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CAPÍTULO 2

Autor: Crystal K
Na manhã seguinte, eu fui à galeria. Não para escolher um presente para a Bianca, mas para terminar um último trabalho. Restaurar a última peça da minha mãe que eu ainda tinha. Era um retrato dela.

O Damon tinha mexido alguns pauzinhos e conseguido recuperar, de uma casa de penhores decadente, uns dois meses atrás.

O cheiro de aguarrás me atingiu como um gancho, me levando de volta cinco anos no tempo. Eu era só uma estudante de artes pobre, uma órfã fazendo bicos numa cafeteria para pagar a faculdade. Eu pintava nas horas vagas e sonhava em ter minha própria galeria.

Então, um dia, uma garota rica e mimada da faculdade derramou um latte fervendo em cima do meu projeto final.

— Opa. — Ela zombou. — Essa coisa ridícula jamais estaria numa galeria mesmo. Eu só te dei um empurrãozinho para se livrar do lixo.

Eu até tentei reagir, mas logo fui cercada pelas amigas dela e um tapa fez meu rosto arder.

Foi então que o Damon apareceu.

Ele não era esse monstro que é hoje em dia. Naquela época, ele vestia um terno caro, feito sob medida. Parecia muito com alguém que tinha ido parar na parte errada da cidade por engano.

Só mais um visitante da exposição de arte, que estava de passagem, mas decidiu parar.

Ele não tocou em nenhum fio de cabelo dela, bastou um único e gélido olhar. No dia seguinte, toda a família dela desapareceu de Nova York.

Pensei que ele fosse o meu príncipe encantado.

Ele me deu um trabalho em sua galeria, uma chance de conviver com o tipo de arte que eu só podia sonhar quando estava na favela.

Então, três meses depois, num dia em que eu estava trabalhando até mais tarde, fui cercada por uns caras de uma família rival. Eles acharam que eu era a garota que Damon estava pegando e quiseram me usar para humilhar o novo chefe da área.

Quando o Damon veio, ele não era o mesmo cavalheiro da outra vez. Ele era como um demônio saído diretamente do inferno. Sem conversa, sem negociação. Apenas violência.

Eu o vi quebrar o braço do líder rival com as próprias mãos e depois de uma luta sangrenta, nós finalmente fugimos.

Naquela noite, ele me jogou, ainda tremendo, para dentro do carro esportivo e acelerou cerca de 190 km/h. O rugido do motor abafava totalmente os meus gritos.

— Assustada? — Ele perguntou, com o carro parado na beira de um precipício. Uma mão no volante e outra acariciando meus lábios.

— Damon... por favor... para...

— Não. Você precisa se lembrar bem dessa sensação.

Os olhos dele eram selvagens e maníacos. Era como se a adrenalina da luta tivesse acendido uma chama nele.

Ele me pegou ali mesmo, na beira daquele precipício, o motor do carro ainda vibrava. Aquilo não era amor. Era uma conquista, moldada pelo risco da morte e por um tesão tão intenso que chegava a arder.

— Você é minha, Nora. — Disse, mordendo o meu pescoço ao gozar.

Ding.

O som do sino da loja me puxou de volta ao presente. Eu levantei o olhar e uma mulher estava parada na porta.

Bianca Torrino.

Ela vestia um vestido branco da Valentino, com um colar de pérolas reluzindo sob as luzes. Era visível em seus olhos que ela não estava ali atrás de uma obra de arte, mas sim para marcar território.

— Então, você é a pequena pintora do Damon? — Ela disse, olhando de cima a baixo, como se eu fosse um objeto. — Ouvi dizer que você é boa em restaurar coisas antigas.

Ela caminhou até o retrato da minha mãe.

— É uma pena que coisas velhas não tenham valor. — Ela disse com um sorriso debochado. — Ouvi dizer que essa pintura é tudo que você ainda tem. O último vínculo com seu passado patético.

Eu cerrei meus punhos.

— Não me olhe assim. — Bianca disse, olhando para o celular com um sorriso malicioso — Foi ideia dele.

Ela fez uma chamada de vídeo.

A tela se iluminou com o rosto de Damon, ele estava na mansão da família Torrino. Eu até conseguia ver o pai da Bianca no fundo.

— Nora. — A voz de Damon, fria e mórbida, saindo de através do alto-falante — Mostre lealdade à sua futura rainha. Destrua a pintura com suas próprias mãos.

Meu sangue gelou.

— Não me faça repetir. — Disse ele, enquanto girava um copo de uísque. O tom era o mesmo de quando dava ordens aos cães. — Ou eu mesmo mando meus homens o queimarem, junto de toda a galeria.

Eu apenas consegui encarar incrédula o rosto do homem que amei por cinco anos.

Por negócios. Por um acordo. Ele ia me obrigar a apagar a última luz do meu mundo com as minhas próprias mãos.

— O que foi? O gato comeu a sua língua? — Bianca me provocou. — Parece que a "criação" do Damon não é tão obediente assim.

Respirei fundo, engoli minhas lágrimas e abri um sorriso.

Olhando para o Damon através da tela do celular, eu disse:

— Está bem. — Com a voz firme. — Como quiser.

Sob o olhar triunfante de Bianca e o olhar frio de Damon, eu peguei uma espátula de pintura, uma ferramenta feita para criar, e utilizei como a lâmina de um carrasco.

Rasguei o rosto de minha mãe com a lâmina.

Uma. Duas. Três vezes.

A cada corte, eu não estava rasgando apenas a tela, mas também rompendo o último fio de amor que eu ainda tinha por ele.

Satisfeita, Bianca deu um sorriso de desprezo e se virou para sair.

— Certifique-se de limpar essa bagunça. Eu não quero as coisas do Damon com esse tipo de sujeira espalhada por aí.

Eu fiquei ali, sozinha, enquanto ouvia o som dos saltos dela se afastando. Eu não chorei, apenas me ajoelhei e recolhi os pedaços, um a um. Era como se eu estivesse enterrando o corpo da minha mãe mais uma vez.

Então, meu celular vibrou.

[Venha ao esconderijo hoje à noite. Estou machucado. Preciso de você.]

Fiquei olhando para aquela mensagem, toda casual: "Preciso de você."

A antiga eu teria largado tudo, sem pensar duas vezes, e teria corrido até ele, pronta para levar outra bala por ele. Mas agora, olhando para aqueles pedaços em minhas mãos, aquele homem que eu amei tanto por cinco anos, agora parecia ser apenas um estranho.

Ele não estava ferido. Ele só precisava garantir que a coleira do seu cachorrinho ainda estava bem presa.

Eu me levantei e joguei toda aquela sujeira no chão.

— Eu estarei lá, Damon. —Sussurrei para a sala vazia.

Esta é a última vez que eu vou te remendar.
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