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O Primeiro Beijo

Autor: Amanda Nunes
last update Fecha de publicación: 2026-11-06 00:41:12

O PRIMEIRO BEIJO

Visão da Fernanda

Passei o resto do dia me arrependendo de ter usado a palavra apaixonar perto de TH.

Não que significasse alguma coisa.

Ou talvez significasse.

— Para de pensar nisso — murmurei.

Júlia levantou os olhos do computador.

— Pensar em quê?

— Nada.

— Você está numa fase interessante de conversar sozinha.

Ignorei e tentei me concentrar no trabalho. Não adiantou. Minha cabeça insistia em voltar à conversa da madrugada, à história da infância dele e, principalmente, ao jeito como TH tinha reagido quando falei sobre me apaixonar.

Meu celular vibrou.

TH: Comeu?

Eu: Sim.

TH: O quê?

Eu: Comida.

TH: Engraçada.

Eu: Muito.

TH: Que horas sai?

Informei o horário.

TH: Davi te pega.

Eu: Eu sei. E não fica me esperando acordado.

TH: Por quê?

Eu: Porque não.

TH: Argumento forte.

Eu: Você dormiu quase nada.

TH: Tá preocupada comigo?

Eu: Profissionalmente.

TH: Claro.

Guardei o celular, mas Júlia já tinha percebido meu sorriso.

— Homem?

— Trabalho.

— Homem — repetiu, rindo.

No fim do plantão, Rafael apareceu.

— Vai embora?

— Finalmente.

— Amanhã você vem?

— Não. Folga.

Ele sorriu.

— Quer tomar alguma coisa amanhã? Como amigos, sem segunda intenção.

Pensei por alguns segundos. Não havia nada de errado no convite, mas TH foi a primeira pessoa que me veio à cabeça. Aquilo me irritou.

— Pode ser outro dia?

— Claro. Sem pressão.

Quando saí, Davi já me esperava. Durante o caminho, comentou que TH tinha perguntado se Rafael estava de plantão.

Peguei o celular imediatamente.

Eu: Você perguntou pro Davi se o Rafael estava trabalhando?

TH: Talvez.

Eu: Você tem algum problema?

TH: Alguns.

Suspirei. Aquela conversa não terminaria bem.

Visão do TH

Eu devia ter ficado quieto. Perguntar sobre Rafael para Davi tinha sido uma péssima ideia.

ND estava na sala quando contei.

— Você fez o quê?

— Perguntei se o médico estava de plantão.

— Depois de toda aquela conversa sobre ela não pertencer a você?

— Eu só perguntei.

— Você é muito burro.

Mandei que ele mudasse de assunto. ND aproveitou para falar da investigação.

CK ainda não tinha identificado quem alterou o aviso que mudou minha rota na noite do ataque. A lista de pessoas com acesso à informação estava menor, mas ainda havia suspeitos. Samuca continuava entre eles, sem nenhuma prova direta. Renan também seguia fora de sua rotina habitual, e uma movimentação ligada a Vini tinha chamado a atenção.

Nada conclusivo.

A conversa foi interrompida quando Fernanda entrou.

ND olhou para ela, depois para mim.

— Acabei de lembrar que tenho compromisso.

— Covarde — resmunguei.

— Inteligente.

Assim que a porta fechou, Fernanda cruzou os braços.

— Você perguntou do Rafael.

— Perguntei.

— Por quê?

Respirei fundo.

— Ciúme.

Ela pareceu surpresa com a resposta.

— E isso te dá direito de usar Davi para saber quem trabalha comigo?

— Não. Desculpa.

— Davi está aqui pela minha segurança, não para ser seus olhos na minha vida.

— Eu sei.

— Então não faça de novo.

— Não vou fazer.

Ela ficou em silêncio por um instante.

— Rafael me chamou para sair.

Meu maxilar travou.

— Pra quê?

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Olha você de novo.

— Só perguntei.

— Tomar alguma coisa. Como amigos.

— E você vai?

— Isso importa?

— Pra mim, importa.

— Por quê?

Eu poderia inventar outra resposta, mas estava cansado de esconder o que sentia.

— Porque eu gosto de você.

A frase saiu antes que eu pudesse pensar melhor.

Fernanda ficou imóvel.

— TH...

— Não estou pedindo nada.

— Você fala isso e depois diz que não está pedindo nada?

— Porque não estou.

A discussão cresceu. Ela deixou claro que Rafael nunca tinha desrespeitado nenhum de nós e que eu não tinha direito de interferir nas amizades dela. Concordei. Eu sabia que estava errado, mas admitir não fazia o ciúme desaparecer.

— Você é inacreditável — ela disse.

— E você é teimosa pra caralho.

— Não muda de assunto!

— Eu não estou mudando!

Ficamos frente a frente, respirando com dificuldade.

Visão da Fernanda

Eu já não sabia se estava com raiva ou apenas nervosa.

— Você me deixa maluca — falei.

— Acha que comigo é diferente?

— Eu não pedi para você gostar de mim.

Assim que as palavras saíram, me arrependi.

O rosto dele mudou.

— Eu sei.

TH virou, tentando encerrar a conversa.

— Não faz isso — pedi.

— Isso o quê?

— Não vira as costas e vai embora.

Ele olhou para mim.

— O que você quer que eu faça, Fernanda?

— Eu não sei!

— Então me diz: quer que eu te deixe em paz?

A pergunta ficou entre nós.

Eu poderia dizer que sim. Ele respeitaria. Eu sabia disso.

Mas não queria.

— É isso que me deixa com raiva — admiti.

— O quê?

— Eu devia querer que você me deixasse em paz. Mas não quero.

TH deu um passo na minha direção e parou.

— Tem certeza?

— Não tenho certeza de nada desde que você apareceu.

Ele quase sorriu.

— Eu apareci sangrando numa viela.

— Você sabe o que eu quero dizer.

— Sei.

Minha vida tinha sido simples antes dele. Eu tinha meus planos, meu trabalho, minha faculdade e minhas preocupações comuns. Agora existiam ameaças, mensagens e um homem que conseguia me deixar irritada e fazer meu coração acelerar na mesma conversa.

— Você fala certas coisas e eu esqueço por que estou com raiva — confessei.

O sorriso dele apareceu por um instante.

— Esquece?

— Não usa isso contra mim.

— Não estou usando.

Ficamos em silêncio. Eu olhei para a boca dele e percebi que ele tinha notado.

— Nanda — chamou.

— O quê?

— Se eu chegar mais perto, você vai mandar parar?

Engoli em seco.

— Não sei.

— Preciso que saiba.

A resposta me atingiu. Mesmo depois de toda aquela discussão, ele continuava esperando minha escolha.

— E se eu não mandar?

— Aí vou ter outro problema.

— Qual?

— Parar sozinho.

Meu coração disparou.

TH não avançou. Apenas ficou ali, dando espaço para que eu decidisse.

E foi justamente isso que me fez perder o resto da coragem que ainda tentava manter.

Agarrei a camiseta dele e puxei.

O primeiro beijo aconteceu sem planejamento. Minha boca encontrou a dele e, por um instante, TH ficou imóvel, surpreso. Depois, sua mão chegou à minha cintura e me aproximou.

A outra mão subiu pelas minhas costas, sem me prender.

Eu segurei sua nuca e retribuí o beijo com toda a vontade que vinha acumulando desde as outras duas vezes em que quase aconteceu.

Quando nos afastamos, estávamos sem fôlego.

— Merda — murmurei.

— Concordo.

— Não fica convencido.

— Você me beijou primeiro.

— Eu sei!

Ele sorriu, e eu dei um passo para trás. A realidade chegou de uma vez.

Eu tinha beijado TH. Não tinha sido um quase, nem uma vontade interrompida. Tinha acontecido.

E tinha sido bom demais.

— Preciso pensar — falei.

A mão dele deixou minha cintura imediatamente.

— Tudo bem.

— Isso não resolve nada. As ameaças continuam. Sua vida continua sendo complicada. Eu ainda quero minha faculdade, meu trabalho e minha liberdade.

— Eu sei.

— Para de falar que sabe!

— Então o que você quer que eu diga?

Passei a mão pelo cabelo.

— Não estou arrependida. Esse é o problema. Eu queria muito. E, quando aconteceu, quis mais.

Ele ficou quieto.

— Mas não consigo conversar sobre isso agora.

— Tudo bem. Não vou pressionar.

Caminhei em direção à escada, mas parei antes de subir.

— TH?

— Oi.

— Não conta para o ND.

Ele soltou uma risada.

— Prometo.

— Se ele descobrir...

— Não vai ser por mim.

Subi e fechei a porta do quarto. Encostei nela, levando os dedos aos lábios.

Peguei o celular e mandei mensagem para Júlia.

Eu: Fiz merda.

Júlia: VOCÊ BEIJOU O QUASE-HOMEM????

Eu: COMO VOCÊ SABE?

Júlia: EU SABIAAAAA!

Ela ligou, mas recusei.

Júlia: Foi bom?

Fiquei olhando para a tela.

Júlia: NANDA!

Eu: Vou dormir.

Júlia: FOI BOM!

Bloqueei o celular e, pouco depois, recebi uma mensagem de TH.

TH: Tá tudo bem?

Eu: Tá. Só estou confusa.

TH: Eu não vou pressionar você.

Eu: Obrigada.

Deixei o celular de lado, mas o sono não veio. Toda vez que fechava os olhos, lembrava do beijo.

E queria de novo.

Visão do TH

Fernanda tinha me beijado.

Eu estava sentado sozinho na sala havia vários minutos, tentando processar aquilo.

Ela tinha me puxado primeiro.

Sorri sozinho.

— Caralho.

Meu celular tocou. Era ND.

— CK mandou atualização — ele avisou.

Voltei imediatamente à realidade. A investigação estava avançando, mas ainda não havia confirmação sobre quem tinha alterado o aviso. ND queria conferir alguns nomes antes de me passar qualquer conclusão.

— Certo. Amanhã conversamos.

Ele ficou em silêncio.

— TH, aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Sua voz está estranha.

— Vai dormir, Nathan.

Desliguei antes que ele começasse a fazer perguntas.

Mais tarde, passei pelo quarto de Fernanda. Pensei em bater, mas não fiz isso. Ela tinha pedido espaço, e eu respeitaria.

Quando me deitei, entendi que o beijo não tinha resolvido nossos problemas. A ameaça continuava, minha vida permanecia complicada e Fernanda ainda tinha motivos para ter medo.

Eu precisava aprender a gostar dela sem tentar controlar tudo ao redor.

Mas uma coisa havia mudado.

Agora eu sabia como era quando ela parava de fugir por alguns segundos.

E queria sentir aquilo outra vez.

Meu celular vibrou.

Fernanda: Você tá acordado?

Eu: Tô.

Fernanda: Esquece.

Eu: Impossível.

Depois de um tempo, ela mandou:

Fernanda: Boa noite.

Eu: Boa noite, Nanda.

Quase um minuto depois:

Fernanda: E não fica achando que vai acontecer de novo.

Sorri antes de responder.

Eu: Tá.

Fernanda: Para de responder “tá” desse jeito.

Eu: Que jeito?

Fernanda: CONVENCIDO.

Ri sozinho.

Eu: Boa noite, Fernanda.

Fernanda: Idiota.

Coloquei o celular sobre o peito.

Eu queria beijá-la novamente, mas não atravessaria aquele corredor. O próximo passo também precisava ser escolha dela.

Porque o primeiro beijo tinha começado numa discussão.

Mas qualquer coisa depois dele precisaria começar com uma escolha dos dois.

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