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Capítulo 4 - Clube dos Homens

Autor: Pry Vitty
last update Fecha de publicación: 2026-08-06 08:59:43

Cristal

Seguro um sorriso calculadamente sereno ao ouvir o locutor anunciar o nome do meu concorrente como o vencedor do prêmio de Melhor Empresário do Ano.

Lentamente, abro um sorriso mais amplo e charmoso.

Ergo as mãos com graciosidade e bato palmas no ritmo da plateia, mantendo inabalável a imagem de uma mulher calma, elegante e singela exatamente a postura de quem quer transmitir a ilusão de que não se importa com quem levou o troféu para casa.

O que, na realidade, é uma tremenda mentira.

Por trás dessa fachada perfeitamente ensaiada de tranquilidade e esportiva, sinto meu sangue borbulhar de raiva a cada aplauso do salão.

Eu sabia o quanto havia trabalhado, o quanto havia inovado no e-commerce e os números incontestáveis que minha empresa alcançou em pleno ano de crise.

Mas, para a banca daquele evento, o mérito pouco importava quando colocado na balança contra o favoritismo do clube dos homens.

Pelo canto do olho, vejo Luiz caminhando na minha direção com aquele sorriso sonso e ensaiado nos lábios.

Solto um suspiro imperceptível e, com um certo amargor, me dou conta de que ele já está perto demais para que eu possa me esquivar sem parecer abertamente indelicada.

Conheço Luiz há aproximadamente dois anos.

Reconheço que ele é um homem extremamente atraente, elegante e dono de uma sofisticação impecável, no entanto, toda a sua boa aparência e ternos sob medida não conseguem mascarar a falta de caráter que carrega ao menos não para mim.

Luiz Alvarenga é um investidor sagaz, calculista e frio. Ele enxerga na minha empresa uma oportunidade de ouro para expandir seus tentáculos e lucrar alto.

O grande problema é que eu não confio nele nem por um segundo. Venho construindo o meu caminho com o meu próprio esforço, estou me saindo muito bem sozinha e pretendo continuar caminhando exatamente assim, livre e sem rédeas.

Isso sem mencionar essa irritante e insuportável mania que ele tem de se achar o homem mais gostoso da face da Terra, convencido de que qualquer mulher vai abrir as pernas para ele no primeiro estalar de dedos.

Simplesmente ridículo.

— Minha querida Cristal, que pena que você não levou o troféu para casa hoje...  

Luiz diz assim que para a minha frente, inclinando-se levemente com aquele tom condescendente que me dá repulsa.

— Mas devo confessar que a sua empresa é, de longe, a que mais teve sucesso este ano. É simplesmente surpreendente o impacto das estratégias de e-commerce que você aplicou nos últimos meses. Enquanto a maioria esmagadora das redes fechou no vermelho ou abriu falência, o seu negócio não para de crescer a cada dia.

Ele finaliza a frase me oferecendo um sorriso bajulador, daqueles perfeitamente ensaiados para me fazer sentir especial.

— Obrigada — me limito a responder, mantendo o tom seco e profissional, acompanhado de um movimento suave de cabeça.

Por mais que me irrite a forma como ele fala, preciso admitir que ele não disse nenhuma mentira.

Durante o pior momento da pandemia, minha empresa foi uma das raríssimas exceções no ramo do varejo a registrar lucros expressivos e expandir a base de clientes.

Eu havia previsto a mudança do mercado, arrisquei e colhi os frutos.

Porém, o peso dos meus números e o sucesso indiscutível não foram suficientes para me garantir o tão almejado prêmio. Para aquele conselho conservador, uma mulher no topo ainda era um incômodo difícil demais de premiar.

Quando as portas das minhas lojas físicas precisaram ser fechadas temporariamente por causa do decreto de lockdown, o pânico generalizado tomou conta do setor.

Mas o desespero nunca foi uma boa ferramenta de gestão. Enquanto os grandes concorrentes choravam as pitangas e adotavam a saída mais fácil cortar custos sacrificando quem estava na ponta, eu respirei fundo, redesenhei o plano de ação e investi pesado na reestruturação total do meu e-commerce.

E eu não fiz isso sozinha.

Sabendo que o impacto seria brutal para a minha equipe, criei um programa inovador de coparticipação, transformei cada funcionário das lojas físicas em um embaixador digital da marca, garantindo a eles uma comissão justa e agressiva sobre todas as vendas que gerassem através de links compartilhados em suas próprias redes sociais.

Eles ganharam uma nova fonte de renda e eu ganhei uma força de vendas capilarizada que nenhum concorrente teve.

Não vou ser hipócrita a ponto de dizer que mantive a mesma margem de lucro faraônica de antes do mundo virar de ponta cabeça. Os custos fixos pesaram, a logística virou um campo minado.

Porém, quando fechei os números do ano, o balanço me trouxe um orgulho imenso, não demiti um único funcionário, mantive a estrutura de todas as minhas lojas mesmo com as portas abaixadas, e o mais importante de tudo passei longe do vermelho.

Minha empresa sobreviveu e cresceu pela inteligência coletiva e pela coragem de ousar. Uma pena que os dinossauros daquela banca de premiação fossem cegos demais para enxergar o verdadeiro valor de uma gestão humana e lucrativa ao mesmo tempo.

Em contrapartida, por trás de toda essa fachada de empresária impecável e vitoriosa, há um preço invisível que venho pagando diariamente.

Eu não sei o que é dormir uma noite inteira de sono reparador há meses, minha saúde está em frangalhos, minha coluna cobra o preço das horas infinitas curvada sobre planilhas e relatórios, e a noite de hoje foi a primeira vez em muito tempo que me dei ao luxo de vestir um vestido de gala, calçar um par de saltos altos e me arrumar adequadamente.

Esses são os males inevitáveis de carregar o mundo nas costas e cuidar de absolutamente tudo sozinha, mas, apesar do cansaço físico devastador que ameaça me dobrar, minha consciência está em profunda paz.

Prefiro mil vezes essa rotina exaustiva do que me vender e me associar a um tipo repugnante como o Luiz Alvarenga.

Ainda assim, não sou ingênua, sei perfeitamente que são homens exatamente como ele que dominam este nicho.

Discretamente, corro meus olhos pelo ambiente decorado com luxo ostensivo e confirmo a dura realidade, todos os outros finalistas que concorreram ao prêmio comigo eram homens brancos e de meia-idade.

Eu era a única mulher ali, única exceção incômoda em um clube fechado.

— Se você aceitasse a minha proposta para investir no seu negócio, talvez fosse muito mais fácil vencer no próximo ano... — Luiz murmura, aproximando-se mais um passo.

Sinto a ponta do seu dedo passar de leve pela pele nua do meu braço, em uma carícia não solicitada que me dá um arrepio gélido. Na mesma hora, uma onda incandescente de asco sobe direto pelas minhas entranhas.

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