Se connecterPOV — Ronan
A pergunta dela não veio em voz alta.
Não precisava.
Maíra segurava a carta entre os dedos, e a frase escrita nela parecia ter aberto um corte que eu passara anos tentando manter fechado. O sol partido na cera escura lembrava o símbolo da família dela. A mesma marca encontrada no assassino. A mesma que alguém usara para transformar uma verdade em ameaça.
Desmontei do cavalo.
— Ronan — ela disse, num tom baixo demais para os guardas ouvirem. — Você matou Cael?
O rapaz que trouxera o envelope olhou de mim para ela. Mandei um dos guardas levá-lo para dentro do castelo e outro procurar quem deixara a carta. Nenhum deles se moveu depressa o bastante.
— Responda — Maíra exigiu.
— Sim.
A palavra saiu sem defesa. Sem desculpa. Era o mínimo que eu podia oferecer depois de dois anos escondendo aquilo.
A carta escapou dos dedos dela. Por um segundo, Maíra pareceu incapaz de respirar. Então atravessou a distância entre nós e me deu um tapa. Não tentei impedi-la.
— Você acabou de confirmar que matou Cael?
— Confirmei que fui eu quem o matou.
Ela levou a mão à boca, como se tentasse conter a náusea. Eu preferia que me odiasse em voz alta.
— Existe alguma diferença que você espera que me console? Dividi a cama com você poucas horas atrás, Ronan.
— Não.
— Então fale.
Eu queria contar tudo ali, na estrada, diante dos guardas e do rapaz apavorado. Queria acabar com aquele segredo antes que outra pessoa o usasse contra ela. Mas a verdade não cabia numa frase. E Maíra merecia ouvi-la sem uma plateia.
— Não aqui.
— Você não decide mais o que eu posso ouvir.
— Eu sei.
— Não, não sabe. Se soubesse, teria me contado antes.
Ela empurrou a porta da carruagem e desceu. O movimento foi rápido, mas o braço ferido a fez prender a respiração. Minha mão se ergueu por instinto. Parei antes de tocá-la.
Ela percebeu.
— Não faça isso.
— O quê?
— Fingir que ainda pode me proteger de tudo.
— Não estou fingindo.
— Então me diga agora por que matou Cael.
O pátio inteiro parecia quieto demais. Os guardas mantinham os olhos baixos, embora eu soubesse que cada um deles escutava.
— Se eu contar aqui, a corte vai saber antes de você conseguir pensar no que ouviu. E quem deixou a carta pode estar esperando exatamente isso.
— Você acha que é uma armadilha?
— Acho que querem que você me odeie antes de chegarmos a Valedouro.
— E você quer que eu acredite que está preocupado comigo?
— Não. Quero que você escute a verdade antes de decidir o que fazer comigo.
Por um instante, ela pareceu considerar a resposta. Depois, olhou para a carta amarrotada em sua mão.
— Você vai falar. Hoje.
— Sim.
— Sem escolher quais partes eu posso suportar.
— Sem escolher por você.
Ela me estudou, procurando a mentira. Eu não a culpei. Durante dois anos, minha cautela se parecera demais com crueldade.
— Vamos partir — decidiu. — Se alguém quer que eu descubra quem matou Cael, vamos dar a essa pessoa a chance de tentar de novo.
— Maíra…
— Você disse que eu podia falar por mim mesma. Estou falando.
Não havia como argumentar sem transformar cuidado em outra forma de controle. Fiz sinal para os guardas. Um deles abriu a porta da carruagem, mas Maíra não entrou.
— Você vai viajar comigo — falei.
— Esse sempre foi o plano.
— Não. Quero dizer que não vou deixar você sozinha nem por um instante.
— Então não fique surpreso quando eu mandar você se afastar.
Ela subiu antes que eu pudesse responder. Dessa vez, não lhe ofereci a mão.
A viagem até Valedouro durou quatro horas. Maíra não disse mais nada. Eu cavalguei junto à carruagem, sentindo o peso do olhar dela mesmo quando a cortina estava fechada.
Quando avistamos as muralhas da província, o estandarte do governador ainda estava erguido. Mas, em vez de abrir os portões, os soldados se alinharam sobre as ameias, lanças apontadas para nós.
Ordenei que a escolta parasse.
O portão se abriu apenas o suficiente para um homem passar. O governador surgiu sem armadura, vestindo um casaco de veludo azul. Atrás dele, a guarda mantinha as armas erguidas.
— Majestade — disse ele, curvando a cabeça para mim. Então olhou para a carruagem. — Majestade.
Maíra abriu a porta e desceu. Dessa vez, não pediu ajuda.
— Lorde Edric — ela disse. — Estamos aqui para obter sua assinatura no pedido de divórcio.
O governador soltou uma risada curta, sem humor.
— Receio que não possa assinar.
— O tratado exige que o senhor escute nosso pedido.
— O tratado também exige que a senhora permaneça casada com o rei até que as sete províncias concordem com a dissolução. Não me parece uma decisão sensata enquanto há assassinos à solta.
— O senhor sabe quem tentou me matar?
O rosto dele não mudou, mas seus dedos se fecharam ao redor do anel que trazia.
— Sei que sua família tem muitos inimigos.
— Minha família foi quase exterminada.
— E talvez tenha havido uma razão.
A mão de Maíra se fechou sobre a carta.
— Que razão seria essa?
Edric olhou para mim, como se esperasse que eu a tirasse dali. Não o fiz.
— Cael não morreu porque o rei perdeu o controle — disse ele. — Morreu porque descobriu o que sua mãe fez na noite da invasão.
O ar pareceu sumir ao redor de nós.
Maíra deu um passo à frente.
— O que minha mãe fez?
O governador recuou para dentro do portão.
— Pergunte ao seu marido. Ele estava lá.
As portas começaram a se fechar.
Maíra correu para a entrada, mas um guarda baixou a lança diante dela. Puxei-a para trás antes que a ponta alcançasse seu peito.
Ela se virou para mim, os olhos cheios de uma fúria que eu merecia.
— Você estava lá?
Eu não consegui mentir.
— Estava.
— Então foi você quem abriu os portões?
Atrás de mim, o portão de Valedouro bateu com força. E, pela primeira vez desde a guerra, Maíra olhou para mim como se pudesse me matar.
POV — MaíraCorri atrás dos passos antes que Ronan pudesse me deter.— Maíra, espere!A escuridão engoliu o corredor. A cada passada, o som da mulher ficava mais distante, misturado ao eco de água correndo sob as pedras. Estendi a mão à parede para não tropeçar. Meus dedos roçaram uma fenda úmida.Atrás de mim, ouvi Dain perder o fôlego.— Não consigo acompanhar vocês — ele disse.— Volte para a câmara e espere — ordenei.— Não vou deixar que enfrente isso sozinha.— Não pedi que enfrentasse. Pedi que esperasse.Ronan alcançou meu braço, mas não me puxou.— A passagem pode ter armadilhas.— Então avise antes que eu pise em uma.Ele soltou meu braço. A escuridão tornava tudo mais próximo: a respiração dele junto à minha, o calor da mão que por um instante quase tocara minha cintura. Eu não confiava nele. Ainda assim, quando um ruído seco veio de algum ponto adiante, encontrei sua mão às cegas e a segurei.Ronan não disse nada. Apenas apertou meus dedos uma vez.A chama da tocha reacend
POV — MaíraA palavra Avelor continuava gravada na pedra, mas já não me parecia um epitáfio. Parecia um aviso.— O escrivão disse para procurar sob a pedra do nome — falei.Ronan examinou a inscrição, espada em punho. Dain se apoiou na borda do sarcófago, ainda fraco demais para fingir que não estava.— Talvez tenha algo escondido atrás da placa — sugeriu ele.Passei os dedos pelo mármore. A parte inferior do nome da minha mãe tinha uma saliência quase imperceptível. Pressionei. A pedra cedeu com um estalo seco.Ronan se colocou entre mim e a tumba.— Afaste-se.— Não.— Maíra…— Se alguém escondeu algo sob o nome dela, não vou ficar olhando de longe.Ele sustentou meu olhar por um instante. Então recuou meio passo, sem guardar a espada.A placa se soltou. Atrás dela havia uma cavidade estreita, escavada no mármore. Não encontrei joias, documentos ou uma chave. Só um pequeno encaixe de metal, gasto pelo uso, e uma alavanca curta escondida sob a pedra.Dain reconheceu o mecanismo.— Is
POV — Maíra— Vou voltar a Avelor — anunciei a Dain. — Preciso ver a tumba da minha mãe.Ele olhou para as correntes nos próprios pulsos. As marcas sob o metal estavam vermelhas e inchadas.— Então eu vou com você.— Está há dois anos preso naquela torre. Mal consegue ficar em pé.— Consigo ficar em pé o bastante para contar o que Cael me disse.Dain se levantou. As pernas vacilaram, mas ele se segurou na parede antes que alguém pudesse ajudá-lo. Não queria piedade. Eu conhecia aquela expressão; já a usara vezes demais.Olhei para Edric.— Solte-o.— Ele continua sendo meu prisioneiro — disse o governador.— E minha testemunha. Se o deixar aqui, Varyn pode mandar silenciá-lo antes que eu volte.Edric hesitou. Depois fez um sinal ao guarda, que abriu as algemas. Dain esfregou os pulsos, sem agradecer. Não o censurava. Dois anos de prisão não desapareciam com uma chave girando.— Ele vai sob minha responsabilidade — Edric disse. — Se fugir, a senhora responde por isso.— Aceito.— Ainda
POV — RonanA mão de Maíra continuava fechada em torno do pulso do escrivão.— A data estava na ordem? — ela perguntou.O homem assentiu, respirando com dificuldade.— Três dias depois do massacre. Eu me lembro porque precisei registrar a entrada no arquivo.O curandeiro tentou afastá-lo da mesa.— Ele precisa de repouso, Majestade.— Vai ter repouso — Maíra respondeu. — Mas ninguém fica sozinho com ele.Edric chamou dois guardas para acompanharem o escrivão até a enfermaria. Maíra acrescentou mais quatro. Não discutiu quando o curandeiro insistiu que o ferimento precisava ser tratado; só exigiu que a porta permanecesse aberta e que um guarda ficasse dentro do quarto.Ela não confiava em ninguém. Nem sequer no próprio instinto, percebi, quando seus olhos encontraram os meus.— Você viu o corpo da minha mãe? — perguntou.A resposta me custou mais do que deveria.— Não.A expressão dela endureceu.— Você disse que soube da morte dela na manhã seguinte.— Meu pai me contou. Eu tinha vist
POV — Maíra— Ele ainda está vivo? — perguntei.Abaixada ao lado do escrivão, pressionei os dedos contra o pescoço dele. Encontrei um pulso fraco, rápido demais para me tranquilizar.— Chamem o curandeiro! — ordenei. — E tranquem as saídas. O homem que fugiu não pode deixar o castelo.Os guardas se espalharam. Lorde Edric ajoelhou-se do outro lado do escrivão, enquanto Ronan mantinha a espada em punho, atento à porta lateral por onde o agressor escapara.— Ele não vai longe — disse Edric.— Não apostaria a vida dele nisso — respondi.O escrivão soltou um gemido. Seu rosto estava cinzento, e o sangue escorria por baixo da gola, manchando o colarinho. Quando abriu os olhos, tentou se levantar.— Fique quieto — ordenei.— Varyn… — murmurou.O nome fez Edric olhar para mim. Ronan baixou a espada, mas não se aproximou.— Eu sei que foi Varyn — falei. — Quero saber o que ele fez.O escrivão respirou com dificuldade. O curandeiro ainda não havia chegado. Segurei a mão dele, tentando impedir
POV — Maíra— Abram a cela — ordenei.O guarda que nos acompanhava olhou para Edric, parado no arco do pátio. O governador não se opôs. Com um gesto, autorizou que a chave fosse usada.Ronan veio atrás de mim quando subi à torre.— Você pode esperar lá embaixo — falei.— Não posso.— Ainda está tentando me proteger?— Estou tentando ouvir a verdade inteira.— Pela primeira vez, estamos de acordo.A cela cheirava a pedra úmida e roupa guardada por tempo demais. Dain estava acorrentado a uma argola na parede. Quando me viu, não pediu que o soltassem.— Fale — ordenei. — O que Cael estava fazendo na noite da invasão?Dain lançou um olhar a Ronan.— Ele estava tentando tirar a senhora do palácio. Encontrou-a inconsciente perto da capela e a carregou até o corredor dos estábulos. Sua mãe pediu que ele não confiasse nos homens de Drevain.— E, mesmo assim, Ronan veio atrás de mim.— Veio com uma ordem do rei Orlan — disse Dain. — Para levá-la a Drevain.Olhei para Ronan. Ele não desviou o r







