LOGINRafael*
Eu devia saber que contratar uma babá nova seria um problema no minuto em que ela entrou na minha sala para a entrevista.
Eliza.
Pequena, nervosa… mas com um olhar firme, como quem acabou de decidir que não vai sair correndo, mesmo que queira. E tinha aquela maneira de responder que… irritava. Não por ser desrespeitosa, longe disso. Ela só era espontânea demais. Transparente demais. Viva demais.
E eu não tenho mais espaço pra esse tipo de coisa.
Quando a entrevista terminou, eu já sabia que ia contratá-la. Mesmo assim, passei o resto do dia tentando me convencer de que era só porque eu precisava urgentemente de alguém. Lucas e Alice estavam insuportáveis com a última babá, Márcia estava no limite, e eu não tinha tempo. Qualquer justificativa servia, desde que não fosse a verdadeira:
Ela me intrigou.
No final da manhã, Henrique entrou na minha sala sem bater, como se a empresa fosse dele. Já veio falando antes mesmo de se sentar.
— Então? — jogou a pasta na poltrona. — Finalmente contratou alguém pra cuidar das crianças? Ou vamos continuar fingindo que a coitada da Márcia dá conta de tudo?
Revirei os olhos.
— Contratei. Já começou hoje.
— Ótimo. Estava na hora de parar de traumatizar seus filhos com essa sua cara de funeral.
— Henrique…
— Tá, tá. — Ele levantou as mãos. — Só estou dizendo a verdade. E… como ela é?
— É uma babá. — respondi, seco.
— Uau — ele ironizou. — Descritivo. Parabéns.
Ignorei. Não dou corda.
— Lucas já implicou com ela — falei, abrindo um arquivo na tela.
Henrique riu.
— Claro que implicou. Lucas implica até com o ar que ele respira. E a Alice?
— Ainda não sei.
Ele piscou devagar, me estudando como se fosse psicólogo.
— Tá estranho. Que foi?
— Nada.
Verdade e mentira ao mesmo tempo. Nada aconteceu. Mas alguma coisa mexeu comigo.
À tarde, Henrique insistiu em ir comigo “ver as crianças”. Tradução: se meter na minha vida. Como sempre.
Quando entramos em casa, as crianças estavam na sala. E Eliza também. Sentada no sofá, celular na mão, parecendo exausta, ou recarregando energia depois de mais uma batalha com Lucas.
— Boa tarde, campeões! — Henrique abriu os braços e Alice foi direto pra ele.
Claro. Meus filhos amam esse idiota. Ele mima demais, estraga a disciplina toda. É um bom amigo, mas às vezes me tira do sério.
Eliza levantou os olhos quando entramos. Ainda segurava o celular, mas claramente prestava atenção em nós.
— Isso aqui é hora de trabalho, não de lazer — falei, seco.
Ela piscou, mas não abaixou a cabeça.
— As crianças estão assistindo ao desenho. Eu só estava conferindo a rotina de amanhã.
Arqueei a sobrancelha. Respondona.
— Já arrumou a sala de brinquedos? Estava uma zona.
— Sim, senhor. Tudo arrumadinho.
— E o quarto? Não quero ver roupa fora do lugar.
— Tudo no seu devido lugar — disse ela, sorrindo — Fique à vontade para fazer a vistoria.
Muito abuso. Essa novata está pedindo demissão sem nem perceber.
— Cara, pega leve — Henrique riu, já se aproximando dela. — Sou Henrique. Não liga pra ele não. Rafael é insuportável, mas não morde.
Ele a cumprimentou. Ela ainda sentada.
Cheguei perto, inclinei-me o suficiente para que só ela ouvisse.
— Não se acostume a falar comigo desse jeito.
Eu precisava colocar essa garota na dela.
Henrique conversava com ela, animado. Eu fui até a cozinha, tomei um copo de água, tentando ignorar que meus ombros estavam tensos por… nenhum motivo relevante.
Quando voltei, os dois ainda estavam no sofá, conversando.
— Henrique. — chamei firme. — Você veio aqui pra ver as crianças ou a babá?
Ele arqueou a sobrancelha, sorrindo como quem achou ouro.
— Vim ver as crianças — respondeu, debochado. — Mas nada me impede de aproveitar as boas companhias.
Olhei para Eliza.
— Você pode ir.
Ela assentiu rapidamente e se levantou. Henrique, claro, se apressou para se despedir.
— Foi muito legal te conhecer. E a oferta continua de pé. É só falar.
— Obrigada — ela sorriu, meio tímida.
Quando ela fechou a porta atras de si, virei para ele.
— Oferta?
Henrique cruzou os braços, sorrindo como quem esperava minha pergunta.
— Vou mostrar uns lugares da cidade pra ela. Você não me contou que ela era tão bonita.
Fechei a cara na hora.
— Nem comece, Henrique.
— O quê? É só um fato. Vai dizer que não reparou?
— Não.
— Não reparou? — ele riu — Claro. E eu que sou o mentiroso da dupla.
— Não comente desse jeito da babá dos meus filhos.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Ciúmes? Logo você?
— Estou protegendo meus filhos.
— Ah, claro. Porque eu costumo sair por aí seduzindo funcionárias com crianças traumatizadas olhando… — ele ergueu as mãos. — Relaxa. Eu nunca faria nada que prejudicasse eles. Mas ela é linda. Isso é inegável.
Rosnei algo que nem eu entendi. Ele caiu na risada.
— Além disso — disse, provocando — gostei dela. Ela não abaixa a cabeça pra você.
Revirei os olhos.
— Ela é abusada, isso sim.
Henrique sorriu.
— Perfeita pra você.
— Pra mim?
— Sim, Rafael. Pra você. Alguém que finalmente te responda em vez de sair correndo. Você vive cercado de gente que te trata como se fosse uma estátua. Talvez seja bom alguém que mexa com você… e com essa cara bonita.
— Henrique…
— Tá bom, tá bom. — Ele riu alto. — Mas que ela te afetou, te afetou.
— Henrique.
— O quê?
— Cala a boca.
Ele gargalhou, satisfeito, enquanto eu balançava a cabeça, irritado comigo, com ele, com tudo.
E principalmente com o fato de que, mesmo tentando evitar, a imagem dela respondendo pra mim… ainda estava presa na minha mente.
Como se tivesse deixado uma marca.
Rafael*Por alguns segundos, eu simplesmente fiquei olhando para ela. Talvez porque uma parte de mim ainda estivesse tentando acreditar.Eliza sorriu daquele jeito tímido que sempre me desmontava.Eu ainda tinha muito a aprender, e ela ainda tinha feridas que levariam tempo para cicatrizar. Mas, pela primeira vez, não parecia que estávamos lutando um contra o outro, estávamos do mesmo lado.Levei uma das mãos ao rosto dela e acariciei sua bochecha.— Então agora você é minha namorada?Ela revirou os olhos.— Eu disse sim neh.— Só estou confirmando.— Ta confirmado.Sorri, e ela riu. Aquele som aqueceu alguma coisa dentro de mim.Passei os braços ao redor de sua cintura e a trouxe para mais perto. Ela apoiou as mãos em meu peito, e por alguns instantes ficamos apenas nos olhando.Sem medo, sem dúvidas, sem a sensação de que um de nós precisava fugir.— Eu vou errar às vezes — admiti.— Eu também.— Mas a gente vai aprender junto.Ela assentiu.— E eu quero tentar confiar.Aquilo signi
Permanecemos abraçados por vários minutos.Eu não sabia exatamente quanto tempo tinha passado. Naquele momento, nem fazia diferença. Pela primeira vez desde que aquela conversa começou, eu não estava tentando me proteger. Não estava escolhendo palavras com cuidado nem procurando sinais de que precisava recuar. Apenas estava ali.Quando me afastei um pouco para enxergá-lo melhor, percebi algo que me surpreendeu.Os olhos de Rafael estavam vermelhos.Não era por minha causa apenas.Havia lágrimas ali também.— Você está chorando?Um sorriso pequeno apareceu em seus lábios.— Acho que sim.A resposta me arrancou uma risada suave, e aquilo pareceu aliviar um pouco a tensão que ainda restava no ambiente.Rafael abaixou os olhos por alguns segundos antes de voltar a me encarar.— Me desculpa por te fazer lembrar dele. Eu realmente não queria isso.Ele balançou a cabeça.— Eu sei.— Você sabe como começou essa minha vontade por controle?A voz saiu baixa, mas firme. Fiz que não com a cabeça,
Eu o encarei ainda mais confusa, aquilo não fazia sentido.Não tinha sido isso que eu quis dizer. Em nenhum momento eu pedi que ele fosse apenas meu chefe, que mantivesse distância ou que fingisse que não existia nada entre nós.— Eu te peço desculpas por ter me metido num assunto seu. Não vou fazer isso de novo.As palavras dele não vieram carregadas de raiva. Vieram carregadas de cansaço, e talvez por isso tenham me machucado mais.— Mas eu não disse que era para você ser só meu chefe.Rafael soltou o ar devagar e passou a mão pelos cabelos antes de se sentar na beirada da cama. Pela primeira vez desde que entrou naquele quarto, ele desviou os olhos dos meus.— Eu estou tentando entrar na sua vida, Eliza. Eu gosto de você. Não estou falando de alguns beijos escondidos quando ninguém está olhando. Não estou falando de uma coisa passageira.Ele ergueu os olhos novamente.— Eu quero você na minha vida de verdade. E queria fazer parte da sua também. Só que, para mim, isso significa esta
Eu falei com Rafael sobre o trabalho do Lucas, me deu vontade de abraça-lo, beija-lo, mas não podia, tenho que decidir o que quero primeiro, se eu poderei lidar com ele ou não.O resto da tarde foi tenso, como todos os ultimos dias, a falta que ele me faz é realmente bem perceptivel, talvez eu esteja sendo teimosa, ou talvez racional demais, mas é isso que preciso agora.Estava deitada na minha cama, mexendo no celular e Angela entrou no quarto.— Agora chega, você vai ter que falar comigo.— O que?— Desde segunda você está assim, triste, eu te pergunto o que aconteceu você fala nada, mas eu sei que você e o Rafael brigaramSuspirei.— Você e o Henrique andam conversando muito heim.— Não desvia do foco.Contei a ela sobre a nossa discussão, ele ter ido falar com Eduardo, a ligação, tudo.— Ele simplesmente... parou.Angela arqueou uma sobrancelha.— Parou o quê?— De vim atras de mim.Ela me observou por alguns segundos.— E isso te incomodou?Abri a boca para responder.Fechei.Ang
Eliza*Fiquei parada na biblioteca por alguns segundos depois que Rafael saiu.A porta fechou atrás dele e o silêncio pareceu maior do que deveria.Fiquei ali, as lagrimas cairam, eu precisava respirar, precisava pensar. Meu coração ainda estava acelerado, a marca no olho de Rafael em minha mente, a confirmação de que ele foi falar com Eduardo.Por que ele fez aquilo? Eu nunca tinha pedido ajuda. Nunca pedi que resolvesse algo, nem contei o que aconteceu ou o que Eduardo está fazendo agora, vindo atras de mim insistentemente. Nunca pedi que enfrentasse o Eduardo por mim.E mesmo assim ele foi. Tomando uma decisão sozinho. Achando que sabia o que era melhor.Meu peito apertou.Durante anos eu ouvi Eduardo dizer que estava me protegendo, que sabia o que era melhor, que fazia certas coisas porque me amava. No começo parecia cuidado, mas depois virou controle.E quando Rafael atravessava alguns limites, por mais diferentes que fossem as intenções, aquela memória despertava.Talvez fosse i
Respiro fundo e olho para Eliza parada em frente a porta.— É sobre o trabalho do Lucas.Levantei os olhos do notebook.— Sobre o que é o trabalho?— Profissão dos pais.Assenti pegando as folhas.— Eu mesmo ajudo ele hoje à noite.— TaEla permaneceu parada ali, parecia esperar que eu falasse algo.— É só isso?— Sim— Ok. Obrigado por avisar. Até mais tarde— AtéEntreguei as folhas pra ela e me virei, sai respirando fundo, minha vontade era agarrar e beijar ela até perder o folego.***No fim da tarde, quando cheguei em casa, encontrei as crianças e Eliza no lugar de sempre, Alice e Lucas vieram me dar um abraço como faziamos todos os dias agora, e Eliza apenas me olhou. Acenei um boa tarde pra ela e me voltei pra Lucas.— Vou tomar um banho ai fazemos seu trabalho ta?— Ta bomMais quieta que o normal.Eliza se levantou pegando sua bolsa no sofá.— Eu já vou indo.Assenti apenas e sai subindo as escadas, não vi como ela reagiu.Tomei um banho, me arrumei e desci, Lucas já estava c







