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A Virgem e o Governador
A Virgem e o Governador
Autor: Ieda Lemos

Capítulo 1°— O Estranho

Autor: Ieda Lemos
last update Data de publicação: 2026-07-12 07:15:58

“Eu me encolhi e estremeci na presença daquele homem de rara beleza. Ele vinha na minha direção, afastando as pessoas sem delicadeza, até me alcançar”

Eu estava no velório do meu padrasto, que se dizia meu pai, mas infelizmente eu iria descobrir que o infeliz se achava meu dono, a ponto de fazer negócio comprometendo o meu destino.

Não conhecia ninguém ali presente, portanto, enquanto minha mãe chorava a morte do dito cujo, eu suspirava de alívio. Ela queria que eu demonstrasse sofrimento para as poucas pessoas que se deram ao trabalho de ir no velório.

— Se comporte na presença do senhor Santoro Spinelli!—ela disse puxando meu braço, assim que percebeu que íamos ser abordadas pelo estranho.

— Por quê?— indaguei sacudindo-me.

— Cris, não se mexa!— ela insistiu em me segurar.

Pelo estado de afobação daquele homem, ele era o único transtornado pela morte do falecido, causada por um infarto fulminante.

— Então a mocinha é mesmo rebelde! Seu pai estava certo!— A voz daquele estranho soava como um trovão.

Desta vez senti medo, e voltei a me esconder atrás da minha mãe.

— Quem é ele? Por que parece tão assustador, mãe?

Minha mãe, por sua vez, parecia mais apavorada do que eu.

— Cris, por favor, não me deixe nessa saia justa!

Decidi sair de trás dela e encarar o tal homem que parecia exercer um poder sobre todos ali.

— Meu nome é Alejandro Santoro Spinelli, senhorita. Muito prazer!— ele disse estendendo a mão para mim.

Minha mãe me sacudiu e eu quase esbarrei no peitoral do tal senhor Santoro.

— Responde, menina! Parece bicho do mato!— ela exclamou alterada

— Eu… muito… muito prazer senhor!— disse isso e saí dali às pressas, fui me esconder bem longe.

Depois de me acompanhar com o olhar surpreso, e a testa franzida, Alejandro virou-se para minha mãe, se queixando.

— Ninguém me falou que ela era assim! De que vai me servir essa garota? Olha só como desapareceu facilmente no meio do mato!

— Ela gosta de criança, senhor! — Minha mãe estava apavorada.

O homem bufou e olhou na direção onde eu sumi.

— Vão atrás dela. Tragam-na nem que seja à força! — ele disse para alguns homens sisudos, trajando preto.

Minha mãe apertou o casaco que tinha junto ao peito e implorou:

— Senhor, não lhe faça mal. Ela não tem culpa pelos erros do meu falecido marido!

O homem acalmou a respiração e voltou a falar com voz mais contida.

— O infeliz do seu marido fez um acordo comigo. Ela vai ter que cuidar do meu filho e morar na minha casa, como minha mulher!

— Não!— minha mãe quase gritou.

Assustada, pela reação do senhor estranho malvado, ela se encolheu de medo, a voz saiu como num fio.

— Ela nunca namorou ninguém, senhor.

— O quê!— dessa vez foi ele a se alterar e chamar atenção de quem estava ali.

Depois de disfarçar, com um sorriso congelado, diante dos olhares surpresos que o reconheciam como uma figura pública que era, ele inclinou-se para falar baixinho à minha mãe.

— Mais que porcaria é essa? Então me passaram gato por lebre!

Por um momento, dona Elisa, minha mãe, esqueceu de que estava diante do dono agora de toda a sua fortuna, que se resumia a nossa fazenda.

— O que esperava? Moramos no meio do mato, senhor!

— Mas ela já fez dezoito anos. Disso me certifiquei!

— Mas o meu marido a criou numa redoma, logo que começou a pegar jeito de moça. Ela sempre teve professores particulares em casa, e nunca precisou sair da fazenda para nada!

O homem bufou.

— Uma dondoca! Ah, eu mereço!

— Cris é uma moça simples, senhor!— Dona Elisa rebateu como uma leoa, que defende sua cria.

— Mimada ao extremo, eu suponho!

Minha mãe ergueu os olhos para examinar a expressão daquele ser de olhar frio, que naquele instante, parecia um gigante. Talvez porque ela se encontrava num momento de extrema fragilidade.

— Acho que tem razão, senhor. Minha menina não vai lhe servir. Melhor contratar uma babá e se casar com uma moça da cidade.

O homem virou-se com o olhar fulminante.

— Acha que vim até aqui dar viagem perdida, minha senhora? Eu fiz negócio com o seu marido quando ainda estava vivo. Ninguém me passa a perna!

Dona Elisa olhou em volta como se procurasse uma saída.

— Mas acontece que o senhor já percebeu que ela não vai lhe servir!

Cruzando os braços, Santoro Spinelli retrucou com o semblante fechado:

— Não tem como me pagar. Essa fazenda não me interessa, então terá que me entregar o que sobrou daquele devedor infeliz!

— Mas ela não vai querer ir com o senhor! Até saiu correndo, como pôde ver!

Santoro não se alterou.

— Meus homens irão encontrá-la, não se preocupe.

Minha mãe insistiu.

— Ela conhece bem essas terras, parece camaleão, ninguém consegue encontrá-la quando some desse jeito!

As palavras saíram como raios.

— Se ela não aparecer, já pode procurar um lugar para ficar. Não suporto ser contrariado!

Dona Elisa abraçou o corpo com os braços trêmulos.

— Senhor, não tenho para onde ir! Tenha piedade, não obrigue minha menina a essa sorte infeliz!

Foi o suficiente para deixar o homem zangado.

— Casar-se comigo é uma sorte infeliz?

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