LOGINFechei o sistema, organizei os relatórios e comecei a empilhá-los com calma meticulosa, tentando parecer profissional, mas por dentro… por dentro eu só queria sair correndo. Aquela tarde tinha sido um inferno — não só pelas tarefas intermináveis, mas porque cada vez que cruzava com ele no corredor, meu corpo ainda ardia com as lembranças de mais cedo. Minha calcinha ainda estava úmida, minha cabeça ainda girava no mesmo ciclo maldito de prazer, raiva e culpa.
Terminei de encaixar os relatórios na pasta correta de cada caso jurídico, como se aquilo fosse salvar minha reputação. Como se alguma coisa ainda pudesse me salvar.
Joguei minha nécessaire na bolsa, arrumei o cabelo num coque meio improvisado — o melhor que consegui depois do caos em que Misa me deixou — e forcei um sorriso no espelho da tela do notebook. Andar pelos corredores com cara de “fui comida no horário de almoço” não ia me ajudar a manter o pouco respeito que ainda tinham por mim naquela empresa. Ainda mais sendo estagiária. Ainda mais sendo "a protegida do Patinsk Jr.".
Fechei a luz do meu cubículo, equilibrando bolsa, pastas e o resto da dignidade que ainda me restava. A maçaneta quase caiu da minha mão de tanto que tremia. Não sei se era exaustão, tensão ou simplesmente a raiva de mim mesma.
Atravessei o andar até a mesa da minha supervisora, a Miss “Me-odeia-com-carisma”, e entreguei a papelada:
— Tudo inserido no sistema. Destaquei cláusulas e fundamentei com os artigos corretos da Constituição. — falei rápido, quase em um sopro, e saí antes que ela pudesse me devolver aquele olhar de quem sabe exatamente com quem eu transei na hora do almoço.
Entrei no elevador cheio, sentindo os olhos de meio mundo pesando sobre mim. Antes de sair de vez do prédio, passei no banheiro. Lotado. Executivas do penúltimo andar, todas maquiadas, penteadas e me analisando como se eu fosse um inseto no vidro. A maioria delas tinha dormido com o Misa. E o pior? Ele me contou. Em detalhes. Não porque fosse sincero, mas porque sabia que isso me feria. Sabia e gostava.
Lavei as mãos, ignorei os olhares e saí sem dizer uma palavra. O som dos saltos no corredor abafava os pensamentos que martelavam minha cabeça: faltam três meses para a formatura. Três meses para, teoricamente, virar adulta de vez. Publicitária com diploma e tudo. E o que eu tava fazendo? Transando com o chefe no expediente e fugindo de banheiro em banheiro tentando esconder o cheiro dele na minha pele.
Passei a tarde finalizando os protocolos de encerramento de processos cíveis que nem sei se alguém vai ler. Digitalizei cada cláusula, conferi os anexos e reescrevi quatro pareceres que a equipe sênior tinha jogado no meu colo. Fiz tudo com a concentração de uma máquina, tentando não pensar no gosto da boca dele, no calor da mão dele nas minhas coxas, no arrepio que me dominava cada vez que ele dizia meu nome em tom baixo, quase rosnando.
Mas pensar nisso era inevitável. Ele tava em todo canto.
Andava já quase fora da empresa quando uma mão firme me puxou para o corredor de serviço das faxineiras. Não era um lugar de passagem para os engravatados da Patinsk. Era o lugar perfeito para fazer merda.
— Misa! Eu tô atrasada. — bufei, tentando me desvencilhar.
— Só queria te convidar pra um programinha mais tarde. Lá em casa.
— Não vai dar. — Disse firme, sem encarar muito, porque se olhasse... ah, se olhasse. — Meus amigos me matam se eu não for hoje.
— Tem alguém melhor que eu? — ele fala daquele jeito petulante, que me faz querer socá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo.
— Odeio quando você me trata como se eu fosse descartável. — minha voz já sai trêmula. — Você sabe muito bem que eu não fico com mais ninguém.
— Não foi isso que eu quis dizer...
— Mas falou!
— Tá, tá, tanto faz. — Ele revira os olhos, e eu quase vejo o pai dele ali, espelhado na arrogância.
— Tanto faz pra você! — Eu me afasto, mas ele segura meu braço. Sinto os olhos dos executivos nos elevadores virando para nós.
— Aonde você vai?
— Não te interessa.
— Como não?
— Não lhe devo satisfação.
— A única que deve é a sua namorada, né?
Ele cerra os dentes.
— Margo, deixa de ser infantil.
— Pub. — digo seca.
— Merda. A July vai estar lá.
— Então faz companhia pra ela. — reviro os olhos e viro o corpo, mas ele me bloqueia.
— E ficar parado vendo você se esfregar em outros caras?
— Ah, você me irrita! — dou um meio-grito. — Fala como se eu fosse uma vadia! Como tu é idiota!
— Eu vou convencer a July a ficar em casa.
— Se você aparecer lá, eu corto seu pinto!
— É mesmo?
— Embora talvez eu nem tenha tempo, vou estar ocupada me esfregando em outros caras.
— Você quer me matar?
— Não. — dou um sorriso sarcástico. — Mas se acontecer, vou vestir preto na formatura.
Ele me encara com aquele olhar furioso que quase sempre termina em cama. Mas não hoje.
— Ah, e não esquece da sua bombinha de asma, tá? — digo com falso carinho. — Sua consulta com o alergologista é amanhã, às 09h. E lembra das injeções de alergia a amendoim. Acabaram no seu escritório. Ainda tem no seu apê, mas só duas.
— Você se preocupa mesmo comigo, né? — Ele dá aquele sorriso torto. O sorriso que me destrói.
— Só não quero que minha única transa vá parar no hospital. — falo sem emoção. — Seria péssimo pro meu ego.
Dou meia-volta e saio andando. Rebolando. Sentindo o fogo dele queimando minhas costas. E mesmo sem olhar, eu sei: ele ainda tá me assistindo. Como sempre. Como se eu fosse dele.
E talvez… no fundo, eu ainda seja.
E o Misa estava ali.Sentado na poltrona ao meu lado, postura mais ereta do que meses atrás, as mãos apoiadas nos braços da cadeira, os movimentos ainda cuidadosos, mas firmes. Ele ria, participava, se inclinava para frente quando queria dizer algo. Vez ou outra, sua mão encontrava a minha — um toque breve, automático, como se o corpo dele já soubesse onde era casa.Em algum momento, percebi que o burburinho foi diminuindo.Não porque alguém pediu silêncio.Mas porque o Misa se levantou.Demorou alguns segundos. Ele apoiou o peso com calma, respirou fundo, ajustou o equilíbrio. Meu coração disparou na mesma velocidade do primeiro dia em que o vi sair da cama sozinho. Instintivamente, fiz menção de levantar junto, mas ele apertou minha mão de leve.Deixa.Ele deu dois passos à frente, ficando no centro da sala. Pigorreou, claramente nervoso — o que arrancou um sorriso imediato da Emma.— Ih… — ela murmurou. — Lá vem coisa.Misa respirou fundo outra vez e apoiou a mão no encosto do sofá
Kate observava a cena. E, quando nossos olhares se cruzaram, ela fez algo que, meses atrás, eu jamais imaginei: sorriu para mim. Um sorriso pequeno, mas carregado de significado.— Eu tentei resistir — ela disse, quase como uma confissão. — Juro que tentei. Mas esses dois… — balançou a cabeça, rendida. — Eles não deixam.Eu ri, aliviada. Porque aquele perdão não tinha vindo por palavras ou explicações. Veio pelo caminho mais simples e mais poderoso: o amor pelos gêmeos.Aiden caminhou até o Misa.Houve um segundo de silêncio — não constrangedor, apenas carregado de tudo o que ainda não tinha sido dito. Então Aiden estendeu a mão, e Misa apertou. Não como empresários. Não como herdeiros. Mas como homens que dividiam algo muito maior do que uma empresa.— Feliz Natal, irmão — Aiden disse, e a palavra ainda parecia nova na boca dele.— Feliz Natal — Misa respondeu, com um sorriso que misturava surpresa e aceitação. — Que bom que você veio.— Eu não perderia — Aiden respondeu. — Já é trad
Becah correu primeiro. Não correu: marchou. E esticou os braços.— Vovó.Minha mãe derreteu. Meu pai ficou parado por um segundo, como se alguém tivesse apagado o chão.— Você tá enorme… — ele disse, a voz saindo mais baixa do que ele planejou.Liam veio logo depois e agarrou a barra do casaco do meu pai com a confiança de quem não sabe o que é rancor.Eu vi o rosto do meu pai mudar. Não foi um sorriso completo, ele e ainda era meio reseoso quando vinha aqui em casa.A última chegada me deu um choque silencioso.Elisa — mãe do Misa — entrou com um casaco claro, cabelo arrumado com uma simplicidade bonita, e ao lado dela um homem que eu não conhecia: o novo namorado. Ele tinha um sorriso contido, jeito de quem fala baixo e olha nos olhos. Elisa parecia… diferente. Mais viva. Mais dona de si. O divórcio do Antony não tinha sido só papel; tinha sido um resgate.— Feliz Natal, queridos — ela disse, me abraçando com carinho, depois indo direto nas crianças como se aquele fosse o centro do
Já é Natal.Essa constatação me atravessa enquanto observo a cidade pela janela do apartamento do Misa. Nova York lá embaixo parece outra coisa nessa época do ano: luzes quentes recortando o frio, vitrines exageradas, pessoas embrulhadas em casacos longos e cachecóis grossos, como se todo mundo estivesse tentando se proteger não só do inverno, mas do próprio cansaço do ano.Aqui em cima, o cheiro de pinheiro natural da árvore invade a sala de pé-direito alto. O apartamento de dois andares do Misa nunca pareceu tão vivo. Não é mais aquele espaço silencioso, quase solene, de antes. Agora há brinquedos espalhados, risadas ecoando pela escada em espiral, marcas de mão no vidro e uma sensação constante de casa — algo que, por muito tempo, eu achei que não saberia mais reconhecer.As crianças estão com dois anos.Dois anos.Às vezes ainda me assusto com isso.Becah corre pela sala usando um vestido de veludo verde-escuro, meia-calça grossa branca e um casaquinho de lã creme que escolhi com
Voltar para casa foi mais difícil do que sair do hospital.O apartamento continuava o mesmo: dois andares, linhas retas, concreto aparente, vidro demais. Tudo feito para alguém que sempre gostou de espaço, altura, liberdade. Agora, cada detalhe parecia me provocar. O degrau entre a sala e a varanda. O corredor estreito perto da escada. O banheiro que precisou ser reformado às pressas.A cadeira de rodas rangia baixo quando eu me movimentava. Ainda não me acostumei com o som. Nem com a sensação de depender dela.Nem de depender de alguém.Margo tentava não deixar isso evidente, mas eu via. Via quando ela desacelerava o passo para caminhar ao meu lado. Quando organizava tudo de forma que eu não precisasse pedir ajuda — o copo já na altura certa, a porta já aberta, o caminho livre.Eu sempre fui o homem que resolvia.Agora, precisava aceitar ser cuidado.— Devagar — disse o fisioterapeuta, Daniel, um cara grande, voz firme, mãos seguras. — Controla o tronco primeiro.Eu estava preso a ba
O corredor da ala cirúrgica parecia interminável.Branco demais. Frio demais.O som ritmado dos passos dos médicos misturava-se ao bip distante das máquinas e ao eco abafado das conversas sussurradas. O relógio na parede marcava o tempo com crueldade, como se cada segundo tivesse consciência do que estava em jogo.Misa estava lá dentro.Abri e fechei as mãos várias vezes, sem perceber. Meus dedos estavam gelados, apesar do ar abafado do hospital. Eu não conseguia sentar por muito tempo, nem ficar em pé. Caminhava dois passos, voltava, encostava na parede, respirava fundo… e falhava.Emma estava à minha direita. Llote à esquerda. Nenhuma das duas dizia nada — e eu agradecia por isso. Às vezes, Emma segurava meu braço quando percebia que minhas pernas iam ceder. Llote mexia distraidamente no celular, não por interesse, mas para fingir normalidade.— Vai dar certo — Emma murmurou em algum momento, mais para mim do que para si mesma.Eu não respondi.Não conseguia.Minha cabeça estava pre







