Compartilhar

A Primeira Fuga

last update Data de publicação: 2026-06-29 05:46:36

Às três da manhã, tomei a pior decisão da minha vida, que era tecnicamente a segunda pior, porque a primeira havia sido sair para o jardim da festa sem avisar ninguém.

Fiquei deitada na cama por horas, olhando para o teto de madeira que rangia com o vento, calculando. Donovan havia dormido, e a porta do quarto dele estava fechada com silêncio lá dentro. A tranca da minha porta era simples, de girar para abrir, o que ele havia calculado errado ao deixar a chave do lado de fora, mas não havia calculado errado no resto: sem celular, sem chaves de carro, sem dinheiro, sem nada.

Mas, tinha uma estrada lá fora. E onde há estrada, há carros. E onde há carros, há pessoas. E pessoas eram o que eu precisava. Me levantei devagar, calquei as sandálias velhas de borracha que havia achado num canto do quarto, dois números maiores que o meu pé, e fui pela sala no escuro prestando atenção em cada tábua do assoalho.

Do lado de fora, o frio seco da madrugada do interior chegou sem aviso, e o céu estava cheio de estrelas de um jeito que me fez parar por dois segundos involuntários, porque em São Paulo você se esquece completamente que estrelas existem. O cerrado à frente era uma massa escura com a lua cortando pelas copas, e eu calculei: sol havia nascido à minha esquerda na viagem, então a estrada ficava à direita, uns duzentos metros no máximo.

Comecei a andar. E o cerrado à noite não é nada parecido com o cerrado de dia, que da varanda do rancho parecia apenas árvores e arbustos razoavelmente arrumados. À noite era um labirinto de galhos em ângulos impossíveis, raízes fora do lugar e arbustos com espinhos que as sandálias velhas não protegiam em nada. Depois de quinze minutos eu estava numa clareira que eu não havia planejado, com o joelho machucado de quando havia tropeçado numa raiz, sem saber se havia virado à direita ou à esquerda no ponto em que o caminho havia se dividido.

Foi quando ouvi as vozes.

Duas, masculinas, baixas, a uns vinte metros na minha frente. Parei completamente. Uma delas disse um número, placa ou coordenada, eu não soube distinguir, e a outra respondeu algo curto e afirmativo. Não era conversa de pessoas que estavam por acaso no cerrado de madrugada. Era conversa de trabalho noturno do tipo que prefere não ter testemunhas.

Dei um passo para trás.

A folha seca embaixo da minha sandália fez um estalo que pareceu enorme no silêncio.

As vozes pararam ao mesmo tempo.

Ouvi passos se organizando na minha direção e uma lanterna varreu entre as árvores a uns dez metros, projetando sombras compridas e finas por todo lado. Fiquei imóvel como o mato à minha volta e segurei a respiração.

Então, uma mão fechou no meu braço de um jeito que não era violento e ainda assim não me deixou nenhuma opção, e Donovan estava do meu lado, surgido do nada, me puxando para trás com passos que não faziam barulho nenhum no mesmo mato onde eu havia feito tanto. Ele sabia onde pisar. Sabia a topografia daquele lugar de um jeito que não é possível aprender em dois dias.

Me guiou de volta ao rancho sem soltar o braço, e na varanda finalmente me soltou.

Nos olhamos. A lua estava cheia e clara, e eu vi o rosto dele de uma forma que não havia conseguido antes, e o que estava lá não era a raiva que eu esperava, não era o cálculo frio de carcereiro recuperando a fugitiva. Era uma tensão nos ombros que parecia próxima demais do alívio para ser outra coisa.

Como se ele tivesse ficado com medo de chegar tarde.

"Quem são eles?" perguntei.

"Dorme."

"Donovan." Eu havia descoberto que usar o nome dele criava uma fresta. "Quem são esses homens no mato?"

Ele olhou para as árvores escuras por um momento, como se estivesse decidindo quanto me dar. Então me olhou de volta.

"Trabalham pro seu pai."

Eu processei a informação. "Meu pai mandou homens para me resgatar."

Donovan ficou quieto por um segundo que durou mais do que deveria.

"Seu pai não quer te resgatar, Isadora." Era a primeira vez que ele usava meu nome, e saiu diferente do que eu havia imaginado, sem ironia, quase com cuidado. "Quer te silenciar."

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A Virgem e o Cowboy Proibido   O Império de Areia e Mar

    Dois anos depois.A televisão da sala estava no mudo, mas as letrinhas vermelhas no rodapé do canal de notícias não precisavam de som para ecoar na minha cabeça.“Supremo Tribunal nega último recurso. Augusto Monteverde cumprirá pena máxima em presídio federal de segurança máxima.”Apertei o botão do controle remoto, desligando a tela. O reflexo escuro da TV apagada devolveu a imagem de uma mulher que eu mal reconhecia se comparasse com as fotos das revistas de economia de três anos atrás. O cabelo estava preso num coque frouxo, a pele tinha o bronzeado dourado de quem passava as tardes caminhando na Praia do Forno, e os meus pés estavam descalços sobre o piso de madeira da nossa casa no alto da falésia.Eu não usava Armani. Eu vestia uma camisa de botão velha e gasta, que ficava enorme em mim porque pertencia ao homem que tinha acabado de cruzar a porta da frente.O som das chaves caindo na bancada da cozinha anunciou a chegada dele.Caminhei até a varanda, segurando uma taça de vinho

  • A Virgem e o Cowboy Proibido   Fumaça e Sal

    A areia fina e gelada da Praia dos Anjos ainda grudava nos nossos pés descalços quando a pesada porta de madeira da nossa casa no alto do morro se fechou, trancando a brisa do oceano do lado de fora.O luau tinha sido um bálsamo inesperado. Uma fogueira alta, violões, a maresia invadindo os pulmões. Eu tinha passado a última hora sentada numa canga, bebendo caipirinha e rindo de histórias triviais com alguns moradores locais que nos acolheram na roda. Pela primeira vez na vida, eu não estava calculando margens de lucro, negociando alianças corporativas ou fugindo de mercenários. E durante todo esse tempo, Gael permaneceu encostado num barco de pesca virado na areia, um pouco afastado da roda. Ele bebeu a sua cerveja em silêncio absoluto, a luz das chamas dançando no rosto cicatrizado, enquanto aqueles olhos azuis possessivos não desviavam de mim por um único segundo. O meu matador particular observando a herdeira arruinada finalmente respirar.Assim que a porta da sala clicou na tranc

  • A Virgem e o Cowboy Proibido   O Silêncio Após a Tempestade

    O silêncio absoluto tem um peso que ensurdece quem passou meses ouvindo o som de fuzis e o uivo da própria sanidade desmoronando.Arraial do Cabo nos recebeu com a indiferença monumental da natureza. Não havia repórteres nas ruelas de pedra. Não havia sirenes. Apenas o azul escandaloso e cristalino do mar que banhava a costa e o vento salgado que varria as falésias do Pontal do Atalaia.Aluguei uma casa isolada, de arquitetura rústica, cravada no alto do morro com vista infinita para o oceano. O contraste com o concreto cinzento e blindado de São Paulo era quase alucinógeno.Era o nosso quarto dia ali.Eu estava de pé no deck de madeira, enrolada apenas em uma canga fina. A brisa fria do fim de tarde roçava a minha pele. Deixei o vento bagunçar o meu cabelo livre de qualquer laquê corporativo. Olhei para baixo, observando a minha própria silhueta contra a luz do pôr do sol. Um metro e setenta de altura. Sessenta e cinco quilos de puro instinto de sobrevivência. Não havia mais a fragil

  • A Virgem e o Cowboy Proibido   O Tribunal da História

    A justiça tem cheiro de madeira velha, cera de assoalho e hipocrisia engravatada.Sete meses após a noite em que o subsolo da Monteverde foi banhado em sangue, o Tribunal de Justiça de São Paulo parecia pequeno demais para o tamanho do escândalo. O ar-condicionado central estava no máximo, mas o salão do júri fervia. O silêncio era tão denso que o clique das canetas dos taquígrafos ecoava como tiros isolados.Eu estava sentada na cadeira de testemunha. O meu vestido preto de corte reto, assinado por um designer francês, era a armadura perfeita para a ocasião: luto pela família que eu destruí e elegância absoluta para mostrar que eu não estava quebrada.No banco dos réus, o fantasma do meu pai.Augusto Monteverde havia envelhecido vinte anos em sete meses. Ele estava confinado a uma cadeira de rodas tecnológica, a perna direita esticada e inutilizada pelos estilhaços da bala 9mm que eu cravei na patela dele. O cabelo grisalho e impecável agora raleava, e a pele tinha um tom cinzento de

  • A Virgem e o Cowboy Proibido   O Preço da Liberdade

    O cheiro de iodo, água sanitária e lençóis esterilizados tentava, sem sucesso, apagar o cheiro de pólvora e sangue que parecia ter grudado na minha alma.Eu estava sentada na beira de uma maca de hospital, iluminada pela luz fluorescente e doentia de uma sala de trauma do Sírio-Libanês. Um médico residente, pálido e com as mãos trêmulas, terminava de limpar os cortes profundos nas palmas das minhas mãos — cortesia do púlpito de acrílico estilhaçado — enquanto dois agentes da Polícia Federal montavam guarda na porta de vidro.O meu advogado, um criminalista implacável chamado Dr. Malta, andava de um lado para o outro no quarto pequeno."A narrativa está do nosso lado, Isadora", Malta falava rápido, checando o celular a cada cinco segundos. "O país inteiro assistiu ao vazamento no telão. A internet está chamando você de heroína. O seu pai passou por uma cirurgia de reconstrução do joelho há duas horas e já acordou indiciado por homicídio múltiplo, fraude e formação de quadrilha. Nós vam

  • A Virgem e o Cowboy Proibido   O Fogo que Purifica

    O gemido agudo e desesperado de Augusto Monteverde ecoava pelas paredes de concreto do bunker, mas para mim, soava como uma melodia suave.O meu pai estava largado no chão sujo, as mãos finas e manicuradas tentando inutilmente estancar o sangue escuro que jorrava do joelho estilhaçado. O terno italiano de trinta mil reais estava encharcado com a água suja e o óleo do asfalto da garagem. Ele ergueu o rosto pálido e coberto de suor frio na minha direção. O ódio que contorcia as feições dele era a prova definitiva de que a máscara do "bom pai" havia sido incinerada para sempre."Você é um monstro", Augusto cuspiu as palavras, a voz esganiçada pela dor insuportável. "Você destruiu a sua própria família, sua vadia doente. Você está morta para mim! Morta!"Abaixei o braço, sentindo o peso da pistola 9mm esfriar na minha mão. Eu não vacilei. Eu não derramei uma única lágrima."Eu morri naquele incêndio três anos atrás, pai. Junto com os homens que você mandou queimar", respondi, a minha voz c

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status