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Uma Vida Nossa

Autor: Amanda Nunes
last update Fecha de publicación: 2026-11-06 00:53:58

UMA VIDA NOSSA

Visão da Fernanda

Seis meses depois.

— Não.

TH apareceu na porta do quarto.

— Fernanda.

— Não adianta falar meu nome desse jeito.

— Que jeito?

— De quem acha que vou obedecer.

Ele cruzou os braços.

— Às vezes ainda tenho esperança.

Revirei os olhos, prendendo o cabelo diante do espelho. Estava nervosa com uma reunião sobre a graduação em Enfermagem.

— Posso te levar — ofereceu.

— Quero ir sozinha.

TH respirou fundo, mas assentiu.

— Tudo bem.

Sorri.

— Está aprendendo.

— Não me trata como cachorro adestrado.

Comecei a rir.

Ele se aproximou e beijou meu ombro.

— Você está bonita.

— Só bonita?

— Linda.

— Melhor.

Antes de sair, ele segurou minha mão.

— Boa sorte, Nanda. Você já enfrentou muita coisa difícil. Vai conseguir descobrir seu caminho também.

Meu coração aqueceu.

— Te amo.

— Também te amo.

Seis meses tinham mudado muita coisa. Eu continuava trabalhando no hospital, ainda tinha dias difíceis e, de vez em quando, os pesadelos voltavam. Mas já não me culpava por sentir medo. Respirava, reconhecia o que estava acontecendo e seguia.

TH também tinha aprendido. Não perguntava cada detalhe da minha rotina, não decidia por mim e entendia que oferecer proteção não significava controlar minha vida.

Cheguei à orientação vinte minutos antes. Levei uma pasta cheia de anotações sobre mensalidades, bolsas, horários e possibilidades de conciliar trabalho e estudo.

Meu celular vibrou.

TH: Estou orgulhoso de você.

Fernanda: Nem comecei.

TH: Não estou orgulhoso do resultado. Estou orgulhoso porque você foi atrás.

Sorri, emocionada.

A conversa durou quase duas horas. Quando saí, tinha informações suficientes para começar a planejar.

A faculdade não seria fácil, mas era possível.

Liguei para TH.

— Dá — falei, chorando.

— O quê?

— Dá para fazer a faculdade.

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Quer que eu vá até aí?

Pensei antes de responder.

— Quero.

Visão do TH

— Cara de idiota apaixonado — ND comentou quando viu meu sorriso.

— Cuida da sua vida.

— É a Fernanda?

CK respondeu por mim:

— Óbvio.

Ignorei os dois.

Fernanda queria cursar Enfermagem e continuar trabalhando. Eu sabia que seria cansativo, mas também sabia que aquele sonho era dela.

Minha vontade era resolver tudo: pagar a faculdade, organizar os horários e tirar qualquer dificuldade do caminho. Porém, aprendi que ajudar sem perguntar podia virar outra forma de controle.

— Você ofereceu pagar? — ND perguntou.

— Ofereci ajuda.

— E ela?

— Vai tentar bolsa primeiro.

Ele assentiu.

— Está aprendendo.

— Vocês não cansam de falar isso?

Meu celular vibrou novamente. Era uma atualização de Davi sobre uma questão de segurança que não envolvia Fernanda. Resolvi o assunto e guardei o aparelho.

ND percebeu que eu não liguei para ela.

— Não vai perguntar se está tudo bem?

— Ela está numa reunião importante. Não vou transformar qualquer coisa em motivo para interromper o dia dela.

Ele sorriu.

— Evolução.

— Vai se ferrar.

Visão da Fernanda

Quando TH chegou, eu ainda segurava a pasta.

— Então? — perguntou.

Levantei minhas anotações.

— Minha futura faculdade está começando a virar um plano.

Ele abriu um sorriso e me abraçou.

— Estou orgulhoso.

— Estou com medo.

— Eu sei.

— Vai ficar apertado. Vou precisar organizar os plantões e tentar uma bolsa.

— A gente pode pensar nas possibilidades.

Olhei para ele.

— A gente?

TH pareceu surpreso.

— Se você quiser.

Sorri.

— Eu quero. Minha vida continua sendo minha, mas você faz parte dela.

Ele beijou minha testa.

Naquela noite, contei tudo à minha mãe e ao Lucas. Márcia chorou de felicidade, enquanto meu irmão anunciou para a casa inteira:

— TEMOS UMA FUTURA UNIVERSITÁRIA!

TH também comemorou, mas não tentou assumir minhas despesas. Sentamos à mesa, analisamos os horários e fizemos algumas contas.

Ele apontou uma opção que parecia menos cansativa.

— Esse horário pode funcionar melhor.

— Também achei.

Quando sugeriu oferecer transporte nos dias mais difíceis, respondi que pensaria. Ele simplesmente aceitou.

Dois meses depois, o resultado da bolsa chegou enquanto eu estava na cozinha da casa dele.

Olhei para o remetente e congelei.

— É o resultado — falei.

TH parou o que estava fazendo.

— Quer que eu fique aqui?

— Quero. Mas não olha!

Ele virou de costas.

Abri o e-mail e li uma vez. Depois outra.

Minha mão foi até a boca.

— Nanda? — ele chamou.

— Consegui!

Ele se virou.

— A bolsa?

Assenti, chorando.

— Parcial, mas consegui!

TH se aproximou e perguntou:

— Posso te abraçar?

— Pode, caralho!

Ele me envolveu nos braços.

— Você conseguiu!

— Eu consegui!

— Foi você que correu atrás, organizou tudo e não desistiu.

Segurei o rosto dele.

— Obrigada por me ajudar sem tentar fazer por mim.

Os olhos dele ficaram marejados.

— Obrigado por deixar.

Visão do TH

A comemoração reuniu todo mundo. Márcia preparou comida, Lucas contou a novidade antes de Fernanda conseguir, Júlia apareceu com um presente e Dona Sônia chorou de alegria.

ND também apareceu, sem convite, como sempre.

— Orgulhoso? — perguntou.

Olhei para Fernanda, que conversava animadamente sobre a faculdade.

— Muito.

— E não pagou tudo?

— Ela conseguiu a bolsa.

ND sorriu.

— Então você entendeu.

Fernanda me chamou para uma foto. A mesa ficou cheia: família, amigos e muita risada.

Meses antes, eu achava que amar significava impedir qualquer coisa ruim de alcançar Fernanda. Agora entendia que não podia construir a vida dela, escolher sua profissão ou decidir seus caminhos.

Podia estar ao lado dela quando quisesse companhia, oferecer ajuda e respeitar suas escolhas.

E ela também podia dividir suas dificuldades sem deixar de ser independente.

Visão da Fernanda

Mais tarde, ficamos na varanda.

— Cansada? — TH perguntou.

— Muito. Mas feliz.

Ele beijou minha cabeça.

— Futura enfermeira Fernanda.

— Calma!

Rimos.

Depois, lembrei da nossa conversa sobre morar juntos.

— Ainda penso em ter uma casa nossa — falei.

TH ficou imóvel.

— Nossa casa?

— Um dia. Não agora. Quero começar a faculdade, organizar minha rotina e continuar trabalhando.

— Tudo bem.

— E não quero deixar de ter minha independência.

Ele segurou minha mão.

— Quero uma casa onde você nunca precise pedir permissão para ser você. E onde eu também possa ser eu.

Sorri.

— Com minha mãe entrando sem avisar?

Ele fez uma careta.

— Isso precisa?

— Precisa.

— Então aceito.

Rimos novamente.

Eu continuava sendo Fernanda. Ele continuava sendo Thiago. Havia sonhos meus, planos dele e coisas que construiríamos juntos.

Não precisávamos decidir tudo naquele momento.

— Te amo — ele murmurou.

— Também te amo.

— Posso começar a olhar casas?

— Não!

Ele gargalhou.

Encostei a cabeça em seu ombro e pensei em tudo o que tínhamos vivido. Nossa história não tinha sido perfeita. Tivemos erros, afastamentos e momentos dolorosos. Mas aprendemos que construir uma vida com alguém não significava perder a própria identidade.

Eu não queria uma vida em que TH decidisse por mim. Ele também não queria mais que eu precisasse baixar a cabeça para ser amada.

Queríamos parceria, liberdade, respeito e amor.

Não uma vida dele onde eu simplesmente coubesse.

Não uma vida minha onde ele fosse apenas visita.

Uma vida nossa.

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