Partager

Capítulo 4 — Chamas

Auteur: Kira Malcor
last update Date de publication: 2026-07-05 11:43:37

POV: Ghost

O invasor se chamava Álvaro “Risco” Mendonça e fora declarado morto no incêndio que destruíra a sede dos Corvos de Ferro. Ghost tinha vinte e três anos naquela época e ainda acordava algumas noites sentindo o cheiro daquele fogo. Seu pai fora encontrado entre os escombros com dois tiros no peito, prova de que as chamas serviram para esconder uma execução.

Risco não sobrevivera ao disparo de Caio. No bolso, carregava uma fotografia de Aurora saindo da universidade dois anos antes e um cartão de acesso ao pátio dos Renegados.

Na mesa da capela, como chamavam a sala onde os membros votavam, Ghost colocou o cartão diante de Marco, Caio, Torque, Ledger e dos outros oficiais.

— Alguém abriu uma passagem interna — disse Ghost. — Até descobrirmos quem, nenhum membro sai sozinho e todo acesso será recodificado.

Ledger, o tesoureiro conhecido fora do clube como Enzo Bianchi, ajustou os óculos.

Ledger retomou a explicação:

— Rafael pode ter comprado o cartão de um funcionário.

— Funcionário não entra na ala residencial — respondeu Caio. — Este nível é de membro.

— Está sugerindo que um irmão vendeu o clube?

Caio entrou na conversa:

— Estou sugerindo que o cadáver no corredor não atravessou a parede.

Marco interveio antes que o tom se transformasse em desafio.

— Vamos auditar os registros e conversar com todos. Acusar sem prova divide a mesa, e quem fez isso está contando com a divisão.

Ghost autorizou a auditoria. Durante quinze anos, reconstruíra os Renegados sobre uma regra simples: nenhum irmão seria descartado para proteger o orgulho de outro. Agora teria de investigar os homens que chamava de família.

Encontrou Aurora na enfermaria, sentada enquanto Sofia limpava um corte em sua mão. Ela parecia furiosa por estar tremendo.

— Preciso falar com você — disse Ghost.

— Se veio perguntar outra vez se fui tocada, a resposta continua sendo que ele agarrou minha jaqueta e não conseguiu mais nada.

Ghost mediu as palavras antes de responder:

— Não vim interrogá-la.

Sofia fechou a caixa de curativos.

— Isso é inédito. Vou deixá-los a sós para documentarem o momento.

Quando a irmã saiu, Ghost permaneceu a uma distância que não parecesse ameaça.

— Risco participou da morte do meu pai — contou Ghost. — Os Corvos de Ferro tentaram dominar as rotas de Santa Augusta. A guerra terminou quando a sede deles queimou e os sobreviventes desapareceram. Eu acreditava que Risco estava entre os mortos.

Aurora estudou o rosto dele.

— Você o teria matado mesmo que Caio não tivesse atirado?

— Se ele representasse perigo imediato para você ou para o clube, sim.

Aurora ergueu o queixo e retomou a palavra:

— E se estivesse desarmado?

Ghost poderia ter oferecido uma mentira confortável. Não ofereceu.

Ghost deixou a resposta amadurecer por um instante:

— Quinze anos atrás, eu o teria matado pelo meu pai. Hoje, eu o manteria vivo para descobrir quem o enviou. Não sei se isso me torna melhor ou apenas mais estratégico.

— Talvez a diferença esteja em se importar com a resposta.

Ghost mediu as palavras antes de responder:

— Não tente me redimir, Aurora. Você ainda não sabe tudo o que fiz.

— Também não sabe tudo o que eu sobrevivi.

Ela contou que Rafael começara com pequenos empréstimos quando sua mãe adoeceu. Depois da morte dela, transformara luto em ambição. Aurora crescera ouvindo homens implorarem no escritório e aprendendo a reconhecer o som de uma mentira pela pausa anterior. Aos dezessete, escondera a família de um devedor num apartamento vazio até que fugissem da cidade. Rafael descobrira e passara meses sem falar com ela.

— Eu o amava — disse Aurora. — Essa é a parte humilhante. Eu conhecia a crueldade dele e ainda procurava o homem que fazia chocolate quente quando eu tinha febre.

Ghost puxou uma cadeira e se sentou diante dela.

— Amar alguém não é absolver tudo. Às vezes, é apenas carregar duas verdades que se recusam a caber na mesma mão.

— Você fala por experiência.

— Meu pai construiu este clube e também começou a guerra que o matou. Passei anos tentando honrá-lo sem repetir os erros dele.

Por um momento, o silêncio não foi hostil. Aurora tocou a cicatriz perto da própria palma e respirou com mais calma.

O alarme de incêndio disparou.

Ghost ouviu o primeiro grito no pátio e correu. Chamas subiam do galpão de documentos, alimentadas por combustível espalhado. Homens formaram uma linha com extintores enquanto Torque afastava os cilindros de gás da oficina. Aurora surgiu atrás de Sofia.

— Volte para dentro! — ordenou Ghost.

— Os arquivos financeiros estão naquele galpão — respondeu Aurora. — Se o fogo chegar à sala leste, perdemos os originais.

— Não vale a sua vida.

A resposta de Aurora veio firme:

— Talvez valha a de quem está tentando nos matar.

Antes que ele a detivesse, Aurora cobriu o rosto com uma jaqueta molhada e entrou com Sofia pela porta lateral. Ghost praguejou e foi atrás. Encontrou as duas arrastando uma caixa de metal, enquanto uma viga em chamas bloqueava a saída principal. Ele chutou uma janela baixa, retirou o vidro restante e ajudou Sofia a passar. Quando segurou Aurora pela cintura, o teto gemeu.

— Confie em mim — disse Ghost.

— Isso ainda está em negociação.

Ghost manteve a voz baixa e controlada:

— Negocie do lado de fora.

Ghost a ergueu pela janela e saltou logo depois. A explosão de uma prateleira de solventes lançou calor sobre suas costas. Aurora caiu sobre ele na grama, tossindo, o rosto a poucos centímetros do seu.

A vontade de beijá-la veio brutal e inadequada. Ghost segurou o quadril dela por um segundo além do necessário. Aurora percebeu; os olhos se fixaram na boca dele antes de voltarem ao incêndio.

Caio abriu a caixa resgatada. Dentro havia contratos, livros contábeis e uma pasta que não pertencera ao arquivo do clube. Na capa, Rafael escrevera: “Projeto Fênix”.

Ghost abriu a primeira página e encontrou uma lista de nomes. O seu estava no topo, ao lado de uma data marcada para dali a dez dias.

Ao lado da data havia uma única palavra: execução.

Continuez à lire ce livre gratuitement
Scanner le code pour télécharger l'application

Dernier chapitre

  • A Protegida de Ghost - Renegados MC   Capítulo 34 — A Mãe e o Monstro

    POV: CaioBeatriz Leme correu como mãe.Foi isso que a tornou fácil de prever e difícil de odiar naquele momento específico.Caio a viu pela primeira vez na estrada de serviço atrás do mercado, dirigindo um carro roubado com uma imprudência que não combinava com a mulher fria da casa de vidro. Ela cortou uma curva, quase bateu em um caminhão de entrega e continuou sem reduzir. Quem olhasse de longe veria fuga. Caio via desespero.Tainá, no banco ao lado dele, também via.— Álvaro sabe que ela viria por aqui — disse.— Então onde está a armadilha?Sofia respondeu pelo rádio:— Tenho dois veículos sem placa parados perto da entrada de serviço do condomínio. E uma van da Fundação Recomeçar saindo pelos fundos.— Clara está na van — Tainá falou.Caio acelerou.— Beatriz ainda não viu.— Vai ver.Como se a estrada obedecesse à frase, o carro de Beatriz freou bruscamente ao avistar a van. Ela abriu a porta antes mesmo de estacionar direito e correu para o meio da rua.— Clara!A van não par

  • A Protegida de Ghost - Renegados MC   Capítulo 33 — Depois do Beijo

    POV: TaináO beijo aconteceu onde não deveria.Não houve música, silêncio perfeito, chuva delicada ou tempo suspenso. Houve fumaça, vidro quebrado, gente ferida, rádio chiando e dona Lúcia gritando que alguém precisava tirar entulho da porta antes que ela mesma fizesse “com a coluna ruim e ódio suficiente”.Tainá estava no corredor lateral da sede, lavando fuligem das mãos em uma torneira externa. A água escorria preta pelos dedos. Caio apareceu com uma toalha limpa, ficou ao lado e não falou nada por quase um minuto.O silêncio dele já não parecia ausência.Parecia cuidado tentando não invadir.— Você está me olhando como se eu fosse quebrar — ela disse.— Estou te olhando como se você tivesse quase explodido.— Tecnicamente, foi o muro.— Não ajuda.Tainá pegou a toalha. Os dedos deles se tocaram. Um toque pequeno, comum, ridículo para tudo que já tinham enfrentado. Ainda assim, a pele dela pareceu lembrar antes da cabeça.Caio percebeu e retirou a mão devagar.Ela não deixou.Segur

  • A Protegida de Ghost - Renegados MC   Capítulo 32 — O Sargento Segue

    POV: CaioCaio ouviu a explosão pelo rádio antes de ver a fumaça.O som atravessou o canal e rasgou tudo que ele tinha acabado de conseguir segurar. Núcleo São Pedro estava salvo. As crianças respiravam no banco de trás da van de Lobo. As mulheres choravam, vivas, sendo encaminhadas para a rota de Marisa. Por dois minutos, ele achou que o pior tinha passado.Então a sede da Rede Helena explodiu na tela de Sofia.E Tainá estava lá.O velho Caio assumiu o volante dentro dele.Gritou para correr, derrubar porta, arrancar Tainá do lugar, colocá-la em qualquer quarto trancado e matar o mundo do lado de fora. O velho Caio tinha respostas rápidas, brutais, confortáveis. Quase sempre erradas.Ele apertou o rádio.— Tainá, relatório.A voz dela veio com estática, tosse e firmeza.— Explosão externa. Provável carro-bomba pequeno ou cilindro no muro. Sem queda estrutural. Aurora comigo. Sofia ferida leve no braço. Marisa bem. Dona Lúcia xingando, então viva.O ar voltou, mas não inteiro.— Onde

  • A Protegida de Ghost - Renegados MC   Capítulo 31 — A Rede em Chamas

    POV: TaináA Rede Helena não queimou de uma vez.Queimou em pontos.Uma denúncia falsa no abrigo antigo. Um princípio de incêndio na Casa Três. Um carro suspeito parado perto da escola de uma criança protegida. Uma viatura que não devia saber endereço nenhum. Mensagens anônimas chegando a mulheres que haviam trocado de nome. O Argos não atacava como gangue. Atacava como doença espalhada pelo sangue.Tainá ficou na central da sede com três telefones, dois mapas e a sensação de que cada segundo perdido podia custar uma vida.Aurora estava ao lado dela, comandando com uma calma que parecia impossível. Sofia rastreava acessos. Marisa ligava para padarias, vizinhas, entregadores e mulheres que sabiam mais da rua do que qualquer câmera. Isadora gritava com autoridades no viva-voz. Ghost distribuía Renegados. Caio estava na rua, seguindo o plano dela.Aquilo ainda parecia errado e certo ao mesmo tempo.Ele seguir.Ela comandar.— Casa Três evacuada — Sofia informou. — Incêndio controlado. Se

  • A Protegida de Ghost - Renegados MC   Capítulo 30 — Projeto Sargento

    POV: CaioCaio queria quebrar o pen drive.Queria esmagar o pequeno objeto preto sob a bota, reduzir plástico e metal a pó, jogar tudo no lixo e fingir que Álvaro Nassar não tinha passado tempo suficiente estudando sua cabeça para nomear um arquivo de Projeto Sargento.Não quebrou.Entregou a Isadora.Depois entregou a Tainá a escolha que realmente importava.— Você não precisa ler isso comigo.Estavam na sala de análise da sede, horas depois da operação no Cemitério São Dimas. Otávio fora levado sob custódia. As vítimas resgatadas recebiam atendimento. Clara estava em local protegido, sem saber ainda que a guerra mudara de forma ao redor dela. Beatriz exigira notícias e não recebera detalhes. Álvaro permanecia invisível, como todo homem poderoso que mandava outros sangrarem antes dele.Tainá ficou diante da mesa onde Sofia preparava o arquivo em um notebook isolado.— Você também não precisa ler sozinho.— Pode ter fotos suas.— Eu sei.— Pode ter coisa feita para te machucar.— Eu s

  • A Protegida de Ghost - Renegados MC   Capítulo 29 — A Rota dos Mortos

    POV: TaináO Cemitério São Dimas não parecia assustador de fora.Tinha muros altos, árvores antigas e uma capela pequena perto da entrada principal. As lápides brancas se alinhavam em silêncio respeitável, como se ali repousassem apenas histórias encerradas. Tainá sabia melhor. Lugares de morte também podiam esconder gente viva.A noite estava úmida. A terra cheirava a chuva antiga. Os Renegados se posicionaram antes do primeiro carro funerário chegar. Ghost e Marco cobriam a entrada de serviço. Silas e dois Abutres vigiavam a passagem lateral. Sofia coordenava câmeras de uma van sem identificação. Isadora estava a três quadras, com policiais de confiança e um mandado que ainda dependia de flagrante para não desmoronar diante de algum juiz comprado.Caio ficou com Tainá no muro norte.Não porque ela precisasse dele como sombra. Porque aquele era o melhor ponto para reconhecer o padrão que Beatriz descrevera.— Portão lateral abre primeiro — Tainá sussurrou. — Se for igual à Santa Mart

Plus de chapitres
Découvrez et lisez de bons romans gratuitement
Accédez gratuitement à un grand nombre de bons romans sur GoodNovel. Téléchargez les livres que vous aimez et lisez où et quand vous voulez.
Lisez des livres gratuitement sur l'APP
Scanner le code pour lire sur l'application
DMCA.com Protection Status