A brisa fria da madrugada carioca continuava a soprar na varanda, mas Lisa já não prestava atenção à temperatura. Com o celular guardado no bolso do casaco, levantou-se da cadeira de vime e deslizou cuidadosamente a porta de vidro, retornando ao quarto.
O som da respiração de Marcos preenchia o ambiente. Na penumbra, ele parecia absolutamente inofensivo, com o rosto relaxado contra o travesseiro e um dos braços estendido para o lado vazio da cama.
Para o lugar onde ela deveria estar.
Lisa aproximou-se devagar e parou ao lado do colchão. Observou-o por alguns instantes, tentando conciliar duas imagens que insistiam em se contradizer dentro de sua cabeça.
Aquele era o mesmo homem que preparava macarrão aos domingos, elogiava seus rascunhos com um brilho sincero nos olhos e a abraçava com força quando a saudade dos pais e do irmão se tornava insuportável. Era o homem que conhecia suas manias, lembrava-se de pequenos detalhes e parecia encontrar felicidade nas coisas mais simples que compartilhavam.
Mas também era o homem que escondera ser o herdeiro de uma fortuna bilionária e CEO da Albuquerque Technologies. O homem que nunca lhe contara sobre o noivado com Gabriela Almeida. E, acima de tudo, era o homem que fizera uma aposta envolvendo os sentimentos dela sem lhe dar a oportunidade de decidir se queria participar daquele jogo.
Marcos não era um desconhecido completo. Esse era justamente o problema.
Lisa conhecia seus hábitos, seu senso de humor, a maneira como franzia a testa quando estava concentrado e até o jeito como procurava sua mão durante o sono. Conhecia o homem que ele era quando estavam sozinhos.
O que não sabia era quantas coisas importantes ele havia escolhido esconder.
Deslizou sob o edredom com cuidado para não despertá-lo. Assim que sentiu o corpo dela ao seu lado, Marcos se aproximou instintivamente, envolvendo sua cintura com o braço.
O perfume amadeirado que ela conhecia tão bem provocou um aperto no peito.
Lisa permaneceu imóvel, de costas para ele, encarando a parede escura.
Não chorou. Não porque não estivesse sofrendo, mas porque já havia derramado lágrimas demais naquela madrugada. Precisava descansar, ainda que sua mente continuasse trabalhando sem descanso.
Não faria as malas pela manhã. Não o confrontaria no calor da descoberta. Tampouco fingiria que nada havia mudado dentro de si.
Por enquanto, precisava de tempo para entender o que sentia e separar aquilo que sabia daquilo que apenas imaginava.
Às sete da manhã, o alarme do celular de Marcos tocou baixinho.
Ele se espreguiçou, virou-se para Lisa e abriu os olhos azuis, ainda pesados de sono. Um sorriso afetuoso apareceu em seus lábios antes que ele depositasse um beijo delicado no ombro dela.
— Bom dia, meu amor.
— Bom dia — respondeu Lisa.
— Conseguiu dormir depois daquele chá? Você estava tão quietinha quando fui deitar que fiquei preocupado.
Ela sentiu a garganta apertar.
Até poucas horas antes, aquela preocupação teria sido suficiente para fazê-la esquecer qualquer tristeza. Agora, cada gesto carinhoso parecia acompanhado de uma pergunta incômoda.
Como alguém podia demonstrar tanto afeto e, ao mesmo tempo, esconder algo tão importante?
— Consegui, sim. Acordei mais descansada.
Marcos pareceu satisfeito com a resposta. Sentou-se na cama e passou a mão pelos cabelos loiros desalinhados.
— Que bom. Hoje tenho uma sequência de reuniões. Se tudo correr como planejado, consigo terminar mais cedo e preparar alguma coisa gostosa para nós dois. O que acha?
Lisa assentiu enquanto se levantava.
— Pode ser. Mas não precisa correr por minha causa. Se o trabalho apertar, a gente janta com calma outro dia.
— Você sabe que eu gosto de jantar com você.
Ele sorriu e se aproximou para beijar sua testa.
Lisa correspondeu ao carinho, tentando não deixar transparecer a confusão que sentia.
Era estranho perceber quantas coisas pequenas passavam despercebidas quando se confiava inteiramente em alguém. A sala onde Marcos trabalhava, por exemplo, sempre lhe parecera apenas o espaço de um profissional de tecnologia que preferia trabalhar em casa. Agora, ela sabia que aquele mesmo cômodo servia de base para alguém que comandava uma das maiores empresas de seu setor.
A casa continuava igual. O homem também parecia o mesmo.
Mas o significado de tudo havia mudado.
— Está tudo bem mesmo, Lisa? — perguntou ele, observando-a com atenção.
Por um instante, ela temeu que ele tivesse percebido alguma coisa.
— Está, sim. Só estou pensando nas tarefas da cafeteria. Hoje deve ser corrido.
Marcos sustentou o olhar dela por mais alguns segundos, como se procurasse alguma explicação para aquela resposta.
Depois, relaxou os ombros.
— Então não vou atrapalhar sua concentração. Vá se arrumar, e eu preparo o café.
Lisa entrou no banheiro e fechou a porta.
Só então soltou o ar que parecia preso havia minutos.
Apoiada na pia, encarou o próprio reflexo. Seus olhos estavam cansados, mas não havia nada neles que Marcos pudesse identificar facilmente como prova de uma descoberta.
Ela abriu a torneira, lavou o rosto e respirou fundo.
Não queria transformar cada gesto dele em evidência de culpa. Seria injusto com a própria memória, porque havia momentos entre os dois que não precisavam ser apagados para que a mentira fosse reconhecida.
Marcos podia tê-la amado de verdade. Os carinhos, a cumplicidade e as lembranças compartilhadas não precisavam ser todos falsos.
Ainda assim, ele havia tomado uma decisão que a atingia profundamente: começara a relação permitindo que ela acreditasse estar conhecendo alguém que lhe apresentava uma versão incompleta de si mesmo.
E Lisa sequer sabia quando teria descoberto a verdade se não tivesse voltado ao apartamento para buscar aquela chave esquecida.
A cafeteria na Barra da Tijuca estava movimentada naquela manhã.
O cheiro dos grãos moídos se misturava ao vapor da máquina de espresso, enquanto os pedidos se acumulavam no balcão. O barulho das xícaras, as conversas dos clientes e o movimento constante dos funcionários ofereciam a Lisa algo de que precisava desesperadamente: uma rotina que continuava existindo apesar do que acontecia dentro dela.
Atendeu os clientes habituais, organizou a estante de xícaras e conferiu os pedidos para viagem.
Mesmo ocupada, porém, sua mente insistia em retornar a setembro de 2023.
Ela se lembrava do primeiro encontro com Marcos. Ele entrara na cafeteria usando uma calça jeans e uma camiseta escura, com um notebook debaixo do braço. Pedira um café coado e puxara conversa sobre o livro que ela lia durante o intervalo.
Não tentara impressioná-la com dinheiro, sobrenomes ou histórias grandiosas. Parecera apenas um homem inteligente, simpático e interessado no que ela tinha a dizer.
Lisa gostara disso.
Naquela época, acreditara que havia encontrado alguém que não precisava ostentar nada para se sentir seguro.
Agora, a lembrança era acompanhada de uma pergunta que ela não conseguia afastar.
Quanto daquele primeiro encontro havia sido espontâneo?
Ela não tinha motivos para afirmar que Marcos planejara cada palavra ou cada gesto. Também não sabia se a aposta determinara a maneira como ele se aproximara dela.
O que sabia era suficiente para doer.
Em 15 de setembro de 2023, cinco dias antes de Marcos se aproximar dela pela primeira vez, ele havia feito uma aposta com Paulo, Flávio, Felipe e César. O objetivo era conquistá-la sem se apaixonar. O prêmio era uma Ferrari vermelha.
Lisa não conhecia todos os detalhes daquela conversa entre os amigos. Não sabia exatamente quem fizera a proposta, quais argumentos haviam sido usados ou como cada um reagira.
Qualquer cena que construísse em sua imaginação continuaria sendo apenas uma hipótese.
Mesmo assim, não conseguia deixar de pensar que, enquanto ela vivia uma vida comum, preocupada com o trabalho e com seus sonhos de escritora, Marcos havia transformado a possibilidade de conquistá-la em um desafio.
E havia algo ainda mais difícil de compreender.
Em julho daquele mesmo ano, ele encerrara o noivado com Gabriela Almeida, uma advogada de uma família influente, cujo relacionamento com Marcos havia sido conhecido publicamente.
Dois meses depois, participara da aposta.
A proximidade entre os acontecimentos levantava perguntas, mas não oferecia respostas.
Será que o fim do noivado o deixara com o orgulho ferido? Será que ele queria provar a si mesmo que ainda conseguia conquistar qualquer mulher? Ou a aposta não tinha relação alguma com Gabriela e fora apenas consequência da arrogância de um homem acostumado a conseguir o que desejava?
Lisa não sabia.
E o fato de não saber a incomodava quase tanto quanto as mentiras que já havia descoberto.
— Lisa?
A voz de Carol interrompeu seus pensamentos.
Ela piscou e percebeu que estava passando o pano no mesmo trecho do balcão havia tempo demais.
— Oi?
A colega inclinou a cabeça, observando-a.
— Você está bem? Parece que viajou para outro planeta.
Lisa soltou uma risadinha discreta e afastou o pano.
— Desculpa. Estava pensando no capítulo novo do meu livro.
— Ah, seu romance! E como estão os personagens? — Carol perguntou, apoiando os cotovelos no balcão. — Você estava toda animada com essa história semana passada.
Lisa olhou para a xícara que segurava.
Como explicar que, de repente, a própria vida parecia uma história que ela não sabia mais como escrever?
— A protagonista está passando por um momento complicado — respondeu. — Descobriu uma coisa sobre o homem que ama e agora está tentando entender se conhece mesmo a pessoa com quem vive.
Carol fez uma expressão de espanto.
— Ih, mulher! Isso é traição?
Lisa hesitou.
— Não exatamente. É uma mentira que muda muita coisa.
— Então eu espero que ela não seja besta e coloque esse homem para correr.
A espontaneidade da resposta arrancou de Lisa um sorriso verdadeiro, ainda que breve.
— Você resolve tudo muito rápido, né?
— Ué! Se o personagem faz besteira, tem que aguentar as consequências. Simples assim.
Carol voltou ao trabalho sem perceber o peso que aquelas palavras haviam adquirido para a colega.
Lisa ficou alguns segundos em silêncio.
A parte mais difícil não era simplesmente decidir o que fazer com Marcos. Era aceitar que, por mais que o amasse, não poderia continuar tratando a própria dor como se fosse menos importante do que os sentimentos dele.
Durante muito tempo, ela acreditara que compreender alguém significava encontrar justificativas para suas atitudes. Talvez tivesse confundido empatia com a obrigação de suportar tudo.
A ideia a assustava.
Mas também começava a lhe mostrar algo que precisava aprender.
Amar uma pessoa não significava que ela tinha o direito de decidir, sozinha, quais verdades a outra poderia suportar.
No fim da tarde, depois de encerrar o expediente, Lisa caminhou até uma pequena praça próxima ao trabalho.
Sentou-se em um banco sob a sombra de uma amendoeira e retirou o celular da bolsa.
Não pretendia passar horas pesquisando novamente os mesmos nomes. Já havia encontrado informações suficientes para compreender a dimensão do que Marcos escondera. Continuar abrindo páginas e lendo matérias antigas não necessariamente lhe daria as respostas que procurava.
Naquele momento, precisava organizar o que sabia.
Marcos era o CEO da Albuquerque Technologies.
Era bilionário, embora tivesse permitido que ela acreditasse durante quase três anos que levava uma vida financeira muito mais simples.
Havia sido noivo de Gabriela Almeida, mas nunca mencionara esse relacionamento.
Fizera uma aposta envolvendo Lisa e uma Ferrari vermelha.
E, apesar de tudo isso, demonstrava por ela um carinho que parecia genuíno.
O último ponto era o que mais confundia seus sentimentos.
Se Marcos fosse cruel o tempo inteiro, talvez fosse mais fácil organizar a própria indignação. Se a tratasse com desprezo, talvez ela conseguisse se afastar emocionalmente com menos dificuldade.
Mas ele não fazia isso.
Ele preparava seu café do jeito que ela gostava. Lembrava-se de suas histórias. Prestava atenção quando ela falava sobre os livros que queria escrever. Percebia quando a saudade da família pesava sobre seus ombros e sabia como fazê-la sorrir nos dias ruins.
Nada disso anulava a aposta.
E nada disso lhe permitia afirmar que todos aqueles momentos tinham sido encenados.
Lisa precisava sustentar as duas verdades ao mesmo tempo, por mais doloroso que fosse: Marcos havia construído uma relação verdadeira sobre uma omissão que ela jamais teria aceitado se soubesse desde o início.
O prazo da aposta terminara à meia-noite de 15 de setembro de 2026.
Aquela data já havia passado.
Na cabeça dos amigos, Marcos havia cumprido o desafio e conquistado o direito de reivindicar o prêmio. Pelo que Lisa descobrira, eles continuavam acreditando que ele conseguira manter o controle dos próprios sentimentos.
Mas não conseguira.
Marcos se apaixonara por ela.
Lisa reconhecia isso nos olhares que ele lhe lançava quando achava que ela não estava prestando atenção, na maneira como procurava agradá-la e no cuidado com que construíra a rotina dos dois.
Ela não precisava negar o amor dele para reconhecer sua covardia.
O que a ferira não era apenas a existência de uma aposta. Era descobrir que Marcos tivera a oportunidade de contar a verdade e, ainda assim, escolhera preservar a própria imagem.
Ele poderia ter admitido aos amigos que havia perdido o desafio. Poderia ter contado a Lisa o que fizera e permitido que ela decidisse se queria continuar ao lado dele.
Em vez disso, mantivera o silêncio.
Lisa baixou os olhos para o celular.
Uma mensagem acabara de chegar.
Era de Marcos.
“Amor, consegui adiantar a reunião das seis. Estou saindo do escritório agora e passando no mercado para pegar aquele vinho que você gosta. Chego em 20 minutos. Te amo.”
Ela leu a mensagem duas vezes.
Te amo.
Antes, aquelas palavras eram um lugar seguro para onde podia voltar depois de um dia difícil. Agora, carregavam uma pergunta que Marcos não fazia ideia de ter provocado.
Como alguém podia dizer que amava outra pessoa e esconder dela uma verdade tão importante?
Lisa não respondeu imediatamente. Guardou o celular na bolsa e se levantou.
Não o confrontaria naquela noite. Não colocaria as matérias sobre a mesa nem exigiria explicações sobre Gabriela. Também não fingiria que havia esquecido o que descobrira.
Precisava observar como Marcos se comportaria agora que o prazo da aposta havia terminado. Queria compreender se ele continuaria sustentando a mentira, se os amigos voltariam a tocar no assunto e se a vitória que acreditavam ter celebrado significava para ele o mesmo que significava para eles.
Não queria montar uma armadilha.
Queria enxergar com clareza.
E, acima de tudo, precisava recuperar a própria capacidade de decidir sem deixar que o medo de perder Marcos falasse mais alto do que o respeito por si mesma.
Quando Lisa abriu a porta do apartamento, o aroma de alho dourando no azeite se espalhava pela sala. Uma música instrumental tocava baixinho, criando aquela atmosfera acolhedora que ela sempre associara às noites em casa.
Marcos estava na cozinha, usando uma camiseta simples e um avental. Picava ervas sobre uma tábua de madeira quando ouviu a porta.
Ao vê-la, abriu um sorriso.
— Chegou bem na hora!
Ele largou a faca, secou as mãos em um pano e caminhou até ela. Segurou seu rosto com delicadeza e lhe deu um beijo carinhoso.
Lisa correspondeu, tentando não se perder na familiaridade daquele gesto.
— O vinho já está gelando — contou ele. — Fiz uma massa com molho de queijo fresco. Espero que você esteja com fome.
— Estou. Está com um cheiro ótimo.
— Ainda bem. Porque, se você não gostar, vou precisar inventar alguma desculpa para pedir comida.
Ela soltou uma risada curta.
— Você está ficando muito confiante nas suas habilidades culinárias.
— Eu tenho uma crítica exigente em casa. Preciso melhorar.
Marcos voltou para o fogão, satisfeito por tê-la feito rir.
Lisa o observou por alguns segundos antes de ir ao banheiro lavar as mãos.
Diante do espelho, apoiou as palmas na pia e respirou fundo.
A mulher refletida ali não era outra pessoa. Continuava sendo Lisa Martins, a mesma que amava escrever, que se emocionava com pequenos gestos e que sonhava em ver seus livros alcançarem leitores de diferentes lugares do mundo.
A descoberta não apagava quem ela era.
Talvez fosse justamente isso que precisasse lembrar.
Quando retornou à sala, Marcos já havia colocado a comida na mesa. Duas taças de vinho branco estavam servidas, e ele puxou a cadeira para que ela se sentasse.
O jantar começou com conversas sobre o dia. Marcos contou uma situação engraçada que ocorrera durante uma reunião, e Lisa fez perguntas nos momentos certos. Por alguns minutos, quase conseguiu esquecer a investigação.
Quase.
— E você? — ele perguntou, servindo mais um pouco de molho no prato dela. — Como foi o trabalho?
— Movimentado. A Carol estava de bom humor, o que significa que passou o dia inteiro me perturbando.
Marcos riu.
— Gosto dela. Sempre que você fala da cafeteria, tem alguma história envolvendo essa mulher.
— Porque ela não me dá paz.
— Pelo menos alguém está fazendo companhia para você enquanto eu trabalho.
Lisa baixou os olhos para o prato.
— É. Estou bem acompanhada.
A frase saiu com mais significado do que ela pretendia.
Marcos, porém, apenas sorriu e continuou a comer.
Depois de alguns minutos, ele ergueu a taça.
— Acho que está faltando um brinde.
Lisa levantou os olhos.
— A quê?
— A nós dois. A tudo o que construímos juntos e a todos os anos que ainda temos pela frente.
O coração dela apertou ao ouvir aquilo.
Marcos falava sobre o futuro com a naturalidade de quem acreditava que nada havia mudado. Talvez, para ele, realmente não tivesse mudado. A relação continuava a mesma, o apartamento permanecia acolhedor e a mulher que amava ainda estava sentada à sua frente.
Ele não sabia que Lisa já conhecia uma parte da verdade.
Ela pegou a taça e a ergueu lentamente.
— Podemos brindar às coisas que a gente aprende com o tempo.
Marcos inclinou a cabeça, interessado.
— Isso foi profundo. Tem alguma mensagem escondida aí?
Por uma fração de segundo, Lisa sentiu o impulso de responder que sim. De dizer que algumas coisas só eram aprendidas quando as pessoas deixavam de esconder os próprios segredos.
Mas não era o momento.
Ela sorriu de leve.
— Talvez eu esteja pensando demais. Acho que é influência do meu livro.
Marcos soltou uma risada.
— Sabia que essa história estava tomando conta da sua cabeça.
As taças se encontraram com um som cristalino.
— Ao que aprendemos com o tempo, então — disse ele.
— Ao que aprendemos.
Lisa levou o vinho aos lábios, sem desviar os olhos dos dele.
Marcos continuou falando sobre o trabalho e os planos para o fim de semana. Não parecia desconfiado. Não havia nada em seu comportamento que revelasse que ele suspeitava da descoberta.
E, enquanto o escutava, Lisa percebeu que não precisava decidir naquela noite se ainda conseguiria amá-lo ou se algum dia voltaria a confiar nele.
Precisava apenas parar de confundir o carinho que recebia com a obrigação de aceitar tudo o que ele fizera.
Depois do jantar, Marcos recolheu os pratos e pediu que ela escolhesse um filme para assistirem juntos. Lisa se acomodou no sofá, e ele se sentou ao lado dela, envolvendo seus ombros com o braço.
Ela apoiou a cabeça nele por alguns instantes.
Não era uma encenação completa. O conforto daquele abraço ainda existia. As lembranças continuavam sendo suas. O amor que sentia não desaparecera porque ela descobrira uma mentira.
Mas alguma coisa havia mudado de maneira irreversível.
Antes, Lisa acreditava que conhecia o homem que a abraçava.
Agora, sabia que havia partes dele que nunca lhe tinham sido apresentadas.
Marcos beijou o alto de sua cabeça e perguntou se ela estava confortável. Lisa respondeu que sim e voltou os olhos para a televisão.
Não pretendia transformar cada gesto em uma prova, nem passar o resto da vida tentando adivinhar o que ele pensava. Quando chegasse a hora de exigir respostas, faria isso por si mesma, não para arrancar dele uma declaração capaz de aliviar sua dor.
Por enquanto, observaria. Pensaria. E lembraria que também tinha direito a escolher o que fazer com a própria vida.
Naquela noite, Marcos adormeceu primeiro, com um braço repousado sobre a cintura dela.
Lisa permaneceu acordada por mais alguns minutos, olhando para o teto.
O prazo da aposta havia acabado. O prêmio, a vitória e o orgulho dos amigos pertenciam ao mundo de Marcos, um mundo do qual ela nunca soubera que fazia parte.
Mas as consequências daquela escolha já estavam dentro do apartamento, deitadas ao lado dele.
E, pela primeira vez desde que descobrira a verdade, Lisa deixou de se perguntar apenas por que Marcos havia mentido.
A pergunta que começou a tomar forma em sua mente era outra:
Quando ele finalmente percebesse que ela sabia, tentaria contar a verdade — ou ainda encontraria uma maneira de esconder o homem que realmente era?