LOGINEle não costumava permanecer em lugares quando não havia um motivo. Muito menos perder tempo observando alguém que não fazia parte de seus negócios. Sua vida era organizada ao redor de horários, compromissos e problemas que precisavam ser resolvidos antes que se tornassem maiores. Até mesmo suas refeições frequentemente aconteciam entre uma reunião e outra.
Mas ali estava ele.
Sentado em uma cafeteria qualquer, olhando uma mulher trabalhar em um notebook velho enquanto o som de uma máquina de café ocupava o espaço entre os dois.
E o pior era que ele não estava entediado.
Lucia retirou um dos fones por um instante.
— Você ainda está aí?
A pergunta o tirou parcialmente dos pensamentos.
— Estou.
— Está muito quieto.
— Você prefere que eu fale?
Ela sorriu de lado.
— Não. Só estava verificando.
— Verificando o quê?
— Se você não tinha ido embora sem se despedir.
Vincenzo a encarou por alguns segundos.
— Eu faria isso?
— Não sei. Você parece o tipo de pessoa que faria.
— Que tipo de pessoa?
Lucia pensou.
— Misteriosa.
— Isso não é necessariamente ruim.
— Também não disse que era.
Ela colocou o fone novamente.
Vincenzo desviou os olhos para a janela.
Do lado de fora, carros passavam pela rua, pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas e um homem parou perto da porta para atender uma ligação. Tudo continuava acontecendo normalmente. Nada havia mudado.
Ainda assim, aquela tarde parecia estranhamente distante de tudo o que fazia parte da vida dele.
Talvez fosse justamente isso que o atraía.
Lucia não fazia parte daquele mundo.
Não sabia quem estava sentado diante dela. Não conhecia os homens que trabalhavam para ele, os negócios que controlava ou a quantidade de problemas que uma única ligação poderia colocar em suas mãos. Não parecia interessada em descobrir.
Para ela, ele era apenas Vincenzo.
Um homem de voz baixa que apareceu duas vezes em uma cafeteria.
E, pela primeira vez em muito tempo, Vincenzo gostou de não ser reconhecido por aquilo que fazia.
Ele deixou os olhos percorrerem novamente o rosto dela. Os cabelos castanhos estavam presos de qualquer jeito atrás de uma das orelhas, embora algumas mechas tivessem escapado e caíssem sobre o rosto. Os olhos claros e opacos permaneciam direcionados para algum ponto indefinido, mas sua expressão mudava de acordo com aquilo que ouvia.
Havia algo sereno nela.
Algo que ele não conseguia explicar.
E talvez fosse exatamente por não conseguir explicar que continuava olhando.
Lucia franziu a testa de repente.
— Acho que travou de novo.
Vincenzo soltou uma respiração quase inaudível, acompanhando-a enquanto ela pressionava algumas teclas.
— Esse computador parece ter escolhido você como inimiga.
Ela riu.
— Ele tem personalidade.
— Ou está pedindo aposentadoria.
— Não fale assim dele. Ele ainda trabalha.
— Mal.
— Mas trabalha.
Ela continuou tentando fazê-lo responder.
Vincenzo quase ofereceu ajuda, mas parou antes de falar. Não queria transformar uma dificuldade simples em uma situação em que ela precisasse aceitar ajuda apenas porque ele estava ali. Se ela quisesse, pediria.
E ela não pediu.
Depois de alguns segundos, o leitor de tela voltou a funcionar.
— Viu? — disse Lucia, satisfeita. — Ainda temos um futuro juntos.
Vincenzo soltou uma pequena risada pelo nariz.
— Você fala assim de todos os seus objetos?
— Só dos que me irritam.
— Interessante.
— Você também me irrita um pouco.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Eu?
— Ainda estou decidindo quanto.
Dessa vez, o sorriso apareceu claramente no rosto dele.
Foi pequeno. Quase imperceptível.
Mas apareceu.
Lucia não podia vê-lo.
E talvez fosse melhor assim.
Por alguns minutos, ele simplesmente permaneceu ali, deixando a conversa morrer naturalmente enquanto ela voltava ao trabalho. O ruído da cafeteria tornou-se novamente o som predominante. A colher batendo em uma xícara, uma risada distante, o barulho da porta, a máquina de café liberando vapor.
Vincenzo quase esqueceu porque havia entrado naquele lugar.
Quase.
Até o celular vibrar outra vez.
Dessa vez, insistente.
Ele retirou o aparelho do bolso e olhou para a tela.
Matteo: Precisamos de você na empresa. Agora.
Logo abaixo havia outra mensagem.
“O pessoal do norte quer falar diretamente com você”.
A expressão de Vincenzo mudou imediatamente.
O homem que havia passado os últimos minutos sentado em uma cafeteria desapareceu pouco a pouco, dando lugar àquele que todos conheciam.
Ele se levantou.
Lucia percebeu o movimento.
— Vai embora?
— Preciso trabalhar.
— Ah.
Houve uma pequena decepção na voz dela, tão discreta que talvez outra pessoa não tivesse percebido.
Vincenzo percebeu.
— Eu volto.
A frase saiu antes que ele pensasse.
Lucia ficou quieta por um segundo.
— Você costuma voltar aos lugares onde toma café?
— Não.
— Então por que disse isso?
Ele não respondeu imediatamente.
Porque não sabia.
Porque, até aquele momento, não tinha planejado voltar.
Porque havia acabado de descobrir que pretendia fazer justamente aquilo.
— Talvez eu tenha gostado do café — respondeu por fim.
Lucia sorriu.
— Claro.
Ela claramente não acreditou.
Vincenzo deixou algumas notas sobre a mesa, apesar de já ter pago anteriormente, e caminhou até a saída. Antes de abrir a porta, porém, olhou para trás uma última vez.
Lucia já havia colocado o fone novamente e voltou ao notebook.
Como se ele nunca tivesse estado ali.
Vincenzo ficou parado por um segundo a mais do que deveria.
Então saiu.
Do lado de fora, o motorista abriu a porta do carro.
Vincenzo entrou, fechou-a e imediatamente olhou para o celular.
Havia mais mensagens esperando.
Reuniões.
Problemas.
Nomes.
Locais.
Assuntos que exigiam sua atenção.
Ele passou o dedo pela tela, lendo uma por uma.
Aquela era a realidade que conhecia.
E, enquanto o carro começava a se afastar da cafeteria, Vincenzo percebeu que fazia apenas alguns minutos que havia saído de lá.
Ainda assim, a voz de Lucia parecia ter ficado para trás dentro daquele lugar.
Ele franziu levemente a testa.
— Concentre-se — murmurou para si mesmo.
Lucia sorriu, reconhecendo que a amiga tinha um ponto.— Vou pensar.— E tem outra coisa.— Claro que tem.— Se ele aparecer hoje, tenta descobrir se tem algum amigo ou colega que costuma acompanhá-lo. Talvez alguém marque ele em alguma publicação.— Você quer que eu faça um levantamento dos conhecidos dele?— Agora você está entendendo.Lucia balançou a cabeça, divertida.— Tenho a impressão de que você está se divertindo mais do que eu.— Muito mais. Mas também estou preocupada com você, não esqueça disso.O tom de Clara ficou um pouco mais sério.— Eu sei que você está curiosa sobre ele, mas não quero que se esqueça do motivo pelo qual vocês se conheceram. Seu pai está envolvido em alguma coisa que não explica, e esse homem está no meio. Só tome cuidado.Lucia apoiou os papéis sobre a mesa.— Eu sei. Não estou confiando nele cegamente.— Ótimo. E não precisa me contar tudo se não quiser, mas quero saber se acontecer alguma coisa estranha.— Eu conto.— Promete?— Prometo.Clara par
— Isso parece um plano muito elaborado para encontrar o Instagram de alguém.— Você quer ou não quer saber quem ele é?Lucia demorou um pouco para responder.A verdade era que queria. Não sabia se por causa da situação com Alberto, pela maneira como Vincenzo parecia saber muito mais do que dizia ou simplesmente porque começava a achar as conversas com ele interessantes. Talvez fosse uma mistura das três coisas.Mas havia também algo que a incomodava: ela não queria descobrir informações sobre ele apenas para satisfazer uma curiosidade passageira. Se Vincenzo continuasse aparecendo, talvez acabasse contando alguma coisa por vontade própria.— Quero saber um pouco mais — admitiu.Clara soltou um som de satisfação.— Sabia!— Mas não vou ficar interrogando o homem.— Não precisa. Você só conversa. É muito boa nisso quando quer.— E você vai ficar esperando meu relatório?— Com certeza. Quero saber até o que ele pediu para beber.— Ele sempre pede café.— Então já temos uma informação imp
Lucia estava sentada no sofá, com as pernas dobradas sobre a almofada e o celular apoiado entre as mãos. O notebook permanecia fechado sobre a mesa de centro. Tinha terminado o trabalho mais cedo do que esperava e, depois de alguns minutos tentando decidir o que fazer com o restante da noite, acabou pegando o telefone para conversar com Clara.A amiga atendeu na terceira chamada.— Olha só quem resolveu aparecer! — Clara falou, animada. — Pensei que você tivesse sido sequestrada pelo seu computador.— Ainda não. Mas ele está fazendo um esforço considerável para isso acontecer.— Você precisa mesmo comprar outro.— Eu sei. Não precisa se juntar a ele para me pressionar.Clara riu do outro lado.— Tudo bem. E como você está?— Estou bem. Na verdade, queria te perguntar uma coisa.— Isso nunca começa de um jeito inocente.Lucia sorriu.— Como você faz para encontrar alguém no Instagram quando não sabe o sobrenome completo?— Depende. Você tem o nome?— Tenho.— Então é fácil. Qual é?Luc
Vincenzo descobriu que ela gostava de ouvir música enquanto caminhava, mas preferia deixar os fones guardados quando estava no café. Também soube que Clara, sua amiga, costumava insistir para que ela saísse mais de casa, embora Lucia considerasse que já saía o suficiente.— Sua amiga parece se preocupar bastante com você — comentou.— Ela se preocupa. Às vezes, até demais.— Isso incomoda?— Não quando ela pergunta antes de decidir o que é melhor para mim.Vincenzo reconheceu o recado, mesmo que ela não tivesse dirigido a frase diretamente a ele.— Entendi.— Ótimo.Ela voltou a sorrir e, dessa vez, colocou o fone novamente.— Preciso terminar esse trabalho antes que meu computador resolva se aposentar de vez.Vincenzo olhou para o aparelho antigo.— Ele está tão ruim assim?— Hoje está de mau humor. Amanhã talvez esteja melhor.— Você pretende continuar usando?— Até que ele pare de funcionar completamente ou até eu conseguir comprar outro.— Não seria melhor trocar antes disso?Luci
Lucia reconheceu a voz e sorriu discretamente.— Então é você.— Isso parece uma acusação.— Ainda estou decidindo.Vincenzo puxou a cadeira à sua frente, mas esperou um instante antes de se sentar.— Posso?— Pode. Mas não garanto que a conversa seja interessante. Estou trabalhando.— Vou tentar não atrapalhar.— Você diz isso como se fosse uma promessa fácil de cumprir.Ele se sentou.Lucia colocou o fone sobre a mesa e ajeitou o notebook. Não parecia surpresa por encontrá-lo ali, embora houvesse uma satisfação discreta em sua expressão.— Pensei que talvez você aparecesse hoje — comentou.Vincenzo apoiou uma das mãos sobre a mesa.— Por quê?— Porque você disse que voltaria.— E você acreditou?— Não exatamente. Mas achei que seria interessante descobrir se você costuma cumprir o que diz.Ele observou o sorriso que acompanhou a resposta.— E qual é o resultado?— Ainda estou avaliando.Uma atendente se aproximou para anotar o pedido de Vincenzo. Ele pediu um café sem consultar o ca
Vincenzo estava no escritório desde as primeiras horas da manhã, mas sua atenção parecia dividida entre os documentos espalhados sobre a mesa e os pensamentos que insistiam em retornar a uma conversa específica.A voz de Lucia ainda estava presente em sua memória. Não exatamente as perguntas que ela fez, mas a maneira como insistiu em obter respostas mesmo quando percebeu que ele não pretendia oferecer muitas. Ela não parecia intimidada por sua presença. Também não demonstrava aquela curiosidade inconveniente que costumava acompanhar as pessoas quando tentavam descobrir algo sobre ele. Lucia queria entender o que estava acontecendo com o pai, e não parecia disposta a aceitar que alguém simplesmente decidisse o que ela deveria ou não saber.Vincenzo passou os olhos por uma página do relatório, leu o mesmo parágrafo pela segunda vez e finalmente deixou o documento sobre a mesa.— Você está lendo isso há quase dez minutos.Matteo estava próximo à estante, segurando uma pasta. Não parecia







