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"Modalidade"

Author: LuadMel
last update publish date: 2023-09-03 06:34:23

"Eu não sou seduzível, senhor Johnson, mas sei seduzir."

Aline ainda saboreava a própria ousadia quando entrou no carro.

Deu partida, segurou o volante por alguns segundos e então começou a rir. Não foi uma risada discreta. Gargalhou sozinha, lembrando-se do choque no rosto de Peter, do vinho escorrendo de sua boca até a mandíbula e da pressa com que ele tentara recuperar a dignidade.

Aquilo fora impagável.

Peter realmente acreditara que poderia seduzi-la apenas deixando a porta aberta, tirando o paletó e dobrando as mangas da camisa até os cotovelos. Era verdade que o colete preto marcava seu corpo de maneira quase indecente. Também era verdade que os antebraços fortes e a postura confiante faziam dele um homem difícil de ignorar.

Mas beleza não bastava.

Não para ela.

E, além de tudo, Peter tinha uma noiva. Casaria em menos de duas semanas com uma mulher famosa, rica e deslumbrante. Aline não pretendia se transformar em outra distração na vida de um homem comprometido. Já conhecia bem demais o lugar reservado às mulheres escondidas.

Não voltaria a ocupá-lo.

Ainda assim, não entendia o que havia feito para despertar tanto interesse. Escolhera uma camisa sem decote, uma saia elegante e uma maquiagem discreta. Prendera parte do cabelo para parecer ainda mais profissional. Tomara todos os cuidados possíveis para não repetir os problemas do emprego anterior.

Nada disso impedira Peter de observá-la a cada dois minutos.

Aline conhecia a diferença entre um olhar casual e um olhar faminto.

O dele pertencia à segunda espécie.

Também sabia que tinha vencido aquela primeira disputa. Peter tentara desestabilizá-la com sua presença, e ela respondera oferecendo apenas um segundo de provocação calculada.

O suficiente para fazê-lo engasgar.

Ao chegar ao prédio onde estava hospedada, estacionou e subiu pelo elevador da garagem. Entrou no apartamento em silêncio, largou a bolsa perto da porta e retirou os sapatos enquanto caminhava até a cozinha.

A lembrança voltou.

O vinho.

A expressão atônita.

Aquele homem poderoso completamente sem reação.

Aline tornou a rir.

Abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e sentou-se em um dos bancos junto à bancada. Enquanto bebia, repassou tudo o que acontecera.

Seu primeiro dia não fora um desastre. Pelo contrário. Compreendera rapidamente a dinâmica da empresa, acompanhara a reunião sem dificuldades e até identificara uma falha na estratégia de investimentos. Peter era arrogante, provocador e indecentemente seguro de si, mas levava o trabalho a sério.

Ela respeitava isso.

Nos dias seguintes, seguiria as orientações de Ema e provaria que sua contratação fora a escolha certa. Ajudaria Peter em tudo o que estivesse dentro de suas obrigações profissionais.

Somente profissionais.

O bilhete havia sido uma exceção.

Uma advertência.

Talvez um pequeno desafio.

Mas não significava nada.

Foi o que Aline repetiu para si mesma antes de dormir.

Na manhã seguinte, ela chegou à Johnson antes das sete.

Ao sair do elevador, encontrou o andar mergulhado em silêncio. As luzes automáticas acenderam-se conforme avançava, revelando a recepção vazia e a porta fechada do escritório.

Peter ainda não chegara.

Aline deixou algumas sacolas sobre a própria mesa e entrou na sala dele. A taça da noite anterior permanecia ao lado da pasta, e havia pequenas gotas de vinho seco sobre a superfície.

Ela passou um pano no tampo, ainda sorrindo com a lembrança.

Então organizou os documentos que seriam usados na reunião com Mateus Santos. Enquanto alinhava as pastas, recordou a expressão abatida de Peter no dia anterior. Ele parecia sentir dores, embora se esforçasse para esconder. Aline chegou a imaginar que treinasse em excesso ou praticasse algum esporte de alto impacto. O corpo grande, os ombros largos e as pernas fortes sustentavam essa possibilidade.

Pegou um copo de água e um analgésico das coisas que comprara no caminho. Deixou ambos sobre uma pequena bandeja, ao lado dos documentos.

Não fazia aquilo por interesse pessoal.

Um chefe com dor seria mais impaciente do que o normal, e Peter já possuía impaciência suficiente para dez homens.

Depois de conferir o relógio, Aline desceu um andar para preparar a sala de reuniões.

Alguns funcionários já estavam presentes. Ela perguntou a um deles onde poderia conseguir flores para os vasos e, em poucos minutos, surgiram homens de todos os lados, cada um trazendo arranjos diferentes e oferecendo ajuda que ela não solicitara.

Aline observou a movimentação com uma mistura de surpresa e cansaço.

— Preciso apenas de dois vasos - esclareceu.

Apareceram seis.

Ela escolheu os mais discretos, organizou a sala e dispensou os voluntários. Quando tudo estava pronto, retornou ao andar de Peter. Havia tirado os sapatos para se movimentar com mais rapidez e os deixara junto à mesa.

Assim que as portas do elevador se fecharam, uma sensação incômoda atravessou sua mente.

Tinha esquecido alguma coisa.

Parou no centro do corredor e tentou se lembrar. Antes que conseguisse, ouviu o elevador tornar a chegar.

As portas se abriram.

Peter apareceu do outro lado, segurando uma maleta. Ao vê-la descalça no meio do corredor, interrompeu o passo. A surpresa em seu rosto durou pouco, mas Aline percebeu.

Os olhos escuros desceram até os pés dela e subiram devagar.

Naquela manhã, Aline vestia uma saia preta mais curta que a do dia anterior, embora ainda adequada ao ambiente profissional. A camisa de tecido leve estava presa à cintura, acentuando suas curvas. Os cabelos caíam soltos sobre os ombros.

Peter trocou a maleta de mão.

— Senhorita Sobral. Já está aqui?

Aline sustentou o olhar dele.

— Eu disse que faria meu trabalho direito.

Ele saiu do elevador e se aproximou. Não havia ninguém no andar. O silêncio aumentava a presença de cada passo.

— E onde estão seus sapatos?

Aline olhou para os próprios pés. Só então percebeu que se esquecera de calçá-los novamente. A constatação provocou um leve desconforto, mas ela não permitiu que aparecesse em sua expressão.

— Vou colocá-los em um minuto.

— Não tenha pressa.

A voz baixa de Peter a fez erguer os olhos.

— O piso parece frio - acrescentou ele, inocente demais para ser convincente.

— Eu sobrevivo.

Peter sorriu de lado.

Ela se virou e entrou no escritório, consciente de que ele vinha logo atrás. Não precisava olhar para saber que estava sendo observada. Sentia a atenção dele percorrendo suas pernas e demorando-se no desenho que a saia quase escondia.

Peter fechou a porta.

O clique da fechadura fez Aline parar.

Virou-se lentamente.

— Por que fechou?

Ele ergueu a maleta.

— Para que ninguém interrompa.

— Interrompa o quê?

Peter sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de colocar a maleta sobre a mesa.

— A reunião começa em menos de uma hora. Temos trabalho.

Aline não acreditou na neutralidade da resposta, mas preferiu não insistir. Apanhou a bandeja que preparara.

— Como está se sentindo?

Peter parou.

— Por quê?

— Ontem, o senhor parecia cansado. Também estava se movendo como se sentisse dores.

— Estava me observando?

— Faz parte do meu trabalho perceber quando meu chefe não está bem.

— Tem certeza de que foi apenas por isso?

Aline se aproximou com o comprimido e o copo.

— Pensei que isto pudesse ajudar.

Peter olhou para a mão estendida. Depois, para o rosto dela. Um sorriso lento apareceu em seus lábios.

— Que atenciosa.

— Que eficiente - corrigiu Aline. — Um homem com dor tende a perder a concentração e descontar o desconforto nos funcionários.

— Está preocupada com meus funcionários?

— Comigo, principalmente.

Peter quase riu.

Ela tornou a oferecer o comprimido, mas ele levantou as duas mãos. A maleta continuava em uma delas; na outra, segurava o celular que acabara de tirar do bolso.

— Estou ocupado.

Aline estreitou os olhos.

Ele poderia facilmente colocar qualquer um dos objetos sobre a mesa. Não o fazia porque queria provocá-la.

Peter abriu um pouco os lábios.

Aline sentiu o calor subir pelo pescoço.

— O senhor só pode estar brincando.

— Foi você quem trouxe o remédio.

Os olhos dele carregavam um desafio silencioso.

Aline poderia deixar tudo na bandeja. Deveria fazer exatamente isso. Em vez disso, manteve o olhar preso ao dele, aproximou a mão e colocou o comprimido entre seus lábios.

Os dedos tocaram a boca de Peter por um breve instante.

O contato foi mínimo.

Ainda assim, uma descarga inesperada atravessou a mão dela.

Peter fechou os lábios devagar, sem afastar os olhos de seu rosto.

Aline retirou os dedos de imediato e lhe entregou o copo. Como ele continuava com as mãos ocupadas, precisou segurá-lo junto à boca.

— Beba.

Peter obedeceu, claramente satisfeito consigo mesmo. Tomou a água sem pressa, fazendo com que Aline permanecesse próxima. Quando terminou, ela afastou o copo com firmeza.

Ele passou por ela e finalmente colocou a maleta e o celular sobre a mesa.

Estava rindo.

Aline cerrou os dentes.

— Poderia ter feito isso desde o início.

— Poderia.

— E não fez porque...

— Porque queria saber até onde iria sua preocupação profissional.

Ela pousou o copo na bandeja com força suficiente para produzir um pequeno estalo.

— Não confunda eficiência com preocupação.

— Nem provocação com indiferença.

Aline virou-se para ele.

Peter retirou o paletó e o colocou sobre a cadeira. Em seguida, afrouxou os botões dos punhos e dobrou as mangas da camisa. Uma vez. Duas. Até os cotovelos.

Era deliberado.

Aline não lhe daria a satisfação de reagir.

— Obrigado pelo remédio - disse ele. — Mas não precisava.

— Garanto que trabalhará melhor quando a dor passar.

— E está interessada no meu desempenho?

— Apenas no profissional.

— Que pena.

Aline pegou a bandeja.

— Posso fazer uma pergunta?

Peter se apoiou contra a mesa.

— Você já faz isso sem pedir autorização.

— Pratica algum esporte?

Ele arqueou uma sobrancelha.

— O que a levou a perguntar?

— Seu porte físico. E as dores de ontem.

Peter sorriu. Havia algo predatório na expressão, como se houvesse esperado exatamente aquela oportunidade.

— Pratico.

— Qual?

— Sexo.

Aline permaneceu imóvel.

— Em cima da cama, contra a parede, no sofá... Depende da modalidade e da disposição da parceira.

A provocação pairou entre os dois.

Peter esperou o rubor, o constrangimento ou o desvio de olhar. Qualquer sinal de que conseguira atravessar a armadura dela.

Aline apenas inclinou a cabeça.

— Curioso.

O sorriso dele diminuiu.

— O quê?

— Sempre pensei que sexo servisse para aliviar a tensão e relaxar o corpo.

Ela se virou e caminhou até a porta.

— Não para deixar um homem destruído no dia seguinte.

Peter levou um segundo para compreender.

Quando compreendeu, endireitou-se.

— Está questionando minha resistência, senhorita Sobral?

Aline abriu a porta.

— Não. Só estou concluindo que alguma coisa foi mal executada.

Ela saiu.

Peter ficou parado, absorvendo o golpe. Então soltou uma risada baixa e a seguiu.

Aline pousou a bandeja sobre a própria mesa e só naquele momento percebeu que algo havia mudado.

O painel de madeira que fechava a parte frontal da mesa tinha desaparecido.

Agora, suas pernas ficavam completamente visíveis do escritório de Peter.

Ela passou os dedos lentamente pela borda do móvel. Olhou para o espaço aberto. Depois, tornou a encará-lo.

Peter estava parado à porta, com as mangas dobradas e uma satisfação indisfarçável no rosto.

— Mandou trocar minha mesa?

— Esta deixa o ambiente mais amplo.

— E oferece uma vista melhor?

— Mais iluminação.

— Naturalmente.

Aline cruzou os braços.

— Foi por causa das flores?

Pela primeira vez, Peter perdeu o sorriso.

Um silêncio denso caiu entre os dois.

Ela sabia.

Sabia que ele vira a tatuagem. Sabia que tentara descobrir onde o desenho começava e terminava. E agora o confrontava com a mesma tranquilidade com que o fizera engasgar na noite anterior.

Peter desceu os olhos até as pernas nuas dela.

Aline não recuou.

— Que flores? - perguntou ele.

— As que o senhor passou a reunião inteira tentando encontrar.

— Está dizendo que não prestei atenção à reunião?

— Estou dizendo que sua curiosidade é pouco discreta.

Peter caminhou até ela. Parou do outro lado da mesa aberta, perto demais para que aquela conversa continuasse parecendo profissional.

— E se eu admitir que fiquei curioso?

Aline apoiou as mãos no tampo.

— Continuará sem descobrir.

— Parece um desafio.

— Parece um limite.

Os olhos dele se estreitaram.

— Você deixa bilhetes provocadores, mostra exatamente o que quer que eu veja e depois fala sobre limites.

— Porque seduzir é uma escolha. Invadir é outra.

A resposta apagou qualquer diversão de seu rosto.

Aline manteve a voz calma.

— Eu escolhi provocá-lo ontem. Isso não lhe dá direito de transformar meu corpo em propriedade da empresa.

Peter olhou para a nova mesa. Pela primeira vez, a justificativa que preparara pareceu tão ridícula quanto realmente era.

— Tem razão.

A admissão surpreendeu Aline.

Ele não desviou os olhos.

— A mesa antiga será recolocada hoje.

Ela o estudou em silêncio, como se procurasse algum sinal de falsidade.

— Obrigada.

Peter assentiu e começou a voltar para o escritório.

— Senhor Johnson?

Ele parou e olhou por cima do ombro.

Aline calçou lentamente os sapatos, um de cada vez. Depois se levantou, recuperando alguns centímetros de altura e toda a imponência que desejava.

— Bom dia.

Peter a encarou por um longo instante.

— Bom dia, senhorita Sobral.

Entrou no escritório e fechou a porta.

Do lado de fora, Aline respirou fundo. Vencera outra provocação, mas o toque dos dedos em seus lábios ainda queimava em sua memória.

Do lado de dentro, Peter levou a mão à boca, exatamente onde ela o tocara.

O remédio começava a aliviar a dor de seu corpo.

Aline, porém, havia criado outra.

Uma muito mais perigosa.

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