LOGINEu não deveria ter ficado parado daquele jeito.
Um rei não perde o controle.
Um rei não demonstra surpresa.
Muito menos diante de duas famílias, representantes do reino, soldados, nobres e homens treinados para perceber qualquer sinal de fraqueza.
Passei anos aprendendo a não oferecer nenhum.
Então minha noiva levantou os olhos para mim.
E tudo desapareceu.
Ela.
Entre todas as mulheres que poderiam estar atrás daquele véu...
Era ela.
Por alguns segundos, não ouvi o sacerdote.
Não ouvi o salão.
Não ouvi sequer os murmúrios que certamente minha reação havia provocado entre os convidados mais atentos.
Vi apenas aqueles olhos.
Verdes.
Eu os reconheceria em qualquer lugar.
O tempo havia mudado seu rosto. É claro que havia. A menina que existia em minhas lembranças não estava mais diante de mim.
Aurora era uma mulher agora.
Os cabelos castanhos estavam mais longos, caindo em cachos sob o véu. Os traços infantis haviam desaparecido. Havia firmeza em seu olhar mesmo por trás do nervosismo que tentava esconder, e alguma coisa em seu queixo erguido me disse que ela passara toda aquela manhã decidida a não demonstrar medo.
Aquilo também me pareceu familiar.
Mas os olhos...
Os olhos eram os mesmos.
Eu passara anos tentando aceitar que talvez nunca os visse novamente.
E agora pertenciam à mulher com quem eu acabara de me casar.
Quase ri.
Não porque houvesse qualquer coisa engraçada.
Porque a alternativa seria perguntar ao destino que tipo de crueldade era aquela.
Eu aceitara o casamento por dever.
Pelo reino.
Pela aliança.
Pela paz.
Não perguntara se minha futura esposa era bonita.
Não perguntara se era gentil, tímida ou difícil.
Sabia o suficiente sobre a família Valença para entender a importância política da união e isso bastara.
Ou deveria ter bastado.
O nome Aurora Valença não significara para mim o que deveria ter significado quando o ouvi pela primeira vez nas negociações.
Aurora.
Eu soubera seu primeiro nome quando éramos crianças, é claro.
Mas anos, títulos, famílias e silêncio haviam transformado lembranças simples em fragmentos. A menina de minhas memórias não existia dentro delas como Aurora Valença, filha daquela casa, futura peça de uma aliança.
Ela era apenas Aurora.
A menina que aparecia onde não devia.
A menina que fazia perguntas demais.
A menina que ria quando eu tentava dar ordens e me lembrava, com uma seriedade irritante, de que eu ainda não era rei.
A menina da cachoeira.
A menina da árvore.
A menina que...
Parei o pensamento.
Não ali.
Não diante dela.
— Pode beijar a noiva.
A voz do sacerdote me trouxe de volta.
Olhei para Aurora.
Minha esposa.
A palavra pareceu absurda.
Durante semanas fora apenas uma consequência política.
Depois daquele véu, tornou-se outra coisa.
Ela me observava com cautela.
Não havia reconhecimento em seu rosto.
Nenhum.
E isso doeu mais do que deveria.
Eu havia passado anos imaginando se algum dia voltaria a vê-la.
Agora precisava beijá-la como se aquele fosse apenas o primeiro encontro entre dois desconhecidos.
Aproximei-me.
Minha mão quase tocou seu rosto antes que eu me obrigasse a parar.
Ela não sabia.
Não sabia quem eu era para aquela parte esquecida de sua vida.
E, acima de tudo, não escolhera estar ali.
Eu sabia disso.
Ninguém precisara me contar.
Vi na rigidez de seus ombros quando chegou ao altar. Na força com que segurava as flores. Na maneira como respirara antes de dizer que aceitava.
Aurora cumprira um dever.
Assim como eu pretendia cumprir o meu.
A diferença era que meu dever acabara de colocar diante de mim alguém que eu havia perdido.
Para ela, continuava sendo apenas uma obrigação.
Esperei.
Foi apenas um instante.
Talvez ninguém mais tenha percebido.
Mas dei a ela tempo suficiente para virar o rosto.
Aurora não virou.
Toquei sua face.
Ela estremeceu sob meus dedos.
Quase retirei a mão.
Então ela permaneceu onde estava.
Inclinei-me e a beijei.
Foi breve.
Precisava ser.
Porque no primeiro contato de seus lábios com os meus, uma quantidade vergonhosa de autocontrole simplesmente deixou de existir.
Não era assim que eu me lembrava dela.
É claro que não era.
Éramos crianças.
Aquela mulher era outra pessoa.
Eu também.
O passado não me dava direito algum sobre quem Aurora havia se tornado.
Ainda assim, alguma parte absurda de mim reconheceu a sensação de tê-la perto antes mesmo que minha razão pudesse organizar o que estava acontecendo.
Afastei-me.
Aurora abriu os olhos.
Confusão.
Foi a primeira coisa que encontrei neles.
Depois cautela.
E alguma coisa que não ousei nomear.
Ela recuou um passo.
Soltei-a imediatamente.
— Está tudo bem?
— Sim.
Mentiu.
Eu quase sorri.
Aquilo, pelo menos, eu reconheci.
Aurora sempre fora uma péssima mentirosa quando estava contrariada.
O pensamento morreu assim que surgiu.
Sempre.
Para mim existia um sempre.
Para ela, aparentemente, não.
O sacerdote retomou as bênçãos.
Eu deveria ter prestado atenção.
Em vez disso, observei discretamente a mulher ao meu lado enquanto ela olhava para nossas alianças.
Minha esposa.
Era quase ofensivo que duas palavras pudessem alterar tanto o significado de outra.
Aurora percebeu minha mão quando a estendi.
Olhou para ela como se suspeitasse que eu estivesse oferecendo uma armadilha.
— Precisamos descer juntos — expliquei.
— Eu sei.
Ergui uma sobrancelha.
Ela colocou a mão sobre a minha.
— Só estava olhando.
— Para minha mão?
— Para minha aliança.
Baixei os olhos para o aro em seu dedo.
— Não gostou?
— Da aliança?
— Sim.
— É bonita.
Houve uma pausa.
— Mas?
Ela franziu a testa.
— Existe um “mas”?
— Pareceu existir.
— É estranho.
Eu sabia exatamente o que ela queria dizer.
Não era o ouro.
Era carregar no corpo uma prova permanente de uma decisão que outras pessoas haviam tomado.
Fechei os dedos ao redor dos dela apenas o suficiente para conduzi-la.
— Imagino que seja.
Aurora olhou para mim.
— Só isso?
— Esperava que eu discordasse?
— Não sei o que espero de você.
A frase me atingiu de uma maneira estranha.
Porque era justa.
Ela conhecia meu nome, meu título e provavelmente algumas das piores histórias que circulavam sobre mim.
Eu, por outro lado, carregava lembranças dela que Aurora não possuía.
Havia uma desigualdade ali que eu não poderia fingir que não existia.
— Isso é justo.
Continuamos.
Vi o instante em que ela encontrou Helena entre os convidados.
Seu rosto mudou.
A rigidez diminuiu.
Aurora sorriu para a mãe e, por um segundo, enxerguei algo daquela menina novamente.
Não porque o sorriso fosse igual.
Porque havia calor nele.
Vida.
Alguma coisa que não cabia naquele salão cheio de acordos e protocolos.
— Sua mãe? — perguntei.
— Sim.
Helena Valença chorava enquanto sorria para a filha.
— Ela parece preocupada.
Aurora soltou uma risada pequena.
— A filha acabou de se casar com um homem que nunca viu e está indo morar em outro reino. Acho que ela conquistou o direito.
Minha mandíbula se contraiu.
Não pela resposta.
Pela verdade dela.
— Conquistou.
Aurora me observou por um instante, talvez esperando alguma reação diferente.
Não ofereci.
Eu não podia mudar a maneira como aquele casamento começara.
Podia apenas decidir o que faria depois dele.
Quando atravessamos as portas, senti os dedos dela apertarem os meus.
Não disse nada.
Esperei.
Ela apertou mais.
— Você está apertando — avisei.
Aurora olhou para nossas mãos e soltou a minha imediatamente.
— Desculpe.
— Não precisa.
— Eu estava nervosa.
— Eu percebi.
Ela me olhou como se eu tivesse acabado de insultá-la.
— Eu escondi muito bem.
Quase sorri.
— Naturalmente.
Os olhos verdes se estreitaram.
— Está zombando de mim, Majestade?
— Jamais faria isso no primeiro dia de casamento.
Ela levou um segundo.
Então riu.
E meu mundo parou pela segunda vez naquela manhã.
Não.
Não era igual.
A voz da menina em minhas lembranças era mais aguda. A risada que eu guardara durante anos pertencia a uma criança que já não existia.
Mas havia alguma coisa ali.
Uma curva familiar na boca.
O jeito como seus olhos se apertavam um pouco.
Um eco.
E, por um segundo doloroso, vi sol atravessando folhas verdes.
Uma árvore enorme.
Duas crianças sentadas perto demais.
Aurora falando sem respirar entre uma frase e outra.
A lembrança veio tão depressa que não consegui impedir minha reação.
O sorriso dela desapareceu.
— O que foi?
— Nada.
Respondi rápido demais.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
— Você continua fazendo isso.
— Fazendo o quê?
— Olhando para mim desse jeito.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
Ali estava a pergunta.
Mais cedo do que eu esperava.
— Que jeito?
— Como se...
Aurora parou.
Esperei.
Por um momento, achei que perguntaria diretamente se nos conhecíamos.
Parte de mim queria que fizesse.
Outra parte não fazia ideia do que responderia.
Ela balançou a cabeça.
— Nada.
Eu deveria ter deixado morrer ali.
— Se houver algo que queira me perguntar, pergunte.
Aurora me encarou.
Vi perguntas demais surgirem em seus olhos.
Nenhuma chegou à boca.
— Depois.
— Depois — concordei.
Eu ganhara tempo.
Não sabia se deveria me sentir aliviado.
A carruagem aguardava à frente.
Havia gente demais em volta, vozes demais, guardas demais.
Era melhor assim.
Porque, se ficássemos sozinhos naquele momento, eu não confiava em minha capacidade de permanecer calado.
Aurora caminhava ao meu lado olhando tudo como alguém que tentava memorizar a própria despedida.
Foi então que compreendi uma coisa que deveria ter percebido antes.
Eu estava reencontrando alguém.
Ela estava deixando tudo.
O casamento havia me devolvido parte do passado.
Para Aurora, estava arrancando o presente debaixo dos pés.
A constatação foi suficiente para conter todas as perguntas que ameaçavam sair.
Cachoeira.
Árvore.
Você se lembra?
O que aconteceu com você?
Por que nunca voltou?
Nenhuma delas era mais importante do que permitir que ela respirasse.
Chegamos à carruagem.
— Aurora.
Ela virou imediatamente.
Ouvir o nome em voz alta quase foi um erro.
Durante anos eu o guardara ligado a outra voz, outro rosto, outra época.
Agora ela estava diante de mim.
— Sim?
Eu poderia ter dito.
Eu conheço você.
As palavras chegaram perto demais.
Não saíram.
— Nada.
Ela franziu a testa.
— Você é um homem bastante estranho.
Dessa vez, sorri.
Não consegui evitar.
— Disseram coisas piores.
Ofereci a mão.
Aurora aceitou e entrou na carruagem.
Esperei até que seu vestido desaparecesse pela porta antes de respirar profundamente.
Eu precisava pensar.
Precisava descobrir quanto ela sabia.
Quanto lembrava.
E, acima de tudo, precisava entender por que não havia sequer um traço de reconhecimento quando olhara para mim.
Porque eu me lembrava.
Não de tudo com perfeição. O tempo havia levado detalhes, confundido dias, apagado pequenas coisas.
Mas algumas lembranças permaneciam intactas demais.
A árvore.
As iniciais tortas na madeira.
Uma promessa feita com a seriedade que apenas crianças conseguem dar a coisas impossíveis.
E a água.
Sempre a água.
Fria.
Violenta.
Meu coração batendo tão forte que doía enquanto eu a puxava.
Um corpo pequeno e imóvel em meus braços.
Sangue.
Adultos gritando.
Depois silêncio.
Dias de silêncio.
Dias em que ninguém me dizia o suficiente.
Dias em que eu acreditara que talvez nunca mais visse aqueles olhos verdes abertos.
Fechei a mão ao lado do corpo.
Vinte e tantos passos me separavam do salão onde todos celebravam aquele casamento.
Uma única porta me separava da mulher que eu julgara perdida para sempre.
E ela não fazia ideia.
Entrei na carruagem.
Aurora levantou os olhos para mim.
Os mesmos olhos.
Eram eles.
Não havia mais dúvida.
Talvez eu devesse ter sentido alívio. Ela estava viva. Estava diante de mim. Eu teria tempo para descobrir o restante.
Não senti.
Porque, enquanto Aurora me olhava como se eu fosse o início de uma vida desconhecida, eu carregava sozinho o fim da última vez em que nossas vidas haviam se cruzado.
Eu me lembrava da árvore.
Da promessa.
Da água.
E da última vez que vi Aurora Valença antes daquele altar.
Naquele dia, eu achei que ela fosse morrer.
AuroraOs dias passaram depressa.Talvez porque a felicidade tenha esse defeito.Quando finalmente encontramos um lugar onde conseguimos respirar sem pressa, o tempo parece decidir correr.Conhecemos o vilarejo.Caminhamos pelas ruas estreitas entre casas de pedra e pequenas lojas.Comemos pão ainda quente comprado de uma senhora que insistiu em colocar mais dois dentro da cesta das crianças.Elara descobriu que gostava de flores amarelas.Cassian descobriu que qualquer coisa acompanhada de pão era melhor.Kael descobriu que não conseguia passar por uma loja sem verificar se eu precisava de alguma coisa.Eu descobri que queria voltar.Não imediatamente.Mas algum dia.Queria conhecer outras praias.Outras vilas.Outras estradas.Queria mostrar o mundo aos meus filhos.Queria que eles soubessem que havia lugares além das muralhas do palácio.E, ao mesmo tempo, descobri que queria voltar para casa depois.Aquela percepção me surpreendeu mais do que deveria.Porque, durante muito tempo, p
AuroraAcordei antes das crianças.Por alguns segundos, não soube onde estava.O quarto ainda estava mergulhado naquela luz azulada que antecedia o amanhecer. As cortinas se moviam com a brisa que entrava pela janela entreaberta, e, ao longe, o mar respirava.Era estranho como o som das ondas havia se tornado parte do silêncio.Uma onda.Depois outra.Depois outra.Constante.Calmo.Como se o mundo inteiro soubesse que não havia pressa.Virei o rosto.Kael ainda dormia.Estava de lado, voltado para mim, com uma das mãos repousando sobre o espaço vazio entre nós. Os cabelos escuros estavam bagunçados, e havia uma pequena linha entre suas sobrancelhas que só aparecia quando ele dormia profundamente.Fiquei olhando.Era uma coisa que eu fazia muito.Observá-lo quando ele não sabia.Talvez porque, durante muito tempo, Kael tivesse sido o homem que eu tentava entender.O rei.O marido que eu não conhecia.O homem frio que parecia esconder o mundo inteiro atrás dos olhos.Agora eu conhecia
AuroraAs crianças dormiram antes mesmo de chegarmos ao fim da refeição.Elara começou lutando contra o sono.Cassian nem tentou.Ele simplesmente apoiou a cabeça no braço de Kael enquanto comia um pedaço de pão e, alguns minutos depois, fechou os olhos.— Ele dormiu? — perguntei.Kael olhou para o filho.— Acho que sim.— Com comida na mão?— Sim.— Impressionante.Tentei esconder o sorriso.Elara ainda estava sentada ao meu lado.Os olhos pequenos já piscavam lentamente.— Não estou com sono.— Claro que não.— Não.— Você acabou de bocejar.— Foi a boca.Kael virou o rosto para esconder uma risada.Elara percebeu.— Papá.— Hum?— Não ri.— Não estou rindo.— Está.— Desculpe.Ela cruzou os braços.Três segundos depois, encostou a cabeça no meu ombro.— Mamá.— Sim?— Praia amanhã?Passei a mão pelos cabelos dela.— Amanhã.Ela fechou os olhos.— Tá.E dormiu.Fiquei alguns segundos olhando para ela.Tão pequena.Tão cansada.Com uma mecha de cabelo grudada na testa e uma das mãos
AURORADepois que vi o mar pela primeira vez, passei a ter dificuldade para olhar para qualquer outra coisa.Ele desaparecia atrás das colinas sempre que a estrada fazia uma curva mais fechada e, durante aqueles poucos segundos, eu sentia uma impaciência quase infantil. Então a carruagem contornava outra elevação e o azul surgia novamente, maior, mais próximo, ocupando um pedaço ainda mais absurdo do horizonte.Eu ainda não conseguia entender seu tamanho.Sabia, racionalmente, que o mar era imenso. Tinha visto mapas desde criança. Conhecia rotas comerciais que atravessavam águas distantes, ouvira histórias de embarcações e tempestades, sabia que existiam terras além daquele horizonte.Nada disso havia me preparado para vê-lo.Num mapa, o mar era uma mancha azul entre territórios.Diante de mim, parecia não terminar.Elara também havia desistido de sentar.Estava de joelhos sobre o banco, as mãos pequenas apoiadas na borda da janela, enquanto eu segurava a parte de trás de seu vestido
AURORANo primeiro dia, Elara perguntou se havíamos chegado antes mesmo de deixarmos para trás a última torre de Draven.— Chegou? — perguntou, apoiando as duas mãos na janela da carruagem.— Não.Ela observou a estrada por alguns segundos.— Agora?Olhei para Kael.Ele estava sentado à minha frente, com Cassian acomodado ao lado e o mapa aberto sobre uma das pernas.— Sua filha.— Nossa filha.— Ontem era minha.— Ontem ela estava dentro de um baú.— Justamente.Elara virou-se.— Chegou?Kael dobrou o mapa com toda a tranquilidade do mundo.— Não.Ela pareceu considerar a resposta.Então apontou para fora.— Cavalo!— Sim — respondi.— Outro!— Também.— Árvore!— Sim.— Outra!Fechei os olhos.Kael riu.A estrada para o sul se estendia diante de nós, cercada pelas colinas verdes que eu conhecia desde pequena. Naquela época do ano, a primavera já começava a perder a delicadeza das primeiras semanas. A vegetação estava mais cheia, as árvores carregadas de folhas novas e as margens do
AURORANa véspera da viagem, descobri que duas crianças pequenas precisavam de mais bagagem do que um rei e uma rainha juntos.Havia quatro baús no nosso quarto.Três no quarto dos gêmeos.Uma caixa só com coisas que Lúcia considerava indispensáveis.Outra com alimentos para a estrada.Mantas.Brinquedos.Fraldas.Roupas leves.Roupas quentes.Sapatos.Remédios preparados por Mirela.E, por algum motivo que ninguém conseguira me explicar, seis panos pequenos que Lúcia insistia que não poderiam ser substituídos por outros panos pequenos.— São diferentes — ela disse.Segurei dois lado a lado.— São iguais.— Não são.— São brancos.— Aurora.— Do mesmo tamanho.— Majestade.— Do mesmo tecido.Lúcia arrancou os dois das minhas mãos.— Por isso quem está arrumando sou eu.Sentei-me no chão do quarto das crianças.— Eu sou a mãe deles.— E eu ajudei a criar o pai deles. Sei exatamente como reis se comportam quando ficam doentes, cansados ou com fome.Olhei para Kael.Ele estava encostado







