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Capítulo 7

Author: Lykke
last update publish date: 2026-10-26 02:28:56

Guardou o celular no bolso e olhou pela janela.

Tinha trabalho a fazer.

E, pela primeira vez em muito tempo, havia alguma coisa completamente alheia aos seus negócios ocupando espaço demais em sua cabeça.

Ი︵𐑼

Lucia estava em casa pela noite, sentada à mesa da sala com o notebook aberto à sua frente.

O leitor de tela reproduzia em voz baixa o conteúdo que aparecia na tela, enquanto ela digitava devagar, corrigindo algumas frases antes de seguir para o próximo parágrafo. O ambiente estava tranquilo. Desde que voltou da cafeteria, ela havia tomado banho, preparado alguma coisa simples para comer e passado algumas horas trabalhando. A casa permaneceu silenciosa durante quase todo aquele tempo, como costumava acontecer quando Alberto desaparecia por horas.

Ela já não se perguntava mais onde ele estava.

Aprendeu com o passar dos anos, que fazer isso apenas aumentava a ansiedade.

Quando a fechadura da porta girou, Lucia parou de digitar.

O som da porta se abrindo foi seguido por passos irregulares no corredor. Um deles arrastava levemente o pé, como se a pessoa estivesse cansada demais para se preocupar em andar direito.

Ela não precisou perguntar quem era.

Alberto entrou na sala alguns segundos depois.

O cheiro de álcool chegou antes dele.

Lucia retirou um dos fones.

— Pai?

Nenhuma resposta.

Alberto deixou as chaves sobre algum móvel próximo à entrada, mas elas escorregaram e caíram no chão. Ele soltou um palavrão baixo antes de se abaixar para pegá-las. Quando finalmente conseguiu, permaneceu alguns segundos parado, apoiando uma das mãos na parede.

Lucia virou o rosto em sua direção.

— Você está bem?

— Estou.

A resposta veio seca demais.

Ela franziu levemente a testa.

— Você bebeu?

— Não começa, Lucia.

— Eu só perguntei.

— E eu respondi.

Alberto atravessou a sala sem sequer olhar para ela. Seus passos continuaram desajeitados até ele chegar ao sofá. Sentou-se pesadamente e passou as duas mãos pelo rosto.

Por alguns segundos, ficou em silêncio.

Lucia voltou os dedos para o teclado, mas já não conseguia se concentrar.

Havia alguma coisa diferente nele.

Não era apenas a bebida.

Alberto respirou fundo e levou a mão ao bolso da calça, tirando a carteira. Abriu-a, conferiu o pouco dinheiro que havia dentro e fechou novamente.

— Alguns dias... — murmurou.

Lucia parou.

— O quê?

Ele não parecia estar falando com ela.

Os olhos estavam perdidos em algum ponto da sala.

— Alguns dias... — repetiu, mais baixo. — Não sei quantos dias eu ainda tenho.

Lucia sentiu o estômago apertar.

— Pai?

Alberto ergueu a cabeça rapidamente.

— O quê?

— O que você quis dizer?

— Nada.

— Você acabou de dizer que não sabe quantos dias ainda tem.

— Eu estava bêbado.

— Isso não explica.

— Lucia.

O tom dele mudou.

Mais áspero.

Ela permaneceu imóvel por alguns segundos.

— Você está com algum problema?

— Eu disse que não é nada.

— Tem a ver com dinheiro?

Alberto desviou o rosto.

Foi uma resposta suficiente.

Lucia fechou lentamente o notebook.

— Você está devendo para alguém?

Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Agora você virou minha mãe?

— Não.

— Então pare de fazer perguntas.

Lucia apertou os lábios.

Ela poderia ter ficado em silêncio.

Na verdade, durante anos, havia aprendido a fazer exatamente isso.

Mas havia algo naquela noite que não parecia igual às outras.

— Se você está metido em alguma coisa séria, eu preciso saber.

— Você não precisa saber de nada.

— Eu moro aqui.

— E daí?

A resposta fez o peito dela apertar.

Alberto percebeu que havia sido duro demais, mas não pediu desculpas. Apenas passou a mão pelos cabelos e se levantou novamente.

Foi até a cozinha.

Abriu um armário.

Depois outro.

Não encontrou o que procurava.

Lucia ouviu o som de pratos sendo mexidos.

— O que você está procurando?

— Nada.

— Então por que está abrindo tudo?

— Porque eu quero.

Ela respirou fundo.

Não valia a pena.

Alberto fechou uma porta de armário com força e voltou para a sala. Ficou parado próximo à mesa por alguns segundos, aparentemente pensando em alguma coisa.

Então perguntou:

— Seu salário caiu?

Lucia ficou completamente imóvel.

A pergunta foi tão direta que, por um instante, ela achou que tinha entendido errado.

— O quê?

— Seu salário. Caiu na conta?

A voz dele já não tinha a mesma agressividade de antes. Havia algo mais calculado nela.

Lucia lentamente virou o rosto em sua direção.

— Por quê?

— Só estou perguntando.

— Não caiu.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Quando vai cair?

Ela fechou a mão sobre a lateral do notebook.

— Não sei.

— Você não sabe?

— Não.

Alberto suspirou, claramente frustrado.

— Você poderia verificar.

— Eu já verifiquei.

— Então verifica de novo.

Lucia permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu, séria:

— Não é da sua conta.

O silêncio que veio em seguida foi pesado.

Alberto pareceu surpreso.

Talvez porque estivesse acostumado com a filha cedendo depois de algumas perguntas. Talvez porque estivesse bêbado demais para lembrar que Lucia já não era a menina que aceitava qualquer resposta dele.

— Como é?

— Você ouviu.

— Eu sou seu pai.

— E eu sou a pessoa que trabalha pelo próprio dinheiro.

— Eu só estou tentando...

Ele parou.

Não terminou a frase.

Lucia percebeu.

— Tentando o quê?

Alberto desviou o olhar.

— Nada.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— Se você precisa de dinheiro, procure uma solução que não envolva o meu salário.

— Você acha que eu não estou tentando?

— Não sei o que você está fazendo.

— Pois deveria confiar em mim.

Lucia soltou uma risada baixa, sem qualquer humor.

— Confiar em você?

A pergunta fez Alberto se calar.

Ela respirou fundo.

— Você desaparece por dias. Volta bêbado. Não me explica nada. E agora quer saber quando meu salário vai cair.

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