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POV: Valentina
“Você ainda tem tempo de fugir comigo.” A voz de Damon Castellani deslizou pelo meu ouvido no exato instante em que Henrique erguia uma taça no centro do salão para agradecer aos convidados pela presença. Meu futuro marido falava sobre alianças, tradição e o casamento perfeito. O melhor amigo dele estava atrás de mim, perto o suficiente para que o calor de seu corpo atravessasse o tecido fino do meu vestido. Não me virei. “Você usa essa cantada com todas ou reserva as mais ridículas para mulheres comprometidas?” “Só para uma.” A resposta veio rápida demais. Meus dedos apertaram a haste da taça. No salão principal do Castellani Palace, centenas de pequenas luzes douradas se refletiam nos lustres de cristal. Executivos, políticos e herdeiros circulavam entre garçons de luvas brancas. Tudo havia sido escolhido para transmitir perfeição. Inclusive eu. Vestido vermelho, cabelo preso, o anel dos Alencar brilhando no dedo. A noiva adequada para o herdeiro adequado. Damon se inclinou um pouco mais. Seu perfume, amadeirado e escuro, envolveu-me antes que eu conseguisse dar um passo para longe. “Esse vestido é um ato de hostilidade, Valente.” Finalmente me virei. Ele usava um terno preto feito sob medida, sem gravata, com os dois primeiros botões da camisa abertos. A expressão carregava aquela arrogância preguiçosa que fazia mulheres maduras esquecerem compromissos e jovens funcionárias derrubarem bandejas. Eu conhecia bem o efeito. Também conhecia sua reputação. “É apenas um vestido.” “Não quando você está dentro dele.” Revirei os olhos, embora uma onda inconveniente de calor subisse pelo meu pescoço. Damon sorriu. Era isso que ele fazia. Provocava, observava e esperava alguma rachadura aparecer. Nunca parecia realmente interessado na resposta. Para ele, flertar era quase uma forma de respirar. “Henrique sabe que você fica linda quando quer arruinar a concentração de um homem?” “Henrique não precisa ser informado sobre tudo o que faço.” “Primeira coisa sensata que você disse hoje.” “E você não deveria estar com Serena?” O nome da noiva dele causou uma mudança tão breve em sua expressão que quase pensei ter imaginado. Damon desviou os olhos para o outro lado do salão. Serena Bellucci conversava com um grupo de investidores, impecável em um vestido prateado. Linda, sofisticada e tão confortável naquele universo quanto Damon. Os dois formavam um casal perfeito para as revistas. Bonitos, ricos e perigosamente fotogênicos. “Serena sabe se cuidar”, ele respondeu. “Que declaração romântica.” “Romance é superestimado.” “Disse o homem prestes a se casar.” “Disse a mulher prestes a cometer um erro.” Minha vontade de rir desapareceu. Henrique continuava discursando, agora falando sobre a expansão do grupo Bastos para o mercado europeu. Meu nome surgiu entre agradecimentos protocolares, encaixado entre o nome de um senador e o de um banqueiro. A senhora Valentina Alencar, sua futura esposa. Não Valentina. Não a mulher que trabalhara durante dois anos na estratégia do projeto. A futura esposa. Damon observou meu rosto com atenção desconfortável. “Ele esqueceu de dizer que a proposta para Lisboa foi sua.” “Não esqueceu.” “Então decidiu não dizer.” “Esta noite é sobre ele.” “Claro.” Damon levou a taça à boca. “E todas as outras também.” O golpe encontrou um lugar que eu não queria reconhecer. Endireitei os ombros. “Você me chamou aqui apenas para criticar meu relacionamento?” “Eu não chamei você. Você veio até mim.” Olhei ao redor. Só então percebi que Henrique havia conduzido os convidados para perto do palco, deixando Damon e eu praticamente isolados junto às portas da varanda. “Você apareceu atrás de mim.” “E você ainda não foi embora.” Meu olhar encontrou o dele. Os olhos de Damon eram escuros sob a iluminação baixa, atentos demais para um homem que supostamente nunca levava nada a sério. Por um instante, o salão pareceu distante. Restaram apenas sua respiração calma e o espaço perigosamente pequeno entre nós. Ele baixou os olhos para minha boca. Meu corpo reagiu antes da razão. O ar prendeu em meus pulmões. Minha pele ficou sensível sob o tecido. Uma pulsação indevida surgiu no centro do meu ventre, quente e súbita. Damon percebeu. O leve arqueamento de sua sobrancelha foi suficiente para confirmar. “Nem pense nisso”, murmurei. “Não consigo evitar.” “É exatamente por isso que ninguém leva você a sério.” Seu sorriso não desapareceu, mas perdeu alguma coisa. O brilho divertido, talvez. “Você não me leva a sério.” “Você chama mulheres de sobremesa e mantém uma lista de telefones organizada por cidade.” “É uma lista eficiente.” “Você é impossível.” “E ainda assim está corada.” Virei o rosto, furiosa comigo mesma. “Está quente aqui.” “Posso levá-la para um lugar mais fresco.” “Damon.” “Uma varanda, Valente. Sua mente está me decepcionando.” Ele riu quando o empurrei de leve no peito. Foi um erro. Sob minha palma, seu corpo era firme e quente. Damon cobriu minha mão com a dele antes que eu pudesse afastá-la. O gesto não foi agressivo. Foi pior. Lento. Deliberado. Íntimo. “Solte.” “Você está tremendo.” “De irritação.” “Claro.” “Você é insuportavelmente convencido.” “E você está curiosa.” Puxei a mão, mas seus dedos demoraram um segundo a mais antes de me libertarem. Um único segundo. O suficiente para que eu imaginasse como seria sentir aquelas mãos em outra parte do meu corpo. A imagem me atingiu com tanta força que dei um passo para trás. Damon inclinou a cabeça. “Algum problema?” “Você.” “Esse problema eu resolveria com prazer.” “Imagino. Sua solução deve envolver um quarto de hotel e a promessa de uma experiência inesquecível.” “Não preciso prometer o que posso garantir.” Soltei uma risada incrédula. “Você realmente não sente vergonha?” “A vergonha nunca fez uma mulher gozar.” Meu rosto incendiou. Damon se aproximou, bloqueando parcialmente a luz do salão. Sua voz baixou até se tornar algo que eu senti antes de ouvir. “Mas este mulherengo faria você esquecer o próprio nome antes da meia-noite.” Meu coração bateu com força. Eu ri porque era mais seguro. Porque ele era Damon Castellani. Porque homens como ele diziam aquelas coisas para qualquer mulher que tivesse pulsação. Porque Henrique estava a poucos metros, falando sobre nosso futuro. “Continue sonhando.” Passei por Damon antes que ele percebesse o efeito que causara. Mas seus dedos tocaram meu pulso. Apenas o suficiente para me fazer parar. Ele se inclinou, e os lábios quase roçaram minha orelha. “Um dia, Valente, você vai deixar de rir.”POV: Valentina— Fique até eu dormir.As palavras escaparam antes que meu orgulho pudesse detê-las.Damon estava ao lado da cama, com a camisa ainda amarrotada pelos meus dedos e o paletó largado sobre a poltrona. A luz baixa da suíte desenhava sombras no rosto dele, tornando-o mais cansado do que eu já tinha visto.Por alguns segundos, ele não respondeu. Apenas baixou os olhos para minha mão vazia sobre o lençol, como se talvez se lembrasse de como eu a mantivera presa à camisa dele.Eu lembrava.Lembrava do calor sob o tecido, da batida firme do coração dele, da voz baixa prometendo que não iria a lugar nenhum.Agora eu pedia exatamente isso.Que ficasse.— Tem certeza? — perguntou.O cuidado no tom me irritou.— Não transforme isso em uma audiência.— Não quero que você acorde amanhã achando que eu ultrapassei algum limite.— Estou pedindo.— Eu ouvi.— Então por que continua aí?O canto da boca dele quase se moveu.— Porque você parece pronta para discutir com o próprio pedido.—
POV: Valentina“Não consigo respirar.”A frase saiu sem som.Ao meu redor, o salão continuava cheio de vozes, taças e números milionários sendo negociados como se nada estivesse acontecendo.Damon estava a poucos metros, sentado à cabeceira de uma mesa com investidores estrangeiros. Um contrato de expansão aberto diante dele. Nicolas falava com um dos executivos enquanto Bianca observava os jornalistas espalhados pelo evento.Eu deveria estar ao lado de Damon.Sorrindo.Convincente.Perfeita.Em vez disso, minhas mãos estavam frias e o vestido parecia apertado demais contra minhas costelas.Uma câmera virou em minha direção.O flash explodiu.Por um segundo, não vi o salão.Vi a porta entreaberta do apartamento de Henrique.Ouvi a risada de Serena.Senti outra vez o gosto da humilhação, o peso das manchetes, o nome da minha família usado como algema.“Senhorita Alencar?”Alguém tocou meu braço.Recuei com força.A taça que eu segurava caiu no chão.O cristal se partiu.Todas as vozes
POV: Damon “Durante seis meses, nenhum de nós se envolve com outra pessoa.” Valentina leu a nova cláusula sem levantar os olhos. Estávamos no meu escritório, separados pela mesa, enquanto a cidade refletia nas janelas atrás dela. O contrato aberto entre nós parecia mais perigoso do que no dia em que propus o noivado. Talvez porque agora existisse um beijo. Uma cozinha. Um robe. E a pergunta que ela fizera no capítulo anterior ainda presa em algum lugar entre minha garganta e meu orgulho. Você beijaria outra mulher? Eu não respondera. Não de verdade. Em vez disso, passara a madrugada inteira tentando transformar ciúme em linguagem jurídica. Valentina virou a página. “Exclusividade afetiva e física.” “Sim.” “Isso não estava na primeira versão.” “Não era necessário antes da coletiva.” “E agora é?” “Agora somos um casal público.” Ela ergueu os olhos. “Falso.” “Para nós.” A frase saiu seca demais. Corrigi o tom. “Para o restante do mundo, qualquer envolvimento paral
POV: Valentina Damon rasgou o cartão de Henrique ao meio. Depois em quatro partes. Depois em oito. O som seco do papel se partindo atravessou a sala enquanto as rosas vermelhas permaneciam diante de nós como uma provocação exagerada. “Eu não disse que podia fazer isso.” Minha voz saiu baixa. Damon deixou os pedaços sobre a mesa de centro. “Ele ameaçou você.” “Ele tentou me manipular.” “Usando documentos que podem incriminá-la.” “Eu sei ler, Damon.” “E eu sei reconhecer uma ameaça.” A mandíbula dele estava rígida. O homem que brincava com tudo havia desaparecido. Não restava sorriso, cantada ou ironia. Apenas aquela tensão escura nos ombros e a mão fechada ao lado do corpo. Bianca recuou discretamente. “Vou pedir que retirem as flores.” “Não”, respondi. Ela parou. Damon virou o rosto para mim. “Você quer ficar com elas?” “Quero que sejam fotografadas, catalogadas e entregues ao jurídico.” O silêncio durou um segundo. Então Damon assentiu. “Faça isso”, disse a Bi
POV: Damon “Eu presto atenção em você.” Valentina permaneceu imóvel no sofá. A mão dela ainda repousava sobre meu joelho por causa do ensaio, embora Bianca tivesse se afastado para atender a ligação havia alguns minutos. Nenhum dos dois parecia disposto a mencionar isso. Os olhos dela continuavam presos aos meus. “Desde quando?” A pergunta veio baixa. Perigosa. Retirei a mão de sua cintura devagar, mais por necessidade do que prudência. O toque havia deixado de parecer parte do treinamento no momento em que ela me desafiara a lembrar do vestido. Azul-escuro. Costas abertas. Cabelo solto sobre o ombro esquerdo. Eu poderia ter contado que ela usava um perfume mais cítrico naquela época. Que mexera no brinco direito três vezes enquanto fingia ouvir Henrique falar sobre investimentos. Que rira de verdade apenas quando um garçom derrubara champanhe no sapato de um político arrogante. Poderia ter contado que saí daquela recepção com raiva de um homem que mal conhe
POV: Valentina “Porque conquistar você agora seria fácil demais.” A resposta de Damon ficou suspensa entre nós. Eu ainda estava diante dele, de robe, coração acelerado, esperando que completasse a frase. Então a porta da cozinha se abriu. Uma funcionária entrou carregando uma bandeja, parou ao nos ver próximos demais e baixou os olhos imediatamente. “Desculpem. A assessora chegou.” Damon fechou o último botão da camisa. A máscara voltou ao rosto dele com uma precisão irritante. “Peça que aguarde na sala.” A mulher assentiu e saiu. Eu permaneci imóvel. “Fácil demais?”, repeti. Damon pegou a caneca e levou-a à pia, como se não tivesse acabado de me provocar de um jeito muito mais perigoso do que todas as cantadas anteriores. “Você está vulnerável.” “Isso não me torna fácil.” Ele se virou. “Não foi o que eu disse.” “Foi exatamente o que disse.” “Eu disse que seria fácil confundir conquista com fuga.” A raiva subiu depressa. “Você acha que eu me j







