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Meu melhor amigo

Penulis: Amanda Nunes
last update Tanggal publikasi: 2026-11-06 00:57:08

Meu Melhor Amigo

Narrado por TJ

Se tem uma pessoa que consegue me tirar do sério em menos de cinco minutos, essa pessoa é João Pedro.

E, infelizmente, também é meu melhor amigo.

A gente se conhece desde a adolescência. Nossas famílias eram próximas, então já tínhamos nos visto algumas vezes quando éramos mais novos. Mas foi aos quinze anos que começamos a passar praticamente todos os dias juntos.

Na época, eu estava começando a acompanhar meu pai mais de perto. Queria entender as responsabilidades que ele carregava e provar que não era apenas o filho do TH.

João apareceu no meio desse processo.

Lembro perfeitamente do primeiro dia em que conversamos de verdade. Eu estava sentado na área externa, irritado depois de uma discussão com meu pai, quando ele se aproximou com um pacote de salgadinho na mão.

— Está com essa cara por quê? — perguntou.

— Não enche.

Ele sentou ao meu lado e abriu o pacote.

— Beleza. Vou ficar quietinho aqui, admirando sua simpatia.

Olhei para ele.

— Você não tem outra coisa para fazer?

— Tenho. Mas descobrir por que você parece que brigou com o mundo está mais interessante.

Naquele dia, acabei contando o motivo da minha irritação. Ele ouviu tudo e, no final, soltou:

— Então você ficou bravo porque seu pai não deixou você fazer o que queria?

— Resumindo, sim.

— Nossa. Que tragédia. Quer um minuto de silêncio?

Joguei uma almofada nele.

Ele começou a rir.

Foi assim que nossa amizade começou: com provocações, conversas intermináveis e uma quantidade absurda de implicância.

Com o tempo, descobri que João era muito mais do que o engraçadinho que gostava de me provocar.

Era leal. Inteligente. Observador. E tinha uma qualidade que poucas pessoas ao meu redor possuíam: não tinha medo de discordar de mim.

Quando eu estava prestes a fazer alguma besteira, ele percebia antes mesmo de eu abrir a boca.

E isso era irritante.

Muito irritante.

— Você está pensando demais.

A voz de João me trouxe de volta ao presente.

Estávamos sentados perto da varanda, com a festa dos meus dezoito anos já terminada. Algumas pessoas ainda conversavam pela casa, mas o movimento tinha diminuído.

— Estou pensando normalmente.

— Não. Quando você pensa normalmente, fica quieto. Quando está planejando alguma coisa, começa a olhar para o nada desse jeito.

— Que jeito?

João imitou minha expressão, deixando o rosto sério e cruzando os braços.

— Esse. Parece que está prestes a anunciar que vai dominar o planeta.

Revirei os olhos.

— Você é muito idiota.

— E você precisa aprender a disfarçar melhor.

Soltei uma risada.

Era exatamente isso que eu gostava nele. João não me tratava como se eu fosse alguém intocável por causa do meu pai. Se eu falasse besteira, ele dizia. Se eu estivesse errado, apontava. E, quando eu precisava de companhia, ele aparecia sem precisar de convite.

— Meu pai está pensando em começar a transição — falei depois de alguns segundos.

João ficou mais atento.

— Ele conversou com você?

— Ainda não de verdade. Mas sei que está pensando nisso.

— E o que você acha?

Olhei para a frente.

— Quero estar preparado quando chegar a hora.

— Você sabe que não é só receber uma responsabilidade e pronto, né?

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Virei o rosto para ele.

— Vai começar?

— Estou perguntando. Porque você fica tão preocupado em provar que consegue que às vezes esquece de pensar no que está fazendo.

Fiquei em silêncio.

Não gostei muito da observação, mas não podia dizer que era mentira.

— Você acha que eu não estou pronto? — perguntei.

João demorou um pouco para responder.

— Acho que você tem capacidade. Mas ainda precisa aprender a controlar a pressa. E não estou falando isso para te diminuir.

— Parece.

— Então talvez você precise aprender a ouvir sem achar que todo conselho é uma provocação.

Soltei o ar pelo nariz.

— Está vendo por que você me irrita?

— Porque sou bonito e inteligente?

— Porque fala demais.

Ele riu.

A conversa acabou chegando a um assunto que eu vinha pensando havia algum tempo.

— Quero você comigo quando essa transição começar.

João franziu a testa.

— Como assim?

— Quero que seja meu braço direito.

Ele ficou quieto por alguns segundos, como se estivesse tentando descobrir se eu estava falando sério.

— Você já conversou com seu pai sobre isso?

— Ainda não. Estou falando do que eu quero.

— E por que eu?

Olhei para ele como se a resposta fosse óbvia.

— Porque confio em você. Porque me conhece. Porque sabe quando estou prestes a fazer besteira e não fica com medo de falar.

João apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Ser seu melhor amigo é uma coisa. Assumir uma responsabilidade dessas é outra.

— Eu sei.

— Não quero que você me escolha só porque a gente cresceu junto.

— Não é por isso. Quero alguém que tenha coragem de falar quando eu estiver errado. Não preciso de uma pessoa concordando com tudo que eu disser.

João deu um sorriso pequeno.

— Então já vou avisando que você vai se arrepender.

— Por quê?

— Porque vou continuar sendo sincero. Mesmo quando você ficar com raiva. Mesmo quando a gente brigar. Não vou passar a mão na sua cabeça só porque você é filho do TH ou porque somos amigos.

Estendi a mão para ele.

— É exatamente isso que eu espero.

Ele apertou minha mão.

— Então estamos entendidos.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Eu sabia que aquela escolha não dependia apenas de mim. Meu pai ainda precisaria conversar comigo, e João também teria que decidir se queria assumir aquele papel. Mas, se um dia eu tivesse alguém ao meu lado, queria que fosse ele.

Não precisava de alguém que me obedecesse cegamente.

Precisava de alguém em quem pudesse confiar.

— Vocês estão fazendo uma reunião secreta?

Reconheci a voz antes mesmo de levantar a cabeça.

Sofia.

Ela apareceu segurando um copo e parou diante de nós.

João abriu um sorriso.

— Estamos decidindo o futuro do mundo. Quer participar?

— Depende. Vocês vão deixar alguém inteligente falar?

— Está vendo? — João apontou para mim. — Ela sempre chega provocando.

Sofia sorriu.

— Não tenho culpa se ele facilita.

— Eu estava tendo uma conversa séria — falei.

Ela olhou de mim para João.

— Séria? Com ele?

João colocou a mão no peito.

— Estou sendo ofendido na minha própria presença.

— Você sobrevive — Sofia respondeu.

Não consegui evitar uma risada.

Ela olhou para mim.

— Está rindo de quê?

— De nada.

— Ótimo. Continue assim.

Sofia se despediu de João e perguntou se ele sabia onde estava Fernanda. João apontou para dentro da casa, explicando que ela tinha acabado de entrar.

— Obrigada — ela disse.

Quando passou por mim, parou por um instante.

— E parabéns de novo, aniversariante.

— Obrigado. Agora você pode me dar um presente.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Que presente?

— Um dia sem me provocar.

Sofia soltou uma risada curta.

— Esse presente você não vai ganhar.

E foi embora.

Fiquei acompanhando seus passos por alguns segundos antes de voltar a olhar para João.

Ele estava com um sorriso estranho.

— O quê? — perguntei.

— Nada.

— Fala logo.

— Só estou pensando numa coisa.

— João…

Ele se inclinou um pouco na minha direção.

— Você está prestando atenção demais na Sofia.

Revirei os olhos imediatamente.

— Não começa.

— Eu não comecei nada. Só observei.

— Você observa demais.

João abriu aquele sorriso de quem tinha acabado de descobrir alguma coisa.

— Conheço você há anos, TJ. Sei quando está prestes a fazer besteira.

— E o que isso tem a ver com ela?

— Ainda não sei. Mas acho que vou descobrir.

Levantei e dei um tapa leve no ombro dele.

— Vai procurar o que fazer.

João começou a rir enquanto eu me afastava.

O problema era que ele talvez tivesse razão.

Eu não sabia exatamente por quê, mas Sofia estava começando a chamar minha atenção de um jeito diferente.

E aquilo prometia me dar mais trabalho do que qualquer conversa com meu pai.

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