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— Uma noiva e um filhoPOV / ISAURA TREVINEDepois da comida, Magnus explicou melhor a situação. Seu avô se chamava Ernesto, estava com câncer avançado e os exames tinham mostrado metástases. Ele voltou ao Brasil para acompanhá-lo e resolver a sucessão dos negócios da família, mas havia um problema: Ernesto esperava conhecer sua noiva.A família sabia que ele namorava havia anos, mas nunca tinha conhecido a mulher pessoalmente. Magnus morava na Inglaterra, trabalhava muito e Jane também vivia ocupada com a carreira de modelo; as visitas acabavam adiadas. Depois da traição, ele não contou que terminou. Continuou falando da namorada sem entrar em detalhes nem mencionar seu nome, até dizer que estavam noivos. Ernesto, que nunca tinha recebido uma apresentação, agora queria conhecê-la, e Magnus precisava sustentar a história.A ideia inicial tinha sido contratar uma atriz. Ao me reencontrar, pensou que eu poderia ajudá-lo: seriam duas semanas fingindo o noivado, com hospedagem e despesas
— Anos difíceisDOIS ANOS DEPOISPOV / ISAURA TREVINELírio começou a chorar quando o painel mudou outra vez o horário do nosso voo. Fechei os olhos por um segundo, com a testa encostada no cabelo dele, e procurei a chupeta na mochila apoiada junto aos meus pés. Eu odiava voo com escala. Queria chegar logo, embora não soubesse o que encontraria quando chegasse.— Eu sei, meu amor. Também quero ir embora.Ele afastou a chupeta e se remexeu no meu colo. Ajeitei suas pernas e tentei encontrar uma posição que não fizesse minhas costas doerem. Uma das minhas pernas estava formigando, minha cabeça doía acima dos olhos e o estômago vazio começou a incomodar. Tinha comido um pedaço de pão antes de sair de casa. No aeroporto, conferi os preços e preferi guardar o dinheiro. Lírio tinha sua comida na mochila; eu podia esperar.Fazia quatro noites que não dormia direito. Desde que minha avó morreu, precisei resolver os documentos, o funeral, o enterro e a entrega da casa alugada, entre uma troca
TraiçãoPOV / ISAURA TREVINEAlisei o vestido enquanto o elevador subia e girei o anel no dedo, tentando conter a ansiedade. Faltavam catorze dias para o casamento, e eu ainda não sabia o que usaria na cerimônia. Conrad dizia que resolveria tudo, mas, sempre que eu perguntava sobre os preparativos, ele estava ocupado demais para conversar.Naquela noite, fui sem avisar, mesmo sabendo que ele não gostava de visitas inesperadas. Não nos víamos havia mais de uma semana, e eu estava com saudade até de quando reclamava dos meus cachos presos nos botões da camisa dele. O elevador abriu, e segui para a última porta do corredor. Um homem estava sentado no chão, com a cabeça baixa e os cotovelos apoiados nos joelhos. Desviei da perna estendida, apertando a bolsa contra o corpo. Um bêbado naquele prédio? Pelo preço que devia custar morar ali, imaginei que alguém já teria aparecido para ajudá-lo.Parei diante do apartamento e ergui a mão para bater, pensando se Conrad sorriria ao me ver ou se pe
Dois anos depoisPOV/NATASHAConferi a roupa diante do espelho: blusa larga de mangas compridas, saia até o meio das canelas e sapatos baixos. Aos vinte e quatro anos, ainda escolhia peças que escondessem minha barriga. Engordei bastante desde que voltei de Portugal e tinha medo dos comentários. A depressão me manteve em casa por muito tempo; a ansiedade ainda me fazia comer sem fome e desistir de sair.Prendi os cachos num coque simples e guardei o currículo na bolsa. O cheiro doce e fresco do xampu ainda estava nos meus cabelos.Da cozinha, ouvi Sakura reclamar:— Nathan, essa caneca é minha.— O café também?— Principalmente.Sorri. Morar com os dois me ajudou a reconhecer uma casa pelos ruídos da rotina, em vez de ficar esperando uma discussão começar. Rafael continuava preso, mas ainda fazia terapia e havia noites em que precisava conferir a fechadura mais de uma vez.Da internação em Portugal, guardava lembranças incompletas. Sabia que Nathan e Sakura estavam comigo quando acord
POV/NATASHAOlhei para trás pela terceira vez antes de alcançar a entrada do prédio. Uma mulher atravessava a rua com uma sacola pendurada no braço e, mais adiante, um homem esperava na esquina, olhando para o telefone. Não reconheci nenhum dos dois, mas apertei o passo, sentindo a bota roçar meu calcanhar machucado.Desde que saí do trabalho, tinha a impressão de que alguém me seguia. Parei diante de uma vitrine para observar o reflexo da calçada e atravessei a rua, tentando distinguir meus passos dos que vinham atrás. O medo continuou mesmo quando não encontrei ninguém conhecido.Estava em Portugal. Tinha um emprego numa empresa de logística, um apartamento e dinheiro para comprar minha comida. Aos vinte e dois anos, ainda precisava me lembrar de que podia chegar em casa sem explicar por que demorei ou entregar o celular para alguém conferir minhas conversas.Na terapia, eu falava sobre essas coisas. Conseguir sair de casa sozinha era um avanço, assim como escolher uma roupa sem ima
POV/ SKYEle a beijou.Um beijo demorado, interrompido pelo sorriso dos dois.Depois encostou a testa na dela.Eu não ouvi o que falou.Não precisei.Sakura segurou sua camisa e chorou contra ele.Diego se aproximou.Alex veio atrás.— O que aconteceu? — meu amigo perguntou.Nathan virou o rosto, ainda abraçado à mulher.Sua expressão foi suficiente para deixar Diego nervoso.— Fala, porra.Sakura riu no meio do choro.— Você vai ser tio de novo.Diego parou.Depois tirou os óculos.Alex começou a sorrir.— Não — Nathan avisou imediatamente, com a própria voz falhando. — Nem vem falar do ar-condicionado. Estamos no jardim.Meu amigo abraçou a irmã.Alex os envolveu logo depois.As crianças perceberam o movimento e correram até nós.Zoe se agarrou à perna da mãe.— O que foi?Nathan se abaixou.Olhou para Sakura antes de falar.Ela assentiu.— Você vai ganhar um irmãozinho ou uma irmãzinha.Minha menina de franjinha ficou quieta por alguns segundos.Depois perguntou:— Vai precisar de p







