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Luna Smith
Todo mundo em Richmond, a pequena cidade do interior de Illinois, conhece o pastor Caleb, meu pai. O pilar da sociedade, aquele em quem todos se espelham e a quem buscam quando precisam de ajuda ou até mesmo de um conselho. Ninguém imagina que o homem que, todos os domingos, prega um sermão sobre fé e moralidade vive exatamente o oposto do que prega aos fiéis. Caleb Smith leva uma vida luxuosa às custas do dinheiro dos membros da igreja, que vêm até mesmo das cidades vizinhas para os seus cultos. Pois é, vivemos em uma mansão, cercada de conforto e empregados, usufruindo de uma vida que nunca movemos um dedo para conquistar. Meu pai diz que temos essa vida porque Deus o abençoou por pregar o evangelho pelo mundo, mas eu sei a verdade. Sei que tudo isso é fruto de extorsão e desvio de dinheiro. Dinheiro esse que ele arrecada alegando que é para obras de caridade. Se eu concordo com isso? Claro que não. Mas minha palavra não vale de nada. Eu nem mesmo posso escolher o que vestir, quem dirá contestar o que meu pai faz. Como filha do pastor da cidade, sempre foi cobrado de mim um comportamento moral impecável, o que significa usar roupas comportadas, como saias longas e blusas de mangas compridas. Ninguém nunca viu os meus joelhos. Nem ao menos pude frequentar a escola, pois meu pai dizia que lá eu teria contato com as tentações do mundo. Fui educada em casa e não me foi permitido ir à faculdade. Eu sempre aceitei tudo como uma boa menina, a garota submissa e obediente que ele diz que deve ser uma serva de Deus. Isso até agora. Porque, sentada aqui nesse sofá, de frente para o velho de cerca de sessenta e cinco anos, só uma certeza me vem à mente: Não vou me casar com ele nem morta. Por isso meu pai estava tão animado com esse jantar e foi pessoalmente até o meu quarto para aprovar as roupas que eu usaria essa noite. Ele já tinha tudo planejado. Se bobear, já tinha acertado esse casamento há muito tempo e só estava esperando eu completar dezoito anos para oficializar o compromisso. Pelo que conheço dele, isso é bem provável. O sorriso nojento do velho asqueroso sentado à minha frente faz meu estômago revirar, e preciso controlar a ânsia de vômito que ameaça me atingir com força. Marverick Anderson é pastor da sede principal da nossa igreja, situada em Nova York. Ele comanda uma rede de mais de mil igrejas espalhadas pelo país. Sempre ouvi meu pai falar dele com uma admiração que chega a se confundir com adoração, o que é estranho, já que ele sempre repete nos cultos que só devemos adorar a Deus. E é claro que ele está radiante por casar sua filha com o líder religioso mais importante e influente da nossa fé. Claro que a minha opinião não conta. Eu nem mesmo sabia que esse jantar era para celebrar o meu noivado. Marverick — Você tinha razão. A sua filha é realmente preciosa. As fotos que me enviou quando anunciei que procurava por uma noiva não fizeram jus à sua beleza. O velho diz isso com os olhos fixos em mim. Caleb — Minha menina puxou a beleza da sua mãe, que Deus a tenha. Ela morreu no parto e eu a criei sozinho. Marverick — Todos nós passamos por provações, meu amigo, mas só de olhar para essa formosura de garota, dá para perceber que fez um bom trabalho. Tenho vontade de me rebelar, de levantar do meu lugar e gritar com os dois, mandá-los parar de falar de mim como se eu não estivesse ali. Dizer que meu pai mentiu. Que fui criada pela governanta da casa, tia Agnes, como carinhosamente aprendi a chamá-la. Foi ela quem sempre esteve comigo, quem cuidou de mim quando eu estava doente, quem me deu amor e carinho e que só não se aposentou ainda porque não quer me deixar sozinha nessa casa. Mas não digo nada. Permaneço em silêncio, fingindo prestar atenção na comida praticamente intocada em meu prato. Após o jantar, seguimos para a sala e uma das empregadas nos serve um café. Assisto com horror Marverick colocar sua xícara sobre a mesa de centro e pegar uma caixa de veludo do bolso. Marverick — Bom, vamos ao que interessa. Chegou a hora de formalizar o meu noivado com a sua filha, pastor Caleb. Meu pai sorri animado, mal se contendo de tanta felicidade, enquanto eu seguro as lágrimas que ameaçam cair. Sem esboçar qualquer reação, assisto ao velho vir até mim e colocar o anel de noivado em meu dedo. O toque dele só aumenta o meu asco, e seu cheiro de suor e tabaco, que vem do seu corpo, faz a vontade de vomitar voltar com força. Quase não consigo segurar o suspiro de alívio quando ele se afasta. Caleb — E então, para quando vamos marcar o casamento? Pensei em daqui uns três meses. O que acha? Marverick — Não posso ficar tanto tempo fora da minha congregação. Nos casamos daqui a uma semana e iremos imediatamente para Nova York. Caleb — Mas assim tão rápido? Não conseguiremos preparar nada à sua altura, reverendo. Marverick — Tenho certeza de que fará o seu melhor. Eu não aceito menos que isso. Sua fala soa mais como uma ordem e, pela primeira vez na vida, vejo meu pai engolir seco, como se estivesse com medo. Mas ele logo disfarça e volta a paparicar Marverick, que parece já estar acostumado a ser bajulado. Eu diria até que ele gosta disso. Um reverendo, líder da nossa religião, cometendo o pecado da vaidade. O mesmo que meu pai condena nos cultos. Mas, como já sei que eles não vivem o que pregam, aquilo não me surpreende. Após mais meia hora sendo torturada pela presença do velho nojento, que não tirava os olhos de mim, pude relaxar a postura ao vê-lo ir embora, alegando que precisava descansar, pois a viagem de Nova York até nossa cidade tinha sido longa e cansativa, quando meu pai insistiu para que ele ficasse mais um pouco. Assim que a porta se fechou, meu pai se voltou para mim com um sorriso satisfeito no rosto, todo contente. Caleb — Tem ideia do quanto esse casamento beneficiará a mim e à nossa igreja? É uma pergunta, mas sei que ele não espera por uma resposta. Então só fico calada, ouvindo-o falar dos seus planos com as verbas que passará a receber da sede. Tia Agnes entra em silêncio e começa a recolher as xícaras de café. Não demora muito para compreender que meu pai está falando do meu casamento. Quando vê o anel em meu dedo, seus olhos se arregalam em choque. Caleb — E você vai se comportar em Nova York e tratar de ser uma esposa dócil e submissa, como eu te criei para ser. Se mantiver o reverendo Marverick satisfeito, as verbas virão sempre generosas para nossa igreja. Não sei o que deu em mim. Só sei que fui tomada por uma coragem que nunca senti. Levanto-me do sofá e olho para o meu pai com raiva. Uma raiva que sempre escondi dentro de mim. Luna — Não conte com isso. Não vou me casar com o reverendo Marverick. Não vou ser vendida como uma mercadoria qualquer... Meu pai me encara em silêncio. Por alguns segundos, não reconheço o homem diante de mim. Então, ele se levanta devagar. E sorri. Um sorriso que me faz desejar nunca ter encontrado coragem para enfrentá-lo.Luna SmithLista de coisas que sempre quis fazer:— Comer mais daqueles donuts de chocolate. ✅️— Assistir a um filme de terror. ✅️— Dormir até mais tarde.— Ter um celular.— Ouvir músicas que não são da igreja.— Escolher o que vou comer.— Tomar sorvete. ✅️— Ler um romance hot.— Tomar banho de chuva.— Sair sozinha pela primeira vez.— Aprender a andar de bicicleta. ✅️— Fazer uma amiga.— Cortar o cabelo.— Escolher minhas roupas.— Fazer um curso de pintura e arte. ✅️— Ir ao cinema.— Decorar o meu quarto.— Conhecer o mar.— Ir a uma festa.Leio a lista pela milésima vez desde que a criei e faço um risco na frente do item que se refere ao curso de arte. Acho que já está valendo, afinal, começo minhas aulas hoje.Um sorriso involuntário me escapa ao descer os olhos pela lista, tentando decidir qual será o meu próximo desafio. É difícil acreditar que, há pouco tempo, eu nem me permitia sonhar, quem dirá ter uma lista dessas.Minha vida realmente mudou.Mas o medo ainda persist
Luna SmithSebastian_ Luna? O que está fazendo aqui embaixo? Pensei que finalmente fosse conseguir dormir até mais tarde, depois do dia de ontem.Sebs pergunta, surpreso ao me encontrar de pé e disposta.Luna_ Como assim, o que estou fazendo aqui? Estou te esperando. Quero ver o sol nascer e te acompanhar de bicicleta, como combinamos.Respondo, não contendo a minha empolgação.Sebastian_ Não está cansada?Luna_ Nem um pouco.Sebastian_ E o joelho, não está doendo?Faço que não com a cabeça, lançando-lhe um sorriso confiante, mas a verdade é que meu joelho está dolorido, sim. Só que sei que, se ele notar qualquer desconforto da minha parte, não vai me deixar ir com ele, e eu quero muito acompanhá-lo.Sebastian_ E acha que vai conseguir me acompanhar?Luna_ Isso é um desafio?Provoco, e vejo um pequeno sorriso surgir em seus lábios enquanto ele dá de ombros, confirmando que está, sim, me desafiando.Luna_ Pois você vai ver, então.As palavras saem da minha boca com uma mistura de deter
Sebastian CallahanLuna — Estou com medo.Fala, olhando para a bicicleta como se ela fosse um monstro ou algo do tipo.Sebastian — Sabe o que é legal em sentir medo?Pergunto.Luna — Não. O que pode ser legal no medo?Sebastian — Enfrentá-lo. Provar para si mesma que, mesmo com medo, você consegue seguir em frente e fazer.Luna — Mas...Sebastian — Não quer aprender a andar de bicicleta?Luna — É claro que quero.Sebastian — Então não vai deixar o medo te impedir, não mesmo?Vejo-a olhar para a bicicleta mais uma vez, respirar fundo e voltar a me encarar.Luna — Não, não vou.Finalmente, responde com uma determinação que não estava ali antes.Sorrio e assinto com a cabeça.Sebastian — Confia em mim?Luna — Confio.Sebastian — Então saiba que vou estar ao seu lado o tempo todo.Luna — Promete?Sebastian — Prometo.O sol da tarde cai sobre nós, e uma brisa leve, dando sinais de que o inverno está próximo, sopra sobre nossos rostos, tornando a atmosfera perfeita para aquele momento.Segu
Luna SmithAinda não acredito que amanhã vou começar a estudar artes.Vou aprender mais sobre o que amo fazer: desenhar.Quero poder pintar quadros, adquirir técnica e me tornar uma artista. Já começo até a sonhar que, um dia, poderei expor minhas obras.Por que não?Agora eu posso sonhar.Posso fazer planos e seguir o caminho que meu coração escolheu.Tudo isso é novo para mim, e ainda estou me acostumando com essa nova realidade. Mesmo que, às vezes, eu ainda sinta que estou presa ao meu pai e às correntes invisíveis que ele colocou sobre mim.Sei que não vou me libertar totalmente de um dia para o outro, mas, um passo de cada vez, chegarei lá.Só o fato de poder estudar já é uma das maiores vitórias que eu poderia ter.Estou tão feliz que, mesmo sabendo que, esta noite, Brandon e Sebastian voltarão mais tarde para casa, não me abalo.Vi os dois combinando de sair com os amigos depois do expediente, e Brandon acabou confirmando ao se despedir de mim.Apesar de detestar ficar sozinha
Sebastian CallahanDroga, o que eu acabei de fazer?Eu flertei com a irmãzinha do Brandon?Devo estar ficando maluco. Só pode ser isso.E por que as bochechas dela estão tão vermelhas? Será que ela percebeu o que fiz?Minha nossa, ela fica ainda mais linda assim, envergonhada.Caralho, preciso sair.É isso.Hoje à noite vou sair, transar com alguma desconhecida e liberar toda essa tensão acumulada dos últimos dias. É disso que preciso urgentemente.Desvio o olhar do rosto dela e termino de fritar os ovos e o bacon.A cozinha fica em um silêncio estranho que não estava ali antes, e me lembro do motivo pelo qual estava evitando Luna nos últimos dias: para evitar essa coisa estranha que ela me faz sentir e mostrar a Brandon que não estou interessado nela.Mas, porra, não posso fazer isso para sempre.Tenho que ajudá-la com a lista.Vou apenas cumprir minha promessa e depois me afastarei dela.É o melhor a fazer.Quando termino os ovos e o bacon, despejo tudo em uma travessa e a coloco so
Luna SmithComo acontece todos os dias, estou acordada pontualmente às cinco da manhã.Nunca imaginei que dormir até mais tarde fosse se tornar um item tão difícil de cumprir. Faz três semanas que estou tentando, mas nada. O sono simplesmente não vem, não importa o quanto eu tente ou insista em ficar deitada.Não consigo dormir novamente.Sempre acabo ficando entediada e me levantando antes de Brandon e Sebastian.Com isso, minha lista está parada, ainda com apenas dois itens riscados.Estava pensando em falar com Sebastian para me ensinar a andar de bicicleta. Esse é um dos itens que estou mais ansiosa para cumprir. Assim, poderei andar pelo condomínio todas as manhãs.Mas ele tem andado tão ocupado que, às vezes, penso até que está me evitando.Só não entendo o porquê.E Brandon está muito estranho há alguns dias. Sei lá, é como se estivesse escondendo alguma coisa de mim.Com um suspiro resignado, levanto-me e vou ao banheiro tomar um banho rápido.Meu corpo está suado.Tenho tido







