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CAPÍTULO 2 - O Beijo

last update publish date: 2026-08-30 06:25:58

Por alguns segundos, nenhum de nós se moveu.

Eu não sabia explicar o que havia naquele olhar.

Era como se o rei estivesse tentando encontrar alguma coisa dentro de mim.

Alguma lembrança.

Alguma resposta.

Ou talvez alguém que eu não era.

Meu coração começou a bater depressa.

Desviei os olhos primeiro.

Precisava recuperar o controle.

Precisava lembrar quem eu era.

Aquele homem era meu marido agora, mas continuava sendo um estranho.

Um estranho perigoso.

E havia alguma coisa no modo como ele me olhava que fazia minha pele se arrepiar.

— Alteza...

A voz do celebrante nos arrancou daquele estranho silêncio.

— Perdoem-me. Ainda temos uma última tradição a cumprir.

Meu marido desviou os olhos dos meus.

Eu respirei novamente.

Então ouvi as palavras que fizeram meu coração tropeçar.

— Pode beijar a noiva.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

O rei voltou a me encarar.

Por um instante, nenhum de nós fez nada.

Talvez ele também estivesse relutante.

Talvez aquele casamento fosse tão indesejado para ele quanto era para mim.

Eu deveria ter ficado aliviada.

Em vez disso, senti uma estranha ansiedade crescer dentro do peito.

Ele se aproximou.

Devagar.

Como se estivesse me dando tempo para recuar.

Eu não recuei.

Não porque quisesse.

Mas porque, naquele momento, fugir parecia impossível.

Sua mão tocou suavemente meu rosto.

O simples contato fez um arrepio percorrer minha nuca.

Então ele inclinou a cabeça.

E seus lábios tocaram os meus.

Foi apenas um beijo.

Curto.

Delicado.

Mas o mundo pareceu desaparecer.

O barulho das pessoas.

A música.

O salão.

Tudo ficou distante.

Só existia aquele instante.

Seus lábios eram quentes e firmes, mas havia uma delicadeza inesperada naquele toque.

Não havia pressa.

Não havia domínio.

Era quase como se ele também estivesse tentando entender o que estava acontecendo.

E então senti algo que não queria sentir.

Uma espécie de calor se espalhando pelo meu peito.

Meu coração acelerou.

Por um segundo, esqueci que aquele homem era um estranho.

Esqueci que aquele casamento havia sido imposto.

Esqueci que eu deveria odiar aquela situação.

O beijo terminou antes que eu pudesse compreender o que estava sentindo.

Ele se afastou lentamente.

Abri os olhos.

E encontrei os dele.

Novamente aquele olhar.

Intenso.

Estranho.

Quase dolorosamente familiar.

Meu coração apertou.

Eu não entendia aquele homem.

Não entendia por que ele me olhava daquela maneira.

E, pior ainda, não entendia por que uma parte de mim queria descobrir.

Ele parecia saber alguma coisa sobre mim.

Alguma coisa que eu desconhecia.

E isso me assustava.

Dei um pequeno passo para trás.

Ele percebeu.

Sua expressão mudou, mas não tentou se aproximar novamente.

— Está tudo bem? — perguntou baixo.

Assenti depressa.

— Sim.

Mentira.

Nada estava bem.

Eu acabara de beijar um homem que conhecia havia menos de uma hora e, de alguma forma absurda, aquele beijo havia parecido certo.

Mágico.

Como se meu corpo tivesse reconhecido algo antes que minha mente pudesse compreender.

E isso era exatamente o que me aterrorizava.

Olhei ao redor.

Todos estavam sorrindo.

Aplaudindo.

Celebrando a união que deveria garantir a paz entre dois povos.

Mas eu só conseguia pensar em uma coisa.

Eu não podia fugir daquele casamento.

Não depois daquele beijo.

Não depois da maneira como meu coração havia respondido.

Talvez fosse isso que mais me assustasse.

Porque eu tinha passado semanas imaginando todas as maneiras possíveis de escapar daquele destino.

Agora, pela primeira vez, eu não tinha certeza se queria fugir dele.

Então olhei novamente para o homem ao meu lado.

E me arrependi imediatamente.

Ele ainda me observava.

Como se estivesse tentando memorizar cada detalhe do meu rosto.

Como se eu fosse alguém que ele procurara durante muito tempo.

Meu estômago se apertou.

Desviei o olhar.

Eu precisava ficar longe daqueles olhos.

Longe daquela sensação.

Longe dele.

Antes que começasse a querer respostas que talvez eu não estivesse preparada para ouvir.

E, sem saber, enquanto eu tentava escapar daquele olhar, o homem ao meu lado fazia exatamente o contrário.

Ele não conseguia parar de olhar para mim.

Porque finalmente havia encontrado os olhos verdes que nunca conseguira esquecer.

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