LOGINLuan Silva Rocha O sol de São Paulo estava castigando, batendo forte no asfalto e na minha testa. Estava andando de um lado para o outro na calçada em frente à entrada principal daquele hotel chique no qual tínhamos marcado a reunião, com a sola do sapato social batendo no chão de raiva. Minha mandíbula estava travada de tanto nervosismo. — Esse desgraçado me paga... — resmunguei, olhando pela milésima vez para a tela do meu celular. Caio já estava lá dentro, tentando segurar a barra com os investidores na base da conversa fiada, mas eu sabia que a paciência daquela gente rica tem limite. E o Patrick? Sumido. O celular chamava até cair na caixa postal. Foi bem na hora em que decidi mandar mais um áudio xingando que um carro preto cortou a rua e cantou pneus antes de estacionar na entrada do hotel. — Ah, não fode... — soltei o ar com força, guardando o celular no bolso do terno e já marchando na direção do ve
Patrick Silva RochaA estrada de terra começou a dar lugar ao asfalto conforme eu ia me aproximando da civilização, mas a minha cabeça continuava presa lá na cabana, no meio do mato, com a Bruna. Apertei o volante com força, sentindo o motor do carro roncar enquanto pisava fundo no acelerador. Não dava para ficar muito tempo fora; precisava voltar para a cidade, fingir que estava tudo sob controle e lidar com a rotina antes que Luan e Caio começassem a surtar de vez. Mas a verdade é que o meu plano de paz durou exatamente dois minutos.Assim que peguei o sinal da operadora na descida da serra, o painel do carro começou a vibrar loucamente. O celular, jogado no banco do passageiro, acendeu a tela umas cinco vezes seguidas com notificações estourando. Olhei de relance enquanto o carro cortava a pista e vi a enxurrada de ligações perdidas e mensagens no WhatsApp. Era Caio e Luan.— Puta que pariu... — bufei, batendo a mão no volante.Lembrei na hora do compromisso que a gente tinha marca
Bruna Marques Três dias se passaram desde a noite horrível em que Miguel entrou no meu quarto. Desde então, comecei a enxergar coisas que antes passavam despercebidas. O olhar dele sobre mim era constante e demorava mais do que deveria. Ele me encarava durante o almoço, na sala, em cada canto da casa.O pior era a noite: passei a dormir com o sono leve, alerta a qualquer barulho. E foi assim que peguei ele no flagra, no meio da madrugada, a porta do meu quarto se abria devagarinho, sem fazer ruído, e ele ficava ali parado na escuridão, simplesmente me olhando dormir.Aquilo me fez revirar a memória. Lembrei das vezes que acordei de madrugada com uma sensação de estar sendo observada. Olhava para a porta e a via encostada ou aberta, mesmo tendo a certeza de que tinha fechado antes de deitar. Na época, achava que era paranoia. Jamais, nem nos meus piores pesadelos, imaginei que era ele.Aquele domingo seria de um almoço comunitário na igreja, um evento grande na casa do pastor. Acordei
Caio Silva Rocha Nunca tinha sentido tanta raiva na minha vida. Estava jogado no sofá da sala da mansão, com uma garrafa de cerveja na mão e os olhos fixos em algum ponto da parede. Ao meu lado, Luan parecia tão furioso quanto eu. Já Patrick estava sentado na poltrona à nossa frente, bebendo calado, como se ficar de boca fechada fosse resolver alguma coisa. O relógio da parede marcava quase duas da manhã. Peguei mais uma cerveja no balde de gelo, arranquei a tampinha com os dentes e dei um gole longo enquanto lembrava em como Bruna tinha sido fria. Tão fria que parecia outra pessoa. Aquela coelinha que a gente conhecia, que sempre olhava pra gente com carinho, simplesmente não estava mais ali. — A gente perdeu. Perdermos a nossa Coelhinha... — falei, olhando pro teto e soltando uma risada seca, cheia de raiva. — Eu não vou suportar isso. Vou enlouquecer. Não tô brincando. Luan balançou a cabeça, encarando o n
Bruna Marques Assim que o Patrick passou pela porta da sacada e desapareceu na escuridão da árvore junto com Luan e Caio, me aproximei da porta de vidro com as mãos tremendo. Girei a tranca com pressa e fechei as cortinas. Minhas pernas perderam a força. Levei as mãos à boca, mas não consegui segurar o choro. Caí de joelhos ao lado da cama, sentindo toda aquela dor que eu vinha tentando engolir desabar de uma vez. Estava com tanta raiva, tanto medo, mas a verdade mais dolorosa de todas era que ver os três ali, de tão perto, tinha reacendido uma chama que eu estava tentando apagar a todo custo. Eu ainda amava aqueles três idiotas. Enxuguei as lágrimas com as costas das mãos, tentando respirar fundo enquanto os soluços altos e descontrolados saíam da minha boca. — Por que tinha que ser tudo tão difícil? — Bruna? — A voz abafada do tio Miguel veio do outro lado da porta, acompanha
Patrick Silva Rocha A noite finalmente chegou, mas a nossa cabeça já estava uma bagunça completa. Depois de virar algumas garrafas de bebida pra tentar anestesiar a dor da culpa, nós três fomos direto para a casa dos tios da Bruna. A gente sabia o caminho de cor. O problema foi subir naquela maldita árvore; com o álcool pesando no sangue e as pernas meio trôpegas, quase fomos pro chão umas duas vezes. Mas a necessidade de ver o rosto dela era maior do que qualquer tombo. Luan quase caiu ao pousar na grama do quintal e soltou um xingamento baixo. — Cala a boca, porra — sussurrei, puxando ele pelo casaco. Subi primeiro, segurando nos galhos grossos. Meus pés escorregaram duas vezes na casca da árvore por causa do álcool, mas alcancei a grade do balcão da sacada e me puxei pra cima. Caio veio logo atrás, e Luan subiu por último, resmungando o tempo todo. A porta de vidro da sacada estava encostada, empurrei devagar. O quarto dela estava no breu absoluto. Entramos os três na pon







