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A esposa de aluguel do herdeiro cego
A esposa de aluguel do herdeiro cego
Autor: Alan Rios

CAPÍTULO 1

Autor: Alan Rios
last update Data de publicação: 2026-06-25 00:06:17

Eu já estava naquele maldito hospital tentando uma vaga para a cirurgia da minha mãe havia seis meses. Seis. Enquanto isso, o tumor dela crescia como se tivesse mais direito de existir do que ela. Eu estava desempregada, devendo até pensamento, e a aposentadoria dela mal dava para comprar remédio, comida e fingir que a gente ainda tinha algum controle da vida.

Naquele dia, cheguei antes das seis da manhã. Mesmo assim, minha senha era a quarenta e oito. O corredor já estava cheio: criança chorando, idoso tossindo, acompanhante dormindo torto na cadeira, enfermeira passando apressada com cara de quem não aguentava mais ninguém. Todo mundo ali tinha urgência. Essa era a parte mais cruel. Eu nem podia me sentir especial na minha desgraça, porque tinha desgraça para todo lado.

Quando finalmente fui chamada, fui até o balcão segurando a pasta azul com os exames da minha mãe como se aquilo fosse obrigar alguém a fazer alguma coisa. Laudos, encaminhamentos, cópias, comprovante, tudo amassado de tanto ir e voltar sem resolver nada.

— Moça, pelo amor de Deus, minha mãe está piorando. O médico disse que ela não pode esperar mais.

A atendente nem levantou direito os olhos.

— A senhora precisa aguardar.

A senhora. Eu tinha vinte e quatro anos, mas naquele corredor devia estar com cara de cinquenta.

— Eu estou aguardando há seis meses — respondi, tentando não perder a linha.

Ela suspirou.

— Todos aqui têm urgência.

Aquilo me calou porque era verdade. E eu odeio quando a verdade vem de alguém que não está nem aí para você. Peguei os papéis de volta e fui para perto da janela. Foi quando meu celular vibrou.

Número desconhecido.

— Lia Santos?

— Sou eu.

— Aqui é da Clínica Santa Helena. Estamos ligando sobre o orçamento solicitado para o procedimento da senhora Célia Santos.

Fechei os olhos. Eu tinha pedido aquele orçamento dois dias antes, mesmo sabendo que não tinha como pagar.

— Quanto ficou?

— O valor inicial, incluindo cirurgia, internação e equipe médica, fica em cento e oitenta mil reais.

Fiquei muda.

Cento e oitenta mil.

Minha conta tinha trinta e sete reais e uma humilhação acumulada.

— Pode haver acréscimos dependendo da evolução do quadro — a mulher continuou.

Claro que podia. Desgraça pouca é bobagem.

— Entendi — murmurei, sem entender porra nenhuma.

Desliguei antes que ela falasse mais alguma coisa. Fiquei olhando meu reflexo torto no vidro. Minha blusa tinha mancha de café, meus olhos pareciam de outra pessoa e eu estava com aquela expressão horrível de quem vai chorar, mas ainda tenta segurar por orgulho besta.

Foi nesse momento que uma voz atrás de mim disse:

— Senhorita Lia Santos?

Virei rápido. Um homem de terno cinza estava parado a poucos passos. Limpo demais para aquele corredor. Calmo demais. Caro demais.

— Sou eu — respondi, já desconfiada.

— Meu nome é Augusto Valença. Sou advogado.

Advogado. Ótimo. Quando a pessoa está pobre, desesperada e com a mãe doente, tudo que falta é aparecer advogado.

— Advogado de quem?

— De Rafael Montenegro.

Eu conhecia aquele nome. Todo mundo conhecia. Rafael Montenegro era herdeiro de uma das famílias mais ricas do país. Meses antes, tinha aparecido nas notícias por causa de um acidente. Carro destruído. Motorista morto. Ele internado por semanas. E depois veio a parte que todo mundo comentou: o herdeiro tinha ficado cego.

— O que Rafael Montenegro quer comigo?

Augusto abriu a pasta preta.

— Ele precisa de uma esposa.

Eu encarei o homem, esperando uma risada. Nada.

— Acho que o senhor confundiu hospital com hospício.

— A proposta é legítima.

— Uma esposa?

— Por contrato. Durante seis meses, a senhorita será apresentada como esposa do senhor Rafael Montenegro. Morará na mansão, participará de eventos quando necessário e manterá sigilo absoluto sobre o acordo.

Eu senti vontade de rir, vomitar ou bater nele. Talvez os três.

— Eu não sou esse tipo de mulher.

— Ninguém disse que era.

— Então que tipo de proposta indecente é essa?

— Uma proposta de aparência.

— E por que eu?

— Porque a senhorita precisa de dinheiro.

A sinceridade dele doeu mais do que qualquer xingamento.

— Muita gente precisa.

— Mas nem todo mundo tem uma mãe que será transferida ainda hoje para a melhor equipe cirúrgica do país, caso aceite.

Meu coração falhou.

— O quê?

— Todas as despesas médicas da senhora Célia Santos serão pagas. Cirurgia, internação, medicamentos e recuperação. Além disso, a senhorita receberá uma quantia mensal enquanto o contrato estiver em vigor.

Olhei para ele sem conseguir responder. Aquilo era uma armadilha. Claro que era. Só que armadilha, quando vem com chance de salvar sua mãe, começa a parecer porta de saída.

— Eu quero falar com ele — disse.

Augusto guardou a pasta.

— O carro está esperando.

Eu deveria ter mandado ele ir se ferrar. Qualquer pessoa com juízo faria isso. Mas juízo não paga cirurgia. Juízo não arranca tumor. Juízo não salva mãe. Então eu fui.

Meia hora depois, os portões da mansão Montenegro se abriram diante de mim. A casa era enorme, bonita e fria. Parecia menos uma casa e mais um lugar onde gente rica escondia pecado com móveis caros.

Augusto me levou até uma sala escura. Havia um homem sentado perto da janela, de terno preto, imóvel, com o rosto parcialmente coberto pela sombra. Rafael Montenegro.

E foi uma merda perceber, logo naquela situação, que ele era bonito daquele jeito injusto. Não bonito comum. Bonito perigoso. Mandíbula marcada, boca séria demais, postura de quem não precisava enxergar para ocupar o cômodo inteiro. Ele segurava uma bengala com cabo dourado, mas não parecia frágil. Parecia o tipo de homem que, mesmo sem ver, fazia você se sentir observada.

Antes que eu pudesse falar, ele ergueu o rosto na minha direção.

— Então é você.

A voz dele era baixa, calma, quase preguiçosa. E mesmo assim atravessou a sala.

— Sou eu — respondi, tentando lembrar que eu estava ali pela minha mãe, não para reparar na boca de bilionário nenhum.

Rafael inclinou levemente a cabeça.

— Está nervosa.

Aquilo me irritou na hora.

— Estou sendo comprada para casar com um estranho. Era para eu estar fazendo o quê? Alongamento?

Pela primeira vez, alguma coisa mudou no rosto dele. Quase um sorriso. Quase. E eu odiei ter percebido.

— Pelo menos não é burra.

— E o senhor, pelo visto, não é simpático.

— Simpatia não está no contrato.

— Ainda bem. Eu também não estou vendendo educação.

Augusto ficou duro ao meu lado, como se eu tivesse chutado uma peça de museu. Rafael continuou tranquilo demais.

— Quero uma esposa convincente, Lia Santos. Não uma esposa dócil.

— Então escolheu certo. Dócil eu não sou nem com fome.

Ele estendeu a mão.

— Aproxime-se.

— Para quê?

— Para eu saber com quem vou me casar.

— O senhor é cego. Vai saber como?

A pergunta saiu grosseira, mas ele não pareceu ofendido.

— Pela voz. Pela respiração. Pelo jeito como você tenta parecer menos assustada do que está.

Fiquei parada, sentindo um frio idiota na barriga. Não era medo. Ou não era só medo. E isso me deu raiva.

Dei dois passos. Quando entreguei minha mão, os dedos dele tocaram os meus com cuidado demais. Esse foi o problema. Se tivesse sido bruto, eu teria odiado fácil. Mas não foi. A mão dele era quente, firme, segura demais para alguém que teoricamente não via onde eu estava.

— Você treme quando fica com raiva — ele disse.

Puxei a mão de volta.

— E o senhor fala demais para quem precisa de uma esposa falsa.

Augusto colocou o contrato sobre a mesa. Fiquei olhando para aqueles papéis como se fossem uma sentença.

— Minha mãe é transferida antes — falei. — Eu só assino depois que ela estiver a caminho da clínica.

Rafael virou o rosto para Augusto.

— Providencie.

Meu celular vibrou alguns minutos depois: “Transferência autorizada. Ambulância a caminho.” Minha mão apertou o aparelho. Minha mãe ia ser atendida. Minha mãe ia ter chance. Quando levantei os olhos, Rafael já estava com a caneta estendida na minha direção.

— Agora, Lia Santos, você assina.

Peguei a caneta. Nossos dedos encostaram de novo. De novo aquele calor. De novo aquela raiva de sentir qualquer coisa. Assinei. Quando terminei, Rafael se levantou. Alto. Mais alto do que eu imaginava. E perto demais.

— A partir de hoje — ele disse —, você é minha esposa.

Engoli seco.

— De mentira.

Ele inclinou o rosto na minha direção, tão perto que senti o cheiro dele, algo caro, amadeirado, limpo demais.

— Para os outros, não.

E foi aí que percebi que eu tinha acabado de salvar minha mãe. Mas talvez tivesse vendido o resto de mim.

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