FAZER LOGINEla era a filha intocável do inimigo. Ele era o criminoso que deveria destruí-la. Nenhum dos dois esperava se apaixonar. Isadora Monteverde nasceu entre luxo, obediência e mentiras. Filha de um dos homens mais poderosos do país, ela sempre foi tratada como uma joia rara: protegida, vigiada e prometida a um casamento perfeito. Até ser sequestrada por Gael Donovan. Foragido, perigoso e movido por vingança, Gael quer atingir o pai de Isadora no lugar onde mais dói: sua filha intocável. Mas a herdeira mimada que ele esperava encontrar se revela uma mulher feroz, teimosa e impossível de ignorar. Enquanto fogem pelo interior, entre ameaças, segredos de família e noites tensas demais para serem inocentes, o ódio entre os dois começa a se transformar em desejo. E Isadora descobre que talvez seu sequestrador não seja o verdadeiro vilão da história. Ela deveria odiá-lo. Ele deveria usá-la. Mas algumas prisões começam a parecer liberdade.
Ver maisDois anos depois.A televisão da sala estava no mudo, mas as letrinhas vermelhas no rodapé do canal de notícias não precisavam de som para ecoar na minha cabeça.“Supremo Tribunal nega último recurso. Augusto Monteverde cumprirá pena máxima em presídio federal de segurança máxima.”Apertei o botão do controle remoto, desligando a tela. O reflexo escuro da TV apagada devolveu a imagem de uma mulher que eu mal reconhecia se comparasse com as fotos das revistas de economia de três anos atrás. O cabelo estava preso num coque frouxo, a pele tinha o bronzeado dourado de quem passava as tardes caminhando na Praia do Forno, e os meus pés estavam descalços sobre o piso de madeira da nossa casa no alto da falésia.Eu não usava Armani. Eu vestia uma camisa de botão velha e gasta, que ficava enorme em mim porque pertencia ao homem que tinha acabado de cruzar a porta da frente.O som das chaves caindo na bancada da cozinha anunciou a chegada dele.Caminhei até a varanda, segurando uma taça de vinho
A areia fina e gelada da Praia dos Anjos ainda grudava nos nossos pés descalços quando a pesada porta de madeira da nossa casa no alto do morro se fechou, trancando a brisa do oceano do lado de fora.O luau tinha sido um bálsamo inesperado. Uma fogueira alta, violões, a maresia invadindo os pulmões. Eu tinha passado a última hora sentada numa canga, bebendo caipirinha e rindo de histórias triviais com alguns moradores locais que nos acolheram na roda. Pela primeira vez na vida, eu não estava calculando margens de lucro, negociando alianças corporativas ou fugindo de mercenários. E durante todo esse tempo, Gael permaneceu encostado num barco de pesca virado na areia, um pouco afastado da roda. Ele bebeu a sua cerveja em silêncio absoluto, a luz das chamas dançando no rosto cicatrizado, enquanto aqueles olhos azuis possessivos não desviavam de mim por um único segundo. O meu matador particular observando a herdeira arruinada finalmente respirar.Assim que a porta da sala clicou na tranc
O silêncio absoluto tem um peso que ensurdece quem passou meses ouvindo o som de fuzis e o uivo da própria sanidade desmoronando.Arraial do Cabo nos recebeu com a indiferença monumental da natureza. Não havia repórteres nas ruelas de pedra. Não havia sirenes. Apenas o azul escandaloso e cristalino do mar que banhava a costa e o vento salgado que varria as falésias do Pontal do Atalaia.Aluguei uma casa isolada, de arquitetura rústica, cravada no alto do morro com vista infinita para o oceano. O contraste com o concreto cinzento e blindado de São Paulo era quase alucinógeno.Era o nosso quarto dia ali.Eu estava de pé no deck de madeira, enrolada apenas em uma canga fina. A brisa fria do fim de tarde roçava a minha pele. Deixei o vento bagunçar o meu cabelo livre de qualquer laquê corporativo. Olhei para baixo, observando a minha própria silhueta contra a luz do pôr do sol. Um metro e setenta de altura. Sessenta e cinco quilos de puro instinto de sobrevivência. Não havia mais a fragil
A justiça tem cheiro de madeira velha, cera de assoalho e hipocrisia engravatada.Sete meses após a noite em que o subsolo da Monteverde foi banhado em sangue, o Tribunal de Justiça de São Paulo parecia pequeno demais para o tamanho do escândalo. O ar-condicionado central estava no máximo, mas o salão do júri fervia. O silêncio era tão denso que o clique das canetas dos taquígrafos ecoava como tiros isolados.Eu estava sentada na cadeira de testemunha. O meu vestido preto de corte reto, assinado por um designer francês, era a armadura perfeita para a ocasião: luto pela família que eu destruí e elegância absoluta para mostrar que eu não estava quebrada.No banco dos réus, o fantasma do meu pai.Augusto Monteverde havia envelhecido vinte anos em sete meses. Ele estava confinado a uma cadeira de rodas tecnológica, a perna direita esticada e inutilizada pelos estilhaços da bala 9mm que eu cravei na patela dele. O cabelo grisalho e impecável agora raleava, e a pele tinha um tom cinzento de












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