LOGINO papel fino parecia queimar entre os dedos de Anne. Ela dobrou o bilhete rapidamente e o ocultou na dobra das luvas de pelica, mantendo a expressão serena para não chamar a atenção dos nobres que ainda os observavam com curiosidade.
Edmund, sempre atento a cada milímetro dos movimentos dela, percebeu a mudança instantânea na tensão dos ombros da esposa.
— O que havia naquele papel? — perguntou ele, a voz baixíssima, inclinando-se como se estivesse apenas segredando um galanteio ao seu ouvido.
— Alguém sabe sobre a beladona — sussurrou Anne, sustentando o olhar dele enquanto se moviam devagar em direção ao perímetro da pista de dança. — O bilhete diz que o mesmo veneno de Blackwood está nas taças do baile esta noite.
O maxilar de Edmund travou. Ele varreu o salão com um olhar implacável, rastreando a multidão em busca da criada que havia entregue a mensagem, mas a jovem de avental branco já havia sido engolida pelo mar de vestidos de seda e casacas escuras.
A poucos metros dali, sob o grande lustre de cristal, Lorde Thomas conversava animadamente com o Barão de Salisbury. Em sua mão, Thomas segurava uma taça de champanhe banhada a ouro, mas seus olhos pequenos e astutos não saíam de Anne e Edmund. Ao lado dele, um garçom carregava uma bandeja de prata com taças recém-servidas para os convidados de honra.
— Não toque em nada que venha dos garçons — ordenou Edmund, segurando o cotovelo de Anne com firmeza protetora. — Vamos sair daqui agora mesmo.
— Não podemos ir embora assim, Edmund — Anne retrucou em um tom urgente, embora controlado. — Se sairmos correndo, Thomas saberá que o aviso nos alcançou. Precisamos descobrir quem nos mandou aquela mensagem. Quem quer que seja, está dentro desta festa e sabe exatamente o que Thomas planejou.
Antes que Edmund pudesse responder, a Duquesa de Devonshire, trajando um vistoso vestido de veludo roxo, aproximou-se com um sorriso largo, seguida por um servente que trazia justamente a bandeja de champanhe.
— Ah, Lorde e Lady Blackwood! — exclamou a Duquesa, sua voz ressoando alta o suficiente para atrair a atenção do pequeno círculo aristocrático ao redor. — Que alegria imensa ver a Casa Blackwood de volta à sociedade. Precisamos fazer um brinde à felicidade do novo casal!
O garçom deu um passo à frente, oferecendo a bandeja. Duas taças de cristal lapidado borbulhavam com o líquido dourado.
Lorde Thomas aproximou-se a passos lentos, o sorriso gélido estampado no rosto enquanto erguia a própria taça em direção a Anne.
— Um brinde — disse Thomas, o tom banhado em um sarcasmo velado. — À saúde e à longa vida da nova Condessa de Blackwood. Beba conosco, Lady Anne. É uma tradição da casa Devonshire.
O ar no salão pareceu congelar. Dezenas de olhos se voltaram para Anne. Recusar publicamente o brinde oferecido pela anfitriã seria uma afronta imperdoável à etiqueta, mas aceitar aquela taça poderia significar o mesmo destino de Beatrice.
Edmund fez menção de se interpor, mas Anne foi mais rápida. Ela deslizou os dedos com graciosidade e pegou uma das taças de cristal da bandeja.
Em seguida, olhando diretamente nos olhos de Lorde Thomas, Anne deu um passo à frente com uma compostura impecável.
— Um brinde à saúde — disse Anne, sua voz clara ecoando com elegância. — Mas na minha família, é costume do anfitrião ou dos mais velhos trocarem de taça como sinal de confiança e bênção entre as linhagens.
Com um movimento ágil e calculado, Anne estendeu sua taça na direção de Thomas e pegou a taça que estava na mão dele antes que o homem pudesse reagir.
— Beba pela minha saúde na sua taça, Lorde Thomas... e eu beberei pela sua na que acabou de me oferecer.
A cor fugiu instantaneamente do rosto de Thomas. A máscara de controle do vilão ruiu por uma fração de segundo, revelando um lampejo de pânico absoluto enquanto ele encarava a taça que Anne acabara de colocar em suas mãos.
O silêncio na roda da aristocracia era tão denso que se podia ouvir o farfalhar das saias de seda. Lorde Thomas encarou a taça de cristal lapidado que Anne acabara de colocar em sua mão com uma rigidez de estátua. A cor havia fugido completamente do seu rosto.
— Ora, Lady Anne... — murmurou Thomas, a voz vacilando ligeiramente enquanto ele forçava um sorriso amarelo. — Vejo que traz costumes bastante... pitorescos da sua província. No entanto, me parece uma desfeita alterar a taça que a própria Duquesa nos serviu.
— De forma alguma, Lorde Thomas — Anne respondeu com voz doce, perfeitamente audível para os nobres ao redor. — É apenas uma demonstração de confiança e afeto familiar. O senhor não recusaria um gesto de carinho da nova Condessa de Blackwood diante de toda a sociedade, recusaria?
Edmund deu meio passo à frente, os olhos cinzentos faiscando com um prazer sombrio ao ver o tio encurralado.
— Beba, tio — disse Edmund, a voz grave como o som de uma sentença. — Pela saúde da minha esposa.
Os olhares da Duquesa de Devonshire e dos demais convidados pesavam sobre Thomas. O homem engoliu em seco. Suas mãos trêmulas seguravam o cristal como se fosse uma víbora prestes a picá-lo. Sabendo exatamente o que havia naquela mistura, Thomas fingiu um tropeço súbito, soltando a taça no chão de mármore.
O som do cristal se estilhaçando e o líquido borbulhante se espalhando pelos sapatos de Thomas fez a multidão soltar um arfar contido.
— Ah, que desastre! — exclamou Thomas, limpando a casaca com um lenço e tentando disfarçar o pânico nos olhos. — Minhas desculpas, minha querida. Minha mão simplesmente fraquejou. Uma pena... um vinho tão excelente.
— Uma pena, de fato — disse Anne, mantendo o queixo erguido e a calma impecável. — Mas não se preocupe, Lorde Thomas. Teremos muitas outras oportunidades para brindar.
Antes que Thomas pudesse inventar outra desculpa, Edmund segurou a mão de Anne com firmeza, entrelaçando seus dedos nos dela diante de todos.
— Se nos dá licença, tio — declarou Edmund, olhando-o do alto com absoluto desdém. — Minha esposa e eu precisamos nos recolher. O ar deste salão tornou-se subitamente... tóxico.
A carruagem do Conde de Blackwood cruzou os imponentes portões de ferro batido ao final da tarde do segundo dia de viagem. O sol de outono declinava no horizonte, tingindo o céu de nuances alaranjadas e violetas que se projetavam sobre os carvalhos seculares do domínio. Anne mantinha a cortina de veludo ligeiramente afastada, observando a silhueta da mansão aproximar-se.À medida que o veículo avançava pela alameda principal, as marcas do recente ataque tornavam-se visíveis. A ala oeste, antes uma imponente estrutura de pedra simétrica, exibia vigas enegrecidas e janelas emolduradas pela fuligem. No entanto, onde Anne esperava encontrar um ar de desolação, havia um movimento vibrante de trabalho. Dezenas de artesãos, carpinteiros e pedreiros locais movimentavam-se pelo pátio, descarregando blocos de pedra nova, tábuas de carvalho
A névoa espessa que descia das colinas de Mayfair misturava-se à poeira da estrada de terra, transformando o trecho isolado da floresta em um cenário sombrio. Os cavalos relinchavam inquietos, batendo as patas no chão enlameado, enquanto o rangido da madeira da carruagem ecoava no silêncio tenso da noite.Edmund desembarcou com a postura ereta e a expressão impecável de quem não conhecia o medo. Trajava sua casaca escura e mantinha uma das mãos ocultas sob o tecido grosso, segurando com firmeza o cabo de pederneira. A alguns passos de distância, o Capitão Vane dava uma risada curta e debochada, cercado por cinco mercenários armados com sabres e pistolas de cano curto.— O nobre senhor parece calmo demais para quem está prestes a perder a fortuna e a vida — provocou Vane, dando um passo à
A manhã em Grosvenor Square amanheceu suave, banhada por uma luz dourada que atravessava as cortinas de veludo do quarto principal. Sobre o linho macio, Anne despertou sentindo o peso acolhedor do braço de Edmund ao redor de sua cintura. Pela primeira vez desde que pisara em Blackwood Manor, a sensação de constante vigilância fora substituída por uma plenitude profunda.Edmund já estava desperto, observando-a em silêncio. Ao ver os olhos escuros de Anne se abrirem, um sorriso genuíno e relaxado surgiu em seus lábios — uma imagem que teria parecido impossível semanas atrás.— Bom dia, Condessa — sussurrou ele, inclinando-se para selar os lábios nos dela em um beijo demorado e quente.— Bom dia, meu Conde — respondeu Anne, acariciando o rosto mar
Os dias que se seguiram na capital foram marcados por um recolhimento estratégico. Edmund enviou ordens estritas para que a guarda do porto de Bristol assumisse a apreensão dos navios mercantes, enquanto reforçava a escolta pessoal da residência em Grosvenor Square.Naquela noite, a brisa fresca da primavera entrava pelas cortinas de veludo do quarto principal, trazendo consigo o perfume dos jardins de Londres. Pela primeira vez desde que o contrato fora assinado, o peso das desconfianças, dos perigos e das sombras dera lugar a um silêncio íntimo e carregado de uma tensão inteiramente nova — suave, quente e inevitável.Anne estava sentada diante da penteadeira de madeira nobre, trajando apenas uma camisola de seda marfim que deslizava delicadamente sobre a pele. Seus cabelos escuros caíam em ondas espessas pelas costas.
Edmund recebeu os documentos selados das mãos do magistrado, rompendo a cera vermelha com um abridor de prata,com uma calma surpreendente ele leu cada documento. O silêncio na sala de estar era quebrado apenas pelo farfalhar dos papéis timbrados que revelavam a vastidão dos esquemas de Thomas.— O que encontramos, Milorde — começou o magistrado, o tom formal, cauteloso e um pouco temeroso —, não se trata apenas de chantagem política. Durante a auditoria nos cofres privados que Lorde Thomas mantinha em um banco sob nome falso, descobrimos contratos de financiamento marítimo altamente questionáveis.Anne aproximou-se, lendo por cima do ombro de Edmund. Os documentos listavam nomes de navios mercantes e rotas comerciais, mas havia um padrão estranho nas mercadorias declaradas e nas somas exorbitantes associadas
A notícia do incêndio e da trágica "desaparição" de Lorde Thomas nas águas revoltas do riacho correu pela alta sociedade de Londres com a velocidade de um rastro de pólvora. Quando a carruagem do Conde de Blackwood parou novamente diante do número 14 da Grosvenor Square, três semanas após o incidente, o ar da capital não era mais impregnado por desconfiança, mas por uma curiosidade respeitosa.Anne desembarcou acompanhada de Edmund. A leve cicratiz que ela trazia no antebraço, coberta pela renda delicada de sua manga, era o único vestígio físico da noite do ataque.Dentro da residência da cidade, papéis e jornais acumulavam-se sobre a mesa de centro da sala de estar. As manchetes da imprensa aristocrática eram categóricas: a Coroa encerrara oficialmente as in







