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CAPÍTULO 3 - O Rei

last update publish date: 2026-08-30 06:28:39

Eu não deveria ter ficado parado daquele jeito.

Um rei não perde o controle.

Um rei não demonstra surpresa.

Muito menos diante de centenas de pessoas.

Mas, quando ela levantou os olhos para mim, tudo que eu havia aprendido a controlar durante anos desapareceu.

Ela.

Entre todas as mulheres que poderiam estar atrás daquele véu...

Era ela.

A garota dos olhos verdes.

A garota que eu havia procurado em lugares onde nunca deveria ter procurado.

A lembrança que eu nunca consegui enterrar.

A pessoa que, contra toda lógica, continuou existindo em algum lugar da minha mente mesmo depois de tantos anos.

Eu a reconheceria em qualquer lugar.

Mesmo que tivesse envelhecido.

Mesmo que tivesse mudado os cabelos.

Mesmo que o tempo tivesse transformado completamente seu rosto.

Aqueles olhos...

Eu jamais esqueceria aqueles olhos.

E agora ela estava diante de mim.

Minha esposa.

Por um momento, pensei que o destino estivesse brincando comigo.

Eu havia aceitado aquele casamento por dever.

Pelo reino.

Pela aliança.

Pela paz.

Nunca imaginei que a mulher escolhida para ocupar o lugar de minha rainha seria justamente aquela que eu passara anos tentando esquecer.

Ou talvez tentando encontrar.

Eu ainda não sabia qual das duas coisas era verdade.

Porque nunca consegui decidir se queria esquecê-la ou encontrá-la novamente.

Talvez tivesse feito os dois ao mesmo tempo.

Então ela olhou para mim.

E eu soube que estava perdido.

— Pode beijar a noiva.

As palavras do celebrante me atingiram como um golpe.

Eu deveria ter me preparado para aquele momento.

Era apenas uma tradição.

Um beijo diante do reino.

Nada além disso.

Mas não era nada.

Não para mim.

Eu esperei anos por aqueles lábios.

Anos.

E agora precisava fingir que aquele era apenas o primeiro beijo entre dois desconhecidos.

Minha mão tocou o rosto dela.

Ela estremeceu.

Eu quase recuei.

Quase.

Não sabia se ela queria aquele contato.

Não sabia se sentia alguma coisa além do desconforto de estar presa a um casamento que não escolhera.

E eu não podia obrigá-la a sentir nada.

Muito menos a sentir por mim o que eu sentia por ela.

Aproximei-me.

Por um instante, nossos olhos se encontraram novamente.

Então a beijei.

E o mundo inteiro desapareceu.

Era ridículo.

Eu era um rei.

Tinha enfrentado inimigos, tomado decisões que custaram vidas, carregado responsabilidades que fariam qualquer outro homem desmoronar.

Mas um simples beijo foi suficiente para fazer meu coração esquecer como deveria bater.

Quando me afastei, precisei de toda a minha força para esconder o que aquele momento havia feito comigo.

Ela me olhava confusa.

Assustada.

Talvez até arrependida.

E aquilo me atingiu mais profundamente do que deveria.

Porque eu queria dizer tudo.

Queria contar que eu a conhecia.

Queria perguntar se ela se lembrava de mim.

Queria saber se alguma parte dela havia guardado aquela época.

Queria dizer que eu nunca esquecera.

Mas não podia.

Ainda não.

Eu não sabia o que ela lembrava.

Não sabia o que haviam contado a ela.

Não sabia por que ela estava ali sem sequer reconhecer meu rosto.

E, acima de tudo, não sabia se ela teria escolhido ficar se soubesse toda a verdade.

Então engoli todas as palavras.

Ela não podia descobrir tudo de uma vez.

Não enquanto eu mesmo ainda tentava compreender como o passado havia voltado para mim daquela maneira.

Observei-a dar um passo para trás.

Ela estava tentando fugir de mim.

Eu conhecia aquele olhar.

Confusão.

Medo.

Resistência.

Talvez fosse melhor assim.

Eu não podia entregar meu coração a ela antes de saber se ainda havia espaço para mim no dela.

Não depois de esperar tanto.

Não depois de passar anos imaginando como seria encontrá-la novamente.

Porque e se eu tivesse sido o único a carregar aquela lembrança?

E se, para ela, aqueles anos não significassem nada?

E se eu fosse apenas o homem que acabara de se tornar seu marido?

Um estranho.

Um rei.

Uma obrigação.

A ideia me incomodou mais do que deveria.

Fechei a mão lentamente ao lado do corpo.

Eu precisava ter paciência.

Ela ainda não sabia quem eu era.

E talvez fosse melhor que continuasse assim por enquanto.

Porque havia perguntas demais sem respostas.

Por que ela não se lembrava?

O que havia acontecido depois que nossos caminhos se separaram?

Quem havia escondido a verdade?

E por que o destino decidira colocá-la novamente diante de mim justamente agora?

Olhei para ela mais uma vez.

Ela desviou os olhos.

Um pequeno sorriso quase escapou dos meus lábios.

Ainda fazia isso.

Mesmo depois de tantos anos.

Ainda fugia do meu olhar.

Mas eu não podia deixar que ela percebesse o quanto aquilo significava para mim.

Não ainda.

Se ela não me reconhecia, eu precisaria descobrir por quê.

Se ela não me amava...

Eu precisaria aceitar.

Por mais que doesse.

Mas se ainda existisse alguma coisa dentro dela...

Uma lembrança.

Uma sensação.

Um fragmento daquele passado que pertencera somente a nós dois...

Eu encontraria.

Dessa vez, não a perderia.

Nem que precisasse esperar mais uma vida inteira.

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