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Capítulo 7 — Chicago Sob Promessas Frias

last update publish date: 2026-06-11 07:43:12

— Já está se metendo.

— Um pouco. Mas com boas intenções.

— Boas intenções causam acidentes.

Ryan ergueu as mãos.

— Justo.

A porta do escritório se abriu antes que a conversa pudesse continuar. Alexander apareceu segurando o celular, a expressão tão fechada que até Ryan ficou menos relaxado.

— Ryan. Dentro.

— Também senti sua falta — disse Ryan.

Alexander apenas virou e entrou novamente.

Ryan olhou para Emma.

— Viu? Um raio de sol.

Emma balançou a cabeça.

— Boa sorte.

— Homens como ele não precisam de sorte. Precisam de terapia.

— Ryan — chamou Alexander de dentro do escritório, sem elevar a voz.

— Indo.

Ryan entrou e fechou a porta.

Emma tentou não pensar no que ele havia dito.

Hargrove toca em nervos antigos.

Que nervos?

Ela sabia muito pouco sobre o passado de Alexander. A imprensa sabia o básico: filho único de Richard Blackwood, fundador de parte do império original da família; herdeiro que assumiu os negócios depois de uma crise financeira causada por má gestão e transformou a empresa em uma potência global; ex-noivo de Vanessa Hart; presença constante em listas de bilionários jovens e influentes.

Mas esses eram fatos.

Fatos não explicavam por que Alexander odiava perder controle. Não explicavam o modo como sua expressão mudava ao receber ligações do pai. Não explicavam por que tratava confiança como uma dívida impossível de pagar.

Emma voltou ao trabalho, mas a curiosidade ficou presa sob sua pele.

Dentro do escritório, Alexander jogou o celular sobre a mesa.

— Hargrove está se movendo mais rápido do que o esperado — disse Ryan, sentando-se sem ser convidado.

— Eu sei.

— Nathan Cole ligou para dois membros da MedCore esta manhã.

Alexander ficou imóvel.

— Cole?

— Pessoalmente.

A temperatura do escritório pareceu cair.

Ryan percebeu.

— Você sabia que ele podia entrar nisso.

— Eu sabia que ele era oportunista. Não que fosse idiota.

— Às vezes uma coisa acompanha a outra.

Alexander caminhou até a janela.

Nathan Cole.

O nome tinha o gosto ruim de coisas antigas.

Nathan era mais do que um rival. Era uma lembrança viva de um erro que Alexander detestava admitir ter cometido. Anos antes, quando ainda consolidava a Blackwood Global, Alexander permitira que Nathan se aproximasse de uma negociação importante. Nathan usara charme, amizades e uma mulher para obter informações internas.

Não uma mulher qualquer.

Vanessa.

Na época, Vanessa Hart era noiva de Alexander.

Ou quase.

O noivado fora anunciado em páginas sociais, discutido por famílias influentes, celebrado por investidores que adoravam uniões convenientes. Alexander nunca fingira amor. Vanessa também não. Era uma aliança, nada mais. Bonita, lógica, útil.

Até deixar de ser.

Até Alexander descobrir que Vanessa repassara detalhes de uma negociação sigilosa a Nathan Cole.

Ela chorara. Pedira perdão. Dissera que havia sido manipulada. Que Nathan a seduzira emocionalmente. Que se sentira negligenciada por Alexander. Que queria machucá-lo porque ele nunca a deixava entrar.

Alexander lembrava com clareza do rosto dela naquele dia.

Lembrava ainda mais do que sentira.

Não dor.

Raiva.

A dor veio depois, não por Vanessa, mas pela confirmação de algo que ele já suspeitava desde muito antes: pessoas usavam proximidade como alavanca. Afeto era uma sala destrancada. Desejo, uma falha de segurança. Confiança, a forma mais lenta de autodestruição.

— Alexander — disse Ryan.

Ele voltou ao presente.

— O quê?

— Você estava longe.

— Eu estava pensando.

— Em Vanessa?

Alexander lançou-lhe um olhar frio.

— Cuidado.

Ryan não se intimidou. Era uma das poucas pessoas no mundo com permissão tácita para sobreviver a esse olhar.

— Se Nathan Cole está se aproximando da MedCore e Vanessa também estará em Chicago, você precisa considerar que isso não é coincidência.

— Vanessa não tem influência suficiente para afetar essa aquisição.

— Sozinha, não.

Alexander não respondeu.

Ryan se inclinou para frente.

— Você deveria contar a Emma o suficiente para ela ficar atenta.

— Não.

— Ela organiza metade da sua vida. Vai estar em Chicago com você. Precisa saber se há risco.

— Emma não precisa ser envolvida em problemas antigos.

— Ela já está envolvida. Trabalha para você.

Alexander virou-se lentamente.

— Justamente.

Ryan suspirou.

— Você faz isso sempre.

— Isso o quê?

— Decide que proteger alguém significa manter a pessoa no escuro.

— Informação demais cria vulnerabilidade.

— Não, Alexander. Às vezes informação demais cria confiança.

A palavra caiu no escritório como algo sujo.

Confiança.

Alexander odiava como Ryan ainda falava dela como se fosse uma virtude simples.

— Confiança é superestimada — disse ele.

— Não. Você só é ruim nela.

— Eu sou excelente em sobreviver sem ela.

— Sobreviver não é viver.

Alexander soltou uma risada sem humor.

— Frases emocionais antes do almoço, Ryan? Você está piorando.

Ryan o encarou por um momento.

— Você sabe que um dia isso vai cobrar um preço.

— Tudo cobra um preço.

— Inclusive Emma?

O silêncio ficou brutal.

Alexander não se moveu.

— Não use o nome dela nesse contexto.

Ryan estudou o amigo.

— Qual contexto?

— Qualquer um que não seja profissional.

— Então admita que existe outro contexto.

A mandíbula de Alexander travou.

— A reunião acabou.

Ryan levantou-se devagar.

— Claro.

Pegou a pasta, mas parou antes de sair.

— Só uma coisa. Emma não é Vanessa.

Alexander não respondeu.

Ryan abriu a porta.

— E tratá-la como se pudesse ser talvez seja o jeito mais rápido de perdê-la antes mesmo de tê-la.

A porta se fechou.

Alexander ficou sozinho.

Por alguns segundos, a frase de Ryan ecoou no silêncio.

Emma não é Vanessa.

Ele sabia disso.

Esse era justamente o problema.

Vanessa era fácil de compreender. Vaidosa, ambiciosa, previsível em sua manipulação. Mulheres como Vanessa queriam acesso, status, poder. Alexander sabia lidar com isso. Sabia negociar, limitar, expulsar.

Emma era diferente.

Emma não pedia nada.

Não tentava seduzi-lo. Não usava fragilidade como arma. Não o bajulava. Não invadia. Não exigia intimidade. Não sorria para impressioná-lo. Apenas estava ali, dia após dia, fazendo o mundo dele funcionar com uma lealdade silenciosa que o incomodava mais do que qualquer traição declarada.

Porque ele queria confiar nela.

E querer era uma fraqueza.

Alexander pegou o celular e viu uma mensagem do pai.

Almoço hoje. Precisamos conversar sobre a MedCore e sobre sua postura com o conselho.

Richard Blackwood não perguntava. Ordenava disfarçado.

Alexander apagou a tela.

Não responderia ainda.

A relação com o pai era outro contrato mal escrito. Cheio de obrigações, cláusulas ocultas e penalidades emocionais. Richard havia construído o primeiro império Blackwood com ambição e crueldade suficientes para destruir uma família inteira sem perceber. Depois, quase perdera tudo por arrogância. Coubera a Alexander salvar a empresa.

E mesmo assim Richard ainda falava como se o filho fosse apenas um herdeiro temporariamente útil.

O telefone da mesa tocou.

— Sim? — disse Alexander.

A voz de Emma veio pelo aparelho.

— Sr. Blackwood, sua próxima reunião foi adiada quinze minutos. O senador Whitmore está preso no trânsito.

— Cancele.

— Ele já está vindo.

— Então ele pode voltar.

Uma pausa.

— O senador pode ser útil para a expansão regulatória.

— O senador quer favores em troca de promessas vagas.

— Sim. Mas promessas vagas de homens influentes ainda abrem portas.

Alexander olhou para a porta fechada.

— Você está me contrariando muito hoje.

— Estou trabalhando muito hoje.

Ele deveria repreendê-la.

Em vez disso, sentiu algo próximo de diversão.

— Remarque para vinte minutos.

— O senhor disse quinze.

— Agora são vinte.

— Sim, senhor.

A ligação caiu.

Alexander ficou olhando para o telefone por tempo demais.

Então se odiou por isso.

Do lado de fora, Emma organizou a agenda e tentou ignorar a sensação de que havia uma tempestade se formando atrás daquela porta. Não a chuva lá fora. Outra coisa. Algo ligado a Hargrove, Vanessa, Nathan Cole e ao passado que Alexander mantinha trancado.

Ela havia acabado de enviar as alterações para o senador quando o elevador privativo abriu.

Um homem mais velho saiu.

Emma o reconheceu imediatamente, embora só o tivesse visto pessoalmente duas vezes.

Richard Blackwood.

Pai de Alexander.

Ele era alto, ainda elegante, com cabelos grisalhos perfeitamente penteados e olhos tão frios quanto os do filho. Mas havia uma diferença: em Alexander, a frieza parecia uma defesa. Em Richard, parecia natureza.

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