Se connecterPOV: Aurora
À luz da manhã, o clube parecia menos uma fortaleza criminosa e mais uma pequena cidade construída ao redor de motores. Mecânicos atravessavam o pátio com uniformes da oficina, duas crianças esperavam o transporte escolar junto ao portão e uma cozinheira discutia o preço de tomates com um homem tatuado que a tratava por dona Lúcia. Aurora desconfiou da normalidade. Lugares perigosos raramente anunciavam o perigo o tempo todo; sobreviver dependia de saber quando escondê-lo.
Sofia Moretti entregou-lhe uma caneca de café e a conduziu pelo complexo.
— A faixa superior do colete mostra o nome do clube, a inferior mostra o território — explicou Sofia. — O emblema completo é conquistado. Os novatos usam apenas “prospect” e fazem o trabalho que ninguém quer. Presidente e vice conduzem o clube, o sargento de armas cuida da segurança, o road captain organiza as viagens. Decisões grandes passam pela mesa e pelos membros com direito a voto.
— Ghost manda em tudo, mas precisa que votem?
Sofia retomou a conversa:
— Ele manda porque o respeitam, não porque herdou uma coroa. Se confundir as duas coisas, perde a cadeira.
— E você ocupa qual cargo?
Sofia sorriu.
— O cargo de lembrar aos homens que a vida não cabe nos estatutos deles. Cuido do bar, dos contratos legais e da fundação que ajuda as famílias. Não uso colete, mas ninguém é idiota o bastante para me chamar de decoração.
Na cozinha, Aurora conheceu Nina, companheira de Marco, que preparava sanduíches para uma reunião; Beto “Torque”, chefe da oficina; e Davi, um prospect de dezenove anos que derrubou uma bandeja ao reconhecê-la como “a filha do ladrão”. Caio apareceu antes que o constrangimento se espalhasse.
— Pegue outra bandeja e peça desculpas — ordenou Caio ao rapaz. — Aqui, culpa não passa por sangue sem prova.
Davi obedeceu, vermelho. Aurora fitou Caio.
— Não esperava justiça do homem que sugeriu métodos criativos para me convencer.
— Não confunda justiça com gentileza — respondeu Caio. — Eu não gosto de você, mas gosto ainda menos de preguiça mental.
— É um começo comovente.
Ele quase sorriu, depois deixou sobre a mesa uma fotografia do carro usado no ataque.
Caio entrou na conversa:
— Sua advogada chegou. Também descobrimos que alguém tentou entrar no apartamento dela durante a madrugada.
Isadora Nunes entrou como uma tempestade de salto baixo e pasta vermelha. Abraçou Aurora, verificou seu rosto e se virou para Ghost, que vinha logo atrás.
— Se minha cliente está detida, quero a autoridade responsável e o fundamento legal — disse Isadora. — Se não está, ela vai embora comigo.
— Sua cliente pode sair — respondeu Ghost. — Contudo, dois homens armados atacaram a casa dela, e alguém invadiu o seu apartamento. Tenho seis pessoas procurando a rota de fuga. Quantas você tem?
Isadora sustentou o olhar.
— Tenho a lei.
— Ligue para ela e pergunte em quanto tempo chega.
Aurora colocou-se entre os dois.
— Eu concordei em ficar sete dias. Preciso saber como meu nome foi usado e por que meu pai citou os Corvos de Ferro.
Isadora virou-se para ela.
— Você tem certeza de que não está concordando porque ele a intimidou?
— Ele intimidou, eu negociei e nenhum de nós gostou do resultado. Isso significa que provavelmente é um acordo razoável.
Na sala de reuniões, Sofia apresentou os documentos. Isadora identificou uma autenticação feita num cartório fechado havia dois anos e um selo incompatível com a data. Aurora analisou as planilhas e percebeu que as transferências seguiam valores ligeiramente abaixo dos limites de verificação automática.
— Meu pai não montou isto sozinho — concluiu Aurora. — Ele entendia pessoas, garantias e pressão, mas detestava sistemas. Alguém com acesso ao financeiro dos Renegados criou o calendário das transferências.
Ghost, à cabeceira, perguntou:
— Está acusando um membro do meu clube?
— Estou dizendo que um intermediário externo não saberia exatamente em quais dias o caixa teria saldo suficiente para esconder saídas. Se deseja defender todos por lealdade, faça isso. Se deseja encontrar o dinheiro, procure quem tinha acesso.
Marco apoiou os cotovelos na mesa.
— Sofia, Ledger e eu recebíamos os relatórios completos. Ghost recebia o consolidado. Mais alguém?
— Rafael recebia projeções durante a negociação da Vértice — respondeu Sofia. — Mas Aurora tem razão sobre os dias. Há precisão demais.
Ghost não gostou da conclusão, porém não a rejeitou. Aurora percebeu que sua lealdade não era cegueira; era uma ferida que ele protegia.
Depois da reunião, Isadora puxou-a para o corredor.
— Preciso que me diga toda a verdade — afirmou a advogada. — Você está com medo dele?
— Estou com medo do que ele pode fazer, mas não acho que Ghost tenha ordenado os tiros. Ele poderia ter me levado sem quebrar a própria janela.
Isadora voltou a se manifestar:
— E existe outra coisa.
Aurora desviou o rosto.
— Existe uma tensão que seria mais fácil ignorar se ele fosse apenas um monstro.
— Homens perigosos raramente são apenas monstros. É assim que conseguem abrir portas antes de arrombá-las. Não confunda proteção com posse.
Aurora deixou uma pausa breve antes de prosseguir:
— Não vou confundir.
— Você já está dizendo isso como quem espera precisar lembrar.
À tarde, Aurora começou a revisar os arquivos no escritório de Sofia. Encontrou uma sequência de pagamentos identificados pelas letras C.F. e uma anotação repetida: “cinzas pagam aço”. Quando abriu o registro societário da empresa destinatária, o endereço correspondia a um depósito abandonado na zona norte.
Ela mal teve tempo de chamar Sofia. As luzes se apagaram, o alarme soou e uma mão cobriu sua boca por trás.
Aurora atingiu o agressor com o cotovelo, ouviu um palavrão e tentou alcançar a porta. O homem agarrou sua jaqueta. Antes que ele a puxasse, um disparo abafado ecoou no corredor e o corpo caiu.
Ghost surgiu na penumbra, arma em punho, os olhos mais frios do que ela já vira.
— Ele tocou em você? — perguntou Ghost.
Aurora encarou o sangue espalhando-se pelo chão.
— Quem era ele?
Ghost se agachou, virou o agressor e arrancou a manga de sua camisa. Um corvo de ferro estava tatuado no antebraço.
— Um homem que deveria estar morto — respondeu Ghost.
POV: CaioBeatriz Leme correu como mãe.Foi isso que a tornou fácil de prever e difícil de odiar naquele momento específico.Caio a viu pela primeira vez na estrada de serviço atrás do mercado, dirigindo um carro roubado com uma imprudência que não combinava com a mulher fria da casa de vidro. Ela cortou uma curva, quase bateu em um caminhão de entrega e continuou sem reduzir. Quem olhasse de longe veria fuga. Caio via desespero.Tainá, no banco ao lado dele, também via.— Álvaro sabe que ela viria por aqui — disse.— Então onde está a armadilha?Sofia respondeu pelo rádio:— Tenho dois veículos sem placa parados perto da entrada de serviço do condomínio. E uma van da Fundação Recomeçar saindo pelos fundos.— Clara está na van — Tainá falou.Caio acelerou.— Beatriz ainda não viu.— Vai ver.Como se a estrada obedecesse à frase, o carro de Beatriz freou bruscamente ao avistar a van. Ela abriu a porta antes mesmo de estacionar direito e correu para o meio da rua.— Clara!A van não par
POV: TaináO beijo aconteceu onde não deveria.Não houve música, silêncio perfeito, chuva delicada ou tempo suspenso. Houve fumaça, vidro quebrado, gente ferida, rádio chiando e dona Lúcia gritando que alguém precisava tirar entulho da porta antes que ela mesma fizesse “com a coluna ruim e ódio suficiente”.Tainá estava no corredor lateral da sede, lavando fuligem das mãos em uma torneira externa. A água escorria preta pelos dedos. Caio apareceu com uma toalha limpa, ficou ao lado e não falou nada por quase um minuto.O silêncio dele já não parecia ausência.Parecia cuidado tentando não invadir.— Você está me olhando como se eu fosse quebrar — ela disse.— Estou te olhando como se você tivesse quase explodido.— Tecnicamente, foi o muro.— Não ajuda.Tainá pegou a toalha. Os dedos deles se tocaram. Um toque pequeno, comum, ridículo para tudo que já tinham enfrentado. Ainda assim, a pele dela pareceu lembrar antes da cabeça.Caio percebeu e retirou a mão devagar.Ela não deixou.Segur
POV: CaioCaio ouviu a explosão pelo rádio antes de ver a fumaça.O som atravessou o canal e rasgou tudo que ele tinha acabado de conseguir segurar. Núcleo São Pedro estava salvo. As crianças respiravam no banco de trás da van de Lobo. As mulheres choravam, vivas, sendo encaminhadas para a rota de Marisa. Por dois minutos, ele achou que o pior tinha passado.Então a sede da Rede Helena explodiu na tela de Sofia.E Tainá estava lá.O velho Caio assumiu o volante dentro dele.Gritou para correr, derrubar porta, arrancar Tainá do lugar, colocá-la em qualquer quarto trancado e matar o mundo do lado de fora. O velho Caio tinha respostas rápidas, brutais, confortáveis. Quase sempre erradas.Ele apertou o rádio.— Tainá, relatório.A voz dela veio com estática, tosse e firmeza.— Explosão externa. Provável carro-bomba pequeno ou cilindro no muro. Sem queda estrutural. Aurora comigo. Sofia ferida leve no braço. Marisa bem. Dona Lúcia xingando, então viva.O ar voltou, mas não inteiro.— Onde
POV: TaináA Rede Helena não queimou de uma vez.Queimou em pontos.Uma denúncia falsa no abrigo antigo. Um princípio de incêndio na Casa Três. Um carro suspeito parado perto da escola de uma criança protegida. Uma viatura que não devia saber endereço nenhum. Mensagens anônimas chegando a mulheres que haviam trocado de nome. O Argos não atacava como gangue. Atacava como doença espalhada pelo sangue.Tainá ficou na central da sede com três telefones, dois mapas e a sensação de que cada segundo perdido podia custar uma vida.Aurora estava ao lado dela, comandando com uma calma que parecia impossível. Sofia rastreava acessos. Marisa ligava para padarias, vizinhas, entregadores e mulheres que sabiam mais da rua do que qualquer câmera. Isadora gritava com autoridades no viva-voz. Ghost distribuía Renegados. Caio estava na rua, seguindo o plano dela.Aquilo ainda parecia errado e certo ao mesmo tempo.Ele seguir.Ela comandar.— Casa Três evacuada — Sofia informou. — Incêndio controlado. Se
POV: CaioCaio queria quebrar o pen drive.Queria esmagar o pequeno objeto preto sob a bota, reduzir plástico e metal a pó, jogar tudo no lixo e fingir que Álvaro Nassar não tinha passado tempo suficiente estudando sua cabeça para nomear um arquivo de Projeto Sargento.Não quebrou.Entregou a Isadora.Depois entregou a Tainá a escolha que realmente importava.— Você não precisa ler isso comigo.Estavam na sala de análise da sede, horas depois da operação no Cemitério São Dimas. Otávio fora levado sob custódia. As vítimas resgatadas recebiam atendimento. Clara estava em local protegido, sem saber ainda que a guerra mudara de forma ao redor dela. Beatriz exigira notícias e não recebera detalhes. Álvaro permanecia invisível, como todo homem poderoso que mandava outros sangrarem antes dele.Tainá ficou diante da mesa onde Sofia preparava o arquivo em um notebook isolado.— Você também não precisa ler sozinho.— Pode ter fotos suas.— Eu sei.— Pode ter coisa feita para te machucar.— Eu s
POV: TaináO Cemitério São Dimas não parecia assustador de fora.Tinha muros altos, árvores antigas e uma capela pequena perto da entrada principal. As lápides brancas se alinhavam em silêncio respeitável, como se ali repousassem apenas histórias encerradas. Tainá sabia melhor. Lugares de morte também podiam esconder gente viva.A noite estava úmida. A terra cheirava a chuva antiga. Os Renegados se posicionaram antes do primeiro carro funerário chegar. Ghost e Marco cobriam a entrada de serviço. Silas e dois Abutres vigiavam a passagem lateral. Sofia coordenava câmeras de uma van sem identificação. Isadora estava a três quadras, com policiais de confiança e um mandado que ainda dependia de flagrante para não desmoronar diante de algum juiz comprado.Caio ficou com Tainá no muro norte.Não porque ela precisasse dele como sombra. Porque aquele era o melhor ponto para reconhecer o padrão que Beatriz descrevera.— Portão lateral abre primeiro — Tainá sussurrou. — Se for igual à Santa Mart







