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CAPÍTULO 2

Auteur: Alan Rios
last update Date de publication: 2026-06-25 00:13:13

— Para os outros, não.

A frase ficou parada entre nós, pesada, absurda, quase íntima demais para um homem que tinha acabado de me comprar por contrato. Rafael estava perto. Perto o suficiente para eu sentir de novo aquele cheiro caro, amadeirado, limpo demais. Cheiro de homem que nunca precisou pegar ônibus lotado na vida, mas que por algum motivo fazia meu corpo prestar atenção. Que ódio.

Dei um passo para trás, porque eu precisava lembrar a mim mesma que aquele homem não era um interesse amoroso. Era uma emergência médica de terno preto.

— Não confunda as coisas — falei.

— Eu não costumo confundir.

— Ótimo. Então grave bem: eu sou sua esposa no papel. Só no papel.

Rafael inclinou a cabeça, como se estivesse ouvindo alguma coisa além da minha voz. Talvez minha respiração. Talvez meu nervoso. Talvez a minha raiva mal disfarçada.

— Você repete isso para mim ou para você?

Eu quis responder rápido, mas a resposta ficou presa. Desgraçado. Ele falava pouco, mas acertava onde incomodava.

— Repito porque o senhor parece muito acostumado a comprar coisas e achar que elas passam a ser suas.

— Você não é uma coisa.

— Mas foi comprada.

— Foi contratada.

— Ah, claro. Bem melhor. Vou mandar bordar numa toalha: contratada para fingir casamento com bilionário cego. Lindo.

Augusto pigarreou perto da mesa, claramente arrependido de ter escolhido aquela profissão ou aquele cliente. Ele juntou as folhas do contrato com cuidado, como se o papel fosse mais delicado do que minha dignidade.

— A partir de agora, algumas orientações são necessárias — disse ele.

— Lá vem.

Rafael voltou para perto da poltrona, mas não se sentou. Caminhou com a bengala na mão, seguro demais, e aquilo me incomodou. Ele não tropeçava, não hesitava, não parecia perdido. A casa era dele, tudo bem. Mas ainda assim havia algo errado naquele homem. Um cego que ocupava o espaço como se o espaço tivesse medo dele.

— Você usará aliança — Augusto continuou. — Será apresentada aos funcionários como esposa do senhor Rafael. Não falará sobre o contrato com ninguém, nem com sua mãe. Qualquer saída deverá ser comunicada. Eventos familiares ou sociais serão obrigatórios quando solicitados.

— Saída comunicada? Eu virei esposa ou presidiária?

— Você virou parte de uma mentira cara — Rafael respondeu. — Mentiras caras exigem cuidado.

— Nossa, que romântico. Já estou emocionada.

Augusto abriu uma caixinha preta e colocou sobre a mesa. Dentro havia uma aliança dourada, bonita, discreta, com uma pedra pequena. Não era espalhafatosa. Era pior. Parecia elegante. Parecia real. E talvez por isso me deu enjoo.

— Isso também estava planejado? — perguntei.

— Tudo estava planejado — Rafael disse.

— Inclusive meu tamanho?

Ele ficou em silêncio por meio segundo. Meio segundo só, mas eu notei.

— O necessário.

Senti um arrepio. Não daqueles bons. Ou talvez um pouco bom também, e isso me irritou mais ainda.

— Que ótimo. Meu futuro marido falso já sabe meu número de dedo. Nada assustador.

— Estenda a mão.

— Eu sei colocar uma aliança.

— Eu também.

A resposta veio baixa. Simples. E, por algum motivo, mudou o ar da sala.

Eu devia ter recusado. Devia ter pegado aquela aliança e colocado sozinha, de qualquer jeito, só para deixar claro que ele não mandava no meu corpo. Mas minha mãe estava numa ambulância a caminho da clínica. Minha mãe ia ser operada porque eu estava ali. Então engoli a resposta atravessada e estendi a mão.

Rafael tocou meus dedos com cuidado. Cuidado demais. Esse era o problema com ele. A fala era fria, a presença era mandona, mas o toque não vinha bruto. A aliança deslizou devagar pelo meu dedo, fria no começo, depois pesada. O polegar dele passou de leve pela lateral da minha mão, como se conferisse se estava certo. Foi rápido. Quase nada. Mesmo assim, meu estômago virou.

— Está apertada? — ele perguntou.

— Não.

— Sua mão diz outra coisa.

Puxei os dedos de volta.

— Minha mão não diz nada. O senhor que é metido.

Dessa vez, ele sorriu. Pouco, mas sorriu. E eu odiei mais uma vez o fato de aquele sorriso funcionar melhor do que deveria.

— Você fica agressiva quando está nervosa.

— E o senhor fica insuportável quando respira. Cada um com seu talento.

Augusto baixou os olhos para o contrato, fingindo que não escutava. Eu quase tive pena dele. Quase.

Meu celular vibrou. Peguei rápido, com medo de ser problema. Era uma mensagem da clínica: minha mãe já tinha dado entrada na Santa Helena. Li duas vezes para ter certeza. Depois uma terceira. Célia Santos. Admitida. Equipe cirúrgica acionada.

O alívio veio tão forte que quase me desmontou ali mesmo. Eu apertei o celular contra o peito e virei o rosto, tentando disfarçar.

— Ela chegou — murmurei.

— Eu sei — Rafael disse.

Olhei para ele.

— Como sabe?

— Porque Augusto recebeu a confirmação no mesmo instante.

— Ah.

Por um segundo, eu não tive força para debochar. Minha mãe estava fora daquele corredor. Fora da espera. Fora da humilhação. Eu devia estar feliz. Mas felicidade comprada desse jeito vinha com gosto de dívida.

Rafael se aproximou outra vez. Eu percebi pelo som da bengala, pelo cheiro, pelo jeito idiota como meu corpo ficou alerta antes mesmo de eu olhar.

— Você vai vê-la amanhã.

— Amanhã? Não. Eu vou hoje.

— Hoje você fica.

— Eu não pedi permissão.

— E eu não fiz sugestão.

A raiva voltou, graças a Deus. Era mais fácil lidar com raiva do que com aquele aperto confuso no peito.

— Escuta aqui, Rafael Montenegro. Eu assinei um contrato ridículo para salvar minha mãe. Não assinei para virar móvel da sua mansão.

— Móvel não dorme no meu quarto.

Demorei um segundo para entender. Quando entendi, senti o sangue subir.

— Como é que é?

Augusto fechou a pasta devagar. Covarde. Já sabia da bomba. Rafael parou diante de mim, perto demais de novo, a voz baixa como se estivesse falando uma coisa óbvia.

— Você é minha esposa, Lia. A partir de hoje, dorme onde uma esposa dormiria.

— Nem fodendo.

Ele inclinou o rosto na minha direção, e aquele quase sorriso apareceu de novo.

— Então talvez seja melhor começar a atuar.

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