LOGINHannah Brooks
Tiro o uniforme com a lentidão de quem apanhou o dia todo. Pernas moídas, ombros travados e os pés queimando dentro do tênis velho. O turno na lanchonete foi brutal. Para fechar com chave de ouro, ainda tive que aguentar um pai dando um chilique homérico porque o brinquedo do combo veio errado. O filho dele, de uns sete anos, parecia querer cavar um buraco no chão de tanta vergonha. — Hannah, vai com a gente? — Jane pergunta, guardando as coisas. — Só um pub com música ao vivo para esquecer esse inferno. — Queria muito, Jane. Mas combinei com o Ryan, e ainda tenho que estudar para a semana de provas. — Sei bem como é. Até amanhã, então. Jogo a mochila nas costas e saio. O ar frio da noite b**e no rosto. Coloco os fones de ouvido no volume máximo, deixando a música anestesiar o cansaço enquanto caminho em direção ao ponto de ônibus, la vamos nós esperar por mais quarenta minutos, até o próximo passar. 》☆☆☆☆☆☆《 Pisco, achando que a exaustão está me fazendo alucinar. Não está. Minhas coisas estão empilhadas na calçada. Sacos de lixo abarrotados de roupas, sapatos jogados, caixas amassadas e meus livros. Até meu notebook está ali, largado no cimento como se fosse lixo. Como se eu fosse descartável. O choque me paralisa. Corro até a porta e enfio a chave na fechadura. Não gira. Forço. Nada. A fechadura foi trocada. — Que porra é essa? — murmuro. Começo a esmurrar a madeira. Não quero saber se os vizinhos estão olhando. Eu pago contas, compro comida e engulo sapos nessa casa. No mínimo, exijo uma explicação. A porta finalmente abre. Minha mãe aparece com os braços cruzados e aquele sorriso cínico de quem ensaiou o papel de vitoriosa. Por cima do ombro dela, vejo a Amelie no fundo do corredor, com a cara lavada de quem conseguiu o que queria. — Que merda significa isso, mãe? Por que minhas coisas estão na rua? — Bem, querida... sua irmã precisava de espaço para o novo estúdio de gravação dela. Então, o seu quarto... Solto uma risada alta, seca e cortante. — Estúdio de gravação? Você só pode estar brincando. O que ela vai gravar? Um tutorial de como ser uma inútil que não sabe fritar um ovo? Ou vai abrir um OnlyFans para ver se finalmente serve para alguma coisa? O rosto da minha mãe passa do vermelho para o roxo. — Sua... — Já chega, Hannah! — ela grita, recuperando o fôlego. — Você está na minha casa. Não vai insultar sua irmã sob o meu teto. — Tecnicamente, não estou sob o seu teto — aponto para a calçada. — Estou na rua porque você preferiu fazer as vontades de uma parasita em vez de valorizar quem sustenta esse circo. — Nada disso teria acontecido se você tivesse feito o que seu pai e eu pedimos. Balanço a cabeça, sentindo o estômago revirar. — Então é isso. Vocês estão me expulsando de casa porque me recusei a trancar a faculdade para bancar os luxos desse erro genético? — dou um passo à frente, baixando o tom de voz para o limite do perigo. — Você está me jogando na rua por causa dessa bastarda, filha da amante do papai? — Cala a boca, Hannah! — minha mãe berra, desesperada. — O quê, mãe? A princesinha ainda não sabe que é fruto de uma traição? Que nem a própria mãe biológica quis e você foi obrigada a criar para salvar as aparências da família perfeita? Pronto. Cuspi o veneno que estava entalado há anos. Anos sendo o pano de chão emocional dessa família, limpando a sujeira dos outros e ficando por último em tudo . Chega. — Você fez a sua escolha, mãe. Escolheu uma cobra. Tomara que o veneno dela não te mate. Ela me encara em choque, sem fala. — E mais uma coisa — continuo, sentindo o chão firme sob meus pés pela primeira vez. — Essa casa é minha. Estava no testamento da vovó, ela deixou direto para mim. E eu vou retomar cada metro quadrado. Nem que eu precise arrancar vocês daqui com oficiais de justiça, advogados e o inferno inteiro de brinde. Giro nos calcanhares e saio andando. Pego o celular na mochila com os dedos ainda trêmulos de adrenalina e procuro o número do Ryan. Eu preciso de um teto para passar a noite. Só até eu tomar de volta o que é meu por direito. XxxxxxXxxxx — Obrigada por me deixar ficar, Susan. Eu realmente detesto incomodar. Prometo que é só até eu… — Corta essa — ela me interrompe com um sorriso leve, desses que não cobram dívida emocional. — Pode ficar o tempo que precisar, Hannah. O quarto de hóspedes é a última porta à direita, no fim do corredor. Suas malas maiores estão na garagem, mas o básico eu já deixei lá em cima. Amanhã a gente resolve o resto. Engulo em seco. Meus olhos ardem, mas engulo o choro à força. Eu já passei vergonha demais por uma única noite. — Você está sendo um anjo, Susan. Eu... eu ainda não consigo acreditar no que aconteceu. Ela me avalia com a calma de quem já sobreviveu a tempestades muito piores que a minha. — Eu também cresci em uma família disfuncional, querida — diz, baixando o tom de voz. — Sei bem como é ser deixada de lado para inflar o ego dos outros. A gente aprende cedo demais a se diminuir para caber nos espaços que nos dão. Agora chega de conversa. Vai tomar um banho e descansa. Vou preparar algo para a gente comer. — Mas... e o Peter? — hesito, dando um passo para trás. — Certeza que ele não vai achar ruim? — O Peter não manda no meu teto. Agora faz o que eu falei e vai se organizar. Ela me empurra com delicadeza na direção do corredor. — O banheiro fica logo em frente ao quarto, tá? — avisa, já se virando. Susan dá meia-volta e sobe os degraus, voltando para a própria rotina com a naturalidade de quem acabou de resgatar um náufrago da sarjeta. Sigo pelo corredor e entro no quarto indicado. Minhas coisas mais importantes estão ali, empilhadas de qualquer jeito. Minhas roupas amassadas nos sacos de lixo, a mochila pesada sobre a cadeira e o meu notebook — milagrosamente intacto — em cima da escrivaninha. O espaço é pequeno e minimalista. Uma cama de solteiro, um guarda-roupa estreito e paredes pintadas de um verde suave. Um cheiro forte de lavanda flutua no ar, limpo e acolhedor, como se o quarto soubesse exatamente o tamanho do estrago que eu precisava digerir.Narradora..Conforme Hannah e Mia alcançavam a plataforma de vidro sobre o espelho d'água, Cael e David deram os passos finais para ao encontro delas. David tomou as mãos de Mia com um tremor discreto nos dedos, selando a testa da noiva com um beijo demorado antes de se posicionarem diante do celebrante.Cael, no entanto, sequer esperou o protocolo. Ele deu dois passos largos até Hannah, envolvendo o rosto dela entre as mãos grandes e quentes com uma posse delicada. Seus olhos azuis, ainda marejados, devoraram a imagem da mulher à sua frente.- Você está indescritivelmente perfeita, garota - ele sussurrou com a voz rouca, falhada pela emoção crua.- Eu estou bem aqui, Cael - Hannah respondeu com um sorriso radiante, levando as mãos ao peito dele para sentir o coração que batia em um ritmo desgovernado. - Eu não vou a lugar nenhum.O celebrante deu início à cerimônia, suas palavras ressoando através dos alto-falantes e ecoando suavemente pela vinícola enquanto a luz do pôr do sol se tr
Narradora. A luz dourada do fim de tarde derramava-se sobre as colinas suaves da vinícola, banhando os vinhedos com um tom quente e espetacular. Sobre o gramado perfeitamente aparado, uma passarela de vidro translúcido estendia-se até uma plataforma sobreposta ao espelho d'água principal da propriedade, onde um altar adornado por arcos de orquídeas brancas e peônias refletia os últimos raios de sol do horizonte.Na primeira fileira da cerimônia, a alta sociedade de Toronto misturava-se aos laços mais íntimos e verdadeiros daquela história. Adelaide segurava o lenço de renda contra o peito, tendo a mão apertada com carinho por Axel Stone. Lilian Sterling, impecável em um vestido azul-noturno, trocava olhares emocionados com Thomas Sterling, enquanto Kiara e o esposo Roger, estavam sentados, um pouco mais atrás,na companhia também das filias gemeas. Andrew e Anthony Voss estavam sentados no outro lado na companhia de seus cônjuges. Gabriel Sterling e Estela Vance - sua agora noiva,
Cael Sterling. O corte do tecido sobre os meus ombros é impecável, mas o colarinho parece estar a um milímetro de me sufocar. Não por falta de ajuste - alfaiataria sob medida é a minha rotina desde que me entendo por gente -, mas pelo peso invisível da bagagem que me trouxe até esta sala privativa no andar superior da alfaiataria.A minha frente, David ajeita os punhos do terno cinza-chumbo, encarando o próprio reflexo no espelho de corpo inteiro com a mesma expressão de quem está prestes a entrar na reunião mais decisiva da carreira. A diferença é que nenhum contrato de bilhões exige metade da coragem necessária para encarar o altar.- Se você continuar encarando o espelho com essa cara de quem vai ser executado, o alfaiate vai achar que a roupa tá torta - comento, ajustando o relógio no meu pulso e quebrando o silêncio do ambiente.David solta uma risada curta, o ar escapando de uma só vez pelos dentes enquanto se vira para mim. Ele desfaz a postura rígida, passando a mão pelo rost
3 anos depois.Hannah Brooks. Se alguém me dissesse anos atrás que a minha melhor amiga seria a irmã do homem por quem me apaixonaria perdidamente, eu teria achado um roteiro improvável.Mas a vida tem uma forma bonita de reorganizar o caos. Nos últimos três anos, enquanto nos desdobrávamos entre fraldas, madrugadas acordadas, a criação dos gêmeos Mateo e Maya, e os primeiros anos da minha pequena Luna, a Mia deixou de ser apenas a minha cunhada para se tornar a minha metade.Compartilhamos medos, desabafos, xícaras de café frio de madrugada e a certeza absoluta de que tínhamos encontrado os homens das nossas vidas.A ideia do casamento duplo nasceu em uma tarde de domingo qualquer na varanda da mansão. Estávamos nós duas observando o Theo, agora com sete anos, liderar uma "operação resgate" no jardim com o Henry, os gêmeos de três anos e a nossa pequena Luna de três aninhos correndo atrás. Mia me olhou sobre a borda da xícara de chá e disse: "Por que diabos vamos planejar duas fest
Hannah Brooks A suíte de parto da ala VIP do hospital da família Voss está imersa em um caos controlado. As luzes amareladas e suaves tentam suavizar a intensidade da cena, mas nada consegue diminuir a força visceral do que está acontecendo dentro desta sala.Mais uma contração atinge o meu corpo com a violência de uma tempestade. O grito que arranho da minha garganta ecoa pelas paredes, um som cru, doloroso e rasgado da força feminina no seu limite extremo. Minhas costas se arqueiam sobre a maca, as mãos cravadas com uma força desesperada na camisa social do Cael, que está completamente amassada e aberta nos primeiros botões.- Isso, Hannah! Força, garota. Mais uma vez! - a voz da doutora ressoa no final da maca, firme e encorajadora. - Eu já consigo ver a cabeça! Você tá quase lá!- Eu não consigo... Cael, dói muito... eu não aguento mais! - choro abertamente, a suor frio colando os fios do meu cabelo na testa, a exaustão me consumindo por inteiro.- Você consegue, garota! Olha pr
Hannah Brooks. O auditório lotado da universidade é um mar de vozes, aplausos e luzes. As fileiras centrais da frente estão ocupadas por aquele clã barulhento e poderoso que se tornou a minha base. Na primeira fila, minha mãe, Adelaide, segura um lenço de papel já encharcado, com Axel Stone ao seu lado apertando a mão dela com carinho. Lilian e Thomas Sterling conversam radiantes com os tios Andrew e Anthony. Mais ao lado, Mia tenta segurar a emoção enquanto o David ajeita o carrinho dos gêmeos, e Gabriel balança uma pequena flâmula da faculdade com deboche.No entanto, meu olhar só se prende no Cael, que está sentado na ponta com o Theo no colo. O garoto usa um terno em miniatura idêntico ao do pai, segurando uma única flor na mãozinha com uma seriedade adorável.A cerimônia segue seu ritmo solene até que o Reitor se aproxima do microfone principal, ajeitando os óculos.- Convocamos agora para a entrega do grau... a formanda Hannah Brooks.O som do meu nome ecoa pelas caixas de som







