homem lindo.Meu estômago revirou ao vê-lo emergir do ângulo oposto. Ele trajava uma túnica branca, eu acho, sob um sobretudo de corte europeu, os ombros largos ainda mais acentuados. Caminhou até nós, e, ao se aproximar, inclinei o corpo num gesto de respeito contido.
— Sheik — murmurei.
Ele sorriu, os olhos azuis captando cada detalhe da minha expressão.
— Maria Clara. Espero que esteja desfrutando do tour.— É impressionante — respondi, sentindo o calor subir aos meus cabelos cacheados. — Mas… me pergunto onde termina o luxo e onde começa a prisão.
Ahmed apoiou-se no corrimão de vidro da ponte e olhou para as carpas. Depois, voltou o olhar para mim.
— A diferença está em quem segura as correntes. — Seus lábios curvaram-se num sorriso frio. — No meu caso, as correntes são silenciosas.Um ímã invisível me atraiu para mais perto dele. O cheiro de especiarias e madeira de sândalo me envolveu. Quase poderei sentir o sopro dele. Esse homem me causa uma coisa que não sei explicar.
— E para quem quer partir? — insisti, pressionando o ar com a voz trêmula.Ele me fitou intensamente, como se avaliando a coragem do meu espírito.
— Só há uma saída, Maria Clara: cumprir o contrato. Então, as portas se abrirão. Caso contrário… poderá permanecer enclausurada para sempre.Suas palavras resonaram como o toque de um sino. Senti o peso da promessa e da ameaça. Olhei novamente para o lago rubi e, ao voltar a encará-lo, notei: sob a superfície calma, as carpas nadavam em círculos, sem jamais chegar à margem.
E compreendi que, naquele palácio de vidro e ouro, eu também estava condenada a nadar em círculos até aceitar meu destino — fosse ele de luxo ou de prisão.
AhmedO cheiro foi a primeira coisa que me arrancou do torpor. Fumaça. Pesada. Quente. Inconfundível. Uma onda espessa e acre que invadiu minhas narinas e garganta, fazendo meus pulmões arderem. Não era o aroma familiar do incenso queimando, nem o suave perfume das especiarias que costumavam flutuar pelos corredores do palácio. Este era um odor de destruição, de madeira consumida e tecido carbonizado, que me fez prender a respiração num reflexo automático.Abri os olhos, pesados e embaçados pela névoa, e o teto do quarto dançava em tons de laranja e cinza. Chamas lambiam as vigas de madeira escura, projetando sombras fantasmagóricas pelas paredes. O ar estava denso, quase sólido, e a cada inspiração parecia sugar a umidade de meus lábios. Por um instante, a beleza era quase hipnótica — a dança hipnotizante das chamas, a forma como a luz bruxuleante transformava o quarto em uma pintura abstrata de calor e fumaça. Minha mente, ainda presa nas teias do sono, demorou a processar o que meu
Maria ClaraNaquele instante eu soube que a tormenta não ficaria apenas nas palavras. Quando Ahmed me puxou pelos corredores silenciosos do palácio, a fúria nos olhos dele era chama viva — mas havia outra coisa ali: a ânsia de me ter de volta, inteira, como antes de todos nos odiarem.Fechamos a porta do quarto com um estalo que reverberou como um trovão no peito. A meia-luz das velas escarlates tornou cada sombra sinuosa, como se os móveis dançassem em antecipação. Ele me empurrou suavemente até o dossel de veludo, tirou o turbante com um gesto brusco e varreu as rugas do meu rosto com as mãos grandes, intensas.— Preciso sentir sua pele contra a minha — murmurou, a voz grave trepidando no ar.Meu corpo reagiu antes da mente ordenar qualquer coisa. Era tão bom sentir o perfume dele — mistura de especiarias e madeira — invadir meu corpo, lembrando-me que, mesmo quando tudo desmorona, havia ali alguém disposto a reconstruir cada pedaço.— Eu também preciso de você — sussurrei, deixand
AhmedAs colunas brancas da sala do Conselho se erguiam como testemunhas silenciosas do que estava prestes a acontecer.O cheiro do incenso tradicional queimava lento, carregando o peso da ancestralidade. Sentados em semicírculo estavam os onze homens que moldavam o destino da Casa Al-Rashid — todos em túnicas nobres, todos homens que conheciam a arte de sorrir com a boca e cravar a adaga com os olhos.E no centro, como uma serpente recém-desperta, estava Khalid.Vestia branco, como se a pureza lhe pertencesse. Mas eu via além. Via a ganância escorrendo pelos cantos de sua fala. Via a raiva mal contida que lhe moldava os ossos.— A linhagem está em risco — ele dizia, diante de todos. — O povo murmura. Os aliados questionam. O Oriente observa com inquietação o que se passa aqui.— Que risco? — perguntei com frieza, mesmo sabendo aonde ele queria chegar.Khalid sorriu, lento.— Sua esposa, Ahmed. Ou devo dizer… sua “escolhida contratual”. Ele nem precisou dizer as palavras. Todos en
Maria ClaraO palácio, antes um cárcere dourado onde os luxos mascaravam a ausência de liberdade, transformou-se insidiosamente. Depois, virou um refúgio estranho, um lugar onde a segurança vinha acompanhada de uma inquietude velada, como se a cada cômodo, a cada corredor, uma verdade incômoda estivesse à espreita. Agora… parecia uma armadilha prestes a desabar sobre mim, as paredes sussurrando segredos sombrios, o ar carregado de uma tensão sufocante.Eu sentia nas paredes frias e imponentes, que pareciam encolher-se a cada dia, aprisionando-me ainda mais em suas sombras. No jeito como os guardas, antes meras figuras de vigilância, evitavam meus olhos, um brilho de apreensão ou cumplicidade em seus desvios. No silêncio sussurrado das criadas, um coro de segredos inaudíveis, mas perceptíveis, que pairava no ar como uma névoa. No aperto constante no peito, uma opressão que não era física, mas da alma, o prenúncio de um perigo iminente. Havia algo errado. Muito errado. A grandiosidade d
KhalidO deserto tinha seu próprio som, uma melodia austera tecida pelo silêncio árido. Era uma canção de vastidão, onde cada grão de areia parecia sussurrar segredos antigos, carregados pelo vento cortante que varria a paisagem implacável. E, em meio a essa sinfonia de desolação, havia a sede. Sempre a sede. Uma presença constante, uma chama invisível que ardia na garganta, lembrando a cada respiração a fragilidade da vida diante da imensidão implacável da natureza. O ar quente, quase tangível, dançava em miragens distantes, enganando os olhos com promessas de oásis que nunca se concretizavam.Mas eu não estava mais sedento de água. Estava sedento de justiça. Ou melhor… de vingança.O sol causticante do deserto batia impiedosamente sobre minha pele, mas a sede que me consumia não era a de água. Era a sede por algo que o tempo não curaria, algo que a areia não enterraria: a sede de justiça. Ou, sendo mais honesto comigo mesmo, a sede de vingança. Cada batida do meu coração ecoava o no
AhmedO vento do deserto estava mais quente naquele dia. Mas o que queimava minha pele não era o sol — era a fúria.Meu pai entrou em meus aposentos sem bater, como sempre fazia quando queria impor autoridade.— Ela se foi — disse, seco. — Sua esposa. Fugiu como uma ladra.Virei-me com o coração tropeçando no peito.— Do que está falando?— Vi com meus próprios olhos. Saiu sem escolta, sem permissão. Depois de tudo que permitimos…Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu não acreditava. Maria Clara jamais faria isso. Não depois de tudo que vivemos. Não depois de…— Ela voltaria se estivesse em perigo — arrisquei.— Não. Ela fugiu após as acusações — disse ele, olhando-me nos olhos com frieza. — Fugiu depois de descobrir o que estávamos investigando. Isso a torna culpada.— Culpada? — rosnei. — Culpada de quê? De querer saber a verdade?— De trair o nome Al-Rashid.Fiquei em silêncio. Por fora, meu rosto era pedra. Por dentro, um terremoto.— Traga Ashyla — ele ordenou a um dos guardas.







