FAZER LOGIN14 anos depois…
Escandinávia, 933 d.C. Todo homem devia honrar os compromissos que assumia. Não importava a origem. Nem o motivo. Nem se o mundo havia mudado desde então. O que fora prometido em um leito de morte precisava ser cumprido em vida. O pai já não caminhava entre os vivos, mas sua palavra permanecia gravada em tudo o que deixara para trás: no castelo erguido à força de ferro, nas muralhas que cortavam o horizonte, no nome herdado… e, sobretudo, na promessa. Aquela promessa maldita. Fora ela que garantira a paz entre os clãs. Juramentos antigos, selados com lâminas e olhares firmes entre líderes endurecidos pela guerra, haviam evitado batalhas, contido a fome, afastado o caos. Agora, porém, restava apenas um elo daquele acordo — e ele cavalgava em direção ao próprio destino. Seria justo rompê-lo apenas porque a noiva perdera a sanidade? Não. Claro que não. Ainda assim, o Abismo de Ferro não diminuía a maldição que lhe corroía o peito. Cada rajada de vento parecia zombar de sua desgraça, e nem mesmo as chamas alaranjadas do inferno seriam capazes de queimar o peso que tudo aquilo carregava. O cavalo arfava sob seu corpo, as patas golpeando a terra congelada. À frente, a trilha se estreitava entre montanhas altas envoltas por névoa — muralhas ancestrais, torturadas pelo tempo. Árvores secas curvavam-se ao vento, tudo parecia compreender o que estava prestes a acontecer. Logo atrás, nove guerreiros o seguia. Por lealdade, por dever. Não diziam palavra. Ninguém ousava incomodar aquele viking. Ainda assim, os rumores viajavam mais rápido que qualquer montaria. A prometida de Tarok enlouqueceu. Dança com a névoa. Morde quem se aproxima. Ri com os mortos. Fala sozinha. A louca de Valheris. E ele era conhecido como o Filho da Tempestade — o homem forte que levou seu povo a várias glórias, o jovem que conquistou a confiança do rei por seus muitos feitos. Por que deveria unir seu nome ao de uma mulher assim? As rédeas foram apertadas até os nós dos dedos embranquecerem. O cavalo resfolegou ao sentir o chute em seu flanco e disparou, os cascos cortando a neve endurecida. O vento chicoteou-lhe o rosto, arrancando os cabelos ruivos para trás — longos, soltos, indomáveis como o desejo de desaparecer. O vento, porém, não acalmava o que ardia dentro dele. Porque sabia. Sabia aquilo que ele se recusava a admitir. Procurava uma saída. Qualquer desculpa. Uma falha no acordo. Um erro esquecido. Algo que o fizesse parar. Levar uma mulher insana para dentro de seu castelo seria assinar a ruína de tudo o que construíra. Mas quebrar a promessa significaria declarar guerra — ao Oeste, ao rei, ao próprio sangue. Pelos raios de Thor. O cansaço o dominava. Não o do corpo, mas o da mente. Política, juramentos, expectativas — tudo esmagava a alma, e metade da dele já estava perdida. — Mais rápido! — bradou, ao avistar os portões ao longe. Valheris surgia diante dele: a fortaleza ancestral do Oeste. O berço da prometida. As terras que deveriam ser unidas às suas por um beijo e um contrato. Que loucura o trouxera até ali? Ainda havia tempo de virar o cavalo, fugir para o Sul e fingir que aquela promessa jamais existira. Mas não o fez. A vida, por vezes, não passava de uma carroça de esterco puxada por feras indomáveis — e ele era o bastardo condenado a segurar as rédeas. Atravessou os grandes portões, seguido de perto por seus homens. O som das armaduras ecoou pelo pátio de pedra. O Clã Valheris carregava uma aura de abandono; ali, o tempo parecia ter desistido de avançar. Janelas de madeira gastas, pedras cobertas de musgo, bandeiras que não tremulavam com orgulho, mas como o último suspiro de um corpo que deveria estar enterrado havia anos. O vento cortava as muralhas como lâmina. E ele avançou pela estrada de pedra que conduzia ao castelo principal, os guerreiros logo atrás, conforme exigia o protocolo. Aquilo não era uma visita. Era uma cobrança ou um pagamento? Ao pé das escadas do salão principal, os aguardavam. Aven. O velho bastardo ainda sustentava uma postura firme, mesmo com o mundo ruindo sobre sua cabeça. Ombros retos, queixo erguido, olhos de quem acreditava deter algum poder. À direita dele, Meviria — a esposa. Pálida, fina como uma adaga. Os dedos enluvados escondiam intenções; o sorriso era doce demais para ser verdadeiro. Ela o fitou sorrindo, acenando em boas-vindas. À esquerda, Elarim — a filha. Alta, delicada, serena de uma maneira estranha para alguém criada em terras tão duras. Os cabelos estavam trançados com fitas azuis; os olhos, baixos, mas atentos. Era uma moça linda de se ver, encantadora como as primeiras flores do primavera. O olhar de Tharok pousou sobre a jovem, levando-a a sorrir e a curvar ainda mais a cabeça. Ao lado dela, Dareth, o irmão — um garoto que se esforçava para vestir a máscara de homem, porém não passava de um pequeno covarde, um niding, como eram chamados os jovens como ele. Atrás deles, cavaleiros do clã permaneciam imóveis, armados. Não era possível saber se aguardavam… ou vigiavam. Tharok desmontou em um único movimento. O vento voltou a puxar-lhe os cabelos quando os pés tocaram o chão. Permaneceu ali, a poucos passos deles, observando o local. O silêncio no pátio ergueu-se. Seu olhar percorreu cada rosto — um a um. Aven. Meviria. Elarim. Dareth. Os guerreiros. Então, o vazio. Nenhum daqueles rostos era o dela. Alarë não estava ali. Não era surpresa. Anos antes, estivera naquele mesmo lugar e também não a vira. O clã sempre alegava repouso, cuidados, tratamentos. Mas naquele dia não haveria esconderijos. Ele não viera para visitar. Viera para buscá-la. E, para isso, finalmente seria obrigado a encarar a mulher que carregava sua promessa — e sua condenação.— O selo real... — Broc observou o broche de ouro repousando sobre a mesa. Seus dedos tocaram a peça apenas por um instante antes de recuar. — Tem certeza de que realmente pretende usá-lo? Tharok acabara de retornar a Dravharn. A viagem da capital havia lhe rendido mais perguntas do que respostas. Agora, debruçado sobre um mapa de Valéris, analisava rios, estradas, aldeias e fortalezas. Antes de tomar qualquer decisão, pretendia descobrir quem realmente estava por trás do envenenamento de Alarë, quem lucrava com sua suposta loucura e quais homens permaneciam leais a Aven. Não pisaria em Valéris apenas como um jarl. Entraria sabendo exatamente onde pisaria. — Só se for preciso. — respondeu, desviando os olhos do mapa. — E Valéris? Unirá as terras ou continuará dividida? Tharok permaneceu alguns segundos em silêncio. — Continuará dividida. Broc franziu a testa. — Tem certeza? — Tenho. Antes de qualquer união, há algo que preciso fazer. — Descobrir quem tentou mat
O rei apoiou a taça sobre a mesa. — Não precisa defender a moça. Nós a vimos crescer. Lidamos com a situação dela desde a morte de Ivor. — Ela não é louca. — Dessa vez a voz de Tharok saiu mais firme. Mais dura. A rainha sustentou seu olhar sem vacilar. — E por que diz isso? O guerreiro inclinou-se para frente. — Porque conheço minha esposa. O rei arqueou uma sobrancelha. — Em poucos meses? — Mais do que muitos a conheceram em anos. — O comentário arrancou um silêncio desconfortável. — Ela estava sendo envenenada. A rainha empalideceu e o rei permaneceu imóvel. — Cuidado com essa acusação, Tharok. — advertiu o rei. — Não é uma acusação. É um fato. — Tem provas? — Tenho indícios suficientes para não ignorar. A rainha apertou os braços da cadeira. — Explique. — Durante todo o tempo comigo, ela não teve uma única crise. — Isso não significa... — Significa muito. — Tharok a interrompeu. — Ela passou meses longe de Valéris. Meses sem as infusões que lhe
O rei convocar uma conversa particular não surpreendeu Tharok. Após a refeição, ele acompanhou os soberanos até uma pequena sala reservada nos aposentos reais. Antes de sair, deixou Alarë no quarto, prometendo que não demoraria. Assim que entrou, foi convidado a sentar-se. Uma serva serviu-lhe vinho e retirou-se em silêncio, fechando a porta atrás de si. O ambiente ficou estranhamente quieto. Apenas o crepitar da lareira preenchia o espaço. — Bem. — O rei apoiou os braços na cadeira. — Vamos ao que realmente o trouxe aqui. Tharok sustentou seu olhar. — Estou ouvindo. — Você possui duas terras grandiosas. Seu pai lhe deixou Dravharn e Ivor lhe confiou Valéris através de Alarë. Mas unir os dois povos da forma como eles desejavam... é uma ideia ousada demais. E temo que isso possa lhe causar problemas no futuro. O guerreiro permaneceu em silêncio. No fundo, ele compreendia o que o rei queria dizer. Antes de conversar com Alarë, talvez até concordasse. Mas muita coisa ha
Uma batida soou na porta. Alarë terminou de ajustar o vestido ao corpo e ergueu o olhar na direção de Tharok. O jovem guerreiro estava sentado próximo à porta, analisando um mapa das terras de Valéris. Mais cedo ou mais tarde teria de lidar com aquele assunto, mas primeiro precisaria descobrir o que o rei desejava deles. A batida repetiu-se. — Jarl, o rei os convida para o jantar. Tharok levantou-se e abriu a porta. Do outro lado encontrava-se William, o capitão da guarda. — Desculpe-me perturbá-los. — Estávamos esperando. William assentiu. — Sua Majestade pediu que os acompanhasse pessoalmente. Tharok apenas concordou com um movimento de cabeça antes de voltar-se para Alarë. Seu olhar demorou-se nela. A moça havia trocado as roupas de viagem por um vestido digno de uma senhora de clã. O vestido principal fora feito à mão por sua mãe. Ele possuía um suave tom rosado, semelhante às primeiras flores que despontavam após o inverno. Sobre ele repousava uma túnica s
Tharok fez um gesto para que seus homens o acompanhassem. Então pousou uma das mãos nas costas de Alarë, guiando-a para frente. Ao seu lado, Alarë observava tudo com atenção, esforçando-se para absorver o máximo possível daquele lugar. O interior do castelo era ainda mais impressionante do que sua aparência externa. As paredes eram cobertas por tapeçarias coloridas que retratavam batalhas antigas, reis do passado e navios enfrentando mares revoltos. Grandes colunas de pedra sustentavam o teto elevado, enquanto tochas presas em suportes de ferro iluminavam os corredores com uma luz dourada e tremulante. Esculturas de animais e guerreiros adornavam nichos ao longo dos corredores, e em vários pontos era possível ver brasões pertencentes à família real. Enquanto subiam as escadarias, nenhum dos empregados cruzava diretamente o olhar com eles. Ainda assim, Alarë percebia os olhares discretos, todos pareciam curiosos. Talvez fosse impossível não ser quando um jarl poderoso e sua r
Alarë tentou afastar a admiração que sentiu ao vislumbrar o castelo real e o vilarejo da capital. Talvez fosse por achar a propriedade maior que a de Tharok. Não. Para falar a verdade, se juntassem os castelos de Valéris e Dravharn, ainda não chegariam perto da grandiosidade do palácio que se erguia diante de seus olhos. Altas muralhas de pedra cercavam toda a cidade real. Torres elevavam-se em direção ao céu, exibindo os estandartes do rei que balançavam ao vento. Ruas largas fervilhavam de atividade. Mercadores anunciavam suas mercadorias, carroças cruzavam os caminhos e pessoas de diferentes clãs caminhavam de um lado para outro. Alarë ficou impressionada com o que tinha diante dos olhos. O local era completamente diferente dos territórios que conhecia. Os castelos dos clãs costumavam ficar mais afastados, cercados por florestas, montanhas ou fiordes. O castelo real, porém, erguia-se no coração da cidade, dominando tudo ao redor como uma montanha de pedra construída por m







