LOGINMais uma vez, engoli minhas opiniões. Tentei me lembrar que eu era uma contratada, logo, descartável.
O que eu achava sobre como ele cuidava dos filhos não era da minha conta. Minha função era garantir o bem-estar das crianças, não ficar dando lição de moral para o meu chefe.
— Me desculpe, isso não vai mais acontecer — eu disse.
— Eu espero que não aconteça mesmo. Pode ir agora — ele me dispensou com a rispidez de sempre.
Ainda não tinha se passado uma semana, e minha relação com as crianças estava ótima. Elas nem eram assim tão diferentes de outras crianças, eu não sabia o que fazia as babás correrem de lá. Mas isso era algo que eu iria descobrir na manhã seguinte.
Com o pai em casa, Davi foi o primeiro a acordar, tomar banho e descer para o café. Os gêmeos também estavam mais agitados, e Alice insistiu para vestir um vestido rosa de fada.
— O papai acha bonito — disse ela, toda meiga e sorridente.
Carmem serviu o café na mesa de jantar, com Eduardo sentado no meio e as crianças ao lado, falando sem parar. Seria uma cena normal de café da manhã, se o homem não estivesse com a cara séria de sempre. Ele não sorria para os filhos, falava e respondia como se fosse uma reunião de negócios.
— Olha meu vestido, papai! Não é bonito? — Alice deu um rodopio antes de eu pegá-la para colocar na cadeirinha.
— É muito bonito, filha — ele respondeu com um tom de voz mais suave do que o normal, mas ainda assim, sério.
— Mostra as asas Alice - eu falei rindo com a graça dela, que pegou as asas do vestido e abriu e ainda assim ele não esboçou um sorriso.
Eu estava com vontade de pegá-lo pelos ombros e chacoalhar, perguntar qual era o problema, por que ele não podia dar um sorriso para a filha vestida de fadinha. Onde estava o coração desse ser?
— Pai, quer jogar bola? — Davi perguntou ansioso.
— O Davi me ensiou a chutar no gol — Arthur falou todo empolgado.
— Hoje preciso trabalhar e amanhã vou viajar cedo, vou falar com a avó de vocês para irem depois no parque. — Ele disse finalizando o café da manhã e indo para o escritório.
Percebi como as crianças ficaram tristes, mas elas já estavam resignadas com o fato de que, quando o pai estava em casa trabalhando, não podiam atrapalhar.
Porém, entendi por que as coisas ficavam difíceis. Elas não podiam impedir o pai de trabalhar, então faziam de tudo para chamar atenção e tirá-lo do escritório.
O resultado disso? Antes do meio-dia, eles tinham brigado aos gritos pelo mesmo brinquedo, Alice e Arthur choraram sem nenhum motivo aparente, quebraram um vaso e, quando os levei para fora, tentando criar uma brincadeira que gastasse toda aquela energia, a situação piorou.
Davi quis jogar bola, e meu instinto gritou. Eu sabia, por experiência própria, quando alguma coisa estava sendo tramada.
— Podemos fazer outra coisa, nadar na piscina, por exemplo — Era um sugestão desesperada, já que não tínhamos ido ainda para a piscina e eu nem sabia nadar. — Eu quero jogar bola. — Ele disse cruzando os braços.
Eu podia negar, mas por algum motivo não fiz. Então não foi nenhuma surpresa quando ele chutou a bola direto no escritório do pai.
E o menino era bom de chute. A bola entrou como uma bala, quebrando o vidro e fazendo um estrondo.
A partir daí, foi caos e confusão. Um Eduardo irado saiu do escritório e começou a gritar com o menino, que ficou assustado e com lágrimas nos olhos diante dos gritos do pai.
— Eu já falei para não jogar bola aqui! Mas parece que você não escuta, não consegue prestar atenção em nada!
— Calma, não precisa falar assim com ele — falei, interrompendo a bronca. — Davi, vá para o seu quarto. Carmem, leve os gêmeos, por favor.
A cozinheira tinha saído para ver o que tinha acontecido e assistia à briga com a mão no coração — ela gostava muito das crianças.
— O que você pensa que está fazendo? Esqueceu qual é o seu lugar?
— Não, eu não esqueci. Fui contratada para cuidar das crianças e garantir o bem-estar delas. É o que estou fazendo.
— Cuidando tão bem que foi incapaz de evitar que um menino de nove anos chutasse uma bola na janela do meu escritório.
— Ele só fez isso para chamar a atenção do pai que mal olha na cara dele.
Eduardo ficou sem resposta por um instante, eu tinha acertado em algum ponto sensível dentro dele, pude ver por um breve momento, um sentimento de culpa, mas o homem não ia dar o braço a torcer tão fácil e se recuperou rapidamente.
— A minha relação com os meus filhos não é da sua conta, eles têm tudo que precisam, graças ao meu trabalho. Meu filho é um menino mimado que precisa aprender que tenho responsabilidades maiores do que perder tempo com brincadeiras.
— É isso que você fala para si mesmo cada vez que coloca a cabeça no travesseiro? Cada vez que está longe? Que seus filhos estão bem? Afinal eles estão nessa mansão enorme, abrigados, com um monte de gente contratada para cuidar deles, mas deixa eu te falar uma coisa que você não deve ter percebido, nenhum de nós aqui somos a família dele, no fim tudo que ele quer é a família.
Eu sabia que tinha ido longe demais, não fazia nem uma semana que estava ali, provavelmente tinha acabado de decretar minha demissão, mas eu precisava falar, Eduardo parecia não entender qual era o problema, ou preferia ignorar. Pensei que ele fosse continuar a gritar, mas ele apenas me encarou em silêncio, mais uma vez me peguei pensando o quanto era um homem bonito, e o quanto era inapropriado pensar isso no momento.
Por fim, como desistisse da discussão, ele se virou de costas e seguiu para casa, me deixando ali, sem saber o que ia acontecer.
A decoração da festa estava linda, ainda que dividida ao meio. Alice e Arthur passaram um ano inteiro brigando para decidir o tema, me deixando quase maluca. No fim, entreguei à organizadora a melhor solução que encontrei: metade para cada um. O lado da Alice, rosa e cheio de referências ao K-pop; o do Arthur, inspirado em super heróis, além de uma mesa com dois bolos. Não ficou feio, mas também não era nada tradicional.Era o aniversário de 15 anos dos gêmeos. Enquanto observava o salão pronto, a poucas horas do início da festa, parecia impossível acreditar que já tinham se passado dez anos desde que eu chegara à vida deles. Davi agora estudava em outro país, Vitória já tinha dez anos e, para completar, eu estava grávida de outra menina. — Ficou diferente — disse ele ao meu lado, passando a mão na minha barriga de sete meses.— Eles adoraram. Aposto vão falar da festa por um bom tempo, e vão fazer sucesso na escola. — Mas... dois bolos? Como eles pretendem fazer isso?— Cada um fi
Quando Fernanda apareceu com um anel de diamante no dedo, anunciando que estava noiva de Liam, não fiquei nem um pouco surpresa. Nos últimos dias, era impossível não notar como os dois se tornaram grudados e visivelmente apaixonados. Eu já imaginava que havia uma história crescendo ali, que pouco a pouco os dois se entendiam de verdade. Com tantas novidades e o início do tratamento de quimioterapia da minha sogra, os dias pareciam voar. De repente, Vitória já engatinhava e ameaçava dar os primeiros passos. Eu ficava apavorada com medo de que se machucasse. Meu vestido também já estava encaminhado: escolhi uma estilista e, junto com Aninha, defini um modelo de alcinha na cor champanhe, com saia não tão volumosa, renda de flores douradas e pedrarias delicadas no busto. Ao mesmo tempo, as burocracias do casamento estavam quase todas resolvidas. Com dois casamentos à vista, esse se tornou o assunto principal da família. Para todos, era também o motivo que fazia Sandra lutar e enfrentar
"Ponto de vista Fernanda" A língua de Liam se enroscava na minha de uma forma sensual, e eu já sabia onde aquilo ia parar quando a mão dele entrou por baixo da minha blusa. Eu não conseguia resistir e o beijava agarrada como se fosse a minha salvação na Terra. Era errado de muitas formas, mas eu continuava beijando e sendo beijada de maneira avassaladora. Já estaria perdida nos braços dele mais uma vez se o telefone não tivesse tocado. — Preciso atender, pode ser alguma coisa importante — disse, conseguindo me desvencilhar com muito esforço. Liam manteve a mão por baixo da minha blusa, acariciando minha cintura, enquanto eu ouvia minha secretária avisar que eu precisaria ir para Santa Clara na próxima semana. Desliguei o telefone e encarei Liam. Eu precisava acabar com aquilo. Parecia uma boa ideia no início, mas, como Sofia falou, minha mãe estava obcecada com a ideia de casamento, provavelmente fazendo a lista de convidados. — Eu preciso ir, tenho que render a Sofia no hos
Depois de alguns dias, fui para São Paulo e Eduardo voltou para Santa Clara do Sul. Minha sogra ainda estava internada, e eu passei um bom tempo no hospital, enquanto Vitória ficava no apartamento com a babá. Já imaginando que ela perguntaria sobre os preparativos para o casamento, preparei uma pasta cheia de opções para mostrar, o que deixava ela entretida e animada. Meu primeiro plano era realizá-lo no Château de Challain. Todo mundo poderia se hospedar no próprio castelo, e eu já tinha boa parte da organização encaminhada. Era um lugar deslumbrante, parecia cenário de filme e, claro, custava uma fortuna. Mas esse era um detalhe que eu jamais comentaria perto do meu avô… ou de qualquer outra pessoa. Até a própria Sandra, minha sogra, já não se importava mais tanto com dinheiro.Como eu previa, quando mostrei as fotos, ela se encantou. Estava se recuperando bem e em breve teria alta, mas não deixou o assunto morrer, queria saber de tudo e dar opinião em cada detalhe. Eu fingia ouv
A cirurgia tinha sido um sucesso. Minha sogra ainda passaria alguns dias internada e precisaria de cuidados especiais nas primeiras semanas. Para facilitar, Fernanda contratou uma cuidadora que ajudaria nos momentos em que nenhum de nós pudesse estar presente.Eduardo ficou uma semana entre o hospital e o apartamento, trabalhando de lá, enquanto eu permanecia com as crianças, explicando que a vovó estava doente e precisava descansar, assim como o pai preciava ficar ausente para cuidar dela. Mas o verdadeiro desafio estava por vir, eu tinha certeza de que, assim que Sandra se recuperasse, começaria a me pressionar novamente sobre o casamento. Para alguém que não queria que eu me casasse com o filho, era um pouco estranho às vezes, ainda que fosse por causa da doença. Meu pai e meu avô vinham sempre em casa. Um dia, convidei os dois para jantar e contei que estava organizando a festa para o próximo ano, em parte por causa da minha sogra.— Pensei que ela fosse contra o casamento — com
Apesar de estar sentada à mesa do jantar, eu não participava de verdade; estava ali apenas como espectadora, observando minha sogra se derreter pelo homem à sua frente, que ninguém podia negar que formava um belo par ao lado de Fernanda.— Minha filha sempre foi muito reservada — disse Sandra, com um sorriso carregado de emoção. — Saber que ela encontrou alguém como você… ah, é um alívio para o meu coração.— Ter encontrado alguém como Fernanda é que é um alívio — respondeu Liam, olhando para ela com um olhar que exalava paixão.Fernanda retribuiu com um sorriso doce, sustentando o teatro com uma naturalidade que me deixou espantada. Se eu não soubesse a verdade, teria acreditado sem hesitar.— Espero estar viva para ver esse relacionamento evoluir. Meu sonho sempre foi ver minha filha vestida de noiva — comentou Sandra.O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Liam continuou a comer, fingindo desentendimento, e coube a Fernanda responder à indireta da mãe:— Mãe, já falei para par







