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O Reencontro
10 de março de 2017 Saio da minha caminhonete após estacionar na minha oficina. Enquanto fecho a porta, ainda de costas para a mulher que fui socorrer no meio da estrada, deserta pelo horário e pela tempestade que estourou lá fora. Escuto ela me agradecer. Meu corpo inteiro se arrepia. Sinto como se conhecesse aquela voz, mas não consigo reconhecer a quem pertence; na minha cabeça a voz parece diferente, mas, ainda assim, dolorosamente familiar. É como se uma frequência antiga, sintonizada há anos, voltasse a vibrar dentro do meu peito. Durante a ligação, quando ela me contatou, mal consegui entender o que dizia devido ao barulho do temporal, então não identifiquei quem era. Me viro devagar e me deparo com ela parada ao lado da porta do carro. Não consigo acreditar no que vejo. Penso que minha mente pode estar me pregando uma peça; talvez eu não tenha realmente recebido uma ligação à meia-noite, talvez uma desconhecida não tenha me convencido a sair de casa para rebocar o seu carro. Eu devo ter dormido e estou sonhando com ela, como fiz em tantas outras noites vazias. Mas nunca foi assim, tão real. Ela dá um passo à frente, com um olhar desconfiado. Vira a cabeça de lado, um jeito que me é muito familiar. Os olhos, aquelas esferas lindas em um tom de castanho esverdeado, se arregalaram. Em seguida, ela dá um passo incerto na minha direção, como se estivesse atravessando um campo minado de memórias. — Lipe? É você? — ela diz, com a voz falhando, embargada de emoção. — Mila? Minha Mila? Me diz que não é um sonho, que você está realmente aqui — falo com a esperança desesperada de que, dessa vez, a realidade não me escape entre os dedos. — Sou eu... — ela responde, levando involuntariamente a mão ao peito, como se precisasse segurar o próprio coração para que ele não escapasse do corpo. Em menos de meio segundo, eu chego onde ela está. O abraço que dou nela é uma mistura de saudade, alegria, tristeza e euforia. Ela está trêmula em meus braços. A aperto como se nunca mais fosse soltar, porque essa é a minha única vontade: fundir nossas existências para que o tempo nunca mais nos separe. Enfio o nariz entre os fios macios dos seus cabelos cacheados para sentir o cheiro. Como senti saudade desse perfume de baunilha, o aroma que sempre foi o meu conceito de "casa". Ela se derrete em meus braços, me apertando de volta, a cabeça encostada em meu peito, sobre meu coração acelerado. Não sei ao certo se passam segundos ou minutos, mas eu poderia viver pela eternidade nesse momento, onde o mundo lá fora, com seus erros e distâncias, deixa de existir. Aos poucos, a sinto se afastar de mim. Porém, quando ela me encara, a força da tristeza que o olhar dela carrega me paralisa. Com os olhos nublados por lágrimas que parecem guardadas há anos, ela diz: — Eu esperei por você. Risquei cada dia no calendário até meu aniversário de dezoito anos. Você me abandonou. Não respondeu mais minhas cartas depois de alguns anos e não voltou para mim, como me prometeu. Ela faz uma pausa, e o silêncio que se segue dói mais que o trovão lá fora. — Você me esqueceu Ela finaliza com a voz fraca, dando um passo para trás e saindo dos meus braços, deixando apenas o frio do arrependimento no lugar onde antes havia o seu calor.Capítulo 4 Hora do Não Kaylane Mendes Segurar o buquê de orquídeas brancas exigia mais força do que eu realmente tinha. As mãos geladas tremiam sob a renda fina das luvas e o suor frio na nuca fazia o tecido do vestido grudar na pele. O corte sereia, desenhado sob medida, me abraçava com uma perfeição quase sufocante. Cada respiração profunda parecia um combate contra a ansiedade que esmagava o peito. Eu estava vestida como a noiva perfeita do ano, mas por dentro me sentia um vulcão prestes a entrar em erupção. O medo de que algo desse errado na última hora me apertava a garganta a cada segundo naquela sala de espera. E se o técnico da mesa de som se confundisse e não desse o play no arquivo correto? E se o advogado de Jackson tivesse falhado em ajustar a documentação com o juiz de paz? E se Rafael percebesse a fúria guardada no meu olhar e armasse um escândalo antes do tempo? A incerteza era uma lâmina afiada, mas a lembrança da traição da noite anterior me mantinha firme.
Capítulo 2 A Proposta Jackson Valente A campainha tocou às nove da noite. Eu estava no escritório, diante da janela que mostrava as luzes de São Paulo, com um copo de conhaque na mão. Passei a semana remoendo a data que se aproxima cada vez mais. O casamento do meu irmão com a mulher que eu admirava e desejava a anos, em segredo. Antes deles terem se envolvido. Tentei de tudo para esquecer ela, mas não consegui. Caminhei até a porta. Não esperava visitas. Girei a maçaneta e abri. Ela estava no meu hall. O cabelo ruivo caía desalinhado sobre os ombros. Os olhos azuis estavam vermelhos, como se tivesse chorado, mas havia determinação no rosto dela. — Kaylane? Aconteceu alguma coisa? Ela olhou em volta e entrou apressada sem esperar convite. — O Rafael não sabe que estou aqui. Preciso falar sobre a sucessão do seu pai. O tom firme não combinava com os olhos vermelhos. Kaylane parecia ter atravessado o inferno. Fechei a porta e mantive o copo entre os dedos. — S
Leitoras queridas do meu coração, aqui vai um bônus degustação do meu novo lançamento já disponível na GNCapítulo 1 O Flagra Kaylane Mendes Faltavam menos de vinte e quatro horas para o meu casamento quando estacionei no edifício dos Jardins onde Rafael e eu moraríamos depois da lua de mel. Ele pediu que eu não fosse até lá antes do casamento. Segundo Rafael, eu deveria ficar longe pois ele estava preparando uma surpresa romântica. Eu não consegui esperar. Queria deixar algumas caixas com vestidos e sapatos no closet e adiantar a mudança, estava ansiosa. A chave girou na fechadura. Entrei no apartamento e encontrei apenas o silêncio, o cheiro de tinta fresca e o ar-condicionado ligado. Não havia arquitetos, ferramentas ou qualquer sinal de uma surpresa. Dei poucos passos para dentro da casa antes de ouvir um gemido abafado. Parei. Uma risada rouca veio da suíte principal. Depois ouvi o colchão ranger. Meu estômago se contraiu. Me aproximei, pelo o batente da porta entreabert
Capítulo 85: A MEIA EXTRA Felipe Fiquei parado ali por um instante, olhando para aquela meia pequena, clara, com detalhes delicados, diferente de todas as outras. — Por que tem uma meia a mais? — perguntei, virando devagar para Kamila e para o pyetro, que estavam parados ao meu lado, com os olhos brilhantes de alegria — Não tínhamos feito só as três? — Olha o que tem dentro, papai! — disse eu filho, puxando a minha mão e colocando-a sobre a meia — É uma surpresa! A mamãe deixou ali para você ver primeiro! Olhei para Kamila, que sorria com lágrimas nos olhos, e senti o coração disparar. Com as mãos tremendo muito, abri a meia devagar, como se estivesse tocando algo muito precioso, e retirei de dentro um papel dobrado com cuidado. Desdobrei ele, um teste de gravidez positivo e a data escrita no canto inferior. — Kamila... — sussurrei, olhando para ela, sem conseguir acreditar direito — Isso é... nós vamos ter outro bebê? Ela acenou com a cabeça, e as lágrimas rolaram pelas
Capítulo 84: A SURPRESA NA COZINHA KamilaO sol de dezembro entrava pelas janelas da cozinha, trazendo um calor suave e a luz dourada que só essa época do ano tem. O ar já cheirava a canela, mel e massa doce, e eu mal conseguia ficar parada de tanta animação.Hoje eu tinha uma surpresa muito especial para o Felipe, e contei com o melhor ajudante do mundo para me ajudar: o meu filho, que já estava cheio de energia e com um sorriso que não saía do rosto.— Cuidado, filho, não joga a farinha para cima — avisei, mas já rindo, pois vi que ele tinha uma mancha branca inteira na ponta do nariz, e as mãos dele estavam tão cobertas quanto a minha — Nós precisamos desses biscoitos para ficar bonitos, não para cobrir a casa inteira!— Mas mamãe, é mais divertido assim! — respondeu ele, jogando um pouquinho mais de farinha na bancada, fazendo uma nuvem branca que subiu devagar — O papai vai amar ver tudo branco, igual neve de verdade!Realmente, a cozinha estava uma bagunça: farinha espalhada pe
CAPÍTULO 83 – DOIS ANOS DE PURO AMOR KamilaO tempo passou como se tivesse asas, voando rápido demais, mas cada segundo desses dois anos ficou gravado no meu coração com uma nitidez que nunca vou esquecer. Logo depois que o Pyetro nasceu, os primeiros dias pareciam um sonho acordado. Ele era tão pequeno, tão frágil, mas com uma força que vinha de onde eu não sabia explicar. Noites acordadas, amamentando ele no silêncio do quarto, sentindo o calor do corpo dele contra o meu, ouvindo o Felipe se mexer devagar ao meu lado, acordando de vez em quando para perguntar se eu precisava de ajuda, se ele podia pegar o menino no colo para eu descansar um pouco.Aos três meses, ele deu o primeiro sorriso verdadeiro, direto para o Felipe, que ficou tão emocionado que quase caiu sentado. Aos seis meses, sentou sozinho no tapete da sala, batendo as mãozinhas como se tivesse conquistado o mundo. Aos oito meses, engatinhou pela primeira vez atrás do gato da visinha, que fugiu assustado enquanto nós







