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Capítulo 5 - Por trás da Armadura

Autor: Pry Vitty
last update Fecha de publicación: 2026-08-06 09:01:59

Cristal

Me afasto dele de forma nada sutil, dando um passo firme para trás antes de erguer a mão para limpar, em um gesto deliberado, o local do braço onde o dedo dele encostou.

No mesmo instante, desfaço qualquer vestígio do sorriso diplomático dos meus lábios, encarando-o com o olhar gélido.

— Luiz, eu já lhe disse mais de uma vez que não tenho o menor interesse em um investidor

 Saliento, deixando minha voz soar grave, pausada e absurdamente séria.

— Eu cuido muito bem da minha empresa sozinha.

Ele solta um risinho condescendente, ajeitando a botoeira do paletó com a calma exasperante de quem se acha superior.

— Um investidor não serve apenas para aportar capital, Cristal. Também serve para passar seriedade, credibilidade, para blindar a imagem do negócio.

A audácia daquela frase faz minhas sobrancelhas se erguerem no ato.

— Eu não passo seriedade?

Rebato, cruzando os braços e sustentando a postura.

— Você por acaso se esqueceu de que eu fui uma das indicadas ao prêmio de Melhor Empresária do Ano?

Luiz dá um meio sorriso, inclinando a cabeça como se estivesse me explicando algo óbvio para uma criança.

— Eles apenas te convidaram para ficar bem na mídia, querida, afinal, seu comércio é popular, apela para a massa. Trazer você para o evento gerou uma boa publicidade e, de quebra, as outras empresas acabaram colhendo os frutos de toda essa exposição, mas sejamos honestos, todos sabiam que você não tinha a menor chance de ganhar. Foi apenas uma jogada de marketing do conselho.

Engulo em seco, minha garganta trava e sequer consigo rebater de imediato, porque, bem lá no fundo, na parte mais dolorosa da minha mente, eu sabia que ele não estava mentindo.

Durante as últimas semanas, minha rotina tinha virado um turbilhão de entrevistas para jornais renomados, capas de revistas de negócios e até participações em programas de TV em horário nobre.

“Cristal, a empreendedora que saiu da comunidade e venceu no topo do mercado.”

Essa era a chamada principal que estampava as matérias, na época, engoli o orgulho e me permiti sentir uma felicidade genuína.

Fiquei verdadeiramente orgulhosa do caminho percorrido, cheguei a recortar a reportagem do jornal impresso com cuidado e colocá-la em um quadro elegante na minha sala de estar. Parecia a validação de cada noite sem dormir.

A comoção popular e a torcida ao redor do meu nome eram gigantescas. Por isso, eu estava tão convicta de que o troféu seria meu.

Afinal, minha empresa merecia esse prêmio. Eu merecia. Batalhei duro, sangrei nos bastidores e entreguei resultados impecáveis para ter esse reconhecimento do mercado.

Mas ali, ouvindo o veneno suave do Luiz e encarando aquele salão de homens engravatados, a ficha caiu de forma brutal. Não importavam os números extraordinários obtidos, não importavam os resultados imbatíveis e as metas superadas em plena crise.

Nada disso importava.

Para eles, eu sempre seria o troféu de diversidade da foto e nunca a vencedora do prêmio.

Eu fingia não ouvir, engolia o orgulho e mantinha o queixo erguido quando os ouvia sussurrando pelos cantos que eu era "jovem demais", que meu sucesso tinha sido "rápido e fácil demais", ou o pior de tudo quando insinuavam covardemente que minha beleza e meu corpo tinham me ajudado a abrir portas.

Esses eram, de longe, os piores e mais destrutivos comentários, eles tentavam reduzir anos de estudo, noites em claro e estratégias brilhantes a mero atributo físico.

É claro que nem todos naquele salão eram desprezíveis. Alguns executivos eram genuinamente educados, respeitosos e faziam questão de expressar uma admiração sincera pelas minhas conquistas e pela audácia dos meus negócios.

Mas os olhares maliciosos e a condescendência velada de homens como Luiz pesavam mais, aos poucos, o ar ao meu redor pareceu esquentar e engrossar.

Um aperto incômodo começou a fechar minha garganta, o peito pesou e um nó na garganta me avisou que eu estava no meu limite.

Começo a me sentir completamente sufocada naquele ambiente de aparências. Sinto que, se não sair dali e não respirar ar puro imediatamente, vou acabar surtando no meio de todo mundo.

— Com licença — interrompo, fria e sem dar espaço para trégua, me afastando antes mesmo que ele consiga abrir a boca para disparar mais algum veneno travestido de conselho.

Cruzo o salão e saio daquele evento exatamente da mesma forma que entrei, altiva, elegante e de cabeça erguida. Vou distribuindo cumprimentos cordiais e sorrisos leves por onde passo, engolindo o amargor na garganta.

No fundo do meu peito, alimentava uma promessa silenciosa de que, um dia, querendo eles ou não, teriam que me olhar de uma forma diferente. Teriam que me respeitar pelo que sou, não pelo que represento na cota deles.

Porém, toda aquela armadura de mulher inabalável ruiu no instante em que passei pelas portas do meu carro.

Assim que fechei a porta e o silêncio do veículo me envolveu, soltei um longo e doloroso suspiro. Senti meus olhos marejarem imediatamente e meus lábios tremerem com o peso de cada humilhação velada daquela noite, mas me recusei a fraquejar ali.

Pisando fundo no acelerador, engoli o choro durante todo o trajeto para casa, segurando as lágrimas até cruzar a porta do meu apartamento, até me despir de toda aquela roupa sofisticada que vestia e entrar no box.

Só quando a água gelada do chuveiro atingiu minha pele é que me permiti ruir. Ali, misturando minhas lágrimas com a água que corria pelo meu corpo, eu chore, desabei inteira, sozinha, no escuro da minha intimidade, sem que absolutamente ninguém visse as minhas feridas.

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