LOGINAo amanhecer, Astérion não possuía sombras.Percebi isso antes mesmo de deixar o dormitório.A luz entrava pelas janelas, tocava as camas, os móveis e as cortinas, mas nenhum objeto projetava sua forma sobre o chão. Quando ergui a mão diante do rosto, meus dedos bloquearam o brilho sem produzir qualquer sinal escuro sobre a parede.Levantei-me depressa.— Lyuna — chamei, demonstrando inquietação ao olhar para a cama ao lado.Ela já estava acordada.Permanecia sentada, com a faixa prateada presa ao pulso e os olhos fixos na própria mão.— Eu também não tenho sombra — informou Lyuna, demonstrando tensão ao movimentar os dedos diante da luz.O cobertor da terceira cama foi afastado.Luiza surgiu com os cabelos desalinhados e uma folha presa perto da orelha.— Talvez tenham decidido retirar uma coisa assustadora da prova — sugeriu ela, demonstrando sonolência ao procurar as próprias botas. — Depois de cinco fases, seria uma demonstração tardia de responsabilidade.Seus pés tocaram o chão.
— Finalmente — sussurrou a primeira Raiz, demonstrando alívio ao usar a boca de Luiza para pronunciar as palavras. — Vocês se lembraram de mim.Meu corpo inteiro ficou imóvel.A voz não pertencia à minha amiga.Era mais grave, atravessada por um cansaço tão antigo que parecia ter passado quatrocentos anos tentando alcançar aquele único instante. Ainda assim, por trás dela, reconheci a respiração assustada de Luiza e o tremor de seus dedos agarrados ao meu braço.Ela continuava ali.Elara não a havia substituído completamente.— Luiza? — chamei, demonstrando medo ao tocar seu rosto.O olho castanho de minha amiga voltou-se para mim.O negro permaneceu fixo na pedra verde que pulsava dentro da flor.— Eu consigo ouvir você — respondeu Luiza, demonstrando esforço ao lutar contra a segunda voz. — Mas ela também está aqui.A parede de raízes estremeceu atrás de nós.Lyuna lançou outra corrente de luz prateada contra a barreira. O impacto iluminou toda a floresta, mas as raízes absorveram a
Meu tio contou tudo o que sabia. Não foi suficiente. A primeira versão da profecia não estava entre os livros do reino. Luarena nunca a vira completa. Miguel conhecia apenas trechos que haviam sido copiados por conselheiros antigos, e Ronnie e Alba não possuíam respostas sobre uma história que começara séculos antes de nascerem. Ainda assim, ninguém tentou encerrar a conversa. Falamos até a luz do grande espelho mudar de dourada para azulada. Falamos sobre a marca de Lyuna, sobre o fragmento prateado e sobre as primeiras famílias que haviam protegido os registros da Lua Azul. Meu tio admitiu que suspeitava da existência de outra força ligada à profecia, embora nunca tivesse imaginado que se tratasse de uma pessoa. Ou que essa pessoa fosse Luiza. Quando regressamos a Astérion, o sol já começava a descer. As sete torres lançavam sombras compridas sobre os jardins, atravessando os caminhos como ponteiros de um relógio imenso. Observei cada uma delas pela janela da carruagem,
A queda não terminou. O lago desapareceu sob nossos pés, mas nenhum chão surgiu para nos receber. Lyuna continuava segurando minha mão enquanto despencávamos por um vazio formado por sombras, lembranças e pequenos fragmentos de luz. O vento não tocava meu rosto. Ainda assim, meus cabelos se agitavam ao redor da cabeça, misturando-se às linhas prateadas que escapavam do braço de Lyuna. A marca em seu pulso pulsava com tanta força que eu conseguia sentir cada batida atravessar sua mão e alcançar a minha. — Não solte — pedi outra vez, demonstrando desespero ao apertar os dedos dela. — Não vou soltar — prometeu Lyuna, embora o medo já começasse a enfraquecer sua voz. A escuridão se abriu abaixo de nós. Caímos dentro de uma lembrança. Eu tinha seis anos. Estava encolhida debaixo da mesa da cozinha, com os joelhos apertados contra o peito e as mãos sobre os ouvidos. A chuva batia contra as janelas. Trovões faziam os vidros estremecerem, e a energia havia acabado havia pouco
Nerídia não havia conseguido nos separar. Mas alguma coisa em suas águas havia mudado quando me devolveu. Percebi isso antes mesmo de deixar o pátio. Enquanto Celestine examinava meus braços, meu rosto e a marca deixada pelo bracelete, permaneci sentada sobre um dos bancos de pedra, acompanhando os movimentos apressados dos professores ao redor. Estudantes choravam por terem sido eliminados. Outros comemoravam a classificação. Alguns ainda tremiam por causa das ilusões que haviam enfrentado nas profundezas. Eu não sentia nada parecido. Não havia alívio. Não havia medo. A chave de Nerídia continuava em minha mão, fria e pesada, como se pertencesse a outra pessoa. — Seus sinais estão normais — informou Celestine, demonstrando inquietação ao afastar os dedos do meu pulso. — Sua magia, porém, está mais concentrada do que deveria depois de uma prova tão longa. — Isso é ruim? — perguntei, observando uma gota escorrer da manga do uniforme. Celestine demorou a responder.
— A Lua entrou na torre sem sua Pedra. A voz não atravessou apenas a água. Ela atravessou meu corpo. O fragmento prateado queimou dentro do bolso, pressionado contra minha perna como um pedaço de metal retirado de uma forja. Levei a mão até ele, mas meus dedos pararam antes de alcançar o tecido. A estrela negra permanecia no fundo do lago. Não estava desenhada em uma pedra nem projetada sobre as ruínas. Era formada pela própria escuridão. Cinco pontas imensas ocupavam o caminho abaixo de mim, e uma luz azul muito fraca pulsava em seu centro, imitando as batidas do meu coração. Olhei para trás. A parede transparente ainda me separava de Lyuna. Ela batia as duas mãos contra a barreira, os cabelos louros flutuando ao redor do rosto e a boca se movendo enquanto gritava meu nome. Eu não conseguia ouvi-la. O caminho onde estava parecia afastar-se a cada segundo, arrastado por uma corrente que apenas eu sentia. As luzes dos braceletes haviam desaparecido. Todas. — Não —







