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last update Data de publicação: 2026-08-16 23:27:23

Capítulo 3 — Adalberto narrando

Meu dia começava antes que a maioria das pessoas sequer pensasse em sair da cama. Não precisava de despertador. Meu corpo havia aprendido, ao longo dos anos, que homens como eu não podiam se dar ao luxo de dormir demais. Enquanto outros acordavam preocupados com contas, trabalho ou problemas comuns, eu acordava sabendo que havia dezenas de pessoas esperando uma decisão minha. Algumas queriam dinheiro. Outras queriam proteção. Algumas queriam fazer negócios. E havia aquelas que queriam me destruir. Todas tinham uma coisa em comum: cedo ou tarde, acabavam chegando até mim.

Eu estava diante da janela do meu escritório quando o sol começou a iluminar a cidade. Minha propriedade ficava em uma área afastada e protegida, cercada por muros altos, câmeras, homens armados e portões que raramente se abriam sem que eu soubesse quem estava entrando. De lá de cima, eu conseguia enxergar uma parte enorme da região que controlava. Empresas, terrenos, estradas, estabelecimentos comerciais e uma rede de negócios que se estendia por diferentes cidades. Oficialmente, eu era empresário. Dono de empresas de construção, transportadoras, propriedades rurais, casas noturnas e outros investimentos. Meu nome aparecia em jornais ligados a negócios milionários e reuniões empresariais. Para muita gente, eu era apenas um homem rico que havia construído um império.

As pessoas que realmente conheciam minha vida sabiam que aquilo era apenas a superfície.

Meu poder não vinha somente do dinheiro.

Vinha do medo.

Naquela região, minha palavra era suficiente. Não precisava levantar a voz para ser obedecido. Não precisava repetir uma ordem. Meus homens sabiam exatamente o que eu esperava deles e, quando recebiam uma instrução, cumpriam sem perguntas. Eu havia construído aquilo durante anos, eliminando obstáculos, comprando lealdades e destruindo quem acreditava que poderia passar por cima de mim.

Era um mundo cruel.

E eu era pior do que ele.

Peguei meu paletó sobre a cadeira e vesti lentamente. Ajustei o relógio no pulso, conferi algumas mensagens no celular e saí do escritório. Assim que abri a porta, dois homens que aguardavam no corredor endireitaram a postura.

— Bom dia, chefe.

— Bom dia.

Continuei andando.

— A reunião com os diretores está marcada para as nove — um deles informou.

— E a entrega?

— Será concluída antes do meio-dia.

— Quero os números conferidos antes de qualquer pagamento.

— Sim, senhor.

Eu não precisava olhar para trás para saber que ele havia entendido.

Desci para o andar inferior e entrei na sala de reuniões. Alguns dos meus principais executivos já estavam esperando. Ali, ninguém falava alto. Todos conheciam meu temperamento e sabiam que eu não tinha paciência para reuniões intermináveis.

Passei quase duas horas analisando contratos, investimentos e relatórios. Uma das minhas empresas estava prestes a fechar um negócio importante, outra precisava resolver um problema com fornecedores e uma terceira apresentava números melhores do que eu esperava. Era o lado da minha vida que aparecia para o público. Reuniões, contratos, empresários, advogados, investidores.

Eu gostava daquele jogo.

Dinheiro era simples.

Números não mentiam.

Pessoas, sim.

Quando terminei a reunião, um dos meus homens entrou na sala.

— Adalberto.

Olhei para ele.

— Fala.

— Encontramos o homem.

Não precisei perguntar quem.

Eu já sabia.

— Traga.

Ele assentiu e saiu.

Poucos minutos depois, dois homens entraram carregando um sujeito que estava com as mãos presas. Ele tinha o rosto machucado e uma expressão de puro desespero.

Eu me sentei tranquilamente na poltrona.

— Soltem.

Meus homens obedeceram.

O sujeito caiu de joelhos diante de mim.

— Adalberto, eu posso explicar.

— Então explique.

— Eu não tive escolha.

Inclinei a cabeça.

— Essa é sempre a primeira frase de quem sabe que fez merda.

— Eu estava sendo pressionado.

— Por quem?

Ele hesitou.

Foi o suficiente.

— Eu fiz uma pergunta.

— Eu… não posso dizer.

Levantei-me.

Ele imediatamente começou a tremer.

— Você trabalhava para mim.

— Sim.

— Eu confiava em você.

— Eu nunca quis trair o senhor.

Soltei uma risada sem humor.

— Mas traiu.

Ele tentou se aproximar.

— Me dê uma chance. Eu posso devolver o dinheiro. Posso entregar os nomes de quem me procurou. Posso…

Levantei uma das mãos.

Ele parou.

Eu não precisava ouvir mais.

— Levem.

O homem arregalou os olhos.

— Chefe, por favor!

— Eu não quero mais ouvir sua voz.

Meus homens o seguraram.

— Adalberto!

Continuei olhando para ele sem qualquer emoção.

— Resolva.

Foi tudo o que precisei dizer.

Ele foi retirado da sala.

A porta se fechou.

Voltei para minha poltrona e peguei o celular.

Não sentia culpa.

Não sentia remorso.

Traição tinha preço.

E todos os homens que trabalhavam comigo sabiam disso.

Eu não era um homem que perdoava duas vezes.

Meu celular vibrou.

Uma mensagem de uma mulher apareceu na tela.

Depois outra.

E outra.

Não precisei abrir para saber o conteúdo.

Mulheres estavam constantemente tentando entrar na minha vida. Algumas queriam meu dinheiro. Outras queriam meu sobrenome. Outras simplesmente queriam dizer que tinham conseguido ficar com o homem mais poderoso daquela região.

Eu poderia ter qualquer uma.

E tinha.

Nunca precisei implorar por companhia. Bastava uma ligação e uma mulher aparecia. Algumas eram modelos. Outras eram empresárias, influenciadoras, atrizes ou simplesmente mulheres bonitas que sabiam exatamente o que queriam.

Eu também sabia.

Diversão.

Nada além disso.

Nunca fui casado.

Nunca tive vontade.

Nunca prometi amor eterno para ninguém.

Não acreditava nesse tipo de coisa.

Casamento significava compromisso. Compromisso significava confiança. Confiança significava entregar uma arma para alguém usar contra você.

Eu não entregava armas.

Muito menos meu coração.

— Adalberto?

A voz de Henrique me tirou dos pensamentos.

Meu braço direito estava parado na porta.

— Entra.

Ele entrou e colocou uma pasta sobre minha mesa.

— Temos outro problema.

— Que tipo?

— Uma dívida.

Olhei para a pasta.

— De quem?

— Valquíria.

Abri o documento.

— Quanto?

Henrique falou o valor.

Parei por um instante.

Era uma quantia alta.

— Ela tem condições de pagar?

— Não.

— Então por que ainda está solta?

— Porque os bens dela estão avaliados, mas mesmo vendendo tudo não seria suficiente para cobrir o valor total.

Fechei a pasta.

— E o que ela está propondo?

Henrique me encarou.

— Ainda não sabemos.

— Então descubram.

— Ela pediu mais alguns dias.

— Não.

— Chefe…

— Dívida tem prazo.

Henrique assentiu.

— Quer que eu mande alguém buscar os documentos dos imóveis?

— Sim.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Existe outra coisa.

Levantei os olhos.

— Fala.

— Parece que ela tem uma enteada.

— E?

— A garota mora com ela.

— Isso não é problema meu.

— Talvez seja.

Fiquei olhando para ele.

Henrique abriu a pasta novamente e colocou algumas informações sobre a mesa.

— O nome dela é Celine.

Olhei rapidamente para os documentos.

Não me interessei.

Eu não conhecia aquela garota e não tinha motivo para conhecer.

— O que ela tem a ver com a dívida?

— Ainda não sabemos.

— Então descubram antes de voltarem a falar comigo.

Henrique pegou a pasta.

— Sim, chefe.

Ele se virou para sair.

— Henrique.

Ele parou.

— Quero resolver isso pessoalmente.

Ele me encarou.

— Tem certeza?

— Tenho.

Eu não gostava de deixar assuntos importantes nas mãos de outras pessoas. Principalmente quando envolviam dinheiro, traição ou gente desesperada.

E Valquíria parecia estar desesperada.

Desesperados cometiam erros.

E eu precisava descobrir qual seria o dela.

Levantei-me e caminhei até a janela novamente. A cidade se espalhava diante dos meus olhos, movimentada e pequena ao mesmo tempo. Eu tinha dinheiro suficiente para comprar praticamente qualquer coisa que quisesse. Empresas, propriedades, carros, mulheres, influência.

Tudo tinha um preço.

Tudo podia ser comprado.

Era assim que eu enxergava o mundo.

Até aquele momento.

Peguei o telefone e liguei para Henrique.

— Prepare o carro.

— Para quando?

— Agora.

— Vamos até a casa de Valquíria?

— Vamos.

Desliguei.

Não fazia ideia de que aquela simples dívida colocaria diante de mim a mulher que, pela primeira vez em toda a minha vida, não poderia ser tratada como apenas mais uma coisa que eu poderia comprar.

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