INICIAR SESIÓN
Eu nunca fui de reclamar de festa, mas aquela estava me matando de um jeito muito específico.
Duzentas pessoas, três horas em pé num salto de doze centímetros, o sorriso travado na bochecha direita como uma máscara que alguém havia pregado com cola, e o corpete do vestido apertando na costela esquerda em cada respiração.
O vestido era lindo, era Valentino, era branco com bordado de renda que tinha levado duas costureiras três semanas para terminar, e eu o odiava com toda a minha alma naquele momento. Tinha também a bolha no calcanhar direito que havia estourado uma hora antes e que doía de um jeito surdo e constante, como se meu próprio pé estivesse me julgando por ter escolhido aquele salto.
Meu nome é Isadora Monteverde. Vinte e quatro anos, filha única de Augusto Monteverde, o homem cujo sobrenome abria portas em três estados, fazia delegados atenderem o telefone no domingo e garantia que eu nunca esperasse fila em lugar nenhum na vida. Cresci sabendo exatamente como me comportar em qualquer situação: salto alto e coluna reta, aperto de mão firme, sorriso que não mostrava dentes demais. Era uma habilidade como outra qualquer. Como tocar piano: você aprende, você pratica, você executa.
Do outro lado do salão, Renato Lacerda conversava com um deputado que eu não me lembrava o nome. Renato era bonito, de terno azul, filho de juiz, formado em direito, com o tipo de sorriso que aparecia exatamente no momento certo. Era o tipo de homem que meu pai aprovava, o que diz tudo e não diz nada ao mesmo tempo.
Nas últimas semanas, ele me havia ligado quatro vezes para falar sobre o casamento, sobre o apartamento, sobre a lista de convidados, e em nenhum momento havia perguntado como eu estava me sentindo sobre qualquer uma dessas coisas. Eu não tinha certeza se ele havia percebido que eu era uma pessoa com sentimentos, ou se isso simplesmente não era relevante para o projeto que nós dois representávamos.
Mas meu pai havia decidido, e quando Augusto Monteverde decidia, o mundo se reorganizava em torno disso.
Às dez da noite eu escorreguei para os jardins dos fundos pela porta lateral que ficava perto da adega, que ninguém usava depois das oito, e que eu havia descoberto aos quinze anos precisamente para momentos como aquele. Cinco minutos. Era tudo que eu precisava, cinco minutos sem fotógrafo, sem político me chamando de joia da família como se eu fosse um item num inventário, sem Renato me tocando o braço com aquela possessividade ensaiada que parecia retirada de um manual de como parecer apaixonado em eventos sociais.
Tirei os sapatos na grama e fechei os olhos. O jardim cheirava a jasmim e a terra úmida, e do salão chegava a música abafada, e por um momento foi suficiente.
Então, a mão cobriu minha boca antes que eu ouvisse qualquer coisa. Grande, áspera, quente, a mão de um homem que havia trabalhado com as mãos a vida inteira, não a mão de ninguém do meu mundo. Tentei gritar. O som morreu na garganta.
"Não grita." A voz era baixa e rouca, com sotaque do interior que eu não soube colocar em nenhuma cidade específica. "Não vai adiantar nada."
Girei os olhos o máximo que consegui. Vi o chapéu preto primeiro, aba larga, velho, o tipo de chapéu que nenhum homem do meu mundo usaria em nenhuma circunstância. Depois a arma na cintura, presa num coldre de couro escuro que parecia tão natural nele quanto um relógio seria em qualquer outro homem.
"Vou tirar a mão," ele disse, com aquela mesma calma irritante, como se estivéssemos tendo uma conversa normal sobre o clima. "Se gritar, não te machuco, mas complica muito as coisas pra você."
Concordei com a cabeça. Ele tirou a mão e eu me virei.
Era alto, moreno de sol, com uma cicatriz pequena na sobrancelha direita e um olhar que não me deu nem um milímetro de abertura. Bonito do jeito perigoso, não do jeito de Renato, que era bonito de forma calculada e inofensiva. Bonito do jeito de uma tempestade que você vê chegando no horizonte e sabe que vai te pegar de qualquer forma.
"Quem é você?" minha voz saiu menor do que eu queria.
"Seu pai me conhece por Donovan."
O nome não me disse absolutamente nada.
Ele fez um gesto para o portão dos fundos, um lugar onde eu nunca havia ido porque ficava além dos jardins formais, além dos limites do que me ensinaram a percorrer desde criança.
"Anda."
"Com licença?" Até naquela situação completamente absurda, a resposta saiu automática do lugar onde minha mãe havia instalado as boas maneiras quando eu tinha quatro anos. "Você está seriamente esperando que eu vá a algum lugar com você agora?"
"Eu estou mandando você vir." Ele já estava se virado para o portão, como se a questão fosse meramente logística.
Eu abri a boca e fechei. Porque havia algo na forma como ele disse isso, não como uma ameaça vaga, mas como um fato que ele conhecia com a precisão de quem já viu os detalhes operacionais.
Olhei para trás. As luzes do salão, os convidados em silhueta, meu pai gesticulando para alguém com aquela tranquilidade absoluta de quem controla tudo dentro daquelas paredes.
"Por que está fazendo isso?" perguntei.
Ele já caminhava, de costas para mim, em direção ao portão escuro.
"Seu pai vai pagar por tudo."
Dois anos depois.A televisão da sala estava no mudo, mas as letrinhas vermelhas no rodapé do canal de notícias não precisavam de som para ecoar na minha cabeça.“Supremo Tribunal nega último recurso. Augusto Monteverde cumprirá pena máxima em presídio federal de segurança máxima.”Apertei o botão do controle remoto, desligando a tela. O reflexo escuro da TV apagada devolveu a imagem de uma mulher que eu mal reconhecia se comparasse com as fotos das revistas de economia de três anos atrás. O cabelo estava preso num coque frouxo, a pele tinha o bronzeado dourado de quem passava as tardes caminhando na Praia do Forno, e os meus pés estavam descalços sobre o piso de madeira da nossa casa no alto da falésia.Eu não usava Armani. Eu vestia uma camisa de botão velha e gasta, que ficava enorme em mim porque pertencia ao homem que tinha acabado de cruzar a porta da frente.O som das chaves caindo na bancada da cozinha anunciou a chegada dele.Caminhei até a varanda, segurando uma taça de vinho
A areia fina e gelada da Praia dos Anjos ainda grudava nos nossos pés descalços quando a pesada porta de madeira da nossa casa no alto do morro se fechou, trancando a brisa do oceano do lado de fora.O luau tinha sido um bálsamo inesperado. Uma fogueira alta, violões, a maresia invadindo os pulmões. Eu tinha passado a última hora sentada numa canga, bebendo caipirinha e rindo de histórias triviais com alguns moradores locais que nos acolheram na roda. Pela primeira vez na vida, eu não estava calculando margens de lucro, negociando alianças corporativas ou fugindo de mercenários. E durante todo esse tempo, Gael permaneceu encostado num barco de pesca virado na areia, um pouco afastado da roda. Ele bebeu a sua cerveja em silêncio absoluto, a luz das chamas dançando no rosto cicatrizado, enquanto aqueles olhos azuis possessivos não desviavam de mim por um único segundo. O meu matador particular observando a herdeira arruinada finalmente respirar.Assim que a porta da sala clicou na tranc
O silêncio absoluto tem um peso que ensurdece quem passou meses ouvindo o som de fuzis e o uivo da própria sanidade desmoronando.Arraial do Cabo nos recebeu com a indiferença monumental da natureza. Não havia repórteres nas ruelas de pedra. Não havia sirenes. Apenas o azul escandaloso e cristalino do mar que banhava a costa e o vento salgado que varria as falésias do Pontal do Atalaia.Aluguei uma casa isolada, de arquitetura rústica, cravada no alto do morro com vista infinita para o oceano. O contraste com o concreto cinzento e blindado de São Paulo era quase alucinógeno.Era o nosso quarto dia ali.Eu estava de pé no deck de madeira, enrolada apenas em uma canga fina. A brisa fria do fim de tarde roçava a minha pele. Deixei o vento bagunçar o meu cabelo livre de qualquer laquê corporativo. Olhei para baixo, observando a minha própria silhueta contra a luz do pôr do sol. Um metro e setenta de altura. Sessenta e cinco quilos de puro instinto de sobrevivência. Não havia mais a fragil
A justiça tem cheiro de madeira velha, cera de assoalho e hipocrisia engravatada.Sete meses após a noite em que o subsolo da Monteverde foi banhado em sangue, o Tribunal de Justiça de São Paulo parecia pequeno demais para o tamanho do escândalo. O ar-condicionado central estava no máximo, mas o salão do júri fervia. O silêncio era tão denso que o clique das canetas dos taquígrafos ecoava como tiros isolados.Eu estava sentada na cadeira de testemunha. O meu vestido preto de corte reto, assinado por um designer francês, era a armadura perfeita para a ocasião: luto pela família que eu destruí e elegância absoluta para mostrar que eu não estava quebrada.No banco dos réus, o fantasma do meu pai.Augusto Monteverde havia envelhecido vinte anos em sete meses. Ele estava confinado a uma cadeira de rodas tecnológica, a perna direita esticada e inutilizada pelos estilhaços da bala 9mm que eu cravei na patela dele. O cabelo grisalho e impecável agora raleava, e a pele tinha um tom cinzento de
O cheiro de iodo, água sanitária e lençóis esterilizados tentava, sem sucesso, apagar o cheiro de pólvora e sangue que parecia ter grudado na minha alma.Eu estava sentada na beira de uma maca de hospital, iluminada pela luz fluorescente e doentia de uma sala de trauma do Sírio-Libanês. Um médico residente, pálido e com as mãos trêmulas, terminava de limpar os cortes profundos nas palmas das minhas mãos — cortesia do púlpito de acrílico estilhaçado — enquanto dois agentes da Polícia Federal montavam guarda na porta de vidro.O meu advogado, um criminalista implacável chamado Dr. Malta, andava de um lado para o outro no quarto pequeno."A narrativa está do nosso lado, Isadora", Malta falava rápido, checando o celular a cada cinco segundos. "O país inteiro assistiu ao vazamento no telão. A internet está chamando você de heroína. O seu pai passou por uma cirurgia de reconstrução do joelho há duas horas e já acordou indiciado por homicídio múltiplo, fraude e formação de quadrilha. Nós vam
O gemido agudo e desesperado de Augusto Monteverde ecoava pelas paredes de concreto do bunker, mas para mim, soava como uma melodia suave.O meu pai estava largado no chão sujo, as mãos finas e manicuradas tentando inutilmente estancar o sangue escuro que jorrava do joelho estilhaçado. O terno italiano de trinta mil reais estava encharcado com a água suja e o óleo do asfalto da garagem. Ele ergueu o rosto pálido e coberto de suor frio na minha direção. O ódio que contorcia as feições dele era a prova definitiva de que a máscara do "bom pai" havia sido incinerada para sempre."Você é um monstro", Augusto cuspiu as palavras, a voz esganiçada pela dor insuportável. "Você destruiu a sua própria família, sua vadia doente. Você está morta para mim! Morta!"Abaixei o braço, sentindo o peso da pistola 9mm esfriar na minha mão. Eu não vacilei. Eu não derramei uma única lágrima."Eu morri naquele incêndio três anos atrás, pai. Junto com os homens que você mandou queimar", respondi, a minha voz c







