FAZER LOGINAcordei com gosto de metal na boca e a cabeça pesada como se alguém tivesse enchido meu crânio com areia durante a noite.
Levei uns bons segundos para entender onde estava: banco traseiro de uma caminhonete, braçadeira de plástico nos pulsos, o cerrado passando pela janela em velocidade de estrada, o sol nascendo numa faixa fina e laranja no horizonte lá fora. Nenhuma placa, nenhuma casa, nenhuma referência de onde diabos eu estava no mapa.
Na frente, ele dirigia com uma mão no volante e o chapéu ainda na cabeça, relaxado como se transportar mulheres contra a vontade delas fosse algo que ele fazia toda semana.
"Bom dia," eu disse, porque fui criada para ter boas maneiras mesmo em circunstâncias terríveis.
Ele não respondeu.
"Você me drogou."
"Extrato de erva-doce na água." A voz era a mesma de antes, rouca e sem inflexão. "Não deixa sequela nenhuma e, evidentemente, passa em algumas horas."
"Fico feliz que o meu sequestrador seja tão cuidadoso com a saúde alheia." Testei a braçadeira com um movimento discreto. Firme, mas não cortava a circulação, o que significava que ele havia feito aquilo com uma atenção irritante nos detalhes. "Quanto você quer? Porque se é dinheiro, meu pai resolve isso em uma hora, pode me falar um número agora mesmo."
Silêncio.
"Estou falando sério. Dólar, euro, transferência, o que for mais conveniente pra você. Meu pai tem contatos suficientes para fazer dinheiro aparecer em qualquer lugar do mundo sem deixar rastro, então a questão logística não é problema."
"Não quero dinheiro."
Eu parei abruptamente o que estava fazendo, porque aquela era a ÚNICA resposta que eu não esperava. "Então o que quer?"
Nada. Ele só dirigia, e a estrada sem nome seguia em frente como se fosse para sempre.
Eu o conhecia, aquele silêncio. Era o silêncio do meu pai quando a decisão já estava tomada e negociar era perda de tempo. A diferença é que meu pai sempre acabava explicando, porque ele gostava de ouvir a própria voz enunciando por que estava certo. Esse homem parecia não precisar que ninguém concordasse com nada.
"Pelo menos me fala para onde estamos indo," tentei, mudando de estratégia.
"Pro interior."
"Interior é APENAS a metade do país, Donovan."
Ele não havia esperado que eu usasse o nome dele, e aquela fresta de reação foi suficiente para eu entender que ainda havia coisas a aprender sobre como lidar com ele.
"Então, vai saber quando chegar," ele disse.
Eu olhei pela janela e tentei memorizar o que via: sol nascendo à minha esquerda, estávamos indo para norte ou para sul. Sem tráfego, sem postos de gasolina, sem nada. Meu vestido de Valentino estava amassado de um jeito que ia dar trabalho para o atelier, o corpete ainda apertando a costela, e a bolha no calcanhar havia estourado de vez em algum momento da madrugada.
Era de longe a pior noite da minha vida, e eu havia sobrevivido a um casamento de primo que durou sete horas num clube sem ar-condicionado.
Depois de um tempo que eu não soube calcular, o rádio da caminhonete crepitou. Gael ajustou a frequência, e uma voz masculina com a dicção pastosa de rádio AM do interior preencheu o silêncio.
E então eu ouvi meu nome.
"...Isadora Monteverde, filha do empresário e político Augusto Monteverde, viajou na madrugada desta quinta por motivos pessoais, segundo declaração da assessoria de imprensa da família. A família pede que a imprensa respeite a privacidade..."
O sangue saiu do meu rosto.
Meu pai sabia. Claro que sabia, com duzentos convidados e câmeras na festa, alguém havia visto alguma coisa. Mas em vez de acionar a polícia, em vez de fazer qualquer uma das mil coisas que um homem com o poder de Augusto Monteverde poderia fazer em questão de minutos, ele havia ligado para a assessoria de imprensa e dito que eu havia viajado por motivos pessoais.
Motivos pessoais.
Meu pai, que tinha o número pessoal de todo delegado do estado, havia escolhido não registrar nada.
Olhei para a nuca de Donovan. Ele não havia desligado o rádio. Não havia diminuído o volume. Havia ajustado a frequência exatamente no momento certo para que eu ouvisse, e agora dirigia com a mesma calma de antes, esperando.
"Você sabia que ele ia fazer isso," eu disse. Não era pergunta.
Ele não confirmou nem negou. Mas no espelho retrovisor, nossos olhos se encontraram por um segundo, e ele não estava surpreso com absolutamente nada.
Dois anos depois.A televisão da sala estava no mudo, mas as letrinhas vermelhas no rodapé do canal de notícias não precisavam de som para ecoar na minha cabeça.“Supremo Tribunal nega último recurso. Augusto Monteverde cumprirá pena máxima em presídio federal de segurança máxima.”Apertei o botão do controle remoto, desligando a tela. O reflexo escuro da TV apagada devolveu a imagem de uma mulher que eu mal reconhecia se comparasse com as fotos das revistas de economia de três anos atrás. O cabelo estava preso num coque frouxo, a pele tinha o bronzeado dourado de quem passava as tardes caminhando na Praia do Forno, e os meus pés estavam descalços sobre o piso de madeira da nossa casa no alto da falésia.Eu não usava Armani. Eu vestia uma camisa de botão velha e gasta, que ficava enorme em mim porque pertencia ao homem que tinha acabado de cruzar a porta da frente.O som das chaves caindo na bancada da cozinha anunciou a chegada dele.Caminhei até a varanda, segurando uma taça de vinho
A areia fina e gelada da Praia dos Anjos ainda grudava nos nossos pés descalços quando a pesada porta de madeira da nossa casa no alto do morro se fechou, trancando a brisa do oceano do lado de fora.O luau tinha sido um bálsamo inesperado. Uma fogueira alta, violões, a maresia invadindo os pulmões. Eu tinha passado a última hora sentada numa canga, bebendo caipirinha e rindo de histórias triviais com alguns moradores locais que nos acolheram na roda. Pela primeira vez na vida, eu não estava calculando margens de lucro, negociando alianças corporativas ou fugindo de mercenários. E durante todo esse tempo, Gael permaneceu encostado num barco de pesca virado na areia, um pouco afastado da roda. Ele bebeu a sua cerveja em silêncio absoluto, a luz das chamas dançando no rosto cicatrizado, enquanto aqueles olhos azuis possessivos não desviavam de mim por um único segundo. O meu matador particular observando a herdeira arruinada finalmente respirar.Assim que a porta da sala clicou na tranc
O silêncio absoluto tem um peso que ensurdece quem passou meses ouvindo o som de fuzis e o uivo da própria sanidade desmoronando.Arraial do Cabo nos recebeu com a indiferença monumental da natureza. Não havia repórteres nas ruelas de pedra. Não havia sirenes. Apenas o azul escandaloso e cristalino do mar que banhava a costa e o vento salgado que varria as falésias do Pontal do Atalaia.Aluguei uma casa isolada, de arquitetura rústica, cravada no alto do morro com vista infinita para o oceano. O contraste com o concreto cinzento e blindado de São Paulo era quase alucinógeno.Era o nosso quarto dia ali.Eu estava de pé no deck de madeira, enrolada apenas em uma canga fina. A brisa fria do fim de tarde roçava a minha pele. Deixei o vento bagunçar o meu cabelo livre de qualquer laquê corporativo. Olhei para baixo, observando a minha própria silhueta contra a luz do pôr do sol. Um metro e setenta de altura. Sessenta e cinco quilos de puro instinto de sobrevivência. Não havia mais a fragil
A justiça tem cheiro de madeira velha, cera de assoalho e hipocrisia engravatada.Sete meses após a noite em que o subsolo da Monteverde foi banhado em sangue, o Tribunal de Justiça de São Paulo parecia pequeno demais para o tamanho do escândalo. O ar-condicionado central estava no máximo, mas o salão do júri fervia. O silêncio era tão denso que o clique das canetas dos taquígrafos ecoava como tiros isolados.Eu estava sentada na cadeira de testemunha. O meu vestido preto de corte reto, assinado por um designer francês, era a armadura perfeita para a ocasião: luto pela família que eu destruí e elegância absoluta para mostrar que eu não estava quebrada.No banco dos réus, o fantasma do meu pai.Augusto Monteverde havia envelhecido vinte anos em sete meses. Ele estava confinado a uma cadeira de rodas tecnológica, a perna direita esticada e inutilizada pelos estilhaços da bala 9mm que eu cravei na patela dele. O cabelo grisalho e impecável agora raleava, e a pele tinha um tom cinzento de
O cheiro de iodo, água sanitária e lençóis esterilizados tentava, sem sucesso, apagar o cheiro de pólvora e sangue que parecia ter grudado na minha alma.Eu estava sentada na beira de uma maca de hospital, iluminada pela luz fluorescente e doentia de uma sala de trauma do Sírio-Libanês. Um médico residente, pálido e com as mãos trêmulas, terminava de limpar os cortes profundos nas palmas das minhas mãos — cortesia do púlpito de acrílico estilhaçado — enquanto dois agentes da Polícia Federal montavam guarda na porta de vidro.O meu advogado, um criminalista implacável chamado Dr. Malta, andava de um lado para o outro no quarto pequeno."A narrativa está do nosso lado, Isadora", Malta falava rápido, checando o celular a cada cinco segundos. "O país inteiro assistiu ao vazamento no telão. A internet está chamando você de heroína. O seu pai passou por uma cirurgia de reconstrução do joelho há duas horas e já acordou indiciado por homicídio múltiplo, fraude e formação de quadrilha. Nós vam
O gemido agudo e desesperado de Augusto Monteverde ecoava pelas paredes de concreto do bunker, mas para mim, soava como uma melodia suave.O meu pai estava largado no chão sujo, as mãos finas e manicuradas tentando inutilmente estancar o sangue escuro que jorrava do joelho estilhaçado. O terno italiano de trinta mil reais estava encharcado com a água suja e o óleo do asfalto da garagem. Ele ergueu o rosto pálido e coberto de suor frio na minha direção. O ódio que contorcia as feições dele era a prova definitiva de que a máscara do "bom pai" havia sido incinerada para sempre."Você é um monstro", Augusto cuspiu as palavras, a voz esganiçada pela dor insuportável. "Você destruiu a sua própria família, sua vadia doente. Você está morta para mim! Morta!"Abaixei o braço, sentindo o peso da pistola 9mm esfriar na minha mão. Eu não vacilei. Eu não derramei uma única lágrima."Eu morri naquele incêndio três anos atrás, pai. Junto com os homens que você mandou queimar", respondi, a minha voz c







