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Depois da Tempestade

Autor: Amanda Nunes
last update Fecha de publicación: 2026-11-06 00:52:57

A RECONSTRUÇÃO

FERNANDA

Três dias depois de receber alta, eu ainda não conseguia me sentir completamente em casa.

O quarto era o mesmo. A cama, os móveis, as fotografias e até o cheiro do amaciante nos lençóis continuavam iguais. Mesmo assim, alguma coisa tinha mudado dentro de mim.

Antes de me deitar, olhei debaixo da cama. Depois, conferi o armário e a janela. Só quando tive certeza de que estava tudo bem consegui respirar um pouco melhor.

— Filha? — minha mãe chamou da porta.

— Estou bem, mãe.

Márcia entrou e sentou ao meu lado.

— Você não precisa fingir que está tudo bem.

Baixei os olhos.

— Eu sei que estou em casa, mas às vezes parece que ainda estou lá.

Ela segurou minha mão.

— Vai levar tempo. Não precisa se cobrar.

Meu celular vibrou. Era uma mensagem de Thiago.

TH: Como você está?

EU: Tentando dormir.

TH: Quer conversar?

EU: Hoje está difícil.

TH: Tudo bem. Não vou insistir. Só quero que saiba que estou aqui.

Fiquei olhando para a tela. Uma parte de mim queria ouvir a voz dele, enquanto outra ainda tinha medo de confiar.

Antes que eu respondesse, Lucas apareceu no corredor.

— Mana?

Virei depressa, assustada.

— Caramba, Lucas! Não faz isso!

Ele levantou as mãos.

— Foi mal! Só queria saber se você queria comer alguma coisa.

Percebi a expressão preocupada do meu irmão e me arrependi do tom.

— Desculpa. Ainda estou assustada.

Lucas se aproximou e me abraçou.

— Você não precisa pedir desculpa por isso.

Abracei meu irmão com força. Pela primeira vez naquele dia, consegui chorar sem tentar esconder.

THIAGO

Eu estava sentado no escritório quando Nathan entrou.

— Como ela está?

— Não sei de tudo. E não vou ficar perguntando sobre cada conversa que ela tem.

Nathan ergueu as sobrancelhas.

— Está aprendendo.

— Não começa.

Ele puxou uma cadeira.

— E o Samuca?

Meu maxilar travou.

— Admitiu que passou minha localização. Disse que queria ganhar espaço, ter mais voz nas decisões.

— E achou que isso justificava entregar você?

— Não. Ele sabe que não.

A traição ainda pesava. Samuca tinha sido alguém em quem confiei por anos. Também tinha ajudado Fernanda a escapar, mas uma coisa não apagava a outra.

— E o Renan? — Nathan perguntou.

— Ainda estamos tentando descobrir tudo. Ele contou coisas sobre a rotina dela, o trabalho e a proximidade entre nós. Diz que não sabia que aquilo terminaria numa tentativa de execução.

— Mas ameaçou a Fernanda.

— Eu sei. Não vou esquecer.

Nathan ficou em silêncio por alguns segundos.

— Você também precisa se cuidar, irmão. Não dorme direito, vive andando de um lado para o outro e acha que pode resolver tudo sozinho.

— Estou bem.

— Não está. E ela não precisa de outro homem dizendo que está tudo bem quando claramente não está.

Olhei para ele, irritado, mas não encontrei resposta.

FERNANDA

Júlia apareceu naquela tarde com uma sacola de doces e um abraço apertado.

— Trouxe açúcar porque você está precisando de alguma alegria.

Soltei uma risada pequena.

— Você é exagerada.

— Sou mesmo. E você está precisando conversar.

Sentamos na sala enquanto minha mãe preparava café.

— Sente falta dele? — ela perguntou.

Não tentei mentir.

— Sinto. Mas ainda tenho medo de voltar e tudo acontecer de novo.

Júlia segurou minha mão.

— Então não volte agora. Sentir falta não significa que você precisa tomar uma decisão.

— E se ele mudar só por um tempo?

— Observe as atitudes. Não apenas o que ele promete. Veja como ele se comporta quando não tem certeza de que você vai voltar.

Pensei em Thiago. Ele tinha ajudado até mesmo Marcelo a receber atendimento médico, apesar de tudo o que aquele homem havia feito. Aquela atitude mostrava uma mudança, mas eu sabia que reconstruir confiança exigia muito mais.

Naquela noite, o sono não veio. Depois de tentar por quase uma hora, peguei o celular e liguei para Thiago.

Ele atendeu no segundo toque.

— Fernanda?

— Não consegui dormir.

— Quer conversar?

— Só fica comigo um pouco?

— Fico.

Ele não perguntou se podia ir até minha casa. Não tentou transformar minha ligação em uma oportunidade para me convencer a voltar. Apenas permaneceu na linha, falando de coisas simples até minha respiração se acalmar.

THIAGO

Quando desligamos, fiquei olhando para o celular.

Minha primeira vontade foi mandar alguém reforçar a segurança da casa dela. Mas parei.

Fernanda já tinha escolhido Davi para acompanhá-la quando precisasse sair. Nosso acordo era simples: ele avisaria quando ela chegasse em segurança, sem invadir sua privacidade ou contar cada detalhe do dia.

Eu precisava respeitar aquilo.

Não podia chamar controle de proteção só porque tinha medo de perdê-la.

FERNANDA

Cinco dias depois, decidi voltar ao hospital por algumas horas.

Não estava pronta para trabalhar normalmente, mas queria enfrentar aquele lugar sem deixar que o medo decidisse tudo por mim.

Quando passei pelo corredor onde havia recebido a ligação anônima, minhas mãos ficaram geladas. Parei e respirei fundo.

— Você não precisa provar nada para ninguém — Rafael disse, aproximando-se.

Ele era um dos médicos que tinham me acompanhado.

— Eu sei. Só não quero deixar de viver.

— E não vai. Um passo de cada vez.

Rafael perguntou sobre meus planos de estudar enfermagem e comentou algumas possibilidades para quando eu estivesse pronta. Ouvi com atenção. Ainda tinha dúvidas, mas pensar no futuro me ajudava a lembrar que minha vida não terminava no que aconteceu.

Antes de sair, ele perguntou:

— Posso te dar um abraço?

Assenti. O abraço foi rápido e respeitoso.

Mais tarde, Thiago mandou uma mensagem.

TH: Davi avisou que você chegou bem.

EU: Cheguei. E antes que pergunte, estou bem.

TH: Não ia perguntar.

EU: Mentiroso.

TH: Talvez um pouco.

Sorri olhando para a tela. Ainda existia carinho entre nós. Eu só precisava descobrir se ele conseguiria continuar me amando sem tentar decidir tudo por mim.

THIAGO

Naquela noite, fui com Nathan conversar com Samuca.

Ele estava sentado, com a cabeça baixa.

— Eu queria ter mais espaço — Samuca começou. — Queria que minhas opiniões fossem ouvidas.

— Você podia ter conversado comigo — respondi.

— Eu tentei.

— E isso te dava o direito de passar minha localização?

Ele não respondeu.

— Eu errei em não ouvir você como deveria — continuei. — Mas a escolha de me trair foi sua. Não coloque essa responsabilidade nas minhas costas.

Samuca assentiu, sem tentar se defender.

Saí daquela conversa sem perdão e sem promessas. Algumas coisas não podiam ser resolvidas em uma única noite.

FERNANDA

Duas semanas depois, decidi visitar Thiago.

Não fui porque ele insistiu. Fui porque queria conversar e buscar algumas coisas que ainda estavam na casa dele.

Quando entrei, senti o cheiro conhecido de café. Por um instante, tudo pareceu como antes.

Thiago apareceu na sala.

— Você veio.

— Vim buscar minhas coisas e conversar.

— Tudo bem. Fica à vontade.

Ele não tentou me abraçar nem perguntou se eu tinha mudado de ideia. Aquela postura me deixou mais tranquila.

Enquanto organizava meus pertences, encontrei minha caneca na cozinha. A mesma que costumava usar todas as manhãs.

— Pode deixar aqui — falei.

Thiago olhou para a caneca.

— Tem certeza?

— Tenho. Ainda gosto de tomar café aqui.

Ele assentiu, sem transformar aquilo em uma promessa.

Depois de guardar minhas coisas, ficamos frente a frente.

— Eu sinto sua falta — ele confessou.

— Eu também sinto a sua.

— Mas você ainda não está pronta.

— Não. Eu ainda te amo, Thiago, mas não consigo fingir que nada aconteceu.

Ele respirou fundo.

— Eu não quero que você volte por medo de me perder, nem porque acha que me deve alguma coisa.

— Então precisa entender que talvez eu precise de bastante tempo.

— Eu vou respeitar.

Thiago estendeu a mão, mas parou antes de me tocar.

— Posso te abraçar?

Olhei para ele e, depois de alguns segundos, concordei.

O abraço foi cuidadoso. Não apagou o passado, mas também não me obrigou a tomar uma decisão.

Quando me afastei, ele não tentou me impedir de sair.

— Se cuida — disse.

— Você também.

Saí pela porta sabendo que ainda existiam sentimentos, mas que sentimentos sozinhos não reconstruíam uma relação.

THIAGO

Fiquei parado na cozinha depois que Fernanda foi embora.

A caneca continuava sobre a bancada. Era um objeto simples, mas, naquele momento, significava muito.

Ela não tinha prometido voltar. Não tinha pedido que eu esperasse. Apenas deixou ali algo que gostava de usar.

E eu não transformaria aquilo em uma garantia.

Durante muito tempo, achei que proteger alguém significava manter tudo sob meu controle. Agora estava aprendendo que amar também era aceitar escolhas que não dependiam de mim.

Fernanda precisava recuperar a própria segurança, a liberdade e a confiança.

Eu precisava provar, com atitudes e não com discursos, que poderia ser diferente.

Talvez ainda existisse um futuro para nós. Mas, se ele chegasse, teria que ser construído sem pressa, sem ameaças e sem esconder verdades.

A reconstrução não começaria quando ela voltasse.

Começaria agora, enquanto eu aprendia a respeitar a distância que ela precisava.

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