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Capítulo 5 — O que não foi dito

Author: J. Wells
last update publish date: 2026-10-20 03:24:49

POV — Maíra

Acordei antes do amanhecer com a sensação de que alguém me observava.

Abri os olhos devagar. Ronan estava deitado de costas para mim, imóvel, ocupando a outra metade da cama. A luz azulada que entrava pela janela desenhava o contorno dos ombros dele. Por um instante, pensei que ainda dormisse.

Então ele falou:

— Você sempre acorda pronta para fugir?

— Só quando há um rei na minha cama.

— Pensei que o problema fosse eu olhar para você.

Senti o calor subir pelo meu rosto. Virei de lado, puxando o lençol até o peito.

— O problema é você achar que pode olhar para mim como se eu ainda fosse sua.

Ronan se sentou na beirada da cama. O silêncio entre nós pesou mais do que a resposta que ele não deu.

— Você nunca foi minha — disse, por fim.

A frase deveria ter me aliviado. Em vez disso, deixou um espaço estranho no meu peito, como uma porta que eu mesma havia fechado e agora não sabia se queria abrir.

Levantei-me antes que ele percebesse.

— Que horas partimos?

— Assim que os cavalos estiverem prontos.

— Para qual província?

— Valedouro. O governador de lá foi o primeiro a assinar o tratado de paz. Talvez seja o mais disposto a assinar o divórcio.

— Ou o primeiro a tentar me convencer de que devo continuar casada.

— Nesse caso, você pode lembrá-lo de que não precisa da minha permissão para falar por si mesma.

Olhei para ele por cima do ombro. A resposta não combinava com o homem que, dois anos atrás, aceitara que meu povo fosse governado por leis escritas pelos vencedores.

— Está ficando fácil me apoiar quando não custa nada a você?

A expressão de Ronan se fechou.

— Você acha que nada disso me custa?

— Acho que você sempre soube exatamente o preço de cada escolha. Só eu fui deixada sem saber o que estava pagando.

Ele desviou o olhar. Pela primeira vez, tive a impressão de que havia uma resposta atrás daquele silêncio. Uma resposta que ele temia me dar.

Mas eu estava cansada de arrancar verdades dele como quem puxa farpas da pele.

— O rei Soren me ofereceu uma coroa — falei.

Ronan ficou imóvel.

— Ele ofereceu um casamento.

— É o que costuma vir junto com uma coroa.

— Soren precisa escolher uma rainha até o próximo inverno.

— E está apaixonado por mim.

— Desde criança, pelo que ele diz.

— Você acredita nele?

— Acredito que ele quer você. Não sei se isso é o mesmo que amar.

— Engraçado. Eu poderia dizer o mesmo sobre você.

A frase escapou antes que eu pudesse detê-la.

Ronan ergueu os olhos. Por um instante, vi algo cru no rosto dele — não raiva, nem orgulho. Dor, talvez. Mas ele logo a escondeu atrás daquela calma de rei que sempre me fazia querer quebrar alguma coisa.

— Você não precisa escolher Soren para provar que está livre de mim — disse ele.

— E você não precisa fingir que não se importa para me convencer de que não me quer.

— Maíra…

— Não. Você teve dois anos para falar comigo. Agora terá sete províncias para me acompanhar. Vamos usar o tempo para descobrir quem tentou me matar e o que minha mãe fez durante a invasão. O resto não muda nada.

— Você acredita nisso?

Não respondi. Peguei o vestido e fui para trás do biombo.

Dessa vez, Ronan não tentou olhar.

Quando saí, ele já estava pronto. A capa escura escondia a armadura, mas não a tensão nos ombros. Por um segundo, pensei em perguntar se tinha dormido. Em vez disso, abri a porta.

— Vamos, Majestade. Seus cavalos estão esperando.

O corredor estava quase vazio. Dois guardas nos aguardavam junto à escadaria. Descemos sem conversar, atravessando o pátio enquanto criados se apressavam para preparar a partida. O céu ainda carregava o cinza da noite.

Ronan me ofereceu a mão para subir na carruagem.

Olhei para ela.

— Consigo sozinha.

— Eu sei.

Mesmo assim, ele não a recolheu.

Aceitei. A mão dele envolveu a minha por um segundo a mais do que o necessário. Um segundo ridículo, insignificante. Ainda assim, meu corpo se lembrou de tudo que eu tentava esquecer.

Então subi e soltei sua mão.

A viagem começou sem discursos de despedida. O castelo ficou para trás, e com ele a corte que havia assistido ao meu pedido de divórcio como se eu tivesse acabado de anunciar a execução do rei.

Ronan cavalgava ao lado da carruagem. Eu o observava pela janela, tentando decidir se aquela postura rígida era cansaço ou arrependimento.

Pouco antes de chegarmos ao portão principal, um rapaz surgiu correndo pela estrada. Os guardas o interceptaram. Ele lutou para se soltar, gritando meu nome.

— Deixem-no falar — ordenei.

Ronan fez um sinal. Os guardas o trouxeram até a carruagem.

O rapaz era jovem, talvez quinze anos, com lama nas botas e um corte recente na testa. Estendeu um envelope fechado com cera escura.

— Disseram que era para a rainha — falou, sem tirar os olhos de mim.

Peguei a carta. Não havia selo real, apenas um símbolo riscado na cera: um sol partido ao meio.

O mesmo símbolo que o assassino usava.

Ronan desmontou do cavalo.

— Quem entregou isso a você?

— Não sei. Deixaram na hospedaria antes do amanhecer.

Quebrei a cera. Dentro havia uma única frase, escrita às pressas:

“Quer saber quem matou seu irmão? Pergunte ao homem que dormiu ao seu lado.”

O mundo pareceu perder o som. Cael costumava me chamar de pequena tempestade e, quando eu tinha medo da escuridão, sentava-se ao pé da minha cama até eu dormir. Eu não conseguia imaginar aquelas mãos segurando uma espada contra mim.

Olhei para Ronan. Ele não perguntou o que estava escrito. Não precisou.

Seu rosto já tinha respondido por ele.

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